Acupuntura - Mecanismos Fisiológicos Associados

Acupuntura – 2º Parte – Mecanismos Fisiológicos

admin Acupuntura, Geral Leave a Comment

No primeiro artigo sobre acupuntura falamos do seu contexto histórico, tendo explicado como a acupuntura evoluiu de uma técnica semelhante às técnicas ocidentais da época – utilizadas para realizar sangrias – para uma “técnica milenar com bases energéticas que trata várias patologias”…

Neste artigo vamos falar dos mecanismos fisiológicos que atribuem os supostos efeitos terapêuticos a este método.

É importante determinar os mecanismos fisiológicos da acupuntura?

O encontro de um mecanismo ou vários mecanismos fisiológicos através dos quais a acupuntura poderá funcionar é ao mesmo tempo importante e completamente irrelevante. E porquê?

É fundamental porque sem um mecanismo fisiológico válido não é possível atribuir plausibilidade biológica à acupuntura com base nos conhecimentos atuais.

Por outro lado, mesmo que seja bem estabelecida a existência de um mecanismo fisiológico, isso não determina a existência de uma efeito terapêutico importante. Existem vários fármacos com mecanismos de ação bem definidos mas que na prática clínica não têm qualquer relevância, como o caso dos vasodilatadores cerebrais (havemos de falar deles).

Aproveitando este tema, é importante aprendermos a diferenciar dois tipos de estudos.

Estudos DOE Versus POE/POEM

Os estudos DOE – Evidência Orientada para a Doença

São estudos que utilizam resultados para os quais não existe um interesse prático associado. Os resultados até podem ser importantes, mas é prematuro tirar conclusões sobre a utilidade de determinados fármacos ou tratamentos baseados neste tipo de evidência. Utilizar este tipo de estudos é prática frequente da indústria farmacêutica e pelos proponentes da medicina alternativa.

Por exemplo, podem dizer que um anti-hipertensor é mais eficaz que os concorrentes porque diminui a placa de ateroma nas artérias coronárias…no entanto, nos estudos clínicos não existe qualquer diminuição dos ataques cardíacos utilizando este fármaco em comparação com a concorrência. Logo, apesar do efeito ser interessante, na prática é irrelevante.

Ou dizer que encontraram alterações na Ressonância Magnética Funcional, na área cerebral onde é processada a dor, nos doentes que realizaram Osteopatia ou outras terapias manuais…pode ser relevante, mas não nos diz nada relativamente à eficácia prática do tratamento. O doente ficou com menos dor? Ganhou mobilidade? Durante quanto tempo ficou bem?

Ou, como vamos ver, dizer que colocar uma agulha num ponto de acupuntura liberta adenosina, que é uma substância que tem efeitos analgésicos. Mais uma vez, não nos diz nada sobre a sua eficácia no alívio da dor do doente.

Os estudos relevantes são os estudos POE – Evidência Orientada para o Doente

São estudos que avaliam problemas clínicos que os profissionais de saúde encontram no seu dia a dia e os resultados são orientados para a sua resolução (doente tem menos dor, dorme melhor, menos ataques cardíacos ou AVCs, melhor qualidade de vida, menos cancro, menor mortalidade, menos internamentos, menos idas à urgência, etc.).

Quando um estudo deste género tem o potencial de modificar a prática clínica, então denomina-se POEM Evidência Orientada para o Doente que Interessa. Como, por exemplo, um RCT de muito boa qualidade concluir que colocar stents coronários em doentes que tem doença coronária estável (angina estável) não traz qualquer vantagem. Este resultado poderá levar a alterações da prática clínica, fazendo com que técnica deixe de ser utilizada em determinados doentes.

O que é incrível é que 97% da evidência produzida são estudos DOEs. Em parte, alguns estudos são importantes. Outros são pura perda de tempo e recursos.

Dito isto, espero que tenha ficado esclarecido que os mecanismos que vamos discutir, não validam nem deixam de validar a “eficácia” da acupuntura. Mas também como vamos perceber, os mecanismos que os proponentes justificam para a possível “eficácia” não estão minimamente consolidados.

Então, quais os mecanismos pelos quais a acupuntura actua?

Em primeiro temos a teoria tradicional ou energética, onde existem os meridianos, canais energéticos por onde flui o Qi. Quando há um desequilíbrio destas energias associadas aos bloqueios dos meridianos, os proponentes da acupuntura afirmam que desbloqueando esses canais permite que o corpo volte ao seu estado de equilíbrio.

Escusado será dizer que nunca foi provada a existência de energias como o Qi, os Meridianos, etc. Mesmo assim, não deixa de ser a teoria ensinada pelos cursos de medicina tradicional chinesa, com coisas giras como “síndromes energéticos”, para além de toda a teoria energética associada. Diga-se também que estes cursos são verdadeiros negócios, chegando a custar mais de 3500€ por aluno…são opções.

Portanto, podemos esquecer a teoria tradicional ou energética como forma de validar esta prática. Pelo menos à luz do conhecimento atual.

Assim, resta-nos tentar validar a acupuntura com base no conhecimento atual da fisiologia e anatomia. Determinar se os pontos de acupuntura têm ou não propriedades diferentes de outros locais anatómicos, que justifiquem esta medicina alternativa.

Quando analisados ao microscópio, não existe qualquer evidência histológica que diferencie um ponto de acunpuntura de outro ponto qualquer na pele:

“No convincing evidence exists that acupuncture points have consistent anatomical features. Acupuncture points may be located in the vicinity of peripheral nerves, ligaments, or tendons, however, there is no consistent association with any one specific gross anatomical structure. Several investigators have reported various histological findings at acupuncture points, such as nerve terminals, neurovascular bundles, or mast cell accumulations, however, none of the studies has used statistical evaluation of quantitative histological data.”

Não existe evidência convincente que os pontos de acupuntura têm características anatómicas consistentes. Os pontos de acunpuntura podem estar localizados nas proximidades de nervos periféricos, ligamentos ou tendões. No entanto, não há qualquer associação consistente com uma estrutura anatómica específica. Vários investigadores relataram alterações histológicas nos pontos de acupuntura, como terminações nervosas, feixes neurovasculares e acumulação de mastócitos. No entanto, nenhum dos estudos avaliou estatisticamente a informação histológica para determinação dessas diferenças.

Outro teoria é que os pontos de acupuntura têm propriedades elétricas diferentes dos outros pontos da pele. No entanto, uma revisão sistemática não valida esta teoria com os dados existentes:

“Based on this review, the evidence does not conclusively support the claim that acupuncture points or meridians are electrically distinguishable.”

Baseada nesta revisão, a evidência não apoia de forma conclusiva que os pontos de acunpuntura ou meridianos são eletricamente diferentes.

Outra teoria seria que os pontos de acupuntura se relacionam com os pontos motores, que são os locais onde os músculos podem ser estimulados com corrente elétrica de forma mais eficaz, com menos resistência. No entanto, não parece existir essa correlação, que foi desmistificada em 1975!:

“To see if there was any relationship between these points and classical acupuncture points, acupuncturists and neurophysiologists independently identified points on a volunteer and marked them with invisible ink. Under UV light examination, 15 of 31 points were more than 10 mm apart, leading to the conclusion that acupuncture points and motor points are not synonymous.”

Para ver se existia alguma relação dos pontos motores com os pontos de acupuntura clássicos, os acupunturistas e neurofisiologistas identificaram de forma independente os pontos nos voluntários e marcaram-nos com tinta invisível. Quando colocados sob a luz UV, verificaram que 15 dos 31 pontos estavam separados por mais de 10 mm, levando à conclusão que os pontos de acupuntura e pontos motores não são sinónimos.

Existem os proponentes de que os pontos de acupuntura estão relacionados com os chamados “pontos gatilho” ou pontos miofasciais. São nódulos palpáveis de músculo ou tecido conjuntivo mais duros que a área envolvente (aquilo que chamamos de contraturas, na gíria). A palpação dos pontos gatilho causam dor no local e muitas vezes em zonas distantes desse ponto (chamada dor referida).

Um estudo de 1977 demonstrou que os pontos gatilho eram coincidentes com 71% dos pontos de acupuntura. Baseados nesse estudo, outros apontam para uma relação de 95% com os pontos miofasciais.

No entanto, a importância destes pontos/contraturas e toda a panóplia de tratamentos que se tem utilizado para “tratar” este problema (seja acupuntura, fisioterapia e outro tipo de tratamentos manuais) é colocada em causa pela falta de evidência científica e a sua aceitação acrítica.

Além disso, se esta correlação existe, isso coloca em causa a utilização da acupuntura para todas as outras patologias que não a dor. Como explicado por Birsh:

“The claimed 71% correspondence of trigger points to acupuncture points is conceptually not possible. Furthermore, even putting this conceptual problem aside, no more than 40% of the acupuncture points that the 1977 study examined could correlate for the treatment of pain, and more likely, only approximately 18%-19% correlate rather than the 71% that was claimed.”

A afirmação que 71% dos pontos gatilho correspondem com pontos de acupuntura não é possível conceptualmente. Além disso, mesmo colocando de lado a questão conceptual, não mais de 40% dos pontos examinados no estudo de 1977 poderiam correlacionar-se com o tratamento da dor e, mais provavelmente, apenas aproximadamente 18-19% se correlacionam em vez dos 71% falados.

Sobre o estudo de que a relação será de 95%, Birsh coloca em causa as conclusões do artigo, apontando vários erros metodológicos e de interpretação desta questão. Mais uma vez, o facto de ignorarem que a acupuntura não é utilizada apenas para tratamento da dor, que leva à criação de uma falsa equivalência…um bocadinho como o famoso conceito da correlação não implicar necessariamente causalidade.

E como já vimos no artigo sobre o contexto histórico, não haverá ponto do corpo que não corresponda a um ponto de acupuntura. Logo, o aparecimento deste tipo de relação vai ocorrer necessariamente. Aliás, fico surpreendido por não ser 100%…

Também se utilizou a Ressonância Magnética Funcional para validar a ação da acupuntura. Supostamente a utilização da acupuntura levará a uma desativação do sistema límbico e a um aumento da ação de outras zonas cerebrais. No entanto, uma revisão chinesa de 2013 foi honesta (!) relativamente ao estado do conhecimento:

“(…) the significance of activation or deactivation of some brain regions remains unclear, and the related mechanisms need to be studied further. No matter activation or deactivation of different brain regions during Deqi, the most important issue is the relationship between Deqi and clinical therapeutic effects.”

A importância da ativação ou desativação de algumas regiões cerebrais mantém-se incerta e os mecanismos relacionados precisam de ser mais estudados. Não interessa se existe ativação ou desativação de diferentes regiões cerebrais durante o Deqi, o mais importante é a relação entre o Deqi e os efeitos terapêuticos.

Por outro lado, a utilização de um membro de borracha consegue atingir os efeitos semelhantes à acupuntura na Ressonância Magnética Funcional. Chama-se a isso acupuntura fantasma. Com técnicas de integração do membro de borracha, consegue-se enganar o doente e fazê-lo pensar que as ações sobre o membro fantasma são uma ação no seu próprio membro.

Um estudo de 2015 demonstra que é possível obter vários efeitos na Ressonância Magnética Funcional utilizando a acupuntura fantasma…estimulando uma mão de borracha. Isso prova que as alterações cerebrais ocorrem exclusivamente a nível cerebral e pouco terá a ver com a ativação de pontos de acupuntura específicos.

Este não foi o primeiro estudo a utilizar a acupuntura fantasma. O primeiro estudo mostrou que esta técnica era uma técnica viável para estudar a acupuntura. E mais importante, demonstrou que a diferença entre a acupuntura funcionar e não funcionar é…acreditar que a acupuntura funciona. Há quem lhe chame efeito placebo… Para quem quiser ler mais sobre isso (artigo e artigo).

Uma das últimas tentativas de justificar os efeitos fisiológicos da acupuntura foi a descoberta do chamado sistema “primo-vascular”. Mas este sistema é tão minúsculo que só é visível com microscópio eletrónico. E acertar uma agulha de acupuntura nesse local preciso seria algo incrível. Fazê-lo de forma repetida, mais incrível seria. No fundo, é mais um caminho a ser explorado pelos proponentes da acupuntura mas ainda sem provas dadas.

Neste momento, relativamente ao suposto efeito analgésico da acupuntura, tem sido dada grande atenção ao “gate control theory” (teoria do portão de controlo da dor). De acordo com esta teoria, a ativação de fibras nervosas sensitivas “grandes” (através da pressão ou vibração) inibe a transmissão de sinais de dor que é veiculada por pequenos nervos não mielinizados. Este controlo decorre a nível da medula espinal e poderá explicar porque é que “esfregar” a pele reduz a sensação de dor aguda, assim como a utilização de contra-irritantes:

“…externally applied substances that cause irritation or mild inflammation of the skin for the purpose of relieving pain in muscles, joints and viscera distal to the site of application”. It has been suggested that acupuncture could act as a counter irritant.”

Contra-irritantes são substâncias aplicadas na pele que causam irritação ou inflamação ligeira com o objetivo de aliviar a dor nos músculos, articulações e vísceras distantes do local da aplicação. Foi sugerido que a acupuntura poderá funcionar como um contra-irritante.

Um dos principais caminhos percorridos para justificar o efeito analgésico do “gate control theory” é a libertação de adenosina (artigo e artigo) assim como outras substâncias com efeito analgésico.

Se for esse o mecanismo de funcionamento da acunpuntura, mais uma vez significa que ela é apenas válida para o tratamento da dor. E mais uma vez, esse efeito não é específico da acupuntura (artigo, artigo) podendo ser obtido com outro tipo de técnicas ou mesmo com uma beliscadela no braço…ou coisa absurdas como estimulação com som, pressão, calor (moxibustão), frequências eletromagnéticas, cupping, abanar as mãos sobre os pontos de acupuntura e Tong Ren, que basicamente é uma técnica de Voodoo oriental (!!!)…sim…até isso. Mesmo algumas formas de sangria permitem obter esse efeito.

Porque é que os pontos de acupuntura não passam de treta?

Investir neste dilema é gastar tempo e recursos. Simplesmente porque não interessa onde se colocam as agulhas, como já vários estudos demonstraram. Aliás, pouco interessa o grau de penetração da agulha, podendo obter-se o mesmo efeito com um palito.

Um estudo na dor lombar crónica conclui o seguinte:

“Although acupuncture was found effective for chronic low back pain, tailoring needling sites to each patient and penetration of the skin appear to be unimportant in eliciting therapeutic benefits. These findings raise questions about acupuncture’s purported mechanisms of action. It remains unclear whether acupuncture, or our simulated method of acupuncture, provide physiologically important stimulation or represent placebo or non-specific effects.”

Apesar da acupuntura ter sido eficaz no tratamento da dor lombar crónica (sobre a efetividade falaremos noutro artigo), a escolha dos locais de posicionamento da agulha e a penetração da pele parecem não ser importantes para a obtenção do efeito terapêutico. Esta descoberta levanta questões sobre os supostos mecanismos de ação da acupuntura. Mantém-se incerto se a acupuntura ou o nosso método de simulação de acupuntura tem efeitos fisiológicos importantes, representam efeito placebo ou efeitos não específicos.

Uma revisão de 2014 publicada na Nature sobre “oncologia integrativa” diz o seguinte:

“(…) contrary to the claimed mechanism of redirecting the flow of qi through meridians, researchers usually find that it generally does not matter where the needles are inserted, how often (that is, no dose-response effect is observed), or even if needles are actually inserted. In other words, ‘sham’ or ‘placebo’ acupuncture generally produces the same effects as ‘real’ acupuncture and, in some cases, does better.”

Contrariamente ao aclamado mecanismo de redirecionamento do fluxo de Qi através dos meridianos, os investigadores habitualmente descobrem que não interessa onde as agulhas são inseridas, quão frequentemente (não existe dose resposta) ou se as agulhas são de facto colocadas. Por outras palavras, a acupuntura placebo geralmente obtém os mesmos resultados que a “verdadeira” acupuntura e, em alguns casos, chega a ter melhores resultados.

Uma revisão de 2013 sobre a acupuntura no tratamento da dor crónica conclui:

“When comparing acupuncture to sham controls, there was little evidence that the effects of acupuncture on pain were modified by any of the acupuncture characteristics evaluated, including style of acupuncture, the number or placement of needles, the number, frequency or duration of sessions, patient-practitioner interactions and the experience of the acupuncturist. When comparing acupuncture to non-acupuncture controls, there was little evidence that these characteristics modified the effect of acupuncture, except better pain outcomes were observed when more needles were used (p=0.010) and, (…), when a higher number of acupuncture treatment sessions were provided (p<0.001).”

Quando comparada a acupuntura com a acupuntura placebo, existe pouca evidência que os efeitos da acupuntura na dor seja modificados por qualquer alteração das características observadas, incluindo o estilo da acupuntura, o número ou o local de posicionamento das agulhas, o número, a frequência e a duração das sessões, as interações entre o doente e o acupunturista e a experiência do acupunturista. Quando comparada a acupuntura com os controlos (sem utilização de acupuntura) , existe pouca evidência que estas características modifiquem o efeito da acupuntura, excepto um resultado melhor no tratamento da dor quando são usadas mais agulhas (p=0.010) e quando existe um número maior de sessões de tratamento (p<0.001).

Quanto ao aumento da “eficácia” com mais agulhas e mais sessões, não é de estranhar. Já sabemos que o efeito placebo reage desta forma (tema para outro artigo).

Portanto…não falando ainda da eficácia da acupuntura nas diferentes patologias, conclui-se que o local da colocação da agulha não é importante, nem o nível de penetração da agulha.

Mensagem para os acupunturistas: escusam de queimar a pestana e a carteira a aprender os pontos de acupuntura. Aprendam a colocar as agulhas e em princípio serão tão bons acupunturistas como o Pedro Choy e associados. Simples. Se não quiserem aprender a utilizar agulhas, utilizem palitos…irão obter os mesmos resultados.

O que diz o site da Sociedade Portuguesa Médica de Acupuntura sobre este tema?

Estando na posse da informação anterior, vamos analisar o que diz o site da SPMA (Sociedade Portuguesa Médica de Acupuntura) e quão ridículas são as suas posições nesta matéria.

Segundo eles,  “a Acupunctura é uma técnica que utiliza a capacidade natural do corpo de retornar à normalidade.” – ou seja, acreditam no vitalismo, esta força que trabalhada de forma apropriada consegue promover a regeneração do corpo. É uma crença habitual nos proponentes das medicinas alternativas.

Como é que a acupuntura funciona?

“Os efeitos terapêuticos da Acupunctura são obtidos quando, através da inserção de agulhas sólidas e extremamente finas nos tecidos (normalmente a pele os músculos), o seu médico consegue modular o funcionamento do Sistema Nervoso, e através deste, do Sistema Endócrino, do Sistema Imunitário e das glândulas exócrinas.”

Esta é daquelas frases cheias de termos técnicos e que soam a inteligente…são ótimas para convencer quem não é da área sobre a complexidade de ação deste tratamento….mas espremidinha não sai nada; não quer dizer nada; não acrescenta nada.

Como é que a acupuntura funciona na dor?

“O estudo dos mecanismos de acção da Acupunctura tem sido investigado desde a segunda metade do século XX, sendo actualmente um facto que a Acupunctura exerce os seus efeitos através da estimulação de terminações nervosas nos tecidos puncturados. Esta estimulação local provoca a libertação de uma série de substâncias que têm como efeito final o aumento da circulação local, com melhoria da oxigenação e do aporte de nutrientes aos tecidos. A este nível de actuação local há também estimulação da actividade do Sistema Imunitário.

A estimulação das terminações nervosas existentes na pele, músculo, cápsulas articulares, periósteo, provocada pela manipulação ou pela estimulação eléctrica das agulhas (chamada electro-acupunctura) vai desencadear uma série de processos fisiológicos a nível da medula espinhal e do cérebro, que irão ser responsáveis pela acção terapêutica da Acupunctura.

A área que tem sido o principal objecto de estudo desde os anos 70 do século passado é a aplicação da acupunctura no tratamento da dor. O conhecimento dos mecanismos pelos quais a Acupunctura exerce os seus efeitos no tratamento da dor deu um passo enorme com os estudos realizados nos anos 70 pelo Professor Ji-Sheng Han, médico da Universidade de Pequim. Foi ele quem primeiramente provou que o efeito da electro-acupunctura é devido à estimulação da produção de opióides (substâncias produzidas pelo nosso organismo, que têm efeito analgésico) no Sistema Nervoso Central. Estes estudos iniciais, efectuados em coelhos, foram posteriormente confirmados em humanos na Suécia pelo Professor Lars Terennius, do Instituto Karolinska. Actualmente sabe-se que a acupunctura tem efeitos profundos a todos os níveis do sistema nervoso, desde os nervos periféricos, medula espinhal e cérebro, nomeadamente a nível do sistema límbico (um conjunto de áreas do cérebro relacionadas com as emoções), do hipotálamo e da hipófise, bem como do córtex cerebral. Foi também bem estabelecida a actuação a nível de um conjunto de áreas do Sistema Nervoso Central, que quando activadas, inibem/ influenciam, a transmissão da dor desde a medula espinhal para o cérebro.”

Viram ali a estimulação da atividade do Sistema Imunitário? Como já falamos no artigo sobre o óleo de coco, quando falarem de estimulação do sistema imunitário, prepare-se…está a ser enganado (deixo este artigo completo sobre o tema).

Depois verifica-se que a aposta no controlo da dor é a “gate control theory” com libertação da adenosina e as alterações verificadas na Ressonância Magnética Funcional. No entanto, como vimos, nenhum destes efeitos é específico da acupuntura. Trocar acupuntura por um palito e o resultado é semelhante.

E o tratamento de doenças não dolorosas?

Aqui a SPMA tem que recorrer a malabarismos, já que não há qualquer mecanismo de ação minimamente comprovado que justifique a utilização da acupuntura neste tipo de patologias:

“O mecanismo de acção no tratamento da patologia funcional dos órgãos internos (problemas no funcionamento do estômago, vesícula biliar, fígado e pâncreas, intestinos, rins) ainda não está tão bem estudado como os efeitos no tratamento da dor. No entanto, já se começam a perceber esses mecanismos.

A acção no tratamento deste tipo de patologia baseia-se no processo de formação destes órgãos, durante o desenvolvimento embrionário. Cada estrutura do nosso corpo teve origem numa área específica do embrião. Estruturas que no adulto se encontram afastadas tiveram origem nas mesmas zonas. Estas estruturas partilham uma ligação. Os estímulos que são recebidos pelas terminações nervosas na pele, músculos, articulações e órgãos internos são transmitidos à medula espinhal. Estruturas que no embrião partilharam a mesma origem, transmitem esses estímulos para o mesmo nível da medula espinhal.

Por exemplo, os membros superiores partilham a mesma origem que o coração, pulmões e esófago e músculos e pele do tórax. Os estímulos provenientes destas estruturas são transmitidos para medula espinhal da coluna cervical. Esta informação é processada pela medula espinhal, sendo parte desta informação bloqueada e parte transmitida para o cérebro.

Os estímulos provenientes dos músculos, pele e outras estruturas influenciam o funcionamento do Sistema Nervoso Autonómico, que é a parte do Sistema Nervoso que controla o funcionamento dos órgãos internos. Esta acção faz-se de forma directa, no mesmo nível da medula a que chega a informação e indirectamente através da modulação da actividade do hipotálamo.

Quando um médico desenha um tratamento para uma patologia de órgãos internos, é tida em conta a origem embriológica de cada estrutura anatómica, e a zona da medula espinhal onde se originam os nervos autonómicos para cada órgão interno. Os locais de inserção das agulhas são assim seleccionados tendo em conta estes dados. Assim, para tratar problemas pulmonares é comum escolher locais de inserção a nível do braço e antebraço, bem como a nível da face anterior do tórax e na região dorsal, perto da coluna vertebral. Esta escolha relaciona-se com o facto de que os nervos autonómicos que são responsáveis pelo funcionamento destes órgãos, bem como os nervos autonómicos que acompanham as artérias e nervos dos membros superiores se originarem na medula dorsal. No entanto, há ainda algumas acções que neste momento ainda não se podem explicar totalmente à luz dos conhecimentos actuais.”

Portanto, baseiam-se sobretudo no facto da origem embriológica de determinadas estruturas serem semelhantes. O pulmão tem a mesma origem embriológica dos membros superiores, o que significa que espetar uma agulha no cotovelo vai ajudar a tratar patologias do pulmão. Isto levanta um problema…a acupuntura auricular (só na orelha), a acupuntura coreana (acima de tudo na mão) e outras escolas de acupuntura não encaixam neste modelo. O que significa que estas escolas de acupuntura são, então, irrelevantes? Então porque é que há médicos a praticar este tipo de acupuntura?!

Além disso, como vimos anteriormente, é indiferente onde se coloca a agulha para obter efeitos “terapêuticos”…isso não coloca em causa esta abordagem, baseada na origem embriológica das estruturas?

Concluindo

Este artigo não serviu para vermos qual a eficácia da acupuntura em diferentes patologias. Isso será abordado num artigo isolado.

A mensagem a tirar daqui é que não está comprovada a existência um mecanismo fisiológico específico da acupuntura.

Os mecanismos que existem conseguem explicar a possível utilidade da acupuntura no tratamento da dor (principalmente a “gate control theory”) mas como ficou claro, podem usar um palito que obterão o mesmo efeito. E não interessa onde colocam o palito…a eficácia é semelhante…se por acaso surgir uma nova técnica chamada “palitocupuntura”, já sabem…foi aqui que ouviram falar dela primeiro. 🙂

Para o tratamento de patologias não dolorosas não existe qualquer mecanismo fisiológico credível em que a acupuntura se possa apoiar, atualmente.

No próximo artigo, iremos ver porque é que a acupuntura foi aprovada pela OMS e outras organizações como tratamento válido…se é porque comprovou ser uma técnica eficaz ou por outras razões.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar