Alexandra Vasconcelos – Análise Crítica ao Livro “O Segredo Para Se Manter Jovem e Saudável” – 1º Parte

admin Cancro, Charlatanice, Doenças Infecciosas, Geral, Livros, Naturopatia, Nutrição, Vacinas Leave a Comment

Nota: este artigo apenas foi possível graças à contribuição da comunidade que apoia o projeto Scimed, via Patreon. Muito obrigado a todos os patrocinadores.  Esta é a primeira de duas partes da crítica do livro. Devido à quantidade de treta, não foi possível dedicar apenas um artigo a este tema.

Alexandra Vasconcelos… uma senhora licenciada em Ciências Farmacêuticas descobriu mais tarde na vida que a sua vocação era ser terapeuta alternativa. E ao longo dos anos, desenvolveu um “Sr. Currículo” na área:

  • Naturopata;
  • Fitoterapeuta;
  • Homeopata;
  • Nutricionista ortomolecular;
  • Curso avançado de Micronutrição e Neuronutrição;
  • Nutrição Celular Activa; 
  • Nutrição Oncológica;
  • Curso Avançado em Termografia Clínica
  • Curso de Laseroterapia;
  • Membro do Conselho científico da Revista Saúde Viva Melhor (Ri-me muito, com esta…)
  • Formadora do curso da Ordem dos Farmacêuticos – Ciência dermato-cosmética/Aparatologia e estética médica (Com esta fiquei assustado…)

Bem, só lhe fica a faltar os “Quânticos”. Relativamente à HomeopatiaNaturopatia e Termografia, já demonstramos nos respetivos artigos que são práticas pseudocientíficas não validadas pela ciência existente.

Quem estiver atento conhecerá a Sra. Alexandra Vasconcelos das suas várias aparições televisivas, sendo uma presença constante no programa da Fátima Lopes, mais uma apresentadora que se converteu às terapias alternativas, seguindo o exemplo da Gwyneth Paltrow e da Goop.

Num futuro próximo, iremos falar dessas aparições e desta “conversão” da Fátima Lopes…Mas hoje vamos dissecar o livro da Sra. Vasconcelos: “O Segredo Para Se Manter Jovem e Saudável”.

Introdução – “Hoje vivemos mais, mas pior!”

Esta é a primeira frase do livro da Sra. Vasconcelos. O que é extremamente cómico, já que a senhora começa o livro com uma falsidade. Se formos consultar os dados da Organização Mundial de Saúde, percebemos que no ano 2015 vivíamos bem melhor que no ano 2000. Verifica-se uma diminuição dos DALYs em todo o mundo. Os DALYs (Disability-Adjusted Life Year) são a soma do número de anos perdidos por morte prematura (YLL – Years of Life Lost) com o número de anos perdidos devido a morbilidade (YLD – Years Lost due to Disability)…ou seja, viver com perda de qualidade de vida devido a doenças. E esta diminuição dos DALYs verificou-se em todo o mundo, incluindo no mundo ocidental:

Além disso, um estudo da Lancet verificou que a esperança de vida saudável à nascença (HALE – Healthy Life Expectancy) aumentou de 2005 para 2015, em média 2.9 anos no homem e 3.5 anos na mulher. Isso também se verificou nas pessoas com 65 anos, com um aumento de 0.85 anos no homem e 1.2 anos na mulher.  Portanto, na globalidade as pessoas morrem menos e são mais saudáveis, mesmo as pessoas idosas! No entanto, com o envelhecimento da população nos países desenvolvidos verifica-se um aumento absoluto de doenças relacionadas com a idade. Nada de estranho e perfeitamente enquadrado no que seria expectável.

Resumindo, a introdução do livro fala de um mundo onde abunda a desinformação na área da saúde. Dá a imagem de que tudo mudou muito rapidamente, excepto o genoma humano que não está adaptado aos alimentos dos dias de hoje (afirmações que já foram parcialmente desmistificadas neste artigo sobre dieta paleo). Refere que a nossa exposição a radiações electromagnéticas e a “químicos” afetam a nossa saúde, já que não estamos preparados para isso. O capítulo é rico em pontos de exclamação, imprimindo uma sensação de pânico e promovendo o medo.

Mas a melhor parte do capítulo é este disclaimer:

“Não faço investigação, por isso a mensagem que vos deixo é fruto da formação e informação que absorvi ao longo destes anos, a partir de pessoas com muita experiência nesta área, e também fui aprendendo no dia a dia com as pessoas que recorrem à clínica onde trabalho.”

Portanto, a Sra. Alexandra Vasconcelos pede-nos que regressemos ao passado, onde se aprendia sobre saúde seguindo figuras de autoridade e a experiência que se ia adquirindo ao longo da prática clínica. Isto é simplesmente genial…conseguiu numa única frase descredibilizar o seu livro, admitindo que pouco se baseará na evidência científica existente.

Capítulo I – O que nos está a envelhecer e a pôr doentes

O livro está muito bem construído do ponto de vista do marketing. Neste primeiro capítulo, a autora parece ter como objetivo criar o pânico no leitor. Pânico de tudo o que a modernidade nos tem para oferecer. Depois de ter preparado o terreno, nos capítulos seguintes a autora “vende” as suas soluções milagrosas para uma vida longa e saudável.

Para perceberem a sensação de pânico que imprime, deixo um excerto:

“Não estamos bem porque não conseguimos dormir, acordamos cansados, a nossa barriga incha, começamos a engordar, aparecem dores inexplicáveis e sem justificação, sentimo-nos irritados sem termos razão para isso. Pensamos: é melhor ir ao médico, fazer umas análises e uns exames e perceber o que está a acontecer. Quando não agendamos de imediato uma consulta e deixamos que as semanas passem umas após as outras, os sintomas complicam-se. Acordamos a meio da noite e aí tudo parece avolumar-se, e crescem as nossas preocupações! Será que temos alguma coisa má? A nossa melhor amiga também começou por se sentir mal e afinal estava doente! A nossa colega de trabalho sentia-se cansada e afinal tinha cancro!”

Depois disso, até a mim me apetece ir ao médico fazer um “check-up completo da cabeça aos pés!”

Para a Sra. Vasconcelos, “estamos doentes” por cinco razões:

Tóxicos – estamos cada vez mais intoxicados pelas novas substâncias inventadas pelo Homem, fruto do desenvolvimento da agricultura convencional. 

Desnutrição – por incrível que pareça, num mundo onde existe cada vez mais abundância de alimentos, continuamos desnutridos. Isto deve-se a comermos mais comida mas de pior qualidade, culpando o fast-food e os alimentos pré-cozinhados.

Stress – segundo a Sra. Vasconcelos, é um dos principais responsáveis pela obesidade.

Infeções – infeções “silenciosas” nos canais dentários ou nos intestinos que ajudam a minar o sistema imunitário, denominando-as como “distrações imunitárias”.

Poluição – não…não é a poluição que está a pensar…é a poluição “eletromagnética” (!!!), que altera o magnetismo e a informação celular e contaminam a nossa saúde.

Vamos abordar estes temas ao longo da crítica.

A utilização do mito do bom selvagem para validar argumentos…a tribo Hunza

Para explicar a relação entre a saúde e os hábitos alimentares/modo de vida, a Sra. Vasconcelos dá exemplos de tribos saudáveis por este mundo fora…mas o que chamou a atenção foi falar da tribo Hunza situada no Paquistão, zona dos Himalaias. Esta tribo é descrita pelos visitantes como uma verdadeira utopia civilizacional. E segundo a Sra. Vasconcelos, a tribo “não tem cancro, doenças cardiovasculares ou sequer cáries dentárias. Quase nunca ficam doentes e apresentam um aspecto muito mais novo.” Isto é incrível, certo? Era, se fosse verdade…infelizmente, a tribo Hunza não passa de um mito:

A longevidade do povo de Hunza tem sido notada por alguns e (…) citam uma expectativa de vida de 110 anos para homens e 122 para mulheres, embora com alto desvio padrão. Não há evidências de que a expectativa de vida dos Hunza seja significativamente acima da média das regiões pobres e isoladas do Paquistão. As reivindicações de saúde e grande longevidade foram quase sempre baseadas apenas nas declarações do Mir (rei) local. O único autor que teve contato significativo e contínuo com o povo de Burusho foi John Clark, que relatou que eles eram geralmente pouco saudáveis.

E então, o que diz o John Clark que viveu com os Hunza durante 20 meses e escreveu o livro “Hunza: The Lost Kingdom of the Himalayas“? Na nota introdutória, John Clark diz o seguinte:

Desejo também expressar os meus arrependimentos para com aqueles viajantes cujas impressões foram contrariadas pela minha experiência. Na minha primeira viagem através de Hunza, adquiri quase todos os equívocos que os restantes viajantes: os Hunzas Saudáveis, o Tribunal Democrata, a Terra onde não há pobres e o resto – e apenas uma estadia longa em Hunza revelou as situações reais. Não me agrada nem desprezar ou confirmar estas afirmações, mas foi necessário declarar a verdade como a experimentei. Eu deixei vários outros mitos por discutir sobre essa terra feliz, porque eles não eram relevantes para a história.

O que John Clark descreve é uma visão real dos Hunza. Eram pobres e aqueles que não conseguiam cultivar a sua própria comida simplesmente morriam à fome. Os grupos familiares eram firmemente independentes e não se ajudavam uns aos outros. Eram bastante doentes e muitas vezes inundavam o dispensário do John Clark para obtenção de tratamento. Tinham uma organização hierárquica com um governante em cada vila com homens servindo em posições de segurança. Tinham uma prisão no vale de Shimshal, no extremo norte do vale, onde os presos atendiam bandos de ovelhas pertencentes ao Mir. Era terrível ser banido para Shimshal. Os Invernos eram gelados e os ventos fortes sopravam continuamente. 

O mito da longevidade desenvolveu-se porque os Hunza não usavam calendários e equiparavam a sua idade à sabedoria e experiência que adquiriam. Um agricultor sábio de 50 anos de idade que havia acumulado muito mais do que o agricultor médio poderia, com razão, reivindicar ter 120 anos de idade em vez de seus 50 anos de idade cronológica. Portanto, é natural que as pessoas ficassem confusas com estas declarações. 

Mas os Hunza são apenas isto…folclore. O projeto Blue Zones, que se dedica a estudar as zonas de maior longevidade no mundo e as razões para essa longevidade nem faz referência aos Hunza. 

Portanto, ficamos esclarecidos relativamente ao sentido crítico da Sra. Vasconcelos.

Restrição calórica…o único fator para vivermos mais tempo…

A Sra. Alexandra Vasconcelos refere que “a restrição calórica de 30% é a única maneira provada na literatura médica de aumentar a expectativa de vida nos mamíferos“.

Esta frase tem uma construção algo enganadora, porque fala em mamíferos e não no ser humano em específico. De facto, alguma investigação demonstrou o aumento da sobrevida em animais colocados em restrição calórica. No entanto, isso não está demonstrado no ser humano. Depois é evidente que existem outros fatores que aumentam a expetativa de vida do ser humano como o exercício físico. Até mesmo a educação, a forma como lidamos com o stress e o apoio social podem ter impacto no aumento da longevidade. 

Mas o fator mais importante é aquele que pessoas como a Sra. Vasconcelos têm lutado sistematicamente por desvalorizar…a medicina. Essa coisa chata que nos permitiu aumentar de forma drástica a esperança média de vida. E nesta medicina, não se inclui as alternativas que a Sra. Vasconcelos promove.

O cancro está a aumentar e a culpa é da agricultura convencional…

E voltando à promoção do medo, a autora refere que “estamos cada vez mais vulneráveis a infeções, alergias e a doenças cancerígenas. A incidência destas últimas tem aumentado, não pelo envelhecimento da população, mas como resultado de uma alimentação baseada em produtos que foram criados ou sujeitos a métodos de crescimento ou cultura com químicos, pesticidas e antibióticos.

Esta frase é mais uma inverdade da pseudo-terapeuta. O cancro está a aumentar, mas esse aumento está relacionado em cerca de 2/3 dos casos com o envelhecimento da população que a autora nega ser a causa. O restante 1/3 terá outras razões, mas não as apontadas pela Sra. Vasconcelos, conforme descreve a Cancer Research UK:

“O resto é causado por mudanças nas taxas de cancro em diferentes faixas etárias. E quando se olha para essas mudanças em detalhe, podemos ver os padrões refletidos em como vivemos as nossas vidas, mostrando claramente o impacto do nosso estilo de vida. Por exemplo, dietas ricas em carnes vermelhas e processadas contribuíram para o aumento de cancro intestinal. E cada vez mais pessoas estão a ficar com excesso de peso e obesidade no Reino Unido, o que aumenta o risco de desenvolver uma série de cancros. A nossa cultura de banhos de sol e utilização de solários está a contribuir para o aumento das taxas de cancro de pele como o melanoma. Mudanças no consumo de álcool também desempenham um papel importante. Nas mulheres, o rastreio do cancro da mama significou que estamos a detetar mais cancros e numa idade mais jovem (embora parte disso também seja por causa do “sobrediagnóstico”). Mas o aumento das taxas de cancro de mama também é devido a mudanças nos estilos de vida: as mulheres têm menos bebés, engravidam mais tarde e amamentam menos. Nos homens, as coisas também estão a mudar: a introdução do teste de PSA [para rastreio do cancro da próstata] levou a um aumento no número de cancros de próstata diagnosticados, muitos dos quais poderiam nunca ter sido detectados e nunca causar danos na vida desses homens.

Mas esses aumentos precisam ser confrontados contra uma dramático diminuição. O tabagismo continua a ser a maior causa evitável de cancro no mundo, responsável por mais de um em cada quatro mortes por cancro no Reino Unido e quase um quinto de todos os casos de cancro. Mas agora os homens fumam menos tabaco. Assim, em geral, as taxas de cancro do pulmão estão a diminuir. Mas, novamente, não é assim tão simples: o aumento posterior do tabagismo entre as mulheres em comparação com os homens significa que taxas de cancro nas mulheres relacionados ao tabagismo ainda estão a aumentar.”

Portanto, não há qualquer referência às preocupações expressas pela Sra. Vasconcelos. Com certeza que haverá algumas substâncias na nossa alimentação que poderão ter uma contribuição residual para o aumento do risco de cancro. Mas antes de nos preocuparmos com migalhas, convém resolver os problemas mais relevantes que a Sra. Vasconcelos simplesmente omitiu.

O stress como fator de envelhecimento…

Depois a Sra. Vasconcelos fala-nos da importância do stress como fator de risco para o envelhecimento e aparecimento de doenças. Apesar do stress ser um factor importante na nossa saúde, a Sra. Vasconcelos não se livrou de entrar pela pseudociência adentro ao discutir este tema. Deixo as notas mais flagrantes:

Pela minha experiência – faço muitos diagnósticos diariamente com medições através do sistema de avaliação por biorresonância -, existem pessoas que dizem que vivem em «stress», mas que se alimentam dele.

Ok…diagnósticos de stress por biorresonância…deixa-me rir. Isto é a pseudociência no seu esplendor. Já abordamos parcialmente a biorresonância no artigo de testes de intolerância alimentar.  O VEGA test, utilizado para diagnóstico de intolerâncias segue este conceito da biorresonância. Segundo este conceito, cada célula do corpo tem uma certa frequência eletromagnética, que pode ser medida. E quando essa frequência fica alterada, é possível fazer diagnóstico de doenças. A homeopatia e a acupuntura partilham princípios semelhantes. Portanto, se pseudociências inúteis partilham os mesmos princípios isso significa que o teste é inútil. E de facto não há qualquer demonstração prática que estas máquinas funcionem.

Mas quem promove estas máquinas não se fica pelos diagnósticos. Também servem para tratar doenças como infeções e, obviamente, o cancro…o cancro é aquela doença que nunca falha, seja qual for a pseudociência. Todas tratam cancro. Nem sei como é que há pessoas a morrer de cancro com tanto tratamento alternativo disponível.

Claro que, segundo os promotores da treta, estas poderosas máquinas nunca foram oferecidas pela medicina convencional por causa de uma poderosa conspiração que impediu que isso acontecesse…a história habitual. Passando para a afirmação seguinte:

“Não tenha dúvida, o cancro também é uma doença oncopsicológica. Quando vivemos situações de stresse continuado ou após situações difíceis na nossa vida, o cancro aparece!”

Primeiro, de salientar a má construção da primeira frase. Em segundo, desmistificar esta afirmação, aparentemente falsa. A revisão da evidência refere que tanto os traços de personalidade como a depressão não parecem ter grande impacto no aparecimento ou mesmo na sobrevivência em doentes com cancro. O que poderá acontecer é a adoção de comportamentos que aumentam o risco de cancro em pessoas sujeitas a muito stress (fumar, comer em demasia, beber álcool, etc.). Ou seja, fatores confundidores que poderiam dar a ideia que o stress aumenta o risco de cancro.

Mas a Sra. Vasconcelos não fica por aqui…o stress aumentará o risco de demência. Chega mesmo a citar a Scientific American (ui, ui…)! O problema é que a relação do stress com a demência é complicada. É algo difícil de estudar e sujeita a vários vieses e fatores confundidores. A última revisão refere isso mesmo. Apesar de sugerir a existência de uma relação, não é possível de momento concluir nada acerca disso. Certezas só mesmo no mundo dos alternativos, que têm certezas de todas as asneiras que dizem…gostava tanto de ter um Dunning-Kruger assim…

As malvadas radiações eletromagnéticas…

Andando em frente, chegamos às radiações eletromagnéticas, que “afeta consideravelmente as células e os processos energéticos que se produzem no seu interior, particularmente nas mitocôndrias, consideradas a fábrica de energia das células“.

E a Sra. Vasconcelos introduz neste tema um conceito interessante, que não tinha ouvido falar:

Uma das frequências mais conhecidas é a 7.83 Hz, que corresponde à chamada «frequência de Schumann», que desempenha um papel fundamental na leitura e na descodificação dos sinais recebidos pelas proteínas do genoma.

De facto, tem havido muita confusão relacionada com a radiação eletromagnética. Não parece existir plausibilidade biológica para que essas radiações causem qualquer tipo de patologia. No entanto a ciência é complicada…se analisarmos cem variáveis, algumas poderão ser correlacionadas apenas pelo acaso. E isso aconteceu em alguns estudos que avaliaram as radiações eletromagnéticas e o aumento do risco de cancro. É por isso que devemos analisar a evidência na sua totalidade. E o que se verifica é que as diferentes revisões sistemáticas  que olharam para o tema concluem o mesmo: os estudos não demonstram a existência de um risco para a saúde com as radiações eletromagnéticas (artigoartigo, artigo, artigo). Eventualmente pode existir uma aumento do risco de tumores intracranianos com a utilização de telemóveis a muito longo prazo, mas pensa-se (se essa relação for verdadeira e isso não está confirmado) que será pelo calor local, conforme já abordei num artigo publicado na Comcept. Não propriamente pelas radiações eletromagnéticas.

A Sra. Vasconcelos também fala da nova doença relacionada com as radiações eletromagnéticas: a hipersensibilidade eletromagnética, “patologia” em que as pessoas  se sentem mal quando expostas a estas radiações. O engraçado é que uma revisão sistemática de estudos de provocação a pessoas que dizem ter “hipersensibilidade eletromagnética” não conseguiu demonstrar que esses sintomas estão relacionados com a exposição ao eletromagnetismo. Essas pessoas não conseguiam dizer quando estavam a ser expostas à radiação eletromagnética ou não, o que valida a hipótese dos sintomas serem puramente psicológicos…mas claro, não faltam pessoas como a Sra. Vasconcelos e políticos irresponsáveis para validar estas tretas.

E a frequência de Schumann? Esta é gira…a “frequência” de Schumann é o nome que se dá à frequência de ressonância da atmosfera da Terra, entre a superfície e a parte mais densa da ionosfera. O nome é em homenagem ao físico alemão Winfried Otto Schumann (1888-1974) que trabalhou brevemente nos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial e que previu que a atmosfera da Terra ressoaria com uma certa frequência eletromagnética. E de onde vem esta frequência eletromagnética? Dos relâmpagos. Os relâmpagos estão constantemente a “disparar” à volta do planeta. E disparam várias vezes por segundo sendo que cada disparo é uma fonte de radiação. Isso significa que a nossa atmosfera apresenta continuamente uma ressonância com uma frequência de rádio de 7,83 Hz, juntamente com frequências progressivamente mais fracas de 14,3, 20,8, 27,3 e 33,8 Hz. Estas são as ressonâncias de Schumann. Não tem nada a ver com a Terra, nem com a vida, nem com qualquer fenómeno espiritual; é meramente um artefacto das dimensões físicas do espaço entre a superfície da Terra e a ionosfera. Todos os planetas que têm uma ionosfera têm o seu próprio conjunto de ressonâncias de Schumann definidas pelo tamanho do planeta.

No entanto, estes terapeutas New Age citam a frequência de Schumann como algo que está relacionado com o nosso organismo e mesmo com a nossa saúde. Citam a necessidade do nosso corpo interagir com esta ressonância para se manter saudável, mas não podem por causa de toda a interferência das radiações inventadas pela sociedade moderna. O que é simplesmente ridículo a roçar o demente. Não há qualquer prova objetiva destas afirmações.

Amálgamas dentárias…a controvérsia…

Mas a obsessão da Sra. Vasconcelos com as radiações eletromagnéticas não se fica por aqui…não, não, não. Temos que descer ainda mais baixo:

Tenha atenção se tiver amálgamas dentárias. Esta liga atrai radiações eletromagnéticas, funcionando como uma espécie de íman.

É verdade, não estou a inventar…só falta mesmo aconselhar a utilização de chapéus de alumínio. Que evidência existe sobre esta “atração eletromagnética”? Relatos de caso em revistas científicas de vão de escada (artigo e artigo) e estudos de baixa qualidade que referem o aumento de libertação de mercúrio para a corrente sanguínea em dentes com amálgamas expostas a radiação eletromagnética. E volta a atacar as amálgamas dentárias mais à frente:

“Uma situação muito frequente detetada em casos de intoxicação por metais pesados é a dos pacientes que possuem inúmeras restaurações dentárias com amálgama (vulgarmente conhecida como «chumbo nos dentes»). (…) Hoje sabemos que a amálgama dentária pode provocar intoxicação, não só pelo mercúrio mas também pela liga de metais que a constituem.”

Quanto à libertação de mercúrio das amálgamas dentárias para o organismo e as suas consequências, existe alguma controvérsia. O mercúrio utilizado nas amálgamas é o mercúrio elementar e que tem consequências para a saúde, principalmente neurotoxicidade. E, de facto, a libertação de mercúrio elementar para o organismo por parte da amálgama é contínuo e está acima dos valores considerados seguros pelas agências internacionais. No entanto, a revisão mais recente sobre o tema, a revisão da evidência por parte da União Europeia e a posição da American Dental Association reconhecem esse risco mas não encontraram, até à data, qualquer evidência que demonstre que isso tenha resultado em danos para saúde dos utilizadores destes produtos.  Seja nos adultos, crianças ou filhos de grávidas com amálgamas dentárias. Além disso, apesar de já existirem várias opções alternativas às amálgamas dentárias de mercúrio, a sua utilização continua a ser recomendada.

Os cosméticos…malditos cosméticos…

Mas a Sra. Vasconcelos não abranda e entra de pés juntos nos químicos perigosos existentes nos cremes e produtos de higiene, aconselhando que as pessoas optem pelos “produtos orgânicos e biológicos” (ia jurar que estas duas palavras significam a mesma coisa…). Destaco os dois mais citados. Os parabenos e os metais pesados, em particular o alumínio .

Fazendo uma achega aos metais pesados, existem várias regulações em vigor na União Europeia, que impedem a utilização de metais pesados comprovadamente tóxicos para a saúde:

“De acordo com o Regulamento n.º 1223/2009 do Conselho e do Parlamento Europeu, a presença de metais particularmente perigosos para a saúde humana nos produtos cosméticos, como Cádmio, Chumbo, Arsénico, Níquel e Mercúrio é proibida nos países da UE, com a exceção de alguns compostos de Mercúrio, apenas. Outros metais como o Zinco, Prata e Estrôncio são permitidos com restrições especiais.

De acordo com este Regulamento, complexos de [alumínio] podem ser usados ​​em anti-transpirantes numa concentração de 20% (…) e não podem ser aplicados em pele irritada ou danificada. Além disso, o alumínio e alguns dos seus compostos podem ser usados ​​como corantes nos cosméticos.”

Portanto, na União Europeia existem regulamentos impostos que impedem a utilização de metais pesados que claramente são prejudiciais para a saúde. Existem países sem qualquer tipo de regulação na área o que pode, de facto, representar um perigo importante para a saúde dessas populações. No entanto, mesmo na Europa e apesar das regulações bem estruturadas, parece existir concentrações de metais pesados em alguns cosméticos acima dos limites recomendados. Portanto, relativamente a este ponto a Sra. Vasconcelos tem alguma razão. Onde não tem razão é achar que os cosméticos orgânicos são mais seguros. É que não parecem ser…um estudo recente demonstra a existência de uma vazio legal na regulação desta área dos produtos cosméticos “naturais”, que permite a utilização de substâncias perigosas para a saúde. Portanto, eu ficaria muito mais preocupado em consumir estes produtos devido à falta de regulação.

Quanto ao alumínio em particular, uma revisão de 2016 refere que tanto o óxido de alumínio como o hidróxido de alumínio utilizados nos produtos cosméticos não apresentam riscos para a saúde. Aproveito e desfaço também outro mito comum nesta área: não parece existir qualquer relação entre o alumínio presente nos anti-transpirantes e um possível aumento do risco de cancro da mama. O mesmo se aplica aos parabenos. 

Aliás, esta revisão do Cancer Research UK desmitifica a grande maioria dos receios relacionados com os cosméticos e o possível aumento do risco de cancro com a sua utilização, no que diz respeito a desodorizantes, tintas de cabelo, pó de talco, batons e hidratantes. Concluindo: os produtos cosméticos convencionais são muito mais regulados do que os naturais na Europa, dando mais segurança relativamente à sua utilização. Ser natural, biológico ou orgânico não significa que é seguro.

Medicamentos…insistindo na promoção do medo…

O tom deste livro é sempre o mesmo…uma promoção continuada do medo por tudo o que nos rodeia. No caso dos medicamentos, a Sra. Vasconcelos faz a ressalva que salvam vidas…no entanto refere que a sua toma abusiva está na origem de défices imunitários, doenças auto-imunes e cancro. Ou seja, dá ênfase ao risco da toma de medicamentos, salientando efeitos secundários extremamente raros…não é lá muito honesto, da parte da senhora.

Sem dúvida que os medicamentos têm efeitos secundários muito relevantes. E podem mesmo causar doenças graves e matar os doentes. No entanto, a sua utilização é baseada no conceito do custo-benefício. A recomendação para um doente tomar um medicamento é realizada quando o benefício é superior ao risco que esse medicamento apresenta. A Sra. Vasconcelos tem razão quando refere que alguns antibióticos, imunossupressores e, acrescento eu, medicamentos citotóxicos (usados na quimioterapia), aumentam o risco de doenças auto-imunes. No entanto, muitas vezes a utilização desses medicamentos é a diferença entre a vida e a morte. Essa parte a autora não refere…

Aproveito e deixo dois artigos recentes que fazem uma avaliação profunda do risco dos medicamentos provocarem doenças auto-imunes (artigoartigo).

Destaco mais uma frase gira da autora: 

“Quanto mais medicamentos químicos adicionamos, quer sejam com ou sem receita, mais deficiências nutricionais aparecem. Temos que ter consciência que estes fármacos destroem vitaminas, especialmente as A, C, E, B6, B9 e minerais e induzem défices em antioxidantes.”

Bem…medicamentos químicos deu para rir um bocadinho…haverá medicamentos não químicos?! Quanto ao efeito da medicação, mais uma vez a Sra. Vasconcelos enfia meias verdades no meio de muita treta. Alguns medicamentos podem, de facto, reduzir a absorção de alguns vitaminas. O única exemplo prático que a Sra. Vasconcelos aponta é a diminuição de vitamina C e a utilização de anti-histamínicos. Não encontrei nenhum artigo que demonstrasse essa relação…além disso, a autora nem sequer especifica que anti-histamínicos. É que existem diferentes anti-histamínicos que atuam em diferentes receptores. Os mais conhecidos são os anti-histamínicos para os receptores H1, que são os anti-histamínicos utilizados para as alergias e os anti-histamínicos para os receptores H2, que são os anti-histamínicos utilizados para reduzir a secreção gástrica. E apenas os anti-histamínicos que atuam sobre os receptores H2 podem levar à diminuição da absorção de vitaminas, principalmente vitamina B12. Esse risco é partilhado com os inibidores das bombas de protões. No entanto, esse risco é baixo na população geral, devendo o médico estar atento em pessoas malnutridas e idosas.

Vacinas…quando o livro bate no fundo…

O mais grave do livro é sem dúvida a sua posição relativamente às vacinas…basicamente, indo de encontro aquilo que referi no artigo sobre naturopatia. Isto é gente perigosa, autênticos atentados à saúde pública com pernas. A Sra. Vasconcelos refere o seguinte:

“O uso e abuso das vacinas constituem um exemplo claro de avaliação insuficiente dos riscos relativamente aos benefícios. Existe um sobreconsumo relativamente a algumas vacinas. (…) Será que vale a pena vacinar indiscriminadamente? A polémica tem surgido nos últimos anos, a propósito de vacinas virais como a da gripe, gripe A, hepatite B e vírus do papiloma humano. (…) No documento intitulado «Vaccines: get the full story», publicado pelo International Medical Council on Vaccination, são referidos inúmeros efeitos secundários já documentados. 

Também o projeto Cal-Oregon, financiado pela Generation Rescue e controlado por pais de crianças vacinas e não vacinadas, publica conclusões semelhantes. Das 17.674 crianças incluídas, demonstrou-se as seguintes incidências, relativamente às vacinadas: 

  • 120% mais casos de asma;
  • 317% mais casos de TDAH (transtorno de défice de atenção com hiperatividade);
  • 185% mais casos de transtornos neurológicos;
  • 146% mais casos de autismo.

OK…deixem-me respirar fundo…

Sobre a vacina da gripe, já falei aqui. Sobre a vacina da Hepatite B e Vírus Papiloma Humano (HPV), não percebo qual é a questão relativamente à sua segurança e eficácia…aliás, a senhora Vasconcelos não especifica as suas preocupações para cada vacina em concreto. Deixa o medo no ar. Em vez disso, diz duas coisas tão ridículas mas tão ridículas que fiquei sem palavras. Sobre a vacina da Hepatite refere o seguinte:

“Por exemplo, a vacina das hepatites B e C em crianças não fará muito sentido se elas não estiverem em contacto com pessoas portadoras do vírus ou incluídas em grupos de risco.”

Não existe vacina para a hepatite C…repito…não existe vacina para a hepatite C. Mas tenho a certeza que também causará autismo. Estão a ver o nível de conhecimento desta senhora, certo?

Sobre a vacina do HPV:

“O mesmo se passa com a vacina para o cancro do colo do útero em raparigas com 12 e 13 anos – é partir do princípio de que estas crianças têm múltiplos parceiros sexuais!”

Nós, médicos a sério, sabemos que o HPV se transmite por via sexual. E sabemos que múltiplos parceiros sexuais é um fator de risco. Mas segundo a Sra. Vasconcelos, é errado dar a vacina porque estaríamos a assumir que estas crianças têm ou irão ter múltiplos parceiros sexuais?! Ou quererá dizer que fazer a vacina aumenta o risco das crianças terem múltiplos parceiros sexuais?! Não percebi qual era o grau de anancefalia quando esta frase foi pensada e escrita pela autora.  Para além dos múltiplos parceiros sexuais ser apenas um de vários fatores de risco e dado não conseguirmos adivinhar que criança vai ter contato com o vírus, vacinamos todas as crianças. Parece-me lógico…além disso, o sucesso desta vacina está a ser tão grande que se pensa que o cancro do colo do útero irá tornar-se residual nas próximas gerações.

Prometo que farei, no futuro, artigos sobre estas duas vacinas (principalmente sobre o HPV). Mas até lá, para informação sobre vacinação aconselho o blog Skeptical Raptor, que é uma verdadeira enciclopédia sobre vacinação e desfaz toda a propaganda mentirosa anti-vacinas. Deixo um artigo sobre a Hepatite B e sobre a vacina do HPV.

Relativamente ao documento feito por oligofrénicos promotores do medo “Vaccines: get the full story“, David Gorski já o desmontou aqui…O documento é, no fundo, uma compilação de toda a treta anti-vacinas que circula em sites de pseudociência. A promoção da quimiofobia, as aldrabices sobre o formaldeído, sobre as células fetais usadas nas vacinas, sobre o  alumínio, sobre o mercúrio e uma pouco conhecida mas igualmente absurda, sobre o polisorbato-80

Relativamente ao projeto Cal-Oregon, tal “estudo” foi desfeito aqui e aqui. No fundo, este estudo foi um inquérito telefónico realizado na América cheio de erros metodológicos crassos, encomendado pela Generation Rescue, associação fundada por Jenny McCarthy, uma ex-modelo Playboy. Portanto, grande currículo para falar sobre vacinas e autismo. Segundo esta Associação o autismo é reversível, não passa de uma intoxicação por mercúrio e é possível curar as crianças com terapia de quelação de metais pesados. Não, não é…isto é apenas mais desinformação dos promotores do medo e da pseudociência.

Felizmente os investigadores que fizeram o inquérito disponibilizaram os dados em bruto. E os cépticos analisaram os dados. E as conclusões são de rir…

Os dados do projeto Cal-Oregon indicam, no global, que é mais seguro para evitar o autismo completar o Plano Nacional de Vacinação do que fazer o Plano de forma parcial (mais vacinas, menos autismo). Também indica que, em todo o espectro do autismo, existe apenas 1% de maior probabilidade de se ser autista fazendo qualquer tipo de vacinação, em oposição a nenhuma vacinação – isto se a criança for do sexo masculino. Se for uma menina, a probabilidade é menor se a criança for vacinada, comparando com os não vacinados!

Isto é uma verdadeira comédia! Um estudo sem qualquer validade, encomendado por promotores do medo anti-vacinas e mesmo assim conclui que vacinar as crianças com o PNV completo é mais positivo do que fazer o plano parcialmente! E se for menina, o risco é menor do que não vacinar!  😀 

Mas não acaba aqui…para as restantes patologias, as diferenças não eram estatisticamente significativas…a isto chama-se um verdadeiro flop! Mas claro que a retórica e o discurso sobre este estudo são muito diferentes por parte dos Looney Tunes, conforme a Sra. Vasconcelos expõe acima…mentiras, falsidades e distorção dos dados adquiridos.

E para terminar este tema, deixo mais uma frase que demonstra a ignorância da Sra. Vasconcelos sobre a vacinação:

Apesar de ter sido graças às vacinas que se conseguiu erradicar muitas doenças, será ainda necessário vacinar maciçamente contra doenças que já não existem ou surgem isoladamente?

Quero que se lembrem desta frase…porque é isto que os naturopatas na generalidade promovem. É isto que o Governo Português achou que devia ser validado legalmente…segundo estes pseudo-terapeutas ignorantes a vacinação da população em geral, nos dias de hoje, já não será necessária.

As doenças modernas são causadas essencialmente pelos hábitos de vida! Descoberta incrível!

Segundo a Sra. Vasconcelos, as doenças modernas estão a aumentar…já demonstrei acima que tal não parece ser verdade, dada a diminuição de DALYs. Mas desta parte, destaco este trecho fabuloso:

“O que é importante saber, e que gostaria de lhe transmitir de forma clara e inequívoca, é que, por incrível que pareça, já existem vários estudos que preveem uma redução até 70% de doenças ditas da civilização por alterações dos hábitos de vida. Porque não são devidamente divulgadas as conclusões de todos estes estudos?”

 Bem…parece que a Sra. Vasconcelos redescobriu a pólvora. Então, todo o trabalho que é realizado a nível dos cuidados primários no sentido de alertar para a importância de alterações de estilos de vida é um trabalho baseado em conclusões de estudos não divulgados devidamente. Todo o tempo perdido com os doentes aconselhando-os a deixar de fumar, beber álcool moderadamente, fazer exercício físico, ter cuidado com a alimentação e com o excesso de peso é algo que tem sido negligenciado…parabéns pela descoberta, Sra. Vasconcelos…só chegou umas décadas atrasada. Por curiosidade, quem quiser saber quais são os determinantes de saúde, de forma alargada, deixo o link

Nos últimos anos, apareceram 48 novas doenças auto-imunes!

Continuando a senda de atribuir a culpa do surgimento de novas doenças ao “ambiente tóxico” em que vivemos, a Sra. Vasconcelos faz uma revelação surpreendente…surgiram 48 novas doenças auto-imunes nos últimos anos. Obrigado pela gargalhada, Sra. Vasconcelos. Obviamente que não identifica essas doenças auto-imunes “novas”…gostava muito de saber quais são, mas desconfio que serão doenças auto-imunes “alternativas” 🙂

A autora também refere que existe um aumento de pessoas com doenças auto-imunes. Isso parece ser verdade…existe evidência de um aumento da incidência e prevalência de doenças auto-imunes. A razão ou razões não estão totalmente clarificadas. Sabemos que pode existir um efeito do “estilo autismo”. Ou seja, alterações dos critérios de diagnóstico, maior sensibilidade para o diagnóstico por parte dos médicos e população geral e, além disso, meios laboratoriais cada vez mais sensíveis que permitem detetar alterações que antes ficariam por detetar. Além disso, o aumento da prevalência pode dever-se à medicina, essa coisa que os alternativos tanto menorizam. Por exemplo, na última década houve um aumento da sobrevivência das pessoas com artrite reumatóide acima da média da população geral, graças aos novos tratamentos médicos nesta área. Algo semelhante aconteceu com o Lúpus, mas não de forma tão pronunciada. Logo, se os doentes morrem menos, mesmo que a incidência se mantenha semelhante, a prevalência irá aumentar.

Mas sem dúvida que o ambiente em que viemos parece ter um papel muito relevante nesta matéria…principalmente no que diz respeito à hipótese da higiene. De uma forma simplista, esta hipótese referia inicialmente que devido ao ambiente demasiado limpo em que vivemos, o nosso sistema imunitário não era “treinado” a combater infeções e devido a isso atacava substâncias que não deveria atacar (aumento das alergias) ou atacava o próprio corpo (aumento de doenças auto-imunes). Esta hipótese foi recentemente modificada denominando-se a hipótese dos “velhos amigos”. No fundo, a referência que não é a falta de doenças infeciosas que leva ao aumento de doenças auto-imunes e alérgicas, mas sim a ausência de contato com bactérias boas, que não permite treinar o sistema imune de forma correta. Aconselho a leitura deste artigo que faz uma avaliação do tema.

Infelizmente, qualquer uma dessas hipóteses é demasiado simplista para um tema tão complexo…e ainda vão ser precisos anos de investigação para acertar agulhas. Mas uma coisa é mais do que certa…será a ciência a fazê-lo, e não as Vasconcelos deste mundo.

Não são só as doenças auto-imunes…também se descobriram 35 novas doenças infecciosas!

Este livro é um verdadeiro tratado de medicina. Trinta e cinco novas doenças infecciosas?! Quais? Ficamos sem saber. A Sra. Vasconcelos volta a dar aso à sua imaginação fértil:

“Devemos todos pensar, e especialmente os decisores em matérias que têm que ver com a saúde, porque será que estes números são cada vez mais alarmantes quando as pessoas têm mais recursos, mais cuidados de saúde, medicamentos mais eficazes, vacinas e meios de diagnóstico cada vez melhores. Então, porque não responde o nosso sistema imunitário? Será que a medicina preventiva que actualmente se pratica, concentrada na vacinação e nos exames, análises e mais exames, é eficaz e suficiente na prevenção?

Estou convicta de que o sistema imunitário está a ficar esgotado porque luta diariamente contra o meio exterior, cada vez mais adverso.”

Se a Sra. Vasconcelos está convicta, quem somos nós para a questionar, certo? Errado. Uma coisa que praticamente todos os gráficos têm em comum na área das doenças infecciosas é o seu trajeto descendente. Uma diminuição dos DALYs:

Prevê-se uma diminuição do número de mortes de forma continuada, pelo menos até ao ano 2050:

E a machadada final: apesar de se ter detetado um aumento do número de surtos infecciosos desde 1980, o número de casos per capita diminuiu. E porque é que isso aconteceu? “Apesar de um aumento nos surtos globais, melhorias globais na prevenção, deteção precoce, controlo e tratamento estão a tornar mais eficaz a redução do número de pessoas infectadas.”  Ou seja, o sistema de “medicina preventiva” que a esta pseudo-terapeuta coloca em causa está, na realidade, a ser eficaz na prevenção de doenças infecciosas…ouch!

Outras banhadas…

Para evitar ser repetitivo, fica um resumo de outras falsidades vendidas pela Sra. Vasconcelos e já desmitificadas neste blog. 

A autora demoniza o leite.

Faz a patética apologia da necessidade de evitar o sal de mesa e preferir o sal dos Himalaias ou a flor de sal por forma a combater a hipertensão arterial. Pior, fala da eliminação do sal como uma forma de combater a hipertensão, quando hoje sabemos que sal a menos também não é benéfico.

Cria o pânico à volta do Aspartame, um produto altamente investigado e que demonstrou ser seguro (não ajuda a emagrecer, mas é seguro).

Eleva o ovo como um alimento saudável, sendo que a literatura é algo controversa nessa área (artigo e artigo).

Cria o pânico sobre o flúor, que já vimos ser perfeitamente seguro nas doses utilizadas. Aliás, recentemente a Austrália fez uma revisão de 3000 estudos publicados ao longo de 60 anos para concluir, novamente, que o flúor é seguro.

Refere que a pílula poderá ser um fator promotor de cancro da mama, do útero e dos ovários, quando se demonstra exatamente o contrário no que diz respeito ao cancro do útero e dos ovários.

Vende a ideia de que o colesterol não será a causa das doenças cardiovasculares, mas o estado de inflamação crónico do organismo. Já escrevi três artigos sobre o tema…parece-me que os seguidores do blog estão esclarecidos sobre isso (artigo, artigo e artigo).

Promove a alcalinização do corpo, algo que simplesmente não é possível com a alimentação.

Promove o mito da relação entre uma alimentação rica em açúcar e a hiperatividade nas crianças.

Conclusão

Este é apenas o primeiro capítulo. Existia muito mais treta para desmistificar, mas parece-me que os leitores já ficam com uma boa ideia do que este livro representa. Não ensina nada…desinforma. É um compêndio de pseudociência. Um livro que tem menos valor que uns rabiscos de uma criança da primária. É a demonstração que as editoras não estão interessadas no conteúdo dos livros que publicam. Estão apenas interessadas no negócio…vender, mesmo que seja treta. É triste porque há muita gente que pensa que quem escreve um livro sabe do que fala..não sabe. Qualquer um publica um livro hoje em dia. E, infelizmente, nesta área a treta ganha aos pontos em comparação com livros sobre ciência a sério.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar