Alimentação Ambientalmente Sustentável – A Evidência

admin Ambiente, Dieta Vegan, Dieta Vegetariana, Dietas, Geral, Nutrição Leave a Comment

Antes demais, não tenho preferência pessoal por nenhuma dieta. Acredito, porque a evidência científica assim o dita, que a alimentação mais saudável para o ser humano será a mediterrânica ou eventualmente a vegetariana não restritiva. Neste momento não é possível, de acordo com a evidência disponível, dizer qual será a mais saudável. Até poderá não ser nenhuma delas, 

Apesar disso, já temos algumas “luzes”…um resumo da evidência de 2014 demonstra que diferentes dietas poderão ter diferentes benefícios, com resultados que beneficiam a vegetariana (diminuição do risco de diabetes tipo 2), resultados que beneficiam a pescetariana (redução do risco de cancro) e resultados que beneficiam a mediterrânica (diminuição da mortalidade por doença coronária e mortalidade geral), em comparação com uma dieta dita “convencional”:

Este gráfico traz uma informação muito relevante: a dieta vegetariana não tem impacto na mortalidade geral. E isso foi demonstrado uma e outra vez. Mesmo em revisões sistemáticas não se verifica redução da mortalidade geral de acordo com uma revisão sistemática de 2014 e outra publicada em 2016. Esse benefício, no entanto, está bem estabelecido com a dieta mediterrânica

Dados os factos apresentados, acho sempre estranho quando um vegetariano/vegano afirma que as suas opções “estão validadas pela ciência…que a dieta vegetariana é a mais saudável.” – tudo dependerá como se mede essa validação, suponho. Mas sem dúvida que relativamente à mortalidade geral (que é o indicador mais importante), a evidência deixa muito a desejar em comparação com os resultados obtidos pela dieta mediterrânica e pescetariana.

Claro que os dados apresentados acima têm limitações. São baseados em estudos de coorte não sendo possível estabelecer uma relação de causa-efeito. E os dados não são uma comparação direta entre dietas, mas sim com a dieta dita “convencional.” Mais estudos serão necessários para esclarecer este ponto.

Mas neste artigo vamos falar de uma coisa diferente: O peso ambiental das nossas decisões alimentares.

É um argumento ao qual os vegetarianos/veganos recorrem com frequência: “Se deixarmos de comer carne, reduzimos de forma importante a nossa pegada ecológica.” 

Isso será verdade…em parte. Vamos ver as nuances dessa afirmação.

Primeiro, é preciso perceber uma coisa: a população mundial não vai deixar de consumir carne. Aliás, um questionário realizado a cerca de 10.000 pessoas indica que 84% dos vegetarianos e 70% dos vegans retornam à carne simplesmente porque é uma dieta muito difícil de manter. Portanto, achar que o mundo se vai transformar em veganos e vegetarianos é tão provável como achar que iremos todos aderir ao respiracionismo para proteger o ambiente. Mesmo com toda a boa vontade em tentar reduzir o sofrimento animal ou a pegada ecológica, assumir este tipo de dietas é complicado. Logo, temos que ser racionais, olhar para a evidência e optar por soluções razoáveis que todos possamos adotar para reduzirmos a nossa pegada de carbono alimentar.

A evidência

As emissões de gases efeito estufa

A agricultura, desflorestação e utilização de terra é responsável por quase um quarto de todos os gases de efeito estufa:

Emissão gases efeito estufa por sector de atividade

Isto acontece devido a vários fatores: o crescimento da população global, que leva à necessidade de produção de mais alimento; desflorestação para a agricultura e pecuária levando à libertação de CO2 armazenado nas árvores e solo (80% da desflorestação será devido à expansão da agricultura); e alteração do tipo de dieta, com maior consumo de carne devido à melhoria das condições sócio-económicas da população.

O crescimento da população global é sem dúvida o ponto mais importante. E esse crescimento não irá parar em breve a não ser que sejam tomadas medidas efetivas nesse sentido. Aliás, este ponto foi focado várias vezes na carta dos cientistas ao mundo, alertando para a nossa trajetória apocalíptica. De acordo com os dados atuais é possível que o ser humano 12 mil milhões não venha a nascer (conforme explica este vídeo baseado nos dados do Our World In Data), mas o decrescimento da população dificilmente começará a acontecer antes de 2100. Logo, no que refere à agropecuária, o problema terá que ser abordado do lado da alimentação.

Se observarmos a produção de gases efeito estufa por alimento/caloria (e é esta a forma mais correta de comparar os alimentos), verifica-se o seguinte:

Existe claramente uma produção de gases efeito estufa superior no peixe e no gado em comparação com cereais, açúcar e óleos, frutas e vegetais. Mas o peixe não é todo igual e o gado também não é todo igual. No caso do peixe, o existe uma grande disparidade entre a pesca de arrasto (trawling) versus restante pesca (non-trawling). O mesmo na aquacultura, em que a utilização de sistemas de recirculação de água reduz de forma considerável o impacto ambiental. Portanto, em termos de medidas regulatórias, a proibição da pesca de arrasto e a obrigatoriedade da aquacultura utilizar sistemas de recirculação de água deveriam ser implementadas.

No caso do gado, as diferenças ainda são maiores…aliás, como se verifica acima, se eliminarmos a ingestão de carne de animais ruminantes (vaca, cordeiro, etc.), consegue-se reduzir a emissão de gases efeito estufa de forma considerável. Um estudo de 2014 indica que a produção de uma megacaloria de carne de bovino requer ≈28 vezes a terra média, 11 vezes a quantidade de água e produz 5 vezes mais gases de efeito estufa em comparação com as outras categorias de animais. Cortar este tipo de carne reduz em mais de dez vezes o impacto ambiental quando comparado com carne de porco, de galinha ou produtos lácteos. 

Outro dado importante tem a ver com os produtos derivados, como o ovo, leite e manteiga, que apresentam um impacto a nível de produção de gases efeito estufa bastante reduzido, sendo mesmo menor que o consumo de vegetais por caloria. Resultados semelhantes já foram obtidos por outras entidades. É ainda possível reduzir estes números de várias formas, sem diminuir o consumo destes alimentos, principalmente através do aumento da eficiência dos métodos de produção. Uma bastante peculiar é recorrendo à seleção genética, procriando gado que produzem menos gases efeito estufa, principalmente metano.

A utilização de terra

Segundo o Our World In Data, o gado ocupa cerca de 77% da terra agrícola:

Mas mais uma vez, convém olhar para os dados ao pormenor. É que o grande problema volta a ser, mais uma vez, a carne de vaca e outros ruminantes, com uma diferença descomunal:

Estes números devem ser interpretados com cuidado, dada a complexidade de medição destes valores. Um estudo de 2017 que fez uma avaliação extensa do tema demonstra isso mesmo, com uma variação de produção de proteína animal/m2  muito variável, dependendo do sistema de produção:

A juntar a isto, a qualidade da terra necessária também é diferente para a criação animal e cultivo agrícola. Estudos sugerem que a maior fração de necessidades de terra para os ruminantes são de forragens e pastagens, que geralmente são cultivadas em terras impróprias para cultivo agrícola. (artigo e artigo). Assim, reduzir o consumo de animais que necessitam de mais terra não equivale necessariamente a libertar terras para cultivo agrícola.

De facto, foi o que demonstrou um estudo de 2016, que comparou 10 dietas em vários tipos de cenários. Se a definição for a utilização do espaço disponível para maximizar o número de pessoas alimentadas em cada tipo de dieta, as mais eficientes na utilização do espaço serão a dieta lacto-vegetariana, seguida pela ovo-lacto-vegetariana, seguida por uma dieta omnívora com baixo consumo de carne (20-40%) e finalmente a dieta vegan:

Isto porque, mais uma vez, determinadas dietas utilizam terras que são impróprias para a agricultura. A não utilização desse espaço por animais (ou para alimentação de animais), não significa que ele possa ser utilizado para plantação de frutos e vegetais. 

Um revisão sistemática de 2016 avaliou toda a evidência existente e calculou o peso da mudança de dieta na libertação de gases efeito estufa, ocupação de terra e consumo de água. Concluiu que uma mudança para uma dieta baseada em plantas tem um grande impacto nos três níveis estudados:

Um ponto curioso nesta revisão é a utilização de água por parte da dieta vegan. Apesar da amostra estar limitada a um estudo, o consumo de água neste tipo de opção alimentar, em vez de poupar água, aumentou para o dobro a sua utilização em comparação com uma dieta convencional. Além disso, analisando a maioria dos estudos de forma individual, todos relatam um poupança ligeira com a mudança dos estilos de dieta. Portanto, a história habitual do “quilo de vaca que nos custa 15.000 litros de água” é uma história engraçada, mas que objetivamente não passa disso mesmo. As poupanças são objetivamente pequenas entre dietas, mesmo eliminando a carne de vaca totalmente.

Esta revisão tem algumas limitações: existiam poucos estudos na avaliação do impacto de algumas dietas e os intervalos de confiança são extremamente amplos, sobrepondo-se em vários tipos de padrões dietéticos sustentáveis, o que limita a retirada de conclusões. De qualquer forma, vamos ver alguns excertos deste artigo:

“As mudanças medianas nas emissões de gases efeito estufa, uso da terra e uso da água, em todos os tipos de dieta sustentável, foram -22%, -28% e -18%, respectivamente. Os maiores benefícios ambientais em todos os indicadores foram observados nas dietas que reduziram a quantidade de alimentos com base em animais, como o vegano (primeiro lugar em termos de benefícios para dois indicadores ambientais), vegetariano (primeiro lugar para um indicador) e pescetariano (segundo e terceiro lugar para dois indicadores). (…)

Embora os cenários de uso de água tenham tamanhos de amostra menores, apresentaram tendências um tanto semelhantes nos tipos de dieta sustentável, com dietas vegetarianas com o maior benefício (mediana -37%), embora com a notável exceção do cenário vegano único que mostre um aumento no uso de água (+107%).

Os dados ambientais (…) sobre o uso da terra, as emissões de gases de efeito estufa e os impactos no uso da água da produção de alimentos mostraram impactos decrescentes, de maior a menor, da carne de ruminantes, outras carnes, produtos lácteos e alimentos baseados em plantas. Portanto, a grande maioria dos cenários mostrou diminuição da pegada ambiental da substituição dos alimentos baseados em animais por plantas.

Contudo, observamos algumas exceções…

Em alguns estudos, os dados subjacentes sobre pegadas ambientais para alimentos à base de plantas eram semelhantes ou superiores a algumas carnes (por exemplo, uso de água por caloria de nozes, frutas e vegetais era maior do que vários alimentos com base em animais). Portanto, a substituição de calorias por cenários de redução de carne com o aumento dos alimentos à base de plantas produziu maiores pegadas de água ou emissões de gases de efeito estufa em alguns casos. Uma revisão mais completa dos impactos de gases efeitos estufa em produtos alimentares por Tilman e Clark confirma essas tendências gerais e possíveis exceções, embora as comparações de impactos entre os itens alimentares específicos provavelmente variem por região e contexto de produção de alimentos. (…)

Em Vieux et al., A redução da carne suplementada isoladamente por frutas e vegetais mostrou um aumento nas emissões, enquanto um cenário secundário (e sem dúvida mais realista) de substituição com alimentos mistos (grãos, vegetais e produtos lácteos) registou uma diminuição líquida. Tais cenários destacam parte da complexidade envolvida na avaliação da sustentabilidade ambiental das dietas e a natureza específica do contexto e da região dessas avaliações.”

Estes pontos são importantes. A remoção da carne não significa diretamente uma diminuição da nossa pegada de carbono. Isso está dependente da região, contexto de produção dos alimentos e qual a substituição realizada em detrimento da carne. Continuando:

“(…) a remoção completa de alimentos de origem animal não é realista em muitas culturas e pode ter implicações importantes para a saúdeA carne e os produtos lácteos são fontes de proteínas e micronutrientes de alta qualidade e garantir um abastecimento biodisponível adequado é essencial para a saúde pública. (…) O consumo moderado de carne de porco e aves pode ser consistente com uma dieta mais sustentável, uma vez que apresentam menores impactos ambientais do que a carne de ruminantes. Além disso, a criação de gado em algumas regiões permite aos seres humanos obter benefícios nutricionais de terras não cultiváveis ​​ou utilizar resíduos de culturas e resíduos alimentares. Por último, as mudanças nas dietas sustentáveis ​​devem ser acessíveis e desejáveis ​​para os consumidores. Estudos têm demonstrado que grandes reduções nas emissões de gases de efeito estufa são possíveis sem a exclusão completa dos produtos de origem animal, e os estudos que utilizam dietas sustentáveis ​​auto-selecionadas demonstram que estas poderiam ser culturalmente assimiladas por pelo menos alguns indivíduos. No entanto, a extensão desses padrões à maioria da população exigirá grandes esforços. Em países de elevado rendimento, alimentos saudáveis ​​são muitas vezes mais caros do que os insalubres, e o reequilíbrio desses preços relativos será fundamental para ajudar a dirigir os consumidores para escolhas mais sustentáveis.”

Esta revisão sistemática apresenta uma visão bastante equilibrada do tema. De facto, uma alimentação à base de plantas demonstra uma tendência de diminuição da pegada ecológica no global. Mas há excepções. Além disso, a implementação de uma dieta maioritariamente vegetariana não é fazível. É preferível o objetivo realista da diminuição do consumo de produtos com grande impacto ecológico, principalmente de animais ruminantes. 

O transporte de alimentos

Este é outro tema complicado. É difícil estimar a pegada de carbono do transporte de alimentos, mas no global não parece ser muito relevante. Um estudo realizado em 2008 nos Estados Unidos refere que cerca de 83% das emissões de carbono no sistema alimentar resultam da produção de alimentos e 11% do transporte. Portanto, o que se come parece ser mais importante do que o local onde é produzido. No entanto, mais uma vez, é preciso desmontar estes números. Apesar de no global o impacto ser pequeno, alimentos que são transportados pela via aérea têm uma grande pegada de carbono.

Os números são muito discrepantes quando analisamos por meio de transporte. Comida transportada de avião pode ter uma pegada de carbono cem vezes superior quando comparada com a comida que é transportada de barco. Portanto, quando compramos uma manga ou abacate transportada de avião “pronta a comer” da América do Sul, o impacto ambiental pode ser extremamente negativo apesar de se tratar de um fruto.

No entanto, olhar para o transporte de uma forma isolada pode ser enganador. Dependendo do método de produção, um produto cultivado localmente pode ter uma pegada de carbono superior do que um produto transportado de avião de África. Por isso seria interessante uma etiqueta com a pegada ecológica do alimento, que inclua toda a cadeia de produção. Muito mais informativo do que “orgânico” e “sem transgénicos”……assunto para outra altura.

O desperdício alimentar

Uma forma altamente eficaz de diminuir a pegada ecológica da alimentação seria o ataque ao desperdício alimentar. Cerca de 30% da alimentação é desperdiçada. De acordo com a revisão sistemática de 2016 citada acima,  “as mudanças medianas nas emissões de gases efeito estufa, uso da terra e uso da água, em todos os tipos de dieta sustentável, foram -22%, -28% e -18%, respectivamente.”

Ou seja, um aumento da eficiência na utilização dos recursos que já produzimos hoje em dia seria mais eficaz que a alteração de hábitos alimentares (considerando as medianas). E é extremamente importante que isto seja implementado para que o crescimento da população não pressione ainda mais o planeta e os seus ecossistemas. Para ficarem com uma noção do impacto do desperdício alimentar, deixo este gráfico de um excelente artigo da CNN:

Portanto, se o desperdício alimentar fosse um país, seria o terceiro maior produtor mundial de gases efeito estufa…A FAO deixa várias recomendações nesse sentido, baseado nos 3R (reduzir, reutilizar e reciclar).

Mas no global, qual é o impacto da nossa alimentação na pegada de carbono?

Apesar de tudo o que falamos anteriormente, o impacto da alimentação é muito limitadouma análise de 39 estudos publicados, e relatórios governamentais para escolher as opções de estilo de vida para redução da nossa pegada de carbono, chegou às seguintes conclusões:

Se optar por uma alimentação baseada em plantas, o impacto na diminuição dos gases efeitos estufas existe, mas comparativamente com outras opções é bastante reduzido. A melhor forma é ter menos filhos dado que o principal problema é o crescimento da população, que cria uma pressão cada vez maior sobre os ecossistemas. Depois, viver sem carro; e talvez a mais fácil…evitar andar de avião, principalmente em viagens de longo curso. Só em sétimo lugar surge uma alimentação baseada em plantas.

Neste estudo a alimentação à base plantas foi toda agrupada, o que poderá dar uma ideia errada do impacto da evicção de todos os produtos de origem animal, como no veganismo. No entanto, as diferenças entre o veganismo e os restantes vegetarianos não restritos não é grande, como demonstra esta comparação entre cinco dietas, em que a diferença é de 12% de redução de emissões:


Também este gráfico tem algumas limitações. A principal é a não inclusão dos ovos (pelo menos não parece estar incluído). De qualquer forma, seria preciso o veganismo produzir menos 40% gases efeito estufa em comparação com o vegetarianismo para verificarmos uma mudança de posição. Mas se voltarmos à revisão sistemática de 2016, a diferença das medianas entre o vegetarianos e os veganos é cerca de 15%, corroborando os dados do gráfico acima.

Conclusão

Mais uma vez: ser vegetariano é um ótimo estilo de vida. No entanto, não há dados que nos permitam dizer que é a melhor dieta para a saúde. Pelo contrário, os dados que temos indicam que a dieta mediterrânica será mais saudável.

Relativamente ao ambiente, ser vegetariano é tendencialmente mais amigo do ambiente, mas é um estilo de vida com grande taxa de abandono, não sendo realista pedir a toda a população para adotar estes hábitos alimentares…nem é preciso. Como já tínhamos falado na análise crítica ao documentário What The Health, a aposta deve ser na redução das quantidades de alimentos ingeridos e no desperdício alimentar. Comemos em demasia e uma quantidade desproporcional de carne, com valores 40-50% superiores ao que necessitamos. Se reduzirmos essa ingestão, principalmente no que diz respeito à carne de animais ruminantes, já será um grande passo em frente.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar