Associações de Medicinas Alternativas Contra-Atacam…

admin Acupuntura, Cancro, Charlatanice, Fitoterapia, Geral, Homeopatia, Medicina Tradicional Chinesa, Naturopatia, Reiki Leave a Comment

Estes dias têm sido animados. Como já falamos no blog (artigo e artigo), demonstrou-se que doentes com cancro que recorrem às terapias alternativas parecem morrer mais. Seja porque recorrem primeiro às terapias alternativas em vez de optarem pela medicina convencional, seja porque recusam tratamentos médicos quando seguidos de forma “complementar” por terapeutas alternativos.

Estes resultados, principalmente o mais recente, parecem ter incomodado algumas associações promotoras de terapias alternativas. De tal forma que fizeram um comunicado em resposta ao artigo da Visão, intitulado “Doentes com cancro que usam (também) terapias alternativas têm duas vezes mais probabilidade de morrer.”

Esta foi a publicação no Facebook:

E é sobre este comunicado que vamos falar.

Então o que diz o comunicado?

Vou fazer uma avaliação dos pontos mais relevantes. Começa por este excerto:

Para as associações que assinam esta carta, a notícia retira conclusões incorretas do estudo, assim como generalizações em que mistura terapêuticas não convencionais (TNC) regulamentadas com práticas não regulamentadas, potenciando o risco de provocar alarme social relativo às TNC, o que não é justificável.

No estudo, “Complementary Medicine” é definida como “toda e qualquer prática que não seja tratamento convencional para o cancro (quimioterapia, radioterapia, hormonoterapia ou cirurgia) praticado por um profissional não-médico.” Esta definição é demasiado abrangente, não separando práticas regulamentadas no país do estudo (EUA), como Acupuntura, Quiroprática ou Naturopatia, de práticas não regulamentadas e esotéricas como “toque terapêutico”, “imagética”, etc,. Em nenhum momento no estudo consta que método foi utilizado por cada paciente, nem a proporção relativa de métodos utilizados em combinação.

O facto acima citado não é referido na notícia da Visão, que repete a abordagem genérica de métodos não especificados, não separando as TNC regulamentadas de outras atividades sem reconhecimento, correndo-se o risco de um leitor desatento considerar que se trata do mesmo tipo de intervenção, com o mesmo tipo de sustentação institucional, clínica e científica.

Traduzindo: segundo os assinantes desta carta apenas as terapias regulamentadas são boas, com “sustentação institucional, clínica e científica“, OK? As restantes terapias não regulamentadas são “esotéricas” e não funcionam. Portanto, Reiki, já foste. Reflexologia, já eras. Aromaterapia, esquece. Magnetoterapia? Nem pensar nisso. Medicina ortomolecular? Tchau aí.

Os cépticos acabaram de ganhar mais um grande grupo de apoio na luta contra as terapias alternativas! Dou as boas vindas aos homeopatas, naturopatas, osteopatas, quiropratas, acupuntores e praticantes de medicina tradicional chinesa no combate à pseudociência! Ou pelo menos à pseudociência não regulamentada. De notar que este combate também abrange todos os profissionais dessas áreas que não tenham cartão da ACSS ou outro tipo de validação legal. As vossas práticas são esotéricas e sem sustentação clínica e científica, apesar de fazerem exatamente a mesma coisa que os terapeutas alternativos encartados. Foram os próprios que o disseram! Parabéns a eles…finalmente a fazer serviço público!

No entanto, a realidade não é essa. Sabemos que um cartãozinho da ACSS não define se uma prática é segura ou eficaz. A homeopatia, acupuntura, medicina tradicional chinesa, naturopatiaosteopatia e quiropraxia continuam a ser treta, seja regulamentada ou não, dado que a ciência é que faz a distinção entre o que funciona e o que não funciona. O que é seguro e o que não é seguro. (Dou o benefício da dúvida à osteopatia e quiropraxia no tratamento de problemas musculo-esqueléticos específicos)

Continuando:

Relativamente ao estudo, importa assinalar que, ao contrário do veiculado pela notícia, todos os indivíduos analisados efetuaram ou estão a efetuar um tratamento convencional para o cancro, seja ele quimioterapia, radioterapia, cirurgia ou hormonoterapia. A variável recusa ou atraso no início do tratamento, diz respeito à adesão a um método de tratamento adicional. Por isso, ao contrário do que erradamente apresenta a notícia, não se pode dizer que o estudo compara um grupo que realiza tratamento convencional para o cancro e outro que o recusa.

Está correto. As pessoas estavam a ser seguidas na medicina convencional. Estavam a fazer pelo menos um tratamento. Mas os que eram seguidos por terapeutas alternativos tinham o dobro da mortalidade porque recusavam com mais frequência esses tratamentos adicionais aconselhados pelos médicos. É verdade que não sabemos exatamente porque é que esta recusa acontece, apesar de eu ter as minhas suspeitas. E essas suspeitas, ainda que não confirmadas por estudos científicos objetivos, são verificáveis por todos os seguidores do blog.

Basta fazer esta pergunta: Quem é que faz propaganda contra a quimioterapia, radioterapia e os “químicos que só servem para enriquecer a indústria farmacêutica”?

Ou podemos fazer outra questãoPorque é que dois terços dos doentes oncológicos acham que as terapias alternativas podem prolongar a vida e um terço acha que poderá mesmo curar cancro?

A resposta parece-me óbvia: a peça central destas crenças e do marketing mentiroso na área são os terapeutas alternativos. Se esses tretólogos têm este comportamento à descarada em público escrevendo “artigos”, publicando vídeos de youtube, partilhando propaganda mentirosa e os habituais testemunhos, porque não haveriam de fazer o mesmo nas consultas?  Aconselhando os doentes que os procuram a recusar estes “venenos”? Pior…é perfeitamente plausível que esses terapeutas ofereçam tratamentos ineficazes alternativos no lugar dos tratamentos convencionais. Na premissa que conseguirão tratar o cancro do doente com a mesma eficácia que a medicina convencional sem a necessidade de se submeter aos “venenos da indústria farmacêutica”. E obviamente que o doente, se tiver confiança no terapeuta, poderá muito bem aceitar esta alternativa mais “natural”, “sem efeitos secundários” e “sem químicos”…como eles gostam tanto de promover.

Ainda relativamente ao estudo, verifica-se que o aumento da mortalidade por cancro nos doentes estudados não se dá, como indica a notícia, devido à utilização das técnicas apelidadas por “Medicinas Complementares” pelo autor. A diferença de mortalidade nos dois grupos dá-se, sim, pelo diferencial de adesão a uma técnica de tratamento convencional suplementar, ou seja, os indivíduos no grupo que utiliza a “Medicina Complementar” têm maior número de recusas ao novo tratamento que os do grupo que não utiliza a “Medicina Complementar”. Inclusive, o autor realça este facto, quando efetua uma análise de sobrevivência retirando os indivíduos que recusaram tratamento, verificando-se que, nesses casos, não existe diferença na mortalidade ou risco de mortalidade entre os indivíduos que utilizam a “Medicina Complementar” e os que não utilizam.

Também está correto. De facto a única diferença em termos de mortalidade era a recusa (ou não) dos tratamentos oferecidos pelos médicos. Ou seja, se fossem seguidos pelos terapeutas alternativos e não recusassem os tratamentos médicos propostos, não haveria diferenças de mortalidade. No entanto, isso levanta duas questões. A primeira já falada anteriormente…porque é que a recusa é maior pelos doentes que são seguidos de forma “complementar” por terapeutas alternativos? A segunda é igualmente interessante. Se a diferença de mortalidade é a mesma caso as pessoas não recusem os tratamentos médicos, para que servem as terapias alternativas? Claramente não levam à diminuição da mortalidade.

Poderão dizer que essas técnicas servem exclusivamente como relaxamento, redução da dor e das náuseas associadas à quimioterapia…tudo bem. Apesar da evidência científica demonstrar que mesmo nestas áreas não passam de placebo, até aceito que, comparando com não fazer nada, possa ajudar as pessoas a sentirem-se melhor. Mas se é assim, porque é que existe tanta publicidade enganosa promovida nesse meio, com “curas” alternativas para o cancro? Aliás, existem tantas “curas” no mundo alternativo que eu não sei como continuam a morrer pessoas com cancro. Talvez fosse positivo estas associações esclarecem as pessoas, demarcarem-se e denunciarem os terapeutas alternativos que promovem tais “curas”. Isso sim, seria serviço público.

Outra coisa que convém saber é que este não é o primeiro estudo que demonstra uma relação entre a utilização de terapias alternativas e o aumento da mortalidade. Neste estudo ficou demonstrado que mulheres com cancro da mama que aderem a produtos como vitaminas, ervas ou outros produtos “naturais” atrasam com mais frequência o início da quimioterapia. E neste verificou-se também que os doentes com cancro que utilizam terapias alternativas morrem mais. Pior…esse efeito parece ser maior nos doentes que teriam, à partida, melhor prognóstico. Ou seja, começamos a estabelecer um padrão objetivo.

Certamente haverá dentro das práticas alternativas algumas que são relativamente inócuas e outras que são altamente deletérias. E espero que estudos posteriores consigam demarcar bem essa diferença. Mas deixo a minha aposta: em primeiro lugar e destacado, como foco de recusa de tratamentos convencionais por parte dos doentes oncológicos, a naturopatia.

Neste sentido, não nos parece justo que seja concluído que a diferença de mortalidade seja atribuível à utilização de métodos apelidados pelo autor de “Medicina Complementar”, uma vez que o diferencial de mortalidade se deve à adesão terapêutica a um método da medicina convencional, e que o estudo não inclui outras variáveis para além dessa adesão, tais como o historial anterior de adesão terapêutica do paciente, o historial de toxicidade e os efeitos secundários do tratamento convencional anteriormente utilizado.

O estudo não contempla igualmente outras variáveis relacionadas com o risco de não sobrevivência ao cancro, tais como o consumo de tabaco, índice de massa corporal, estado funcional, peso relativo e grau da doença, variáveis que, ao não serem incluídas, são passíveis de potenciar um viés na análise dos dados e nos modelos estatísticos utilizados.

De referir ainda que, uma parte considerável dos pacientes ainda não relata ao seu médico assistente que se encontra a realizar tratamentos complementares. Este é um ato que condenamos, contudo consideramos que a sua ocorrência muito se deve ao ainda excesso de autoritarismo e conservadorismo na relação médico-utente, o qual notícias como esta só irá contribuir para o seu agravamento.

Isto está parcialmente correto. De facto podem haver fatores confundidores que coloquem em causa as conclusões do estudo. Os autores reconhecem essas limitações. No entanto, convém referir que os autores tiveram o cuidado de eliminar da amostra todos os doentes que não receberam tratamento com intenção curativa, mas sim paliativa. Eliminaram também da amostra os que não receberam tratamentos pela existência de contraindicações ou devido a fatores de risco associados (co-morbilidades do doente ou idade avançada, por exemplo). Também eliminaram os casos em que os tratamentos estavam aconselhados, mas por razões desconhecidas (não anotadas no histórico do doente) não tinham efetuado o tratamento. Ou seja, tinha que estar explícito que o doente não fez o tratamento por recusa do mesmo. Além disso, fizeram o emparelhamento dos doentes relativamente à idade, estadio da doença (portanto, o “grau da doença” é contabilizado), índice de Charlson-Deyo (o “estado funcional” do doente é contabilizado), tipo de seguro, raça/etnia, ano de diagnóstico e tipo de cancro. Tentaram garantir que se comparava o que era comparável, dentro das limitações da base de dados utilizada.

Sobre o facto dos doentes não relatarem que recorrem às terapias alternativas, parece-me que neste caso específico isso joga a favor dos promotores da treta. Como? Vamos assumir que este efeito é real. Doentes seguidos por terapeutas alternativos recusam mais tratamentos convencionais. Dado que a maioria não reporta que faz tratamentos alternativos, é possível que existam doentes que recusam tratamento no grupo controlo e que não reportaram ser seguidos por terapeutas alternativos. Ou seja, a taxa de recusa e a sua relação com o acompanhamento pelos terapeutas alternativos poderá ser ainda maior do que a reportada neste estudo. Apesar das diferenças já serem astronómicas:

“Houve uma maior probabilidade de recusa da cirurgia (7,0% vs 0,1%), quimioterapia (34,1% vs 3,2%), radioterapia (53,0% vs 2,3%), e terapia hormonal (33,7% vs 2,8%).”

Em Portugal as únicas terapêuticas não convencionais definidas são aquelas que se enquadram na Lei 71/2013 de 2 de setembro – Acupuntura, Fitoterapia, Homeopatia, Medicina Tradicional Chinesa, Naturopatia, Osteopatia e Quiroprática. Apenas estas técnicas, devidamente legisladas e sob a supervisão da Administração Central do Sistema de Saúde (ACSS) e da Entidade Reguladora da Saúde (ERS), poderão ser consideradas enquanto técnicas terapêuticas válidas para além da Medicina Convencional, não devendo ser misturadas com outro tipo de intervenções de cariz esotérico e místico-mágico que erradamente recebem a designação de “terapias”.

Mais uma vez e para que não restem dúvidas. Não és encartado, promoves “intervenções de cariz esotérico e místico-mágico”. Porque acreditar na existência de Qis, Meridianos e Aquecedores não tem nada de esotérico ou místico-mágico. Promover os ensinamentos de Hahnemann sobre a homeopatia e os conceitos da “memória da água” está totalmente de acordo com o conhecimento atual da ciência, correto? Promover a dicotomia “químicos” versus tratamentos “naturais” é perfeitamente aceitável à luz da ciência, certo? Achar que estalar umas vértebras trata depressões devido a umas ligações “mistico-mágicas” entre o sistema músculo-esquelético e o humor do doente é aceitável, desde que esteja tudo bem descrito no Diário da República. Mas calma…porque se o Reiki ou a Reflexologia estiverem bem regulamentados na Suiça, funcionam na Suiça. Não funcionam é em Portugal, onde não estão regulamentados. Percebem a paródia que isto é?

Existe um amplo consenso em termos internacionais da eficácia e utilidade clínica das TNC, com amplo espólio de estudos científicos a comprová-lo. Este consenso inclui a própria Organização Mundial de Saúde, que desde há décadas a esta parte tem defendido a integração das TNC no Sistema de Saúde.

Eu estava a estranhar a não utilização da falácia da autoridade habitual, com referência à Organização Mundial de Saúde e à sua posição pseudocientífica, puramente política, no que diz respeito às terapias alternativas. Mais uma vez, o que interessa é a ciência. Não é a posição de determinadas instituições sobre esses temas, quando não baseadas na evidência científica existente. Aliás, já falei do triste papel a que se sujeitou a OMS no que diz respeito à acupuntura. E pior, já foi falado sobre o péssimo papel que prestou à ciência com o novo manual de codificação ICD-11. Agora, graças a este novo manual, já é possível sofrer de “Estagnação hepática do Qi”. Avé Meridianos, Avé!

A intervenção das TNC pauta-se pela complementaridade com a Medicina Convencional, fazendo o profissional de TNC parte da equipa multidisciplinar de saúde. Deste modo, a adesão terapêutica do paciente, assim como a sua autonomia e centralidade, só saem reforçadas no processo, e não o contrário, como a notícia erradamente indicia.

Pois…eu até acredito que vocês acreditem nisso…mas o estudo que estamos aqui a discutir aponta exatamente no caminho oposto. A melhor complementaridade entre a medicina convencional e as terapias alternativas é não haver complementaridade nenhuma. A não ser que o objetivo seja o doente morrer mais depressa. Nesse caso as terapias alternativas são uma ajuda preciosa.

Concluindo

Adorei este comunicado. Principalmente por ter ficado a saber que a partir de agora, todos os terapeutas alternativos encartados irão ajudar os cépticos a combater os terapeutas alternativos não encartados. Mesmo que promovam exatamente os mesmos tratamentos. Isto sim, é interessante. Também será interessante ver qual a reação dos outros terapeutas a esta tomada de posição. Sem dúvida que me irá proporcionar bons momentos de comédia.

No entanto, preferia um comunicado em que estas associações se comprometessem a promover a adesão dos doentes aos tratamentos convencionais. Que se comprometessem a denunciar os praticantes de terapias alternativas que demonizam os tratamentos convencionais para o cancro e que promovem tratamentos “curativos” nesta área. No entanto, infelizmente, não estou a ver isso a acontecer.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar