Evidência Científica Sobre o Calcitrin

Calcitrin – Será Que Funciona Para Lá do Marketing?

admin Cálcio, Charlatanice, Geral, Suplementos, Vitamina D Leave a Comment

Não deve haver ninguém em Portugal que não tenha ouvido falar do Calcitrin. A empresa Viva Melhor, detentora do suplemento, é uma máquina bem oleada de marketing utilizando de forma exímia as ferramentas ao seu dispor.

É presença assídua na televisão, no horário das manhãs e das tardes, quando o seu público alvo está colado ao televisor a ver a Júlia, a Fátima, a Sónia e o Goucha. Utiliza bem os testemunhos, sejam eles pessoas “normais”, como o Sr. Manuel que já sobe escadas, sejam caras conhecidas que juram que aquilo funciona.

É a Simone Oliveira, é o Malato, é o Victor de Sousa, a Tânia Ribas (a do “Dr. Pinto Coelho volta cá quantas vezes quiser”), Maria João Abreu…todos dão a cara pelo Calcitrin. No fundo, o Calcitrin utiliza os testemunhos para imprimir confiança nos seus produtos, prática recorrente como estratégia de marketing. Mas como já falamos, os testemunhos não validam tratamentos.

Mas o que é o Calcitrin?

Deixo a descrição presente no site:

“Calcitrin MD Rapid é um suplemento alimentar para a manutenção de ossos normais, contêm 60 comprimidos de 1.400 mg.

A Vitamina D contribui para a normal absorção/utilização do cálcio e do fósforo, a Vitamina C contribui para a normal formação de colagénio para funcionamento normal das cartilagens, o Cálcio é necessário para a manutenção de ossos normais.

Modo de Tomar: Como suplemento alimentar , tomar 2 comprimidos por dia. Contêm Cálcio, Vitamina C, Magnésio, Vitamina D3, Fósforo, Carbonato de Magnésio, Sulfato de Condroitina.”

Num dos muitos vídeos promocionais do Calcitrin, são realizadas duas afirmações: Trata a osteoporose e as pessoas ficam sem “dores nos ossos”. Graças a isso há uma melhoria da qualidade de vida e um aumento da mobilidade dos doentes que tomam este produto.

Por causa da “publicidade enganosa”, principalmente depois da Simone Oliveira aconselhar o Calcitrin como prenda de Natal, a Ordem dos Farmacêuticos reagiu contra este suplemento:

“É uma situação que configura uma publicidade enganosa, abusiva, que cria falsas expectativas nos consumidores. Não está demonstrado que o suplemento de cálcio possa diminuir as fracturas ósseas”, afirma o bastonário Maurício Barbosa (…)”

“Pelo contrário, está demonstrado que as pessoas ficam expostas a riscos elevados de acidentes cardiovasculares, de problemas renais, até de problemas gastrointestinais e obstipação”, acrescenta.

A Ordem mostra-se também preocupada com o incentivo que é feito à aquisição deste suplemento alimentar como presente de Natal e lembra que, ao contrário dos medicamentos, estes produtos não são regulados pelo Infarmed, nem estão sujeitos ao mesmo controlo de qualidade, segurança e eficácia.

“Este caso ultrapassou tudo o que é minimamente aceitável. Foi-se longe demais quando se apela à compra de embalagens para se oferecer aos amigos. ‘Dê mais vida àqueles que ama’. Isto é verdadeiramente inaceitável (…)”

Não posso deixar de concordar com a Ordem dos Farmacêuticos e ainda não chegamos à evidência. Oferecer suplementos alimentares no Natal não é só um incentivo desmesurado ao consumo como um presente de Natal ridículo…acho que perdia umas gotinhas de urina se visse alguém a desembrulhar um Calcitrin 😀

Por outro lado, parece-me hipócrita a Ordem dos Farmacêuticos não se mostrar igualmente preocupada com a venda de medicamentos homeopáticos na farmácia…nunca vi tal indignação quando aparece a publicidade do Oscillococcinum. Outro ponto “contra” a Ordem dos Farmacêuticos é que não faltam suplementos de cálcio semelhantes à venda na farmácia…poderemos dizer que apenas são vendidos com prescrição médica ou o controlo do produto é realizada pelo Infarmed…no entanto, lado a lado, esses produtos não serão muito diferentes relativamente aos riscos e efetividade no tratamento de patologias.

Em modo de contra-ataque, a Viva Melhor processou o ex-bastonário da Ordem dos Farmacêuticos, por “ofensa a pessoa coletiva”, sendo que a campanha da Ordem “causaram prejuízos”. Ressalvo este parágrafo importante:

“A empresa, Viva Melhor, apresentou também uma denúncia por concorrência desleal na Autoridade de Segurança Alimentar e Económica (ASAE), igualmente contra a Ordem dos Farmacêuticos e o anterior bastonário (a Ordem tem desde quarta-feira Ana Paula Martins como bastonária), considerando que foram feitas afirmações para desacreditar um concorrente.”

Neste ponto concreto, a empresa Viva Melhor terá alguma razão.

Mas vamos à ciência…o Calcitrin funciona ou não?

O Calcitrin é composto por:

  • Cálcio – 378.8 mg;
  • Vitamina  – 24 mg;
  • Magnésio – 240 mg;
  • Vitamina D3 – 10 ug
  • Fósforo – 220.8 mg;
  • Sulfato de Condroitina – 6,4 mg.

(Agradecimento ao Rui Namora pela informação)

Nota: tendo em consideração que a dose diária recomendada de vitamina D é de 400U, ter 10U é igual a nada. O mesmo se pode dizer da dose de condroitina presente nesta formulação…6.4 mg é a mesma coisa que nada. As formulações controladas pelo Infarmed têm cerca de 500mg.

Começamos pela Condroitina…

A condroitina, assim como a glucosamina, são substâncias amplamente utilizadas e fracamente estudadas…pelo menos por estudos de boa qualidade. Na osteoporose não tem qualquer interesse. No entanto, pensa-se que poderá ter um papel no tratamento das artroses e desgaste das articulações. Possivelmente será este componente que ajudará à diminuição da “dor nos ossos” que o Calcitrin afirma ter.

A condroitina tem um papel estrutural importante na cartilagem, já que parece fornecer resistência à compressão. A suplementação com condroitina baseia-se na teoria que a osteoartrose está associada à degradação e perda das substâncias da articulação, incluindo a condrointina e a glucosamina. Fornecendo estes produtos, eles irão depositar-se na cartilagem e retardar o surgimento da artrose ou melhorar os sintomas associados.

Em 2004, foi feito um pedido à FDA para considerar a condroitina um suplemento capaz de reduzir o risco de osteoartrose, a perda de cartilagem e capaz de tratar a dor, inflamação e edema associado à artrose. O pedido foi negado, já que os estudos conduzidos não demonstravam de forma convincente a eficácia do suplemento…um apontamento importante: a FDA refere que os estudos eram mal desenhados e de fraca qualidade.

Desde essa altura vários estudos clínicos foram concluídos e novas revisões sistemáticas/meta-análises surgiram, apresentando resultados contraditórios…algumas destas revisões foram realizadas na mesma altura (artigo e artigo e artigo). Supõem-se que teriam acesso à mesma informação. É no mínimo estranho que apresentem resultados diferentes, podendo indicar a existência de má metodologia de investigação ou conflitos de interesse.

No entanto, nas revisões mais recentes, tanto para a condroitina como para a glucosamina não parece existir evidência convincente dos efeitos destes produtos (artigoartigo e artigo).

Apesar disso, estes suplementos continuam a ser amplamente usados, principalmente pelos ortopedistas. Na minha opinião esta atitude é errada, mas por outro lado compreensível. É que a dor é um problema multifactorial…e provavelmente é mais benéfico usar um placebo para tratar uma artrose do que usar um anti-inflamatório, já que a eficácia de resolução dos sintomas não é muito diferente. Cito o estudo GAIT, um dos melhores estudos nesta área:

“Resultados do estudo GAIT após dois anos: Junho de 2010

Os novos dados de um estudo de longo prazo sobre os suplementos dietéticos glucosamina e condroitina para dor na osteoartrite do joelho revelam que os doentes que tomaram os suplementos (sozinhos ou em combinação) tiveram resultados semelhantes aos experimentados pelos doentes que tomaram comprimidos celecoxibe ou um comprimido placebo. “

Concluindo: Condroitina (e glucosamina) para “dores de ossos” igual a efeito placebo.

Cálcio e Vitamina D

Quando falamos do leite abordamos o cálcio e quando falamos da esclerose múltipla abordamos a vitamina D. No entanto, vamos ver o que nos diz a evidência com a suplementação destes agentes, em conjunto, para as dores de ossos e osteoporose.

Voltamos a referir um ponto importante: Quando estudamos a osteoporose, não interessa a densidade mineral óssea, mas sim a probabilidade ou risco de fratura. Ou seja, um medicamento pode dizer que melhora a densidade mineral óssea no entanto não reduz o risco de fratura. E como médico não me interessa que os meus doentes tenham ossos bonitos mas que tenham ossos resistentes.

É como a nossa querida Lili Caneças fazer um pilling…fica com aparência mais jovem, mas não significa que ficou cronologicamente mais jovem…ficou esteticamente mais agradável, mas não rejuvenesceu. É da mesma forma que temos que abordar esta questão. Porque a densidade mineral óssea pode melhorar, mas a arquitetura do osso pode ser frágil e o risco de fratura não diminuir.

A baixa ingestão de cálcio e a vitamina D são considerados fatores de risco para ter osteoporose. No entanto, o benefício da suplementação de cálcio com vitamina D mantém-se incerto:

“Evidências de qualidade moderada mostraram que o efeito do cálcio ou da vitamina D no risco de fratura é incerto. Estudos não mostraram diferença entre o cálcio isoladamente e o placebo para redução do risco de fraturas vertebrais e não vertebrais, embora a adesão ao tratamento tenha sido baixa. Dados sobre a eficácia da vitamina D utilizada de forma isolada para reduzir o risco de fratura são inconsistentes e o seu efeito é incerto”.

Outra revisão refere a possível existência de uma pequena redução no risco de fratura e mesmo risco de morte nos idosos principalmente nos estudos de melhor qualidade (RCTs). Eventualmente os benefícios poderão derivar da suplementação num grupo muito específico de doentes com défice nutricional:

“Tanto os benefícios quanto os efeitos adversos da suplementação com cálcio e vitamina D parecem ser muito modestos na população geral. É razoável especular que os benefícios possam estar limitados a doentes com ingestão nutricional deficiente desses dois nutrientes e que os pequenos efeitos positivos observados são devido a grandes efeitos num pequeno número de doentes”.

Por outro lado, os estudos com medicamentos para tratar a osteoporose (bifosfonatos) e que demonstram diminuição do risco de fratura utilizaram, na maioria dos casos, suplementação de cálcio e vitamina D:

“Cálcio e vitamina D podem ser adicionados como suplementos dietéticos aos protocolos de tratamento da osteoporose, embora a eficácia desses protocolos na prevenção de fraturas não seja clara. A maioria dos ensaios com bisfosfonatos deu suplementos de cálcio às mulheres e muitos também deram vitamina D; assim, a suplementação com esses nutrientes poderá ser considerada. No entanto, as dosagens devem ser cuidadosamente ponderadas pois doses excessivas têm sido associadas à hipercalcemia. Evidência de qualidade moderada não mostraram associação entre suplementação de cálcio e aumento do risco de enfarte do miocárdio, mas um grande estudo demonstrou um aumento do risco de cálculos renais. “

Ou seja, o cálcio e vitamina D de forma isolada tem um efeito incerto na redução do risco de fratura…mas podem ser importantes para potenciar o efeito dos bifosfonatos no tratamento deste problema. Além disso a suplementação com cálcio não parece aumentar o risco de enfarte do miocárdio (evidência recente), mas aumenta o risco de litíase renal (pedra nos rins).

A alimentação com leite enriquecido em vitamina D também parece reduzir o risco de fratura, o que poderá apoiar um possível efeito destes nutrientes. Além disso é uma opção mais barata e saudável para os obter.

Quanto ao tratamento da dor, a suplementação de cálcio com vitamina D não parece reduzir as queixas de dor nas articulações. A utilização de vitamina D de forma isolada também não parece ter qualquer efeito na dor articular.

Concluindo: Benefícios incertos com a suplementação de cálcio e vitamina D. Eventualmente utilizar suplementos em pessoas com claro défice nutricional de cálcio e vitamina D ou quando fizerem tratamento para a osteoporose com bifosfonatos.

Quem não for intolerante ou alérgico, beber leite com vitamina D poderá ser opção. Ou então, ingerir outros alimentos ricos nestes nutrientes. Se não for eficaz será certamente mais barato.

Fósforo

O fósforo é um componente fundamental da formação de osso e é um nutriente muito abundante na alimentação. Existem estudos que demonstram que a sua suplementação poderá ser prejudicial para o osso, caso não haja cálcio suficiente. Na presença de cálcio, não parece existir problema.

Não há estudos de diminuição do risco de fratura, mas relativamente a resultados secundários, a suplementação de fósforo poderá até ter efeitos positivos na densidade mineral óssea:

” A alta ingestão de fósforo foi positivamente associada com o conteúdo mineral ósseo (BMC) em adolescentes do sexo feminino (Q4 vs. Q1: BMC, 30,9 ± 1,1 vs. 29,0 ± 0,5 g, P = 0,001). Também foi associada positivamente com o BMC e a densidade mineral óssea (BMD), bem como redução do risco de osteoporose nos adultos> 20 anos de idade (Q4 vs. Q1: OR para a osteoporose, 0,55; IC95%, 0,39-0,79; P = 0,001; BMC, 37,5 ± 0,4 vs. 36,70 ± 0,3 g, P <0,01; DMO, 0,986 ± 0,004 vs. 0,966 ± 0,005 g/cm2, P <0,05) Os dados sugerem que uma alta ingestão de fósforo não tem efeitos adversos no metabolismo ósseo em populações com ingestão adequada de Cálcio e isso também está associado com parâmetros ósseos positivos em alguns grupos, de acordo com a idade/sexo. “

Isto verifica-se quando a ingestão de cálcio é adequada. Na ausência de ingestão adequada de cálcio os efeitos do fosfato são negativos.

Concluindo: Fósforo sem estudos de prevenção de fratura. Com ingestão adequada de cálcio não parece ser prejudicial e pode melhorar a densidade mineral óssea.

Magnésio

A relação do magnésio com a osteoporose e o risco de fratura tem tido resultados contraditórios. No entanto, o que se supõe é que o magnésio poderá aumentar o risco de fratura e não diminuir esse risco.

Uma meta-análise recente e a única existente refere que a toma de magnésio não parece aumentar o risco de fratura. Poderá até melhorar a densidade mineral óssea mas sem qualquer relação com a prevenção do risco de fratura:

“Descobrimos que o consumo elevado de magnésio não estava significativamente associado com risco de fratura do fémur (Effect Size = 1,92; IC95% 0,81, 4,55) ou considerando todas as fraturas (Effect Size = 1,01; IC95% 0,94-1,07). (…) Um efeito marginalmente positivo foi observada entre a ingestão de magnésio e a densidade mineral óssea (r = 0,16; IC95% 0,001-032) . Também encontramos uma associação marginalmente significativa entre a ingestão de magnésio e a densidade mineral óssea do colo do fémur (r = 0,14; IC95% 0,001-0,28). No entanto, nenhuma correlação significativa foi encontrada entre a ingestão de magnésio e densidade mineral óssea na coluna lombar (r= 0,09;IC95% -0,01-0,19). Descobrimos que uma ingestão alta de magnésio não estava associada com o aumento do risco de fratura da anca ou o número total de fraturas. “

A utilização de magnésio em combinação com Cálcio e Vitamina D não está estudado. Desconhece-se se existe vantagens ou desvantagens na sua associação para diminuição do risco de fratura osteoporótica.

Vitamina C

Segundo a Viva Melhor, a “Vitamina C contribui para a normal formação de colagénio para funcionamento normal das cartilagens”. Suponho que o efeito que a Viva Melhor fala será a nível da artrose e tratamento da dor da mesma.

Apenas encontrei um estudo sobre a utilização de vitamina C para tratamento da dor na artrose do joelho ou anca. A vitamina C levou a uma melhoria de aproximadamente 5% da dor na escala de avaliação. Menos de metade da potência dos anti-inflamatórios.

Como vimos acima, os anti-inflamatórios são fracos no tratamento deste tipo de sintomas…utilizar a vitamina C, que tem menos de metade do efeito, seria uma perda de tempo.

Conclusão

Espremido, espremido, o Calcitrin parece ser tão eficaz na prevenção do risco de fratura como o habitual suplemento de cálcio com vitamina D. E estes parecem ser eficazes apenas numa faixa estreita da população com défice nutricional associado.

O Calcitrin poderá, eventualmente, ter uma eficácia ligeiramente superior aos outros suplementos. Mas sem mais estudos robustos não será possível chegarmos a essa conclusão.

Onde falha o Calcitrin?

1- Quanto à diminuição da dor, tomar Calcitrin e um comprimido de açúcar terá eficácia semelhante.

2- Não sabemos se os componentes existentes no Calcitrin são mesmo os componentes referidos, já que não é o Infarmed que regula este suplemento, mas supostamente o Ministério da Agricultura. Para saber mais, aconselho um excelente artigo do Observador (sim, eu sei…é estranho).

3- Cobram 27€ por embalagem quando conseguimos os mesmo resultados por 2-3€ por mês. Os outros 24€ de diferença é para investimento em marketing e lucro. De ressalvar que as formulações receitadas pelos médicos têm pelo menos 400U de vitamina D, o que garantirá o aporte diário recomendado de vitamina D. O Calcitrin tem 10U de vitamina D, o que não servirá para grande coisa.

Portanto, o Calcitrin tem componentes sem eficácia comprovada, será semelhante ou pior na efetividade aos suplementos que existem na farmácia e tem um custo 10x superior. Por essas razões atribuo 6/10 na escala de charlatanice em formato Calgon, para os velhinhos que já tomaram tanto Calcitrin que precisam de um anti-calcário para desentupir os ossos. 😀

6/10

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar