Charlatanice do Dia – Beber Água do Mar

admin Água, Charlatanice, Geral 2 Comments

Recentemente, o Dr. Manuel Pinto Coelho, escritor do livro “Chegar Novo a Velho” – um livro que considero uma obra de ficção, tantas as inverdades científicas que apresenta – foi entrevistado pelo Expresso. Para além de diversos erros científicos grosseiros já abordados pelo Dr. Vaz Carneiro, referiu na entrevista que beber água do mar “é essencial para o bem estar do organismo.” Afirma também que a água da mar é um ótima forma de repor cerca de 118 minerais e oligoelementos, de desentoxicar e hidratar o corpo.

Para fazer estas afirmações o Dr. Pinto Coelho recorre a um livro francês escrito há mais de 100 anos. Em termos científicos não interessa se o livro tem 100 anos ou 100 dias. O que interessa é se a evidência científica existente apoia a utilização deste tipo de tratamentos. Ainda há quem ache que o facto de uma terapia milenar ser realizada nos dias de hoje lhe atribuí algum tipo de validade científica (falácia da antiguidade), sendo que o contrário também é verdade.

No entanto, convém perceber o que era a saúde há cerca de 100 anos:

  • A teoria dos germes como causa de doença tinha sido proposta há cerca de 30 anos;
  • Ainda não existiam antibióticos;
  • Não existia insulina para tratar diabetes;
  • As vitaminas ainda não tinham sido descobertas;
  • A maioria das vacinas ainda não tinham sido inventadas;
  • Por cada 1000 gravidezes, 6-9 mulheres morriam no parto e cerca de 100 bebés morriam antes do ano de idade;
  • A esperança média de vida rondava os 53 anos na mulher e 50 anos no homem;
  • As doenças infecciosas eram a principal causa de morte.

Resumindo, a mortalidade era elevada e o conhecimento científico bastante limitado. Usar um livro com mais de 100 anos para revolucionar a medicina moderna parece improvável. No entanto, tentei fazer uma avaliação objetiva das afirmações do Dr. Pinto Coelho.

Fui ler o livro. Chama-se “L´ Eau de Mer, Milieu Organique”, de René Quinton.

O livro é de acesso livre. É facilmente verificável que não há qualquer referência a 118 minerais e oligoelementos presentes na água do mar. No entanto, trabalho do Dr. Quinton é pertinente. Descobriu que diluindo a água do mar esterilizada até ser um composto isotónico, seria possível substituir parte substancial do sangue dos animais com este composto e eles sobreviveriam. As experiências foram realizadas em cães. Também, ao contrário do que foi referido pelo Dr. Pinto Coelho, não fala sobre se os cães eram mais ou menos saudáveis. O que refere é que os animais sobreviveram à experiência e viveram um vida normal durante alguns anos.

Os médicos fazem isso nos dias de hoje…utilizam compostos com água destilada e sal (NaCl) por forma a tratar desidratações ou perdas sanguíneas ligeiras a moderadas. Mas certamente não encontrarão nenhum médico (digno desse nome) que aconselhe a beber água do mar perante uma desidratação, para tratar doenças ou repor nutrientes…e já vamos explicar porquê.

De onde vem a teoria dos 118 elementos?

Apesar do livro não falar da existência de 118 minerais e oligoelementos na água do mar, as experiências de Quinton levaram ao surgimento de um mercado dedicado à venda da água hipertónica de Quinton ou plasma de Quinton (pela módica quantia de umas dezenas de euros), como tendo as propriedades de revitalização semelhantes às que o Dr. Pinto Coelho atribuí à água do mar.

Existem sites sobre a água de Quinton, referindo-se à água como milagrosa, contendo todos os 118 elementos presentes da tabela periódica. No entanto, quem souber um bocadinho de química ou fazendo uma pesquisa rápida no Wikipédia (não precisa de ir mais longe), percebe que apenas 94 elementos existem na natureza. Alguns deles existem em tão baixa concentração que foram sintetizados em laboratório antes de ser descobertos no ambiente. Os restantes  elementos são produzidos em condições laboratoriais e não estão presentes de forma natural. Ou seja, o Dr. Pinto Coelho tentou encaixar todos os elementos da tabela periódica na água do mar, incluindo elementos produzidos em laboratório, alguns com recurso a reatores nucleares.

Os sites que vendem a água ou plasma de Quinton referem que a mesma apresenta cerca de 60 elementos. (Não coloco link para evitar a publicidade). Um artigo refere a presença de 80 elementos. No entanto, descreve a água do mar profunda, que não é exatamente igual à água do mar presente nas zonas costeiras.

Beber água do mar tem algum benefício para a saúde?

Fizemos uma pesquisa no Pubmed com os termos “seawater AND health benefits”. Apenas encontramos:

  • Estudos laboratoriais;
  • Estudos realizados em animais;
  • Estudos com baixas amostras e com surrogate outcomes;
  • Estudos publicados em revistas chinesas de baixo impacto;
  • Estudos publicados em revistas de medicinas alternativas ou complementares.

A qualidade dos estudos é muito baixa e não permite fazer as afirmações que o Dr. Pinto Coelho tem feito publicamente. O único estudo de interesse será a eventual capacidade de diminuir o colesterol. No entanto, esses efeitos são bastante limitados e carecem de reprodução. Além disso, os efeitos parecem ser atribuídos ao magnésio, cálcio e sódio…nesse caso, para quê beber água do mar?! Esses elementos conseguem ser repostos facilmente recorrendo a outro tipo de alimentos.

O Dr. Pinto Coelho afirma também, na mesma entrevista, que “o sal de cozinha é mau por ser muito rico em cloro e sódio e químicos”, o que será causa de hipertensão…”um nojo”…”a água do mar, o sal integral, o sal marinho, a flor de sal e o sal dos Himalaias têm 80 e tal minerais.”

Esta afirmação é desconcertante. O sal de cozinha é por definição composto essencialmente por sódio e cloro. Todos os sais são compostos por mais de 97% de sódio e cloro. Não há diferenças para a saúde no que diz respeito à ingestão de diferentes tipos de sal.  O CASH (Consensus Action on Salt and Health), um grupo de peritos britânicos preocupados com os efeitos do sal na saúde, desfaz vários mitos relacionados com o sal. Esta é uma questão de marketing e não de ciência, já que alguns sais de mesa gourmet chegam a custar várias vezes mais do que o sal de cozinha normal.

Chamo também à atenção para a utilização da palavra “químicos”. É comum os proponentes das medicinas alternativas promoverem a “quimiofobia”, utilizando a palavra químico de uma forma depreciativa e vaga, para fazer a apologia do “natural é bom”. É um raciocínio primário, já que toda a matéria é composta de químicos e sem químicos nada existe. E mais importante, não é o químico que indica a existência de toxicidade mas a sua dose. Fica por esclarecer a que químico em concreto o Dr. Pinto Coelho se refere.

Mas não devemos beber água do mar porquê?

A razão é simples…a imagem abaixo representa uma gota de água do mar vista ao microscópio. Como é possível observar, é rica em muito mais do que minerais e micronutrientes.

A água do mar contém vários microorganismos capazes de provocar doença. Desde vírus e bactérias causadores de gastroenterites; o vírus da hepatite A que provoca hepatite com inflamação e necrose hepática; parasitas como a Giardia Lamblia capaz de provocar gastroenterite e síndrome de má absorção; e algas produtoras de toxinas capazes de provocarem doenças, sobretudo gastrointestinais. Algumas dessas doenças são graves, podendo colocar a vida das pessoas em risco sem necessidade.

Do ponto de vista de saúde pública percebe-se a insensatez de aconselhar a ingestão de água do mar. Mas há mais… A poluição da água do mar é um fator a ter em conta, conforme referiu a entrevistadora. No entanto, o Dr. Pinto Coelho refere que isso não o preocupa… “fazendo sauna duas vezes por semana sai tudo.” Gostava de saber quantas pessoas neste país fazem sauna duas vezes por semana. Também seria interessante saber em que se baseia o Dr. Pinto Coelho para afirmar que a sauna consegue depurar as diferentes fontes de contaminação de água do mar.

Essas fontes são tantas que é impossível falar de todas neste artigo. Enunciamos os mais importantes: metais pesados (alguns poderão, eventualmente, ser parcialmente removidos com sauna), pesticidas, microplásticos e nanoplásticos, PCBs, DDT, TBT, fenóis, dioxinas e fármacos.

As consequências da ingestão destes químicos é variável e até podemos assumir, por questões de simplicidade, que não existe nenhum risco para a saúde (como referido, a dose é mais importante que o químico). No entanto, é estranho ver o Dr. Pinto Coelho preocupado com os químicos do sal de cozinha e pouco preocupado com os químicos presentes na água do mar.

E se puser umas pedras de sal em água de garrafa ou de torneira?

Não há vantagens em adicionar pedras de sal à água…pelo contrário. As instituições dedicadas à saúde pública, como a Direcção Geral de Saúde têm feito um esforço para que a população em geral diminua o consumo de sal devido às doenças relacionadas com a sua ingestão excessiva.

Posto isto, fica a pergunta: Se temos a certeza da existência de malefícios para a saúde relacionados com a ingestão de água do mar e não temos a certeza da existência de qualquer benefício, porquê insistir no seu consumo?

O Dr. Pinto Coelho pode mesmo acreditar que a água do mar é milagrosa e cheia de propriedades benéficas para a saúde. No entanto, se olharmos para as suas afirmações do ponto de vista de marketing farão muito mais sentido que do ponto de vista da saúde.

Num país em que existem milhares de médicos formados, que praticam medicina com base em consensos e na evidência científica estabelecida, não existe um grande fator diferenciador entre os médicos no tipo de recomendações que fazem e tratamentos que implementam.

Como é que um médico se pode impor neste tipo de mercado? Apresento um gráfico que relaciona o risco/benefício da implementação de produtos no mercado.

 
 

Se queremos vender um produto ou um serviço num determinado mercado, existem várias formas de o fazer. Podemos introduzir um produto já existente no mercado e vendê-lo mais barato. Ou seja, jogar com o fator preço. Digamos que começo a oferecer os meus serviços para realizar consultas ou urgências a um preço inferior aos restantes colegas. Facilmente encontrarei trabalho. O risco é baixo, mas os ganhos também.

Ou então, podemos tentar melhorar um serviço. É uma atitude com um risco acrescido, mas com benefício económico superior. Podemos dizer, por exemplo, que as minhas consultas são de qualidade superior porque faço uma história clínica e um exame físico mais completo ou utilizo determinados meios complementares de diagnóstico durante a consulta. Ou então, por exemplo, oferecer consultas com tempo de espera mais reduzido, associado a uma taxa de urgência.

Mas a recompensa poderá ser maior se tivermos capacidade de inovar e apresentarmos um produto que ninguém tem, seja a nível regional ou mundial. Conseguimos monopolizar o mercado, pelo menos durante algum tempo.

Segundo o gráfico, colocaria o Dr. Pinto Coelho como um inovador a nível regional, já que conseguiu vender um produto (ele próprio) de forma inovadora, apresentando soluções para problemas de saúde que não são as soluções convencionais.

Quando esses produtos inovadores trazem mais valias para as pessoas, como a descoberta de um fármaco com um mecanismo de ação novo e com melhores resultados que os existentes no mercado, então a recompensa é merecida.

O problema é que o produto apresentado pelo Dr. Pinto Coelho não traz mais valias para os clientes…pelo contrário, traz possíveis consequências para a saúde dos seus utilizadores. E isso é perigoso e deveria ser punido.

Por essa razão, atribuímos à Charlatanice do Dia uma pontuação de 8 TRUMPS.

8/10

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar