Colesterol – A Grande Farsa…Análise Crítica ao Documentário

admin Colesterol, Geral, Literacia em Saúde 0 Comments

Devido aos vários pedidos que foram feitos, decidi analisar de forma aprofundada o Documentário “Colesterol – A Grande Farsa.”

Como já expliquei, vídeos (neste caso, documentários) não são evidência científica. É fácil de compreender que qualquer “Zé Manel” pode fazer um documentário ou escrever um livro.

Há livros sobre o que quisermos e o mesmo se passa com os documentários. Se quiserem, tenho um ótimo sobre as vacinas que causam autismo…ou sobre fantasmas e casas assombradas…ou os mistérios do Triângulo das Bermudas (spoiler: é um mito. O número de desaparecimento de barcos naquela zona é igual a qualquer outra zona marítima…nada de estranho se passa por aqueles lados).

Portanto, este é o primeiro ponto. Validade científica de documentários…zero.

Depois, este documentário tem um pormenor importante, para quem o vê mas não vai mais além…não há qualquer identificação dos intervenientes. Quem fala? Quais os seus conflitos de interesse? Porque é que foram estes os entrevistados e não outros?

Tentei saber quem são:

Temos Gary Taubes, um escritor de ciência americano que escreveu o livro “The Case Against Sugar“, suportando a hipótese que o problema das doenças cardiovasculares não são as gorduras mas os hidratos de carbono.

Temos Nina Teicholz, uma jornalista de investigação que escreveu o livro “The Big Fat Surprise: Why Butter, Meat & Cheese Belong in a Healthy Diet”. Mais uma vez, um livro que defende que as gorduras saturadas foram demonizadas de forma injusta.

Michel de Lorgeril, o francês que revolucionou a vida do Dr. Pinto Coelho e escreveu um livro anti-estatinas. Sempre que o seu nome é citado o Dr. Pinto Coelho tem um espasmo de felicidade.

Uffe Ravnskov, que escreveu o livro “The Cholesterol Myths: Exposing the Fallacy that Saturated Fat and Cholesterol cause Heart Disease”. Anda na guerra contra o colesterol desde 1990 e foi o primeiro a sugerir que os efeitos positivos da estatinas podem dever-se a outros efeitos que não a diminuição do colesterol (assume, pelo menos, a existência de benefícios com as estatinas).

Beatrice Golomb – que se dedica ao estudos dos efeitos secundários relacionados com as estatinas.

Não sei quem são os restantes intervenientes…mas percebe-se o viés, correto? É uma seleção interessante…do género, vamos ver qual é o partido que tem maior apoio popular no país…e vamos fazê-lo num congresso do Bloco de Esquerda.

Isto não tira potencial “mérito” ao documentário, no entanto, uma visão enviesada é uma visão enviesada.

1 – Gordura Saturada…sim, temos um problema.

Primeiro, parece claro que existiu na década de 60 uma influência importante da indústria do açúcar em ocultar os efeitos deste “nutriente” e culpar a gordura dos problemas de saúde que daí advinham. Isto aconteceu, como aconteceu com o tabaco.

No entanto, como verificamos no artigo das estatinas, sabemos que os hidratos de carbono aumentam o risco cardiovascular. Além disso, não conheço nenhum nutricionista que recomende beber Coca-Cola ou comer produtos ricos em hidratos de carbono refinados. Eventualmente, esta questão pode ter impedido uma regulação mais intensa sobre a quantidade de açúcar permitida nos alimentos, para prejuízo de todos nós. Mas não invalida toda a evidência acumulada ao longo do tempo e parece existir uma sensibilidade cada vez maior relativamente ao alimentos ricos em açúcar, com criações de taxas específicas para este tipo de “alimentos”.

No entanto, relativamente às gorduras saturadas as dúvidas subsistem. E continua-se a investigar este tema. Volto a partilhar a última revisão da Cochrane, de 2015:

“The findings of this updated review are suggestive of a small but potentially important reduction in cardiovascular risk on reduction of saturated fat intake. Replacing the energy from saturated fat with polyunsaturated fat appears to be a useful strategy, and replacement with carbohydrate appears less useful, but effects of replacement with monounsaturated fat were unclear due to inclusion of only one small trial. This effect did not appear to alter by study duration, sex or baseline level of cardiovascular risk. Lifestyle advice to all those at risk of cardiovascular disease and to lower risk population groups should continue to include permanent reduction of dietary saturated fat and partial replacement by unsaturated fats.

A redução da ingestão de gorduras saturadas são sugestivas de uma pequena mas potencialmente importante redução do risco cardiovascular. A substituição de gordura saturada por poliinsaturada aparenta ser uma estratégia útil. A substituição por hidratos de carbono parece ser menos eficaz e a substituição por gordura monoinsaturada mantém-se incerta.

Um estudo mais recente fez análise extensa deste tema e mantém as mesmas recomendações, acrescentando algumas soluções alternativas às gorduras saturadas:

(…) evidence supports other nutrient substitutions that will also reduce CVD risk. For example, replacing SFA with whole grains, but not refined carbohydrates, reduces CVD risk. Replacing SFA with protein, especially plant protein, may also reduce CVD risk. While dairy fat (milk, cheese) is associated with a slightly lower CVD risk compared to meat, dairy fat results in a significantly greater CVD risk relative to unsaturated fatty acids.

Para além da substituição de gorduras saturadas por gorduras mono e poliinsaturadas, recomenda a substituição por grãos integrais mas não carbohidratos refinados, por proteínas vegetais, por leite e queijo (com algumas advertências).

Volto a partilhar a recomendação da Sociedade Americana de Cardiologia de 2017, após revisão da evidência:

“Taking into consideration the totality of the scientific evidence, satisfying rigorous criteria for causality, we conclude strongly that lowering intake of saturated fat and replacing it with unsaturated fats, especially polyunsaturated fats, will lower the incidence of CVD. This recommended shift from saturated to unsaturated fats should occur simultaneously in an overall healthful dietary pattern such as DASH (Dietary Approaches to Stop Hypertension) or the Mediterranean diet as emphasized by the 2013 American Heart Association/American College of Cardiology lifestyle guidelines and the 2015 to 2020 Dietary Guidelines for Americans.”

Tendo em consideração toda a evidência científica existente, fazem a FORTE recomendação para reduzir o consumo de gordura saturada em detrimento de gorduras insaturadas, especialmente poliinsaturadas.

Pergunto: alguém está a aconselhar o aumento de aporte de açúcar nestas conclusões? Não, pois não…então e o “lobby” do açúcar, não manda nisto tudo?…

No entanto, continuam a existir estudos contraditórios sobre o papel da gordura saturada. Há quem produza evidência nova e quem olhe para a evidência antiga por forma a analisar a existência de erros estatísticos, como este artigo que reanalisou os dados do Minnesota Coronary Experiment (1968-73) e fez uma meta-análise e revisão sistemática onde avaliou as vantagens de substituir a gordura saturada por gordura vegetal rica em ácido linoleico, presente em vários tipos de óleos vegetais:

“Available evidence from randomized controlled trials shows that replacement of saturated fat with linoleic acid effectively lowers serum cholesterol but does not support the hypothesis that this translates to a lower risk of death from coronary heart disease or all causes. MCE findings add to growing evidence that incomplete publication has contributed to overestimation of benefits, and underestimation of potential risks, of replacing saturated fat with vegetable oils rich in linoleic acid.”

A evidência demonstra que a substituição de gordura saturada por gordura rica em ácido linoleico diminui o colesterol mas não leva a uma diminuição do risco de morte por doença coronária ou mortalidade geral. Há evidência crescente que os benefícios desta substituição terão sido sobrestimados por publicação incompleta de dados.

Um estudo de 2015 também chega a conclusões semelhantes:

“Saturated fats are not associated with all cause mortality, CVD, CHD, ischemic stroke, or type 2 diabetes, but the evidence is heterogeneous with methodological limitations. Trans fats are associated with all cause mortality, total CHD, and CHD mortality, probably because of higher levels of intake of industrial trans fats than ruminant trans fats. Dietary guidelines must carefully consider the health effects of recommendations for alternative macronutrients to replace trans fats and saturated fats.”

Gorduras saturadas não estão associadas com a diminuição da mortalidade por todas as causas, doença cardiovascular, doença coronária, AVC isquémico ou diabetes tipo 2. No entanto, a evidência é heterogénea e existem limitações metodológicas. Gorduras trans estão associadas com mortalidade geral, doença coronária, mortalidade por doença coronária. Pede-se cautela nas recomendações dadas pelas guidelines nutricionais no que diz respeito à substituição de gorduras saturadas e trans por outro tipo de alimentos.

Portanto…assunto controverso, não completamente fechado. É possível que as gorduras saturadas não sejam tão más quanto isso, quando comparadas com outras gorduras. No entanto, as recomendações para já mantêm-se as mesmas: reduzir gorduras saturadas.

Para quem está perdido, isto é para a redução dietética da ingestão de gordura saturada. Não confundir com diminuição de colesterol recorrendo a estatinas.

2 – Estudo Framingham – Primeira Mentira – Os investigadores ficaram muito desiludidos por não terem encontrado uma ligação entre o colesterol e as doenças cardiovasculares.

Como já partilhado no artigo sobre as estatinas, o estudo Framingham encontrou vários fatores de risco cardiovasculares, incluindo o colesterol:

“Over the years, careful monitoring of the Framingham Study population has led to the identification of the major CVD risk factors – high blood pressure, high blood cholesterol, smoking, obesity, diabetes, and physical inactivity – as well as a great deal of valuable information on the effects of related factors such as blood triglyceride and HDL cholesterol levels, age, gender, and psychosocial issues.”

Fatores de risco encontrados: hipertensão, colesterol alto, tabaco, obesidade, diabetes, sedentarismo. Não é necessário indagar muito mais do que isto, parece-me.

3 – Um dos entrevistados lê o estudo Framingham e diz: Por cada diminuição de 1 mg/dL  de colesterol há um aumento de 14% na taxa de mortalidade geral e da mortalidade cardiovascular!

Neste caso temos uma meia-mentira…faz-se aqui um cherry-picking de leitura. Leu o que deu jeito e não explicou as circunstâncias, o que é sempre importante.

Primeiro, é preciso perceber que aqui não há estatinas ao barulho. É apenas a avaliação dos níveis de colesterol e a sua relação com as doenças cardiovasculares e mortalidade geral.

Estudo Framingham. Follow-up de 30 anos:

“Under age 50 years, cholesterol levels are directly related with 30-year overall and CVD mortality; overall death increases 5% and CVD death 9% for each 10 mg/dL. After age 50 years there is no increased overall mortality with either high or low serum cholesterol levels. There is a direct association between falling cholesterol levels over the first 14 years and mortality over the following 18 years (11% overall and 14% CVD death rate increase per 1 mg/dL per year drop in cholesterol levels). Under age 50 years these data suggest that having a very low cholesterol level improves longevity. After age 50 years the association of mortality with cholesterol values is confounded by people whose cholesterol levels are falling–perhaps due to diseases predisposing to death.”

Portanto, abaixo dos 50 anos de idade, existe um aumento de mortalidade geral de 5% e por doença cardiovascular de 9% a cada 10 mg/dL de aumento de colesterol (total). Após os 50 anos de idade, a coisa fica mais complicada. De facto, parece existir um aumento de mortalidade com a queda ESPONTÂNEA dos níveis de colesterol. Esta associação poderá estar relacionada com a existência de doenças que levam a que esta queda ocorra, elevando a mortalidade e servindo de fator confundidor.

Sim…porque doenças graves, como o cancro, levam à diminuição do nível de colesterol.

Na avaliação posterior (1992) da acumulação dos dados do estudo Framingham, que como já expliquei, é um estudo que continua até aos dias de hoje, verifica-se uma relação direta entre colesterol total e o aparecimento de doença coronária até aos 65 anos nos homens e até 79 anos nas mulheres:

“These data demonstrate that lipids, portrayed primarily by lipoprotein measures, contribute to the incidence of CHD up to the age of 80 in men and women. Whereas LDL cholesterol, HDL cholesterol, and triglyceride levels and the total cholesterol-HDL cholesterol ratio play this role in women between 50 and 79 years old, it is only the total cholesterol-HDL cholesterol ratio that reaches statistical significance in men 65 and older.”

Os dados demonstram que os lípidos contribuem para a incidência de doença coronária em pessoas até aos 80 anos. Enquanto o LDL, o HDL, os triglicerídeos e o colesterol total têm um papel importante nas mulheres entre os 50 e os 79 anos, apenas o ratio colesterol total/colesterol HDL atinge significância estatística nos homens com mais de 65 anos.

Um estudo mais recente, de 1996 (temos que utilizar estudos sem estatinas, por isso os estudos são tão antigos), com doentes dos 60 anos aos 100 anos, conclui:

“There was a 1.12 times higher probability of developing new coronary events for an increment of 10 mg/dl of serum total cholesterol after controlling the confounding effects of other prognostic variables. There was a 1.70 times higher chance of developing new coronary events for a decrement of 10 mg/dl of serum HDL cholesterol after controlling the confounding effects of other prognostic variables.”

Portanto, verifica-se um aumento de probabilidade de 1.12 vezes de ter um evento coronário a cada aumento de 10 mg/dL de colesterol total depois de controlar as outras variáveis prognósticas. Existe um aumento de 1.70 vezes de desenvolver eventos coronários a cada diminuição de 10 mg/dL de colesterol HDL (bom colesterol) após controlar as outras variáveis prognósticas. Neste estudo não se verificou o “cut-off” que existia no estudo anterior. A relação do aumento do colesterol total com eventos coronários ocorria em toda as idades, homens e mulheres.

Vê-se que existe cada vez mais evidência acumulada que estabelece uma relação do colesterol total com o surgimento de problemas cardiovasculares, mesmo em idades mais avançadas. Dito isto, o documentário pega no que dá jeito para validar uma opinião…começam a perceber? É fácil manipular os telespectadores dando informação parcial. Para quem quiser saber mais (já que não estamos aqui para manipular opiniões) pode ler este artigo sobre o colesterol nos idosos.

4 – Homocisteína – A teoria da conspiração…

A história de um homem perseguido, sonegado para a cave de um centro de investigação, rejeitado pela comunidade científica…o horror…por ter descoberto que a homocisteína elevava o risco de morte cardiovascular.

Primeiro, a utilização do termo homocisteína no Pubmed leva ao surgimento de 22.675 artigos…a utilização dos termos “homocisteína” e “doença cardiovascular” gera 8.378 artigos…Não me parece que a homocisteína tenha ficado na gaveta, enterrada, com as pessoas a serem perseguidas caso falassem sobre este assunto.

Aliás, os níveis de homocisteína são um fator de risco independente para a mortalidade geral. Há vários artigos (como este), que afirmam que a homocisteína é um fator de risco cardiovascular. Que os níveis elevados promovem a aterosclerose e duplicam o risco cardiovascular. Ninguém anda a esconder nada…

No entanto, se a homocisteína é tão importante, então reduzir dos seus níveis levará a uma prevenção dos eventos cardiovasculares, certo? Já que segundo o autor perseguido e sonegado para a cave afirma que a homocisteína inicia a formação de placas de aterosclerose.

Revisão Cochrane de 2015:

“This second update of this Cochrane Review found no evidence to suggest that homocysteine-lowering interventions in the form of supplements of vitamins B6, B9 or B12 given alone or in combination should be used for preventing cardiovascular events. Furthermore, there is no evidence to suggest that homocysteine-lowering interventions are associated with an increased risk of cancer.”

Não há qualquer evidência científica que sugira que intervenções para diminuir a homocisteína na forma de suplementos vitamínicos (B6, B9 – que é o ácido fólico – ou B12), sozinhos ou em combinação, devam ser usados para prevenir eventos cardiovasculares.

E mesmo para as pessoas que já têm doença vascular estabelecida, as vantagens da suplementação para redução da homocisteína mantém-se controversa.

Portanto, a homocisteína estar elevada é uma coisa…intervir sobre essa elevação é outra. Porque a medicina é uma coisa complicada e estas relações também o são. Assim como a vitamina D diminui nas doenças crónicas, não significa que a sua suplementação ajude a controlar estas doenças. O mesmo pode acontecer com a homocisteína…aumenta na presença de doença e intervir na sua diminuição não significa que exista benefício.

Mas se têm medo da homocisteína, podem fazer o seguinte. Fumam? Deixem de fumar. Comam frutas e vegetais em quantidade. Façam exercício – aposto que o malandro do seu médico nunca lhe disse estas coisas…

5 – Michel de Lorgeril, o herói que descobriu os benefícios da dieta mediterrânica?!O quê!?

Se leram o artigo da dieta mediterrânica, vão perceber que a descoberta da relação da dieta mediterrânica com a prevenção do eventos cardiovasculares foi atribuída a Ancel Keys…sim, o homem que supostamente fez um péssimo trabalho e manipulou dados para favorecer a teoria do colesterol como o causador dos eventos cardiovasculares. Os estudos eram tão maus que de Lorgeril utilizou esses dados para contribuir para um maior conhecimento das vantagens da dieta mediterrânica.

Caso ainda tenham dúvidas:

“The discovery of the health benefits of the Mediterranean Diet is attributed to the American scientist Ancel Keys of the University of Minnesota School of Power, which pointed out the correlation between cardiovascular disease and diet for the first time. Ancel Keys, in the fifties, was struck by a phenomenon, which could not, at first, provide a full explanation. The poor population of small towns of southern Italy was, against all predictions, much healthier than the wealthy citizens of New York, either of their own relatives who emigrated in earlier decades in the United States. Keys suggested that this depended on food, and tried to validate his original insight, focusing his attention on foods that made up the diet of these populations. Thus, he led the famous “Seven Countries Study” (conducted in Finland, Holland, Italy, United States, Greece, Japan and Yugoslavia), in order to document the relationship between lifestyles, nutrition and cardiovascular disease between different populations, including through cross-sectional studies, being able to prove scientifically the nutritional value of the Mediterranean diet and its contribution to the health of the populations that adopted it.

Traduzo parcialmente: A descoberta dos benefícios para a saúde da dieta mediterrânica foram atribuídos a Ancel Keys, que demonstrou a existência de uma correlação entre as doenças cardiovasculares e a dieta pela primeira vez. Reparou que a população pobre de pequenas localidades no sul de Itália eram, contra todas as previsões, mais saudáveis que os cidadãos ricos de Nova York.

E de repente, entra o de Lorgeril, o amor pouco secreto do Dr. Pinto Coelho como tendo sido o homem que fez tal descoberta. Enfim…a isto chama-se auto-promoção sem vergonha.

Michel de Lorgeril trabalhou e acrescentou à descoberta de Ancel Keys (artigo e artigo), mas não foi certamente a peça central nesta descoberta. Desconfio que existe aqui algum complexo de inferioridade francês.

6 – A maldita indústria farmacêutica

É referido que os bons resultados associados às estatinas devem-se ao financiamento destes estudos por parte da indústria farmacêutica.

Caros leitores, os médicos estão cientes destes problemas. E é por isso que existem iniciativas como o AllTrails, com obrigação de registo de todos os estudos (para evitar viés de publicação) e com acesso a todos os resultados. Servirá para evitar que a eficácia de determinados tratamentos, como as estatinas, seja artificialmente inflacionados.

Se acham que os investigadores andam todos a dormir, ficam a saber que há cada vez maior transparência relativamente aos conflitos de interesse dos investigadores e quem financia os estudos. E relativamente ao financiamento dos estudos, existe inclusive um viés específico – funding bias. Porque já sabemos que este tipo de situações acontecem.

Além disso, existem várias ferramentas estatísticas para avaliar se existe viés de publicação. E outro ponto importante…as estatinas são os fármacos mais estudados de sempre…a evidência é avassaladora. As estatinas são claramente vantajosas na redução da mortalidade geral e doenças cardiovasculares (artigoartigo).

Já agora, deixo a última meta-análise das vantagens das estatinas na prevenção primária, realizada em Portugal 😀 – texto completo ainda não está disponível:

 “Meta-analysis of the overall mortality results of the nine trials showed a significant reduction associated to statin therapy (odds ratio 0.886, 95% confidence limits 0.816-0.963), when compared to the control situation. At least one trial showed a numerical reduction of overall mortality with pravastatin, with atorvastatin and with rosuvastatin. Separate meta-analyses were carried out with clinical trials with each of these three drugs, yielding similar effects: pravastatin – odds ratio 0.852, 95% confidence limits 0.688-1.054; atorvastatin – odds ratio 0.853, 95% confidence limits 0.726-1.002; rosuvastatin – odds ratio 0.870, 95% confidence limits 0.749-1.010.

CONCLUSIONS: Statins used in primary prevention lead to a significant decrease in overall mortality. The effects of statins in primary prevention are limited to patients with defined cardiovascular risk factors.”

Verifica-se uma redução significativa da mortalidade geral associada à terapia com estatinas, quando comparadas com controlo. Análises separadas à pravastatina, atorvastatina e rosuvastatina chegaram a resultados idênticos (aqui os resultados não foram estatisticamente significativos. Teremos que aguardar pelo estudo completo para perceber o porquê). Concluindo: Estatinas na prevenção primária (pessoas ainda não têm doença, apenas fatores de risco), leva a uma diminuição significativa da mortalidade geral. O efeito está limitado a doentes com fatores de risco cardiovasculares.

7 – Estudos a partir de 2005/2006 sobre estatinas deram sempre resultados negativos

Bem…esta é daquelas afirmações fáceis de apanhar. Estudo de 2016:

“Treatment with rosuvastatin at a dose of 10 mg per day resulted in a significantly lower risk of cardiovascular events than placebo in an intermediate-risk, ethnically diverse population without cardiovascular disease.”

Tratamento com rosuvastatina 10 mg/dia levou a um risco substancialmente menor de eventos cardiovasculares que o placebo numa população de doentes de risco intermédio, etnicamente diverso e sem doença cardiovascular.

Quem mente numa coisa tão básica como esta, perde a credibilidade. Há claramente um viés de confirmação. Querem acreditar na sua teoria, independentemente da evidência.

Também é preciso perceber que esta gente vive deste lobby anti-estatinas, assim como o Andrew Wakefield vive do lobby anti-vacinas. É uma forma de ganhar a vida. O interesse do doente é que não está, certamente, em primeiro lugar.

8 – Após 2 milhões de anos de evolução do ser humano, porque é que haveria um colesterol bom e um colesterol mau?

Esta é daquelas perguntas à Pinto Coelho que não tem ponta por onde se pegue. Isto implica que o processo evolutivo serviu como máquina que foi “aperfeiçoando o ser humano”. Isso não é verdade. Não é assim que a seleção natural funciona. A seleção natural escolhe os mais capazes de sobreviver, de acordo com determinadas condições ambientais. Deixo um exemplo de um “problema” evolutivo descoberto recentemente.:

“Roughly one-half of all Europeans living today carry a variant of the GDF5 gene which nearly doubles the chance of arthritis popping up in our golden years. People from other areas of the world have it too, but in much lower percentages of the population.”

Cerca de metade dos europeus têm uma variante do gene GDF5 que aumenta para o dobro a probabilidade de ter artrose mais cedo na vida. Pessoas de outras regiões também têm esta variante, mas em percentagem menor. Pelos vistos, serviu para sobreviver ao frio durante a idade do gelo. E deixou-nos uma prenda…maior risco de sofrer de artrose precocemente:

“While those traits above are arguably disadvantages when trying to secure a mate or going about your Stone Age day, they can also help a population recently moved out of Africa better adapt to the freezing northern territories of Europe. Being short and stocky makes it easier to retain heat in cold weather, and as the old saying informs us, the shorter you are the more lightly you fall — so you’re at less of a risk of fracturing bones in the process, a life-threatening experience back in those days.

As for the evolutionary costs, arthritis may actually carry less than you’d initially assume. As the condition usually develops past reproductive ages, it didn’t actually impair people’s ability to have babies. In other words, it brought more to the table than it took — so the gene got passed down.”

Há selecções e alterações evolutivas que ocorrem ao longo de milhões de anos que podem trazer vantagens mas também desvantagens. Isto não significa que o colesterol LDL não tenha um papel importante a desempenhar…é claro que tem! No entanto, temos sempre que considerar a concentração de LDL…e a partir de que valores consideramos como sendo prejudicial para a saúde. É que nunca no mundo, como nos dias de hoje, houve tanto acesso à comida. E este acesso à comida leva a exageros que têm consequências, para os quais o organismo “não foi seleccionado previamente”.

9 – Estudo de 2004 que demonstra um aumento da prescrição das estatinas, mas manutenção da taxa de internamento por doença coronária aguda

É citado um estudo que diz isso. Aumentar a prescrição de estatinas não diminuiu o internamento por doença coronária. E eu fui ver esse estudo, que diz:

“We found that prescriptions of lipid regulating drugs (largely statins) increased from 3.1m to 17.6m items during 1996-2002, a total cost to the NHS of £571m in 2002 compared with £93m in 1996. The standardised admission ratio for acute myocardial infarction fell from the baseline of 100.0 in 1996-7 to 90.7 in 2001-2 before increasing to 95.8 in 2002-3.”

Descobriram que a prescrição de medicamentos para diminuir o colesterol (principalmente estatinas), aumentou de 3.1 mulhões para 17.6 milhões unidades, com um aumento de custo de 93 milhões de libras em 1996 para 571 milhões de libras em 2002. O número de admissões por enfarte agudo do miocárdio diminui da linha base (100) para 90.7 de 1996-7 para 2001-2 antes de aumentar para 95.8 entre 2002-3.

Ou seja, as estatinas – e outros fármacos de diminuição do colesterol – na grande maioria dos anos de estudo levou a uma diminuição ligeira a moderada da quantidade de internamentos. E no último ano existiu um aumento do número de internamentos (ficando abaixo da linha base). Vamos perceber porque é que a redução não foi maior:

“During the study period, statins were recommended for high risk patients, but many myocardial infarctions occur in people at low risk who would not have been recommended for treatment with statins. This would limit the population impact of the increase in the prescribing of statins.

The increase in admissions for myocardial infarctions in the final year of analysis may be due to changing diagnostic criteria, including the use of cardiac troponin measurements and recognition of the concept of acute coronary syndrome and non-ST elevation myocardial infarction (NSTEMI).”

Durante o período de estudo, as estatinas eram recomendadas para doentes de alto risco, mas muitos dos enfartes do miocárdio ocorreram em pessoas de baixo risco para a qual não tinha sido recomendado tratamento.

O aumento de admissões por enfarte do miocárdio no final do ano de análise poderá dever-se a alterações de critérios de diagnóstico, que incluíram medições de troponina e o reconhecimento do conceito de síndrome coronária aguda sem elevação do segmento ST.

Portanto, temos duas coisas importantes. O estudo utilizado para descredibilizar as estatinas, na realidade dá-lhe mais força, porque sugere que prescrever estatinas em grupos de baixo risco poderá ser benéfico para diminuir o número de internamentos.

Além disso, o aumento do número de internamentos no último ano parece estar associado à alteração de critérios de diagnóstico de enfarte do miocárdio (apanhando um grupo grande de doentes que antes não eram internados) e aumento da sensibilidade diagnóstica após a introdução das troponinas. Se há mais sensibilidade, a deteção de casos será maior. Se será maior, é previsível um número maior de internamentos. E mesmo apesar disso, o número de internamentos manteve-se abaixo da linha base.

10 – Efeitos secundários das estatinas…

falamos dos efeitos secundários das estatinas (como a demência, em que não há relação) e verificamos que grande parte do que dizem acerca deste assunto é puramente falso – mais uma vez, aconselho a ler o artigo sobre estatinas.

Este tipo de documentário, que assusta as pessoas acerca dos efeitos secundários destes medicamentos, leva a que deixem de tomar as estatinas…e estes são os verdadeiros assassinos em massa. Com este tipo de documentários e presenças à Pinto Coelho, estão a amplificar o efeito nocebo. Deixo um estudo interessante sobre isso, resumido pelo The Guardian:

“False claims about the risks of statins may have cost the lives of tens of thousands of Britons, researchers have said, after a Lancet study found the drugs do not cause side-effects which have deterred many.

The research on 10,000 people found that if they did not know what drugs they were given, they were no more likely than those given sugar pills to report symptoms such as muscle pain, sleep disturbance and  cognitive impairment.

Yet when participants in a second part of the trial were told the drugs were statins, rates of some reported side-effects shot up – with muscle pain appearing up to 41 per cent more common.”

As falsas alegações do risco das estatinas podem estar a custar milhares de vidas, após um estudo do The Lancet ter descoberto que as estatinas não causa os efeitos secundários que muitos doentes descrevem. O estudo descobriu que caso os doentes desconheçam que fármaco estão a tomar, os sintomas que relatam não são muito diferentes de um comprimido de açúcar. No entanto, na segunda parte do estudo, quando foram informados que estavam a fazer estatinas, as dores musculares aumentaram em 41%, comparado com o placebo…

Isto é um problema…e são estes vendedores de banha da cobra que estão a causar este problema. As pessoas começam a ter receio dos efeitos secundários destes medicamentos e relatam efeitos que na realidade, não são reais (em termos físicos). Abandonam a terapêutica o que aumenta o risco de terem eventos cardiovasculares. Quem são os “malvados”, nesta história?

Concluindo

1 – Documentários, vídeos de Youtube e livros não são evidência.

2 – Não vejam a RTP…está claramente pejada de bruxos modernos e pseudocientistas que deixaram de cumprir a sua missão de serviço público. Desconfio que o Pinto Coelho é editor nos tempos livres.

3 – Quem quiser escrever uma mensagem ao provedor do telespectador para denunciar o péssimo papel que a RTP tem vindo a fazer no que diz respeito à saúde, pode fazê-lo aqui.

4 – Não me obriguem a ver mais documentários destes…ainda me põem a fazer estatinas.

5 – Sim, não abordei todos os temas…o texto já vai longo. Dúvidas, deixem nos comentários.

6 – Escala de Charlatanice: 8/10, em formato Alex Jones (teorias da conspiração…teorias da conspiração em todo o lado).

8/10

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar