evidência científica sobre comprimidos para emagrecer

Comprimidos Para Emagrecer…Vale a Pena?

admin Dietas, Geral, Nutrição, Suplementos Leave a Comment

Um estudo de prevalência de obesidade em Portugal, realizado entre 2003-2005, referia que existiam 39.4% de portugueses entre os 18-64 anos com excesso de peso e 14.2% eram obesos. Segundo o Inquérito Alimentar Nacional e de Atividade Física 2015-2016, a prevalência do excesso de peso rondava os 34.8% e de obesidade era de 22,3%, com maior atingimento do sexo feminino (24,3% vs. 20,1%) e de magnitude bastante superior nos indivíduos idosos (39,2%).

Ou seja, se os dados estiverem corretos, a quantidade de pessoas com excesso de peso diminuiu, mas à custa do aumento considerável do número de pessoas obesas.

Esta evolução é preocupante, como sociedade, dados todos os riscos para a saúde que a obesidade representa. Por outro lado, cria um mercado bastante apetecível na área da promoção do emagrecimento. E é assim tanto em Portugal, com em grande parte do mundo civilizado. Em 2014, segundo dados da OMS, 1.3 biliões de adultos tinham excesso de peso e 600 milhões eram obesos a nível mundial. Espera-se que em 2019, o mercado da perda de peso valha 206.4 biliões de dólares, um grande crescimento em comparação com os 148.1 biliões de dólares em 2014.

Muitas das ofertas de promoção do emagrecimento são perfeitamente válidas, como a promoção da educação nutricional, consultas de nutrição, venda de refeições prontas hipocalóricas, ginásios e outros serviços de promoção ao exercício físico, cirurgias nos casos extremos, etc.

No entanto, é de esperar que surjam outros serviços que são simplesmente charlatanices (a habitual promoção do “produto milagroso” para emagrecer; o guru e a sua dieta milagrosa; o tipo que perdeu 40 Kg em 3 meses e que de repente sabe tudo sobre nutrição, etc.), ou então esbarram com questões éticas, como a prescrição off-label de medicamentos para emagrecer.

Uma prescrição off-label é a prescrição de um medicamento para situações não aprovadas pelas entidades competentes. Por exemplo, o caso da metformina. Foi aprovado para controlo da diabetes mas foi-se percebendo que pode levar à perda de peso (iremos ver se é mesmo assim). Logo, não é incomum a sua utilização em doentes não diabéticos para tentar promover a perda de peso.

Neste nicho de mercado surgem os gurus do emagrecimento que promovem a perda de peso recorrendo às técnicas habituais (exercício físico e alimentação) e juntando-lhe, por vezes, os manipulados. Não há propriamente uma promoção aberta a este tipo de prescrição. No entanto, não faltam fóruns a falar sobre isso. Deixo uma dessas mensagens:

Não coloco esta mensagem para questionar o trabalho destes médicos. Tenho a certeza que terão muitas críticas positivas. Mas, como já falamos várias vezes, testemunhos não validam tratamentos. Nem os bons, nem os maus. O objetivo desta mensagem é perceber que a forma de funcionamento é semelhante neste tipo de clínicas, mais coisa menos coisa. Apesar que cada médico costuma ter um manipulado próprio, tipo receita caseira.

Mas o que são manipulados?

Os medicamentos manipulados, segundo a definição do Infarmed (aconselho a ler toda a informação neste site sobre manipulados, caso pretenda recorrer a este tipo de prescrição):

“Os medicamentos manipulados podem ser classificados como Fórmulas Magistrais (quando são preparados segundo uma receita médica que especifica o doente a quem o medicamento se destina), ou Preparados Oficinais (quando o medicamento é preparado segundo indicações compendiais, de uma Farmacopeia ou Formulário).

Ao prescrever uma Fórmula Magistral, o médico deve certificar-se da sua segurança e eficácia, verificando a possibilidade de existência de interações que coloquem em causa a ação do medicamento ou a segurança do doente.

A responsabilidade de verificar a segurança do medicamento manipulado prescrito é partilhada pelo farmacêutico que o prepara.

Portanto, manipulados são preparados que têm uma composição própria, decidida pelo médico e validada pelo farmacêutico. As receitas destes manipulados variam de médico para médico. Mas no fundo, a maioria dos medicamentos presentes nos manipulados para emagrecer são:

  • Diuréticos;
  • Laxantes;
  • Levotiroxina;
  • Metformina;
  • Topiramato;
  • Orlistat (Xenical);
  • Fluoxetina;
  • Bupropriona;
  • Extratos de ervas;
  • Calmantes para controlo de impulsos alimentares.

Deixo dois de muitos exemplos de manipulados:

Mas a questão que se coloca, é se este tipo de prescrição funciona. E é isso que vamos ver.

Evidência científica dos medicamentos para emagrecer

O que não provou funcionar para perder peso

Diuréticos para emagracimento

Os diuréticos (furosemida, hidroclorotiazida, clortalidona, etc.) são fármacos que aumentam o débito urinário. Logo, promovem a perda de líquido do organismo. Sendo que o nosso corpo é composto essencialmente por água (58 ±8% nos homens e 48 ±6% nas mulheres), se promovermos a perda de 2-3 litros de água recorrendo a diuréticos dará a sensação que perdemos 2-3 quilos de peso. No entanto, esta alteração é puramente cosmética, dado que a partir do momento que a toma de diuréticos é interrompida, espera-se que esse “peso” seja novamente adquirido.

Tendo em consideração que o objetivo de quem pretende perder peso é perder gordura, a utilização de diuréticos não terá, certamente, esse efeito. Portanto, utilizar diuréticos é puro engano. Aliás, não encontrei nenhum estudo que validasse a sua utilização com esse objetivo.

Laxantes para emagrecer

Os laxantes são substâncias usadas para tratar a obstipação/prisão de ventre. No entanto, a utilização de laxantes é frequente na perda de peso e ainda mais frequente em pessoas com distúrbios alimentares. No entanto, não funcionam. Claro que se tiverem prisão de ventre, haverá uma melhoria inicial. Mas segundo “The National Eating Disorders Association”, o uso de laxantes para emagrecer é um mito:

“A crença de que os laxantes são eficazes para controlo do peso é um mito. Na verdade, quando os laxantes atuam no intestino grosso, a maioria dos alimentos e calorias já foram absorvidas pelo intestino delgado. Embora os laxantes estimulem artificialmente o intestino grosso para esvaziar, a “perda de peso” causada por um movimento intestinal induzido pelo laxante contém poucos alimentos reais, gorduras ou calorias. Em vez disso, o abuso dos laxantes provoca perda de água, minerais, eletrólitos e fibras não digeríveis e os resíduos do cólon. Este “peso da água” retorna logo que o indivíduo beba qualquer fluído e o corpo se hidrata novamente. Se o utilizador de laxante crónico se recusar a hidratar o organismo, corre o risco de desidratação, o que pode levar a falência orgânica e, em última instância, pode levar à morte.”

Concluindo: Não se recomenda a utilização de laxantes para a promoção da perda de peso. A sua utilização poderá ser pontual, na presença de obstipação. De resto, não existe evidência de benefício com a sua utilização. Pelo contrário, a sua utilização crónica está associada a vários efeitos adversos importantes.

Levotiroxina para emagrecer

A levotiroxina é um análogo sintético da hormona da tiróide, habitualmente utilizado para tratar pessoas como hipotiroidismo. Dado que a tiróide controla uma série de funções no organismo, incluindo o metabolismo, a utilização de levotiroxina em doentes sem doença da tiróide tem sido uma prática regular para ajudar a perder peso. Ou seja, a lógica é que acelerando o metabolismo do corpo, vamos queimar mais calorias. No entanto, as suas vantagens são controversas.

Um estudo demonstrou que em pessoas como hipotiroidismo que iniciaram levotiroxina, só cerca de metade (52%) apresentaram uma perda de peso modesta após 24 meses de tratamento. No global a perda de peso relatada foi de 3.8 quilos +/- 4.9 quilos. Se esta perda modesta ocorre em apenas metade das pessoas com hipotiroidismo a fazer a levotiroxina, é de esperar que pessoas sem problemas de tiróide, com um metabolismo normal, não tenham benefícios ou então esses benefícios irão ser muito residuais.

Uma revisão sistemática de 2009 refere que não é possível tirar conclusões sobre a utilidade da levotiroxina no tratamento da obesidade em pessoas com tiróide funcionante. Essa incapacidade deve-se ao facto dos estudos terem amostras demasiado pequenas.

Uma revisão de 2012 refere que a utilização de levotiroxina tem resultados contraditórios relativamente à perda de peso nas pessoas com hipotiroidismo, validando o estudo anterior. Mesmo havendo perda de peso, será possivelmente devido a uma perda de água, diminuindo a retenção hídrica e não propriamente pelo estímulo do metabolismo e queima de gordura. Refere também que em pessoas com função da tiróide normal, a utilização de levotiroxina mantém-se incerta e de utilidade duvidosa.

Concluindo: Para já, não existe vantagens bem definidas para a utilização de levotiroxina para promoção da perda de peso. Tendo em consideração os possíveis efeitos adversos associados, a sua utilização não deve ser promovida.

Fluoxetina

Apesar de existir uma ampla aceitação na comunidade médica que a fluoxetina leva à perda de peso, os dados objetivos não são muito favoráveis. Uma meta-análise de 2010 sobre todos os antidepressivos e a sua influência no peso conclui o seguinte:

“Resultados quantitativos evidenciaram que a amitriptilina, a mirtazapina e a paroxetina estavam associadas a um maior risco de aumento de peso. Em contrapartida, ocorre alguma perda de peso com fluoxetina e bupropiona, embora o efeito da fluoxetina pareça ser limitado à fase aguda do tratamento. Outros compostos têm um efeito temporário ou insignificante sobre o peso corporal no curto prazo. No entanto, o efeito de cada antidepressivo pode variar grandemente dependendo das características do indivíduo e isso tornou-se mais evidente a longo prazo, em grau variável, relativamente a todos os compostos.”

Um artigo de revisão de 2011 refere que a fluoxetina pode promover a perda de peso a curto prazo, mas ganho de peso a longo prazo:

“(…) a ação anoréxica a curto prazo da fluoxetina foi reconhecida, mas o acompanhamento a longo prazo revela que os efeitos na redução de peso são transitórios, eventualmente provocando um aumento do peso corporal. Podem notar-se perdas agudas de 0,35 kg, mas um ganho de peso médio de 2-2,5 kg de peso podem ser obtidos a longo prazo.

Concluindo: A utilização de fluoxetina não é recomendada para promoção de emagrecimento, principalmente se se pretende manter o medicamento durante algo tempo. Pior, poderá mesmo levar ao ganho de peso.

Produtos Naturais/Suplementos Dietéticos

Existem dezenas de produtos naturais para promoção do emagrecimento. Uma revisão de 2011 refere o seguinte:

“Foram identificados dados para ácido linoleico conjugado (CLA), Garcinia cambogia, quitosana, piruvato, Irvingia gabonensis e semente de chia para perda de peso. CLA, quitosana, piruvato e Irvingia gabonensis parecem ser efetivos na perda de peso (…). No entanto, os dados sobre o uso desses produtos são limitados.

Conclusão: Muitas pessoas obesas usam suplementos dietéticos para perda de peso. Até à data, há poucas evidências clínicas para apoiar seu uso. Mais dados são necessários para determinar a eficácia e segurança desses suplementos.”

Relativamente aos suplementos dietéticos, uma informação do NIH refere o seguinte:

“No seu relatório sobre suplementos dietéticos para perda de peso, o Escritório de Responsabilidade do Governo dos EUA concluiu que “pouco se sabe se os suplementos de perda de peso são efetivos, mas alguns suplementos foram associados a potencial dano físico“. Muitos suplementos de perda de peso são caros e alguns desses ingredientes dos produtos podem interagir ou interferir com determinados medicamentos. Portanto, é importante considerar o que é conhecido – e não conhecido – sobre cada ingrediente em qualquer suplemento dietético antes de usá-lo.”

Apesar de existir evidência (escassa) de alguma eficácia destes produtos, coloca-se questões importantes na sua utilização, principalmente a adulteração propositada destes produtos.

Um estudo verificou que na análise de 26 amostras de “produtos naturais” existiam oito amostras com diuréticos presentes (cinco declarados e três não declarados). No entanto, dado promoverem-se como “produtos naturais”, é estranho que recorram a este tipo de produtos não naturais…

Um outro estudo verificou que em 20 produtos naturais, dois tinham os produtos naturais que diziam ter e quatro tinham os produtos de acordo a composição e quantidade presente no folheto. Os outros dezasseis produtos estavam adulterados.

Isto leva a que haja um problema de confiança relativamente à utilização destes compostos. E visto que a regulação destes produtos é praticamente inexistente, não se pode aconselhar a toma de algo que se desconhece o que tem.

Concluindo: se quer perder peso, a opção pelos “produtos naturais” é uma má aposta. Primeiro, uma parte não têm nada de natural. Segundo, não se sabe o que está lá dentro nem em que dosagens. Terceiro, pode colocar em risco a saúde dos utilizadores.

O que provou funcionar para perder peso

Ervas medicinais

Uma revisão sistemática de 2013 fez uma avaliação de várias plantas medicinais e concluiu:

“Em conclusão, Nigella Sativa, Camellia Synensis, chá verde e chá preto chinês parecem ter efeitos satisfatórios contra a obesidade. O tamanho do efeito dessas plantas medicinais é um ponto crítico que deve ser considerado para interpretação”.

O problema é que maioria destes estudos são metodologicamente fracos e carecem de replicação. No entanto, é possível que estes componentes sejam eficazes na promoção da perda de peso e a sua utilização não parece ter grandes efeitos adversos associados.

Concluindo: a utilização de chás como adjuvantes na perda de peso poderá ser uma boa opção. Mesmo que estes compostos não funcionem, a promoção da ingestão de água, só por si, ajuda na perda de peso.

Metformina como supressor de apetite

A metformina será dos medicamentos mais utilizados neste tipo de composição para promoção do emagrecimento. Um estudo de 2013, que tratou 154 pacientes durante 6 meses, com um IMC superior a 27, dose de metformina 2.500 mg, conseguiu uma perda de peso média de 5.8 Kg, enquanto os controlos não tratados ganharam em média 0,8 Kg.

Uma meta-análise de 2015 em mulheres com síndrome do ovário poliquístico (doença caracterizada por problemas reprodutivos e metabólicos, com maior tendência para a obesidade e insensibilidade à insulina), foi demonstrado que a intervenção no estilo de vida + metformina foi superior na perda de peso que a intervenção no estilo de vida + placebo.

Uma revisão de 2014 sobre a utilização da metformina na perda de peso refere o seguinte:

“(…) Embora a quantidade de perda de peso após o tratamento com metformina seja clinicamente relevante para a saúde, é mínima (1-5 kg) em relação à quantidade necessária para a maioria das pessoas com excesso de peso e obesidade para atingir o estado do peso saudável. Assim, é improvável que a metformina seja o único agente anti-obesidade necessário para os doentes que precisam perder peso significativo (por exemplo,> 25 kg), e a metformina só deve ser considerada como uma terapia adjuvante para iniciar a perda de peso em doenças relacionadas à obesidade e evitar o aumento de peso devido à utilização de outros medicamentos. Na verdade, alguns estudos preliminares sugerem que a combinação de metformina com o exercício ou outros fármacos antidiabéticos promove maior perda de peso, mas se essa perda de peso tem efeitos clínicos na saúde ainda não foi validada por RCTs. O uso de metformina em conjunto com outros agentes de supressão de apetite como fentermina, topiramato e lorcaserina também parece lógico, mas faltam estudos clínicos de eficácia relativamente à perda de peso.”

Concluindo: A metformina promove a perda de peso, mas deve ser utilizada em conjugação com educação alimentar e exercício físico. Além disso, é um fármaco relativamente bem tolerado. Eventualmente juntando outros fármacos supressores de apetite poderá levar a uma perda de peso superior, mas faltam estudos nesse sentido.

Topiramato Isolado e Topiramato + Fentermina como supressor do apetite

O Topiramato é um fármaco antiepiléptico e estabilizador do humor, usado principalmente para tratar a epilepsia em crianças e adultos entre outras patologias psiquiátricas e neurológicas. Este medicamento também foi estudado noutro tipo de circunstâncias, incluindo o tratamento da obesidade.

Topiramato isolado

Em termos isolados, o topiramato mostrou ser eficaz na perda de peso. Uma meta-análise de 2011 refere o seguinte:

“Os pacientes tratados com topiramato perderam uma média de 5,34 kg (intervalo de confiança de 95%= -6,12 a -4,56 Kg) de peso adicional em comparação com o placebo. De acordo com a análise de meta-regressão, a duração e a dosagem do tratamento foram associadas à eficácia do tratamento com topiramato. Avaliando os ensaios utilizando topiramato na dose de 96-200 mg/dia, a perda de peso foi maior nos estudos com duração superior a 28 semanas (-6,58 kg [IC 95% -7,48-5,68]) em comparação com os estudos com duração inferior a 28 semanas (-4,11 kg [IC 95% -4,92 a -3,30]). Dados de 6620 indivíduos estavam disponíveis para avaliação de eventos adversos e aqueles mais frequentemente observados foram parestesias, alterações do gosto e distúrbios psicomotores “.

Uma revisão sistemática e meta-análise de 2016 com a utilização de topiramato em doentes com diabetes mellitus conclui:

“O topiramato diminuiu o peso em média 3,4 kg (IC 95%, -3,79 a -3,04) em comparação com placebo. Também se verificou uma redução média de HbA1c de -0,4% (IC 95%, -0,58 a -0,32) e redução média do IMC – 1,43 kg/m2 (IC 95%, -1,83 a -1,03), estatisticamente significativa.(…) A monoterapia com topiramato reduziu o peso nos doentes obesos com diabetes tipo 2, mas aumentou os eventos adversos incluindo eventos adversos graves. Dadas essas preocupações de segurança e a ausência de dados em parâmetros de eficácia clinicamente significativos, os médicos devem evitar o uso de topiramato em monoterapia para essa indicação “.

Concluindo: Topiramato em monoterapia é eficaz na dose de 100 a 200 mg/dia. No entanto, é preciso ponderar muito bem a sua utilização dados os efeitos adversos importantes associados a esta medicação.

Topiramato + fentermina

A fentermina é um derivado da anfetamina utilizado como supressor de apetite. Em 2012, a combinação entre o topiramato e fentermina foi aprovado pela FDA para o tratamento da obesidade, após essa licença ter sido negada em 2010 por insuficiência de dados sobre o perfil de segurança desta combinação de medicamentos. No entanto, esta associação não foi aprovada pela Agência Europeia do Medicamento devido a preocupação relativas à sua segurança.

Relativamente à sua capacidade para promover a perda de peso, parece ser bastante eficaz. Um estudo de revisão de 2015, refere o seguinte:

“O estudo EQUIP avaliou 1267 pacientes obesos com IMC> 35 kg/m2 durante um período de 56 semanas. Os pacientes foram divididos em 3 braços de tratamento: um que recebeu 3,75/23 mg de fentermina-topiramato, o segundo braço a combinação de 15/92 mg e o terceiro recebeu placebo. A percentagem média de perda de peso a partir da linha de base (no grupo de dose máxima) foi de 14,4%, enquanto 67% dos pacientes perderam pelo menos 5% de peso e 47% perderam pelo menos 10% de peso corporal. O estudo CONQUER avaliou a segurança e a eficácia da combinação em 2487 pacientes com IMC ≥27 e ≤ 45 kg/m2. Os doentes receberam 7,5/46 mg ou 15/92 mg de fentermina-topiramato ou placebo durante um período de 56 semanas. A percentagem média de perda de peso da linha de base (no grupo de dose máxima) foi de 12,4%, enquanto 70% dos pacientes perderam pelo menos 5% de peso e 48% perderam pelo menos 10% de peso corporal. O estudo EQUATE demonstrou a superioridade dessa combinação sobre qualquer um dos componentes de forma isolada. O estudo SEQUEL, uma extensão de dois anos do estudo CONQUER, confirmou a perda de peso sustentada durante este período juntamente com a melhora no perfil cardio-metabólico.”

Concluindo: A associação parece ser claramente eficaz na redução de peso, conseguindo resultados bastante interessantes. No entanto, dado que a maioria destes estudos são suportados pela indústria farmacêutica ou realizados por investigadores com ligações bastante intensas com a indústria, os resultados efetivos desta associação poderão não ser assim tão bons. Aguardam-se estudos independentes.

Bupropiona e Bupropriona + Naltrexona para perda de peso

Bupropriona Isolada

A Bupropiona é habitualmente usada como antidepressivo ou sedativo. Possui uma modo de ação único, inibindo a recaptação de noradrenalina e dopamina, tendo um efeito sinérgico potencial quando usado com os antidepressivos mais comuns, como inibidores seletivos de recaptação serotonérgica (SSRIs).

No entanto, tem existido um interesse cada vez maior na sua utilização como promotor da perda de peso. Em 2005 uma revisão da evidência refere que a bupropiona utilizada de forma isolada poderá ter um efeito modesto na perda de peso, com uma perda aproximada de 2.7 Kg em comparação com o placebo.  Uma revisão de 2007 demonstra uma perda de peso na ordem dos 2.7 a 3.7Kg a 6 meses. As doses usadas rondavam os 300-400 mg/dia.

Bupropiona + Naltrexona

A Naltrexona é um fármaco que inibe a ação dos opióides a nível central. Habitualmente é utilizado para tratar dependências, como dependência alcoólica de heroína.

O mecanismo de ação da combinação da buproprina + naltrexona não é compreendido na totalidade. Pensa-se que têm um efeito sinérgico no hipotálamo e no circuito mesolímbico da dopamina, promovendo a sensação de saciedade, reduzindo a ingestão alimentar e aumentando o consumo de calorias.

Um estudo de revisão de 2016 demonstra uma redução de 3.7%-8.1% do peso corporal, em comparação com o placebo, na dose de 32 mg de Naltrexona + 360 mg de Bupropiona, com 36%-57% dos doentes a conseguir perder mais 5% do peso corporal, ao final de 56 semanas de tratamento.

Outro estudo de revisão de 2016 coloca a eficácia da combinação nos 8%, comparando com 1.5% quando utilizado o comprimido placebo. Quando existe uma intervenção intensa no estilo de vida, os valores atingem os 11% comparado com 7% no doentes que tomaram o placebo.  Nos diabéticos, esta combinação parece ser menos eficaz (6% versus 2% com o placebo), não sendo conhecida a causa dessas diferenças.

Concluindo: Esta combinação parece ser eficaz na promoção do emagrecimento, atingindo resultados interessantes. No entanto, foi aprovado pela FDA apenas em 2014. Ou seja, assim como a combinação do topiramato + fentermina, estes estudos foram todos financiados pela indústria farmacêutica, não existindo estudos independentes de avaliação da eficácia destes tratamentos. Os estudos foram bem conduzidos, mas aguardam-se estudos independentes que confirmem estes valores.

Orlistat para emagrecer

O orlistat foi um medicamento criado especificamente para a promoção da perda de peso. É um inibidor das lipases, impedindo que a gordura alimentar seja absorvida (cerca de 30% da gordura não é absorvida a cada refeição). No entanto, dado que esta medicação apenas inibe a absorção de gordura, não vale a pena tomar o medicamento em refeições sem gordura, como o próprio folheto informativo indica:

“Orlistato só atua em presença de gordura proveniente dos alimentos. Por conseguinte, se não tiver tomado uma refeição ou se tomar uma refeição que não contenha gorduras, não precisa de tomar Orlistato.”

Relativamente à sua eficácia, uma revisão da Cochrane de 2004 demonstra que o medicamento é modestamente eficaz, com uma perda média de 2.9Kg (IC 95%: 2.5 a 3.2 kg). Uma revisão de 2015 confirma, com perda de 3 Kg ao final de um ano, comparando com o placebo.

Uma revisão sistemática e meta-análise de 2015 verificou a eficácia do orlistat em doentes diabéticos, tendo concluído que o orlistat leva a uma redução média global do peso (3, 6 e 12 meses) de -4,25 kg (IC 95%: -4,5 a -3,9 kg). A diferença média de peso entre o grupo de tratamento e o grupo controlo foi de -2,10 kg (IC 95%: -2,3 a -1,8 kg, P <0,001).

Uma revisão sistemática de 2016 que comparou o orlistat com a metformina conclui que ambos são igualmente eficazes na perda de peso em mulheres com síndrome do ovário poliquístico.

Concluindo: O Orlistat é uma boa opção para a perda de peso. O problema é ser um medicamento caro e ainda por cima é necessário tomá-lo cerca de três vezes ao dia (refeições principais, se contiverem gordura). É relativamente bem tolerado, sendo que os principais sintomas são gastrointestinais, causados pela não absorção de gordura.

Liraglutida para perda de peso

liraglutida, também conhecido como Victoza, medicamento utilizado no controlo da diabetes tipo 2, atua sobre os receptores da GLP-1, estimulando a libertação de insulina. Verificou-se que este medicamento também tem efeitos relevantes na promoção da perda de peso. Uma revisão de 2017, conclui que a liraglutida é pelo menos tão eficaz como as outras opções do mercado, levando a uma perda de peso que ronda os 4 a 6Kg, tornando-o uma opção válida no tratamento da obesidade, principalmente em diabéticos tipo 2.

No entanto, dado que este medicamento é relativamente recente, a maioria dos estudos são patrocinados pela indústria farmacêutica, pelo que importa ter alguma cautela na interpretação da magnitude dos efeitos deste medicamento.

Concluindo: A liraglutida parece ser uma opção eficaz no tratamento da obesidade, principalmente em doentes com diabetes tipo 2. O problema será o seu custo e o facto de ser um injetável, o que não é uma opção para muitos doentes.

Dapagliflozina para perder peso

Dapagliflozina é um novo fármaco para o tratamento da diabetes tipo 2 com um mecanismo de ação peculiar. Atua nos transportadores SGLT2 do rim, bloqueando a sua ação. Sabendo que estes transportadores são responsáveis por 90% da reabsorção da glicose filtrada pelo rim, faz com que as pessoas urinem, literalmente, açúcar. Dado que há uma perda de calorias por esta via, a sua capacidade de promoção na perda de peso faz todo o sentido. E, de facto, os estudos parecem apontar nesse sentido, com uma eficácia equivalente à maioria dos fármacos falados anteriormente (artigo e artigo). O problema é que ter uma urina rica em açúcar aumenta o risco de infeções urinárias e genitais principalmente nas mulheres, apesar desse risco parecer ser relativamente reduzido.

Concluindo: A Dapagliflozina parece ser eficaz na perda de peso. Mas dado ser um fármaco relativamente recente, será aconselhado aguardar mais estudos para confirmar a segurança do mesmo e a sua eficácia na perda de peso.

Mas destes medicamentos, qual é o melhor para perder peso?

Não existe nenhum estudo que faça uma comparação direta entre fármacos. Apenas entre um determinado fármaco e o placebo. Também não existe nenhum estudo que inclua todos os fármacos citados anteriormente, avaliando a sua eficácia de forma indireta. A Dapagliflozina, por exemplo, não foi incluída em nenhuma comparação.

No entanto, apesar destas limitações, foi realizada em 2016 uma meta-análise de vários tratamentos disponíveis, que refere o seguinte:

“Nos adultos com excesso de peso ou obesidade, o orlistat, lorcaserina, naltrexona-bupropiona, topiramato-fentermina e liraglutida, em comparação com o placebo, foram associados a uma perda de peso de pelo menos 5% às 52 semanas. A associação topiramato-fentermina e a liraglutida foram associados com a maior probabilidade de alcançar pelo menos 5% de perda de peso.”

Por outro lado, outra revisão feita em 2016 não encontrou um claro vencedor, referindo que a opção dos medicamentos deve ser individualizada. Uma Cochrane de 2016 avaliou a evidência e coloca a associação topiramato-fentermina em primeiro lugar em doentes com hipertensão. Mas neste caso apenas foi considerado o topiramato e sibutramina (este foi retirado do mercado, dado o seu perfil de segurança controverso).

Em termos de tolerância, a associação topiramato-fentermina parece ser mais aceitável que a liraglutida.

Dado a falta de dados comparativos seguros, as opções de tratamento devem ser individualizadas de acordo com o perfil do doente (se tem diabetes, se tem hipertensão, se existe compulsão alimentar ou sintomas depressivos, etc.).

Então, a utilização de manipulados ajuda a perder peso?

Apesar dos manipulados utilizarem componentes com eficácia demonstrada na promoção da perda de peso (outros não têm qualquer tipo de interesse objetivamente demonstrado como a centelha asiática, a alcachofra e o citrus aurantium), estes manipulados habitualmente utilizam estes fármacos em doses muito reduzidas.

Como vimos pelos exemplos acima, usam metformina a 270 mg (quando as doses que demonstram eficácia são quase 10x superiores); usam bupropiona a 75-100mg (quando as doses eficazes rondam os 300-400 mg); as doses de topiramato rondam habitualmente os 25-50 mg (quando as doses eficazes se encontram entre os 100-200mg).

No entanto, dado que usam vários componentes de forma simultânea, poderá existir um efeito sinérgico entre os princípios ativos. Por isso, é difícil dizer se são ou não eficazes. Não há estudos sobre isso e nunca haverá, dado que cada manipulado varia de guru para guru e muitas vezes de acordo com o doente em questão. Na minha opinião pessoal, tendo em consideração esta utilização sub-terapêutica dos fármacos, é bastante questionável a sua utilidade.

Mas então porque é que tantas pessoas recorrem a estes gurus? Só pode funcionar! Esta é uma lógica errada. Recorrem a estes gurus da mesma forma que muitas pessoas vão ao homeopata, ao acupunturista e ao terapeuta de Reiki. Existem demasiados viés que interferem com a avaliação da eficácia destes tratamentos. Um exemplo básico é a amostra pré-seleccionada que recorre a estas consultas. Quem está disposto a pagar 50-100 euros por uma consulta mais 50-100 euros por um frasquinho de comprimidos manipulados é porque está muito motivado para perder peso. E essa motivação é fundamental para aderir a uma dieta hipocalórica e a um “regime” de atividade física prescrita pelo guru.

Sim…porque estes fármacos, quando estudados, são sempre associados a dietas hipocalóricas e prescrição de exercício físico. Estes fármacos não “emagrecem” por si só…ajudam a emagrecer caso hajam alterações do estilo de vida associadas. Se continuar a comer o mesmo e a ter o mesmo nível de atividade física, não irá perder peso (salvo raras excepções). Sobre calorias aconselho a leitura deste artigo.

Concluindo

Esta área da prescrição de medicamentos para a perda de peso é extremamente complexa e roça questões éticas importantes, dada a utilização off-label de um grande número de fármacos, os quais têm efeitos secundários importantes. Aliás, mesmo alguns destes medicamentos aprovados para a obesidade continuam a ser muito controversos. É uma área muito cinzenta…

Caso queira arriscar, optar pelos “gurus dos manipulados” é estar a entrar numa área cinzenta dentro de uma área cinzenta. Vai estar a utilizar medicamentos off-label em doses não terapêuticas. É estar a pagar por fórmulas de eficácia duvidosa, com efeitos secundários desconhecidos. Se é para tomar medicação, então a melhor opção será olhar para o doente de forma individualizada e escolher um ou dois medicamentos em dose terapêutica que se sabe, pela evidência, que de facto funcionam.

No entanto, não esquecer que sem o compromisso de realizar uma dieta baixa em calorias e, de preferência, intensificar a atividade física, estar a fazer estes medicamentos pouco interesse terá.

O primeiro passo para emagrecer é estar realmente motivado para o fazer.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar