evidência científica sobre criopreservação de sangue do cordão umbilical

Criopreservação de Células Estaminais do Cordão Umbilical: Sim ou Não?

admin Células Estaminais, Geral, Planeamento Familiar Leave a Comment

Quem é pai sabe que queremos o melhor para os nossos filhos. Queremos garantir que têm um futuro risonho e investimos bastante para que isso aconteça. Esse investimento começa mesmo antes da criança ser concebida. Ir ao médico de família fazer análises pré-concepcionais para garantir que estão nas melhores condições para engravidar; por vezes (principalmente as mães), deixam de fumar ; começam a tomar o ácido fólico ou multivitamínicos; têm uma alimentação mais cuidada; muitas vezes são duplamente seguidos, no médico de família e pelo(a) ginecologista, “para que nada falhe”, muitas mães fazem desnecessariamente mais que três ecografias para “garantir que está tudo bem”, etc.

Tudo para aumentar a probabilidade que a criança nasça saudável. No entanto, devido a esta preocupação, por vezes as decisões tomadas são emocionais e não racionais. E uma dessas decisões será a criopreservação do sangue de cordão umbilical ao nascimento.

Criopreservação de sangue do cordão umbilical

O primeiro transplante de células de cordão umbilical foi realizado nos finais dos anos 80. Uma criança com anemia de Fanconi foi tratada com sucesso utilizando sangue de cordão umbilical da irmã, que era compatível e não sofria da doença. Desde aí a tecnologia nesta área avançou consideravelmente. Hoje em dia, sangue do cordão umbilical poderá, em teoria, ser utilizado para tratar principalmente quatro tipos de patologias: (1) alguns tipos de cancro, (2) doenças hematológicas, (3) doenças metabólicas e (4) imunodeficiências.

Com o avançar da tecnologia assistimos igualmente à proliferação de bancos públicos e privados de criopreservação de sangue do cordão umbilical. No caso dos bancos públicos, as doações de sangue de cordão umbilical tendem a ser gratuitas e as amostras estão habitualmente acessíveis a toda a comunidade. No caso dos bancos privados, os pais pagam na ordem dos 1000 a 2500€ para criopreservar as células dos bebés, achando que será uma espécie de apólice de seguro da saúde dos filhos. A isto ainda está muitas vezes associado o pagamento de uma anuidade para manutenção da amostra. Portanto, é um “seguro” bastante caro e a utilização do sangue de cordão umbilical é habitualmente exclusiva para o dador e os seus familiares.

Mas antes de falarmos das diferenças dos bancos públicos e privados de forma mais detalhada, é importante compreender os conceitos de transplante autólogo e heterólogo.

A diferença entre transplante autólogo versus transplante heterólogo

Autólogo significa que o transplante é realizado com as células da própria pessoa.

Heterólogo ou alogénico significa que o doente recebe células compatíveis de outro dador.

Estes dois tipos de transplante têm vantagens e desvantagens associadas. Por exemplo, no caso do cancro, existem várias vantagens na utilização do transplante autólogo em comparação com o transplante heterólogo/alogénico. Pode estar imediatamente disponível e não há necessidade de identificar um dador compatível; este tipo de transplante tem menor risco de complicações; não há risco de doença do enxerto contra o hospedeiro, em que as células transplantadas começam a atacar o organismo do doente; não há necessidade de terapia imunossupressora por forma a garantir que as células transplantadas não atacam o organismo ou que o organismo rejeita as células transplantadas; a reconstituição imunológica é mais rápida do que após um transplante heterólogo/alogénico; existe um risco menor de infecções oportunistas; a falha do transplante ocorre raramente; a mortalidade relacionada ao tratamento é menor que 5% na maioria dos estudos; os pacientes idosos podem tolerar o tratamento relativamente bem.

No entanto, os transplantes autólogos apresentam vários inconvenientes. O principal será a ausência do efeito imunomediado do enxerto versus malignidade. No caso do transplante heterólogo/alogénico, verifica-se que as células de outro dador compatível ajudam a combater as células cancerígenas do doente. Por essa razão, na maioria das neoplasias malignas, as taxas de recaída são maiores após o transplante autólogo do que após o transplante alogénico, embora isso seja frequentemente compensado por uma menor taxa de mortalidade relacionada com o transplante autólogo. Além disso, o transplante autólogo não serve para todos os cancros. Por exemplo, no caso da leucemia em idade pediátrica, os jovens não podem ser tratados com o próprio sangue do cordão umbilical porque, segundo a ciência disponível, os precursores da leucemia estão geralmente presentes nessas amostras.

Nas perturbações metabólicas, doenças hematológicas (como beta-talassemia ou anemia falciforme) e imunodeficiências congénitas temos o mesmo problema. A utilização do transplante autólogo é habitualmente inútil dado que o defeito genético está presente também nestas células. Nestes caso é utilizado o transplante heterólogo.

Mas o sangue de cordão umbilical tem alguma vantagem?

Os transplantes de células hematopoéticas já era realizado antes de percebermos que tais transplantes poderiam ser feitos com o sangue de cordão umbilical. Esses transplantes podia ser feitos com recurso a (1) células-tronco da medula óssea ou então à (2) filtração do sangue periférico após estimulação com fatores de crescimento.

Quando temos um doente que precisa de um transplante, o primeiro passo é tentar encontrar alguém que seja totalmente compatível. Um irmão de uma pessoa doente tem 25% de probabilidade de ser totalmente compatível. Caso o irmão não seja totalmente compatível, então procura-se numa base de dados pública alguém que seja totalmente compatível. Mas isso não é fácil…é um processo que demora tempo e tais dadores podem não estar disponíveis. Caso não se encontre alguém totalmente compatível, então tenta-se encontrar alguém que seja parcialmente compatível. É mais fácil de encontrar este tipo de dadores mas existe um risco maior de complicações, como a doença do enxerto contra o hospedeiro, o que leva a maior mortalidade. É aqui que o sangue do cordão entra em ação.

Primeiro, o sangue de cordão umbilical é disponibilizado com maior rapidez porque os testes de segurança e genética já foram feitos. Não há necessidade de regimes preparatórios para a colheita de sangue periférico de um dador ou mesmo sujeitar o dador ao procedimento doloroso de obtenção de células-tronco da medula óssea. Não há risco para o bebé ou para a mãe com a aquisição de sangue do cordão umbilical no momento do nascimento. O transplante de sangue do cordão umbilical também terá menos probabilidade de transmitir qualquer infecção à pessoa que dele necessita.

Mas o maior benefício será o menor risco de doença de enxerto versus hospedeiro quando comparado com o transplante de células-tronco de medula óssea ou de sangue periférico, perante circunstâncias de compatibilidade semelhantes. Isto leva a uma maior probabilidade de sobrevivência do doente e menor morbilidade comparado com o transplante de células-tronco da medula óssea ou do sangue periférico.

Qual a probabilidade de utilizar as células do cordão umbilical, segundo os bancos privados?

É preciso compreender que os bancos privados assentam num modelo empresarial. O objetivo é oferecer um serviço (criopreservação das células de cordão umbilical) em troca de dinheiro. E quando assim é, o marketing é mais agressivo e por vezes enganador. Por exemplo, uma das afirmações recorrentes feitas pelos bancos privados de criopreservação de células de cordão umbilical é que poderá ser usado para tratar cerca de 80 doenças (artigo e artigo). No entanto, esta afirmação, apesar de não ser falsa, é uma simplificação de uma questão complexa.

Primeiro, é preciso perceber que a maioria dessas 80 doenças são raras. Na realidade, se juntarmos todas essas doenças, a probabilidade de uma criança poder vir a precisar de qualquer tipo de transplante de células-tronco (seja autólogo ou heterólogo) até aos 20 anos, é de 1 em cada 1.700 crianças ou 0,06% (figura abaixo). E este cálculo diz respeito às células provenientes do cordão umbilical, da médula óssea ou sangue periférico, num cenário ideal.

Quando consideramos apenas o transplante autólogo, a probabilidade passa para 1 em cada 5000 crianças ou 0.02% até aos 20 anos de idade. Mais uma vez, considerando todas as origens de recolha de células estaminais e a utilização num cenário ideal. Isto usando como referência o artigo mais recente sobre o tema:

qual a probabilidade de precisar de sangue do cordão umbilical

Ou seja, a probabilidade de uma pessoa necessitar do sangue de cordão umbilical é muito baixa. É verdade que a probabilidade de alguém precisar de um transplante de células hematopoéticas vai aumentando com o passar da idade. Mas neste momento não há garantias que uma amostra de sangue de cordão umbilical tenha boa qualidade passados 20-25 anos de armazenamento. Portanto, estar a contar com isso é especulação, neste momento.

Mas mesmo esta probabilidade é enganadora no que diz respeito aos bancos privados. Isto porque a utilização das amostras armazenadas nos bancos privados servem exclusivamente para serem utilizadas pelo dador ou pelos seus familiares. E isto não é um cenário ideal de utilização, já que o cenário ideal seria a utilização por qualquer pessoa na comunidade que seja compatível com essa doação.  Tal apenas acontece com os bancos públicos. Talvez por isso se tem verificado que as células de cordão umbilical presentes nos bancos públicos têm 30 vezes maior probabilidade de serem utilizadas que as amostras armazenadas no banco privado. E isto apesar dos bancos privados terem seis vezes maior número de amostras conservadas. É fácil de perceber porquê, já que as amostras do banco público estão disponíveis para toda a gente.

Em termos práticos, quais são as limitações das células de cordão umbilical armazenadas nos bancos privados?

Vamos supor que temos uma criança doente que precisa de um transplante alogénico. Esse doente tem um irmão que guardou o sangue de cordão umbilical num banco privado. Os pais ficam todos contentes. No entanto, precisamos de ultrapassar vários passos para perceber se essa amostra é útil ou não.

Primeiro, como falamos antes, a probabilidade de um irmão ser totalmente compatível é de 25%. Tem 50% de ser parcialmente compatível e 25% de ser totalmente incompatível. Ou seja, ter o sangue de cordão umbilical criopreservado não dá garantias que possa ser utilizado pelo irmão doente.

Depois temos a questão da quantidade e da qualidade do sangue de cordão umbilical criopreservado. Primeiro, a quantidade (de 50 a 200 mL) habitualmente dá para fazer apenas um único transplante numa criança ou adulto pequeno. Verificou-se que apenas 8-12% das amostras têm células suficientes para fazer um único transplante num adulto de 80 Kg.  Isto é ainda mais relevante quando sabemos que o risco de falha do enxerto é maior nas células-tronco do sangue do cordão umbilical em comparação com as alternativas.

E isto é na melhor das hipóteses, dado que muitas vezes estas amostras não podem ser utilizadas porque não existe quantidade suficiente de sangue armazenado. E este problema poderá ser pior no futuro, já que esperar até cerca de dois minutos após o nascimento do bebé para clampar o cordão umbilical permite que mais sangue passe da placenta da mãe para o bebé, o que reduz o risco de deficiência de ferro durante a infância (artigoartigo). Isso é positivo para o bebé. Mas o atraso em clampar o cordão umbilical pode reduzir a quantidade de sangue que irá ser criopreservada para uma eventual utilização futura.

Mas para além de ser necessário que a amostra tenha quantidade suficiente de sangue, é também necessário que tenha boa qualidade. Para o transplante funcionar, é necessário que a amostra tenha células de alta qualidade e que não esteja infetada com bactérias ou outros agentes que possam comprometer o sucesso do transplante. Num banco público, apenas 25 a 40% das amostras cumprem esses critérios de qualidade. Num banco privado, essa qualidade é ainda mais baixa. É que ao contrário do banco público, que descarta as amostras que não têm qualidade suficiente ou utilizam as amostras para investigação, os bancos privados não são obrigados a fazê-lo, mesmo se as amostras não cumprirem os critérios de qualidade. Essa qualidade varia de banco para banco, sendo que apenas 18% das amostras nos bancos privados eram conservadas em nitrogénio líquido, que é a melhor forma de conservação. Além disso, as amostras dos bancos privados tinha bactérias presentes em 7.6% dos casos, enquanto que no banco público apenas 0.5% das amostras estavam contaminadas.

Ou seja, a garantia que os bancos privados dão aos pais, esse “seguro de vida”, tem muitas limitações que não aparecem nos folhetos de marketing.

Além disso, os bancos privados são muito pouco transparentes nas taxas de utilização das amostras que armazenam. Um estudo publicado na Nature fez uma avaliação utilizando os dados disponíveis e não nos dá grande confiança relativamente à utilidade do armazenamento do sangue de cordão umbilical nestes bancos privados. A maioria dos transplantes autólogos realizados recorrendo ao sangue de cordão umbilical criopreservado em bancos privados era para doenças não validadas para a sua utilização. Em 82% dos casos estava relacionada com lesões cerebrais. Portanto, parece que existe uma utilização pouco racional das amostras armazenadas em bancos privados.

utilizacao indevida de sangue do cordao umbilical

Também houve utilização em ensaios clínicos para tentar tratar a diabetes tipo 1, mas os resultados não foram animadores. No caso de transplantes alogénicos a familiares já parece existir uma utilização mais racional, sendo as amostras usadas para tratar cancro, hemoglobinopatias como a talassemia e a doença falciforme e doenças genéticas como a anemia de Fanconi, distúrbios metabólicos e imunodeficiências.

utilizacao alogénica sangue corda umbilical - banco privado

O que dizem as entidades internacionais

Posto isto, as agências que avaliaram esta opção de armazenamento de células de cordão umbilical nos bancos privados, como a American Academy of Pediatrics, a American College of Gynecologists (ACOG) e a American Society of Blood and Marrow Transplantation desencorajam essa opção. A única excepção é caso os pais já tenham uma criança doente que possa beneficiar das células do cordão umbilical do irmão recém-nascido. De resto, não recomendam. Recomendam sim a doação a bancos públicos de criopreservação de sangue do cordão umbilical.

E mesmo no caso dos pais que têm uma criança doente, a opção de armazenamento e tratamento por forma a ser utilizada poderá estar disponível nos bancos públicos, de forma gratuita. Mas aqui, já poderá haver importantes variações entre países.

Mas Portugal tem um Banco Público para Criopreservação de Células do Cordão Umbilical?

Como percebemos acima, os bancos públicos de criopreservação parecem comportar-se melhor na qualidade de amostras preservadas e na utilização dessas mesmas amostras. E as agências que se debruçaram sobre este tema recomendam o investimento nos bancos públicos de criopreservação de células de cordão umbilical. Ou, eventualmente, um sistema híbrido.

Portugal supostamente tem um banco público de criopreservação de células de cordão umbilical. No entanto, a história é muito complicada. O Jornal Público fez vários artigos sobre o assunto, que eu tentarei encaixar por forma a percebermos melhor o que se está a passar. Começamos por esta cronologia publicada em 2016:

Julho de 2009 – O primeiro e único banco público português de armazenamento de células estaminais do cordão umbilical foi inaugurado, o Lusocord;

Maio de 2012 – A directora do Lusocord, a especialista em imuno-hemoterapia Helena Alves, alerta que as amostras de sangue do cordão umbilical criopreservadas no banco público ainda não estavam a ser usadas para tratamento porque a instituição estava sem trabalhadores. Dos dois milhões de euros previstos no Orçamento de Estado para 2011, o banco tinha recebido apenas 500 mil.  A polémica motivou audições parlamentares, nas quais Helena Alves denunciou que empresas privadas estariam a pagar entre 800 a 1000 euros/mês a profissionais de saúde de hospitais públicos para que promovessem os seus serviços, em detrimento do incentivo à doação para o banco público. Hoje, Helena Alves remete-se ao silêncio. E da investigação que a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) prometeu então instaurar não se conhecem quaisquer conclusões.

Julho de 2012 – Em resposta a uma pergunta do PSD, com data de 23 de Julho, o Ministério da Saúde (MS) informa que a Autoridade para os Serviços do Sangue e da Transplantação (ASST) tinha feito em 2011 uma inspecção ao Lusocord tendo identificado “não conformidades” que obrigaram à suspensão da “distribuição, circulação e importação” de sangue do cordão. Já então, o Ministério da Saúde adiantaria que, no âmbito da fusão do Centro de Histocompatibilidade do Norte no Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST), o Lusocord passaria “em princípio” para a tutela deste organismo. Helena Alves acusa o Governo de “falta de noção ou má-fé” e explica que a inspecção que detectou as alegadas desconformidades partira de um pedido seu que visava reforçar os apelos ao reforço dos recursos humanos que vinha fazendo desde 2009.

Agosto de 2012 – O Ministério da Saúde diz que colheitas de células do sangue do cordão umbilical estão suspensas, mas Helena Alves nega ter recebido qualquer ordem nesse sentido e garante que continuam a distribuir kits e a fazer 40 colheitas por dia, em média. O IPST passa a integrar na sua estrutura orgânica o Centro de Histocompatibilidade do Norte e, consequentemente, o Lusocord.

Setembro de 2012 – Helena Alves é afastada do cargo de directora do Centro de Histocompatibilidade do Norte e do Lusocord, no mesmo dia em que criticou a forma como o IPST decidira suspender a actividade do banco por “60 a 90 dias”.  Hélder Trindade garante que a ideia nunca foi “assassinar o banco público”, destinando-se a suspensão da sua actividade a permitir a reorganização dos serviços e repensar uma metodologia que permita retirar o máximo aproveitamento das amostras. Trindade dizia então poder retomar as colheitas até ao final de 2012 ou até antes. O Lusocord fizera até então 28.500 colheitas e criopreservara 8000 amostras, o dava uma “taxa de reprovação” de amostras na ordem dos 70%, que Hélder Trindade qualificou como “muito alta”. Helena Alves alega que estes valores correspondem “à média dos bancos mundiais com critérios de qualidade mais apertados”. E reitera que nenhuma das oito mil amostras criopreservadas fora libertada “por falta de pessoal para completar as análises e fazer a respectiva classificação genética”.

Junho de 2014 – Direcção-Geral de Saúde autoriza a reactivação do banco público de criopreservação de células do cordão umbilical.

Maio de 2016 –  a Lusocord anuncia que foram colhidas 3122 amostras de sangue do cordão umbilical, tendo sido criopreservadas 463, ou seja, 14,8%, o que dá uma taxa de reprovação de 85%. Os responsáveis do banco público alegam agora que a taxa de aproveitamento “é semelhante à que ocorre noutros bancos públicos com as mesmas exigências de segurança e qualidade” e que ronda “os 10 a 11% das colheitas”. As colheitas são feitas apenas no Porto, nos hospitais de S. João, Centro Hospitalar do Porto, e em Matosinhos, no Hospital Pedro Hispano. O Lusocord assevera ainda que “já se preparou a equipa de colheitas” no hospital Amadora-Sintra.

Concluindo: a Lusocord era um serviço subfinanciado, com falta de pessoal, que nunca conseguiu realmente arrancar. Helena Alves foi suspensa porque, supostamente, a taxa de reprovação das amostras colhidas era muito alta. No entanto, em 2016 a taxa de reprovação das amostras colhidas era muito superior à de 2012…ironia…

No meio desta confusão, surge o Conselho Nacional de Ética

Em Dezembro de 2012 o jornal Público noticiava a posição do Conselho Nacional de Ética sobre os bancos privados de criopreservação de células de cordão umbilical em defesa do Banco Público, dizendo que:

“A conservação do sangue e tecido do cordão umbilical e placenta em bancos privados “assenta num modelo comercial”, por oposição aos “princípios do altruísmo” subjacentes aos bancos públicos. Tem também “critérios de selecção e qualidade menos estritos” e “promessas de aplicações irrazoáveis”. (…)

Sobre as tais promessas “irrazoáveis” o geneticista Jorge Sequeiros, um dos relatores do parecer, é claro: “Prometem o que não podem cumprir.” “Alguns chegam mesmo a usar o termo seguro de vida”, critica o especialista. Na lista das promessas estão, por exemplo, hipotéticas respostas para doenças (diabetes comum ou degenerativas) que só surgem na idade adulta, isto quando o período de conservação das amostras é de 20 a 25 anos.

Por outro lado, um dos problemas mais graves está relacionado com os “pacotes” que mais recentemente começaram a ser vendidos por estas empresas e que incluem uma “bateria” de testes genéticos aos recém-nascidos para obter dados sobre eventuais susceptibilidades (desde incompatibilidades alimentares a doenças hereditárias). “São testes que, nalguns casos, têm um valor preditivo muito reduzido, para não dizer nulo”, alerta Jorge Sequeiros. Há uma empresa que promete, por exemplo, um rastreio a nada menos que 101 doenças, e algumas delas são detectadas com o “teste do pezinho” que é feito a todos os bebés.

Além disso, segundo Jorge Sequeiros, há ainda outra preocupação: os dados dos bancos públicos mostram que apenas entre 20 a 40% das amostras colhidas têm “qualidade” para ser utilizadas, isto apesar de os bancos privados receberem – na maioria dos casos por valores que ultrapassam os mil euros – por todas as amostras colhidas.”

Concluindo: os bancos privados cobram aos pais, recolhem e conservam amostras que poderão não ter qualidade suficiente para ser utilizadas no futuro, para além da oferta de serviços que não têm qualquer validade.

Em Julho de 2016 o jornal Público voltou a pegar nesta questão, após a informação que as amostras no banco público de criopreservação de células de cordão umbilical ainda não chegava as 500 amostras e que o silêncio seria uma “cedência aos bancos de criopreservação privados“. Em 2016 o ex-presidente do Conselho Nacional de Ética foi novamente citado, garantindo que o parecer que tinha dado em 2012 se mantinha muito atual:

“Miguel Oliveira e Silva foi, até ao ano passado, presidente do CNECV. Garante que o parecer emitido em 2012 continua muito actual. E lamenta que, quatro anos depois, o Governo nada tenha feito. “Anda tudo silencioso há demasiados anos. E com isto deixa-se que impere a lei do marketing destes laboratórios privados que acenam com hipóteses mirabolantes de utilização remota e que criam uma culpabilidade nas grávidas que não recolhem o sangue do cordão umbilical. O Ministério da Saúde, ou a Direcção-Geral da Saúde, deviam ter a coragem de pegar no parecer do CNECV e fazer um guideline sobre isso, tal como faz sobre o iodo, o ferro ou as ecografias na gravidez”, acusa. Para Miguel Oliveira e Silva, o Estado, que “tem a obrigação de vigiar e moralizar isto, não faz nada, zero”. E por que é que assim é? “Porque são laboratórios poderosíssimos e muita gente depende deles, directa ou indirectamente. Fica tudo caladinho”.

Em Outubro de 2012, data em que o parecer do CNEVC foi emitido, já os bancos privados de criopreservação das células estaminais beneficiavam da confusão em que se arrastava o banco público, a Lusocord. Das 28.500 amostras de células do cordão umbilical recolhidas deste que o banco fora criado, em 2009, apenas oito mil tinham sido criopreservadas. Mais de 70% tinham sido desaproveitadas. E a taxa de reprovação das amostras fora  um dos motivos para a suspensão da actividade do banco (juntamente com alegadas desconformidades na colheita das amostras e irregularidades do foro financeiro), com a promessa da sua reactivação dentro de poucos meses, mas já sob alçada do Instituto Português do Sangue e da Transplantação (IPST).”

O ex-presidente do CNECV Miguel Oliveira e Silva não precisou de olhar para estes números para dizer que o banco público “está a funcionar muitíssimo mal”. “Há insuficiências que se arrastam há anos, o que é objectivamente uma forma, creio que involuntária, de favorecer os privados. Se o banco do Estado funcionasse bem, os privados não poderiam fazer a propaganda que fazem, quase culpabilizando a grávida que não paga para criopreservar o sangue”, insiste.

O actual presidente do CNECV, João Lobo Antunes, concorda com o seu antecessor. E, em resposta escrita ao PÚBLICO, remete-se ao parecer de 2012 para reiterar que os bancos privados propagandeiam promessas de aplicações das células estaminais “muitas vezes irrazoáveis”. Exemplo? “O tratamento de doenças comuns da vida adulta, quando a conservação se faz a 20-25 anos”. Daí a necessidade de verificar que “as reivindicações de aplicações terapêuticas publicitadas têm validade e utilidade clínica comprovadas”, bem como de “regular e fiscalizar as actividades dos bancos operando em cada um dos Estados e verificar o cumprimento dos padrões internacionais de qualidade”. É que “os bancos privados competem com os públicos pelas mesmas amostras”. E, conclui dizendo que “mais do que dois modelos económicos diversos”, os dois tipos de bancos “oferecem serviços de saúde que não são os mesmos e têm uma valoração ética muito diferente”.

No seu consultório, o obstetra Luís Graça, presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal, diz sofrer angústias semelhantes às de Miguel Oliveira e Silva. “Nunca me recusei a fazer uma colheita”, ressalva. “Mas quando as doentes me perguntam, digo logo que tenho quatro netos e que o meu filho é pediatra e nenhum deles fez colheita de células estaminais”. Defensor de um banco público, “em que as células estaminais poderão servir para qualquer eventualidade futura, seja quem for a criança”, Graça lamenta que os laboratórios privados tenham transformado a recolha de células estaminais num negócio. “As pessoas devem fazer seguros para riscos concretos, não para riscos putativos, principalmente quando temos a alternativa dos bancos públicos de células estaminais espalhados por todo o mundo, a maior parte dos quais fornece células para diferentes receptores sem cobrar nada ao doente”.

Portanto, em 2016 pouco tinha mudado. O banco público continuava subfinanciado, a funcionar mal e limitado à recolha de amostra em alguns hospitais, com uma taxa de rejeição das amostras muito alta. Tanto o Presidente atual como o antecessor do Conselho Nacional de Ética para as Ciências da Vida e o Presidente da Sociedade Portuguesa de Obstetrícia e Medicina Materno-Fetal defendem o banco público e consideram os bancos privados de recolha de células estaminais um negócio.

Conclusão

Como um médico referiu a uma seguidora desta blog, investir no armazenamento de células do cordão umbilical num banco privado é “como comprar um terreno na Lua…talvez daqui a muito tempo dê jeito, mas para já não serve de muito.” Principalmente quando a utilização é limitada apenas ao dador e à sua família e a qualidade do produto fica muito aquém da qualidade do produto nos bancos públicos.

Portanto, o que Portugal deveria fazer era apostar fortemente num banco público de criopreservação de sangue de cordão umbilical. É uma vergonha que tal não seja feito, principalmente quando o banco público pode ser auto-suficiente através da venda de amostras a outros países. E, como não é de espantar, os bancos privados fazem promessas e oferecem serviços muito aquém da tecnologia atual. Jogam com os sentimentos dos pais para os convencer a fazer a conservação das amostras. Promovem o medo e o sentimento de culpa.

No entanto, como explicado anteriormente e por todos os pareceres das agências que avaliaram esta situação , pagar para criopreservar as células num banco privado é desperdício de dinheiro.

Assim, atribui 6/10 Trumps ao negócio que são bancos privados de criopreservação de sangue do cordão umbilical. Isto porque se o modelo de negócio se alterar para um sistema híbrido talvez estes bancos possam vir a ser vantajosos.

 

6/10

 

Para quem quiser mais, deixo um vídeo bastante completo sobre esta temática. Infelizmente está em inglês, mas é o único que encontrei que realmente aborda este tema de forma crítica:

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar