Análise crítica ao livro Hormonas o Sumo da Vida

Crítica ao Livro Hormonas: O Sumo da Vida – 1º Parte

admin Cancro, Charlatanice, Geral, Hormonas, Literacia em Saúde, Suplementos Leave a Comment

Chegou o novo livro do Pinto Coelho – “Chegar Novo a Velho – Hormonas: O Sumo da Vida”…

Quem segue o blog sabe que sou crítico das posições tomadas pelo Dr. Pinto Coelho. Acima de tudo porque é um médico que se guia por outros interesses que não a verdade científica e a promoção da saúde dos doentes. E isso torna-se bastante óbvio quando falamos da água do mar (artigo artigo), do jejum intermitente, dieta alcalinadieta cetogénicaintestino porosodesintoxicação plantar e do tratamento do colesterol alto com as malditas estatinas (artigo e artigo).

Infelizmente, quando descobri o Sr. Pinto Coelho já ele tinha vendido mais de 100.000 exemplares de um livro de pseudociência – “Chegar Novo a Velho”…Mas ainda vou a tempo de falarmos deste novo livro e alertar as pessoas que estejam interessadas em adquiri-lo. Podem fazê-lo, mas ao menos terão direito ao contraditório.

Sendo assim, vamos fazer uma análise crítica ao livro “Hormonas: O Sumo da Vida“...para tal, tive que cometer o pecado mortal de o adquirir…a vergonha que foi passar com isto na loja.

O que os autores pretendem com o livro?

Depois de ler o livro posso garantir que não foi feito para informar as pessoas. Para educar as pessoas para a saúde. Foi feito para vender uma doutrina bastante simples:

A suplementação hormonal é fantástica. Permite prevenir e tratar várias doenças e retardar o envelhecimento.

É este o “mantra”…a promoção da medicina anti-envelhecimento ou anti-ageing, recorrendo à modulação hormonal. Uma pseudociência que está em franca expansão, dado o envelhecimento da população. Este mercado valia 20 biliões de dólares em 2002, 122.3 biliões em 2013 e espera-se que valha 191.7 biliões de dólares em 2019.

Caro leitor: se você é daquelas pessoas anti-sistema e anti-indústria farmacêutica, espero que esta informação lhe cause algum formigueiro. Sim…o Pinto Coelho faz parte desta indústria anti-ageing…como podem verificar, são uns coitadinhos perseguidos pelos médicos da medicina convencional, que terão em 2019 uma faturação anual bastante próxima do PIB português (204,6 biliões de dólares em 2016).

Dentro desta indústria anti-envelhecimento, temos a chamada hormonoterapia anti-envelhecimento, que se baseia numa premissa simples: os níveis de várias hormonas diminuem significativamente à medida que os adultos atingem a meia idade; então repor essas hormonas deverá fazer com que os adultos envelhecidos se sintam mais jovens, certo? Apesar de ser bastante lógico, da premissa ser de fácil compreensão, em medicina raramente tais lógicas se confirmam.

De uma forma geral posso dizer que este livro é uma mistura entre a ciência a sério (referenciando vários artigos científicos) com opiniões sem validade científica. Os estudos científicos usados são, na generalidade, de fraca qualidade. Estudos laboratoriais, estudos em animais, referências ao site do charlatão Mercola (!!!)  e claro, muito cherry-picking à mistura, seleccionando apenas a evidência que lhes convém no sentido de transmitirem um ponto de vista enviesado.

Existem várias frases-chave ao longo do livro, repetidas ad nauseam. A frase chave mais relevante é, sem dúvida, a variação da seguinte: “Deve ter acompanhamento por médico especializado em modulação hormonal.” – vá-se lá saber porquê…

Dado que o livro tem 200 páginas, para desmentir ou corrigir todas as asneiras proferidas teria que escreve um livro mais ou menos da mesma dimensão. Sendo assim, vou concentrar-me nas questões macro. Qualquer dúvida sobre questões menores, deixem nos comentários.

Hormonas Bio-idênticas

O primeiro capítulo do livro serve para fazer a distinção entre hormonas bio-idênticas (estrutura igual às hormonas do corpo humano), sintéticas (produzidas e transformadas por processos industriais) e naturais (provêm da natureza, sem processos de transformação). E no fundo, enaltecer as vantagens das hormonas bio-idênticas, afirmando que por “não poderem ser patenteadas não têm sido usadas como o melhor método de modulação hormonal.” …só posso suspirar de frustração e dizer que tenho vergonha dos colegas que escrevem tais aldrabices.

Primeiro, que fique claro:

A promoção das hormonas bio-idênticas é uma forma incomum de medicina alternativa.

Sim…medicina alternativa no sentido de não haver informação convincente (de momento) que as eleve ou lhes dê propriedades especiais em comparação com as maléficas hormonas sintéticas.

Para já, vamos concentrar-nos em duas hormonas específicas: estrogénio e progesterona. Depois falaremos da DHEA e da testosterona

Para ficarem com a ideia sobre os factos e mitos das hormonas bio-idênticas, aconselho a leitura deste artigo da Harvard Medical School, que aborda várias questões incluindo a citada acima:

Reivindicação: As empresas farmacêuticas não investem nas hormonas bio-idênticas porque não podem ganhar dinheiro com elas; não se pode patentear substâncias naturais.

Evidência: Esta é na melhor das hipóteses uma meia-verdade. Uma empresa farmacêutica não pode patentear uma hormona que ocorre naturalmente, mas pode patentear o processo necessário para a tornar absorvível como um fármaco. Várias empresas farmacêuticas fizeram exatamente isso e agora vendem hormonas bio-idênticas aprovadas pela FDA. Por exemplo, a progesterona natural (Prometrium) é fabricada pela Abbott Laboratories, que utiliza uma técnica patenteada chamada micronização. A micronização permite a ingestão oral de progesterona transformando-a em partículas suficientemente pequenas para passar através das paredes do intestino para a corrente sanguínea. Outras companhias farmacêuticas comercializam uma forma micronizada de estradiol – um estrogénio bio-idêntico – em forma de comprimido (Estrace) e de forma transdérmica (Alora, Climara, Estraderm, Menostar, Vivelle), pulverizações (Evamist) e em gel (Divigel , Elestrin) loções (Estrasorb) e anéis vaginais (Estring).

Para lançar um fármaco no mercado, as empresas farmacêuticas investem milhões de dólares em pesquisa e desenvolvimento, incluindo os ensaios clínicos randomizados para testar a segurança e eficácia que são necessários para a aprovação da FDA. A empresa também deve manter a vigilância após o início da comercialização sobre os efeitos secundários.”

Portanto, sendo menos educado que o autor do artigo, chamarei à afirmação proferida no livro uma falsidade e um engodo. A seguir dizem que as hormonas bio-idênticas são mais seguras que as sintéticas e devem ser preferidas a essas. O que diz o artigo de Harvard sobre o estrogénio e a progesterona:

“Evidência: Os resultados do estudo Women´s Health Iniciative demonstrou que a suplementação hormonal aumentava o risco de acidente vascular cerebral, cancro da mama, ataque cardíaco e tromboses venosas e tromboembolismos pulmonares. Esses riscos superavam os benefícios, ou seja, reduções de fraturas osteoporóticas e do cancro colorretal. Isso fez com que algumas mulheres procurassem uma alternativa mais segura para alívio dos sintomas. (…) Muitos alegaram que as hormonas bio-idênticas eram mais seguras (…)

No entanto, não há nenhuma evidência de qualidade a apoiar esta reivindicação.”

O problema é que não existem estudos clínicos de longo prazo que nos permitam dizer que as hormonas bio-idênticas sejam mais seguras. Pelo menos não para já.

Outro ponto referido no livro é, mais uma vez, uma hiperbolização da evidência científica existente, referindo que o estriol (um tipo de estrogénio), é protetor contra o cancro da mama. O que diz o artigo de Harvard:

“Evidência: Em estudos de laboratório, o estriol demontrou que consegue prevenir e até mesmo reverter tumores mamários em ratos – mas não há nenhuma evidência de que isso ocorra em mulheres.”

Mas se ainda não acredita, deixo um reforço da mensagem, de um artigo de revisão sobre o tema:

“Os proponentes das hormonas bio-idênticas acreditam que o estriol poderá diminuir o risco de cancro da mama. Esta crença é baseada em vários artigos escritos na década de 1970 por um investigador que permaneceu entusiasmado com estriol mesmo depois do seu estudo clínico publicado ter falhado em demonstrar esses benefícios. Seis dos 24 doentes com cancro ae mama que tomaram estriol desenvolveram metástases; dois desenvolveram hiperplasia endometrial. O investigador, no entanto, nunca chegou a fazer qualquer afirmação sobre o papel do estriol na prevenção de doenças.

Outras evidências refutam a suposta benignidade dos estrogénios bio-idênticos no cancro da mama. Altos níveis de estradiol e estrona endógenos estão associados com o aumento do risco de cancro da mama; o estriol também foi implicado nesse aumento de risco. Em células cancerígenas mamárias, o estriol estimula o crescimento dessas células em maior grau que outros estrogénios. O tecido mamário da mulher com cancro da mama, comparado com mulheres sem cancro da mama, contêm níveis mais elevados de estriol, estrona e estradiol.”

Mais uma vez, o Pinto Coelho e os seus acólitos anti-ageing colocam a vida de pessoas em risco fazendo afirmações não validadas pela ciência.

Uma revisão de 2015 volta a colocar o dedo na ferida quando fala das hormonas bio-idênticas:

“A terapia de substituição hormonal bio-idêntica (BHRT) está envolvida num manto de legitimidade criada pelos médicos e pelos doentes porque estas hormonas fazem parte dos processos “naturais” do corpo. O pressuposto normativo que “natural” é inerentemente “bom” não só coloca a BHRT num patamar irrepreensível, mas também nos diz que a sua utilização é supostamente benéfíca para a saúde. A abordagem clínica dos prestadores do anti-envelhecimento também desempenha um papel importante, validando e incorporando as experiências dos doentes e oferecendo uma solução ‘holística’ para os seus sintomas, que os doentes vêem como um forte contraste com as suas experiências com os cuidados da medicina convencional.”

Resumindo…a treta do bio-idêntico não tem evidência científica que a suporte como sendo mais benéfico para a saúde. Mas a falácia do apelo à natureza e a promoção destes tratamentos por alguns médicos tem levado a que estas hormonas sejam vistas como benéficas para a saúde…apesar de uma clara falta de provas.

Caro leitor: se é daqueles que adora tudo o que é natural, lembre-se que o veneno de cobra e o arsénio são produtos naturais. O urânio radioativo é natural. As doenças infecciosas são naturais. Mais importante que isso, o cancro é algo natural. Tratar estes problemas é que não é nada natural. Portanto, se acredita mesmo nessa premissa, não lhe auguro grande futuro.

O artigo citado também refere que os profissionais anti-envelhecimento preferem a utilização de manipulados. E é algo promovido pelo nosso amigo Pinto Coelho, com frases como “a progesterona bio-idêntica preparada na farmácia…”.

No entanto, os riscos são os mesmos. Pior…em 2001, a FDA testou aleatoriamente 37 produtos a partir de 12 farmácias de manipulação e descobriu que nove (24%) eram menos potentes do que o indicado. Em 2017 a Sociedade de Menopausa Britânica emitiu um comunicado expressando a sua preocupação com a utilização não regulada destas hormonas através de fármacos não aprovados ou manipulados:

“Note-se que esses produtos não são regulados, licenciados nem monitorizados pela MHRA, que é o órgão regulador no Reino Unido, com a responsabilidade de garantir que os medicamentos atendam aos padrões aplicáveis ​​de segurança, qualidade e eficácia. O termo “hormonas bio-idênticas” é enganador.”

Depois há outra frase interessante: “a progesterona bio-idêntica está associada à diminuição do risco de cancro da mama“. Não vou considerar isto uma mentira mas apenas uma falha que, mais uma vez, demonstra a clara incapacidade técnica dos autores do livro.

Uma revisão sistemática e meta-análise de 2016 demonstra que a progesterona bio-idêntica diminuiu o risco de cancro da mama, mas em comparação com os seus similares sintéticos. Ou seja, comparando as duas hormonas, a suplementação com progesterona AUMENTA MENOS o risco. Eventualmente o risco poderá ser neutro, mas não há qualquer dado que indique a existência de uma proteção contra o cancro da mama.

É possível que a utilização de progesterona (hormona bio-idêntica) quando existe necessidade fazer terapia hormonal de substituição em mulheres na menopausa com sintomas importantes, seja a melhor opção, dado que o risco de cancro da mama parece ser menor.

Uma Cochrane de 2017,  que basicamente resume a melhor evidência sobre suplementação hormonal a longo prazo, conclui o seguinte sobre a terapia hormonal de substituição em mulheres na peri e pós-menopausa:

A terapia hormonal pode ser inadequada para algumas mulheres, incluindo aquelas em maior risco de doença cardiovascular, aumento do risco de doença tromboembólica (tais como aqueles com obesidade ou história de trombose venosa) ou aumento do risco de alguns tipos de cancro (como cancro da mama, em mulheres com útero). O risco de cancro do endométrio em mulheres com útero que tomem estrogénios isoladamente está bem documentado.

As mulheres com sintomas da menopausa intoleráveis ​​podem querer pesar os benefícios do alívio dos sintomas contra o pequeno aumento do risco absoluto de acidentes decorrentes da utilização a curto prazo de terapia hormonal em baixa dose, desde que não tenham contra-indicações específicas. 

A terapia hormonal de substituição não é indicada para a prevenção primária ou secundária de doenças cardiovasculares ou demência, nem para a prevenção da deterioração da função cognitiva em mulheres na pós-menopausa. Embora a terapia hormonal seja considerada eficaz para a prevenção da osteoporose pós-menopausa, é geralmente recomendado como uma opção apenas para as mulheres em situação de risco significativo para quem as terapias não-hormonais são inadequados. Os dados são insuficientes para a avaliação do risco da terapia hormonal a longo prazo em mulheres na perimenopausa e em mulheres na menopausa mas com menos de 50 anos de idade.

Concluindo: Não há evidência que as hormonas bio-idênticas sejam mais seguras, eficazes, bem toleradas, tenham benefícios para a saúde espetaculares em comparação com as chamadas hormonas sintéticas ou naturais. A possível excepção será o menor risco de cancro da mama com a progesterona em comparação com os derivados sintéticos. No entanto, lembre-se. A suplementação hormonal apenas está indicada em casos de sintomas de menopausa não toleráveis e pessoas com osteoporose importante que não toleram outros tratamentos. Não há evidência para mais nenhuma indicação.

Para terminar este capítulo, voltamos ao artigo de Harvard e de revisão, para colocar um ponto final na promoção às análises das hormonas sexuais femininas:

“Reivindicação: testes de saliva e de sangue são indicadores confiáveis de níveis hormonais de uma mulher.

Evidência: exames de sangue e saliva aprovados pela FDA indicam níveis hormonais de uma mulher num momento específico do tempo. Por vezes estas análises podem ajudar a determinar se uma mulher entrou na fase de transição para a menopausa – mas não são úteis para a definição de doses hormonais a suplementar. Numa mulher menstruada ou na perimenopausa, os níveis hormonais podem mudar de uma hora para a outra, e  em mulheres na menopausa, não há sequer o que possamos definir como um valor estável, para definir o que é normal ou anormal e o que se correlaciona com o aparecimento de sintomas.”

Portanto, a interpretação destes resultados é semelhante a cartomancia…é necessária uma grande dose de criatividade para dizer às mulheres que precisam de ser suplementadas ou não.

A Mítica Fadiga Adrenal

Há poucas coisas que nos indiquem, de forma clara, que não estamos a lidar com pessoas de bem. No entanto, o nosso amigo Pinto Coelho consegue reunir algumas delas. A promoção de tratamentos como a desintoxicação plantar é flagrante. As lavagens colónicas para o intestino poroso é outra que tal. A juntar a isso, temos a promoção da fadiga adrenal neste novo livro, uma doença que simplesmente não existe. É treta. Foi inventada por um quiroprata em 1998 e a coisa pegou.

O conceito da doença é que a exposição continua ao stress faz com que as glândulas adrenais (ou suprarrenais)  fiquem “cansadas” e não produzam a quantidade adequada de hormonas, principalmente cortisol. Isso leva ao aparecimento de um conjunto de sintomas inespecíficos como “negativismo, sensação de ser vítima de tudo”, “olheiras ou olhar cansado”, “perda de memória em situações de stress”. Estes são alguns dos sintomas descritos neste miserável livro. São alterações que uma grande parte da população já sentiu em alguma fase da vida, mas não têm qualquer significado clínico. Caso sinta isso, vou contar-lhe um segredo: precisa de descansar .

Uma revisão sistemática de 2016 demonstra que não existe nenhuma evidência que suporte a existência desta “doença”. As sociedades de endocrinologia consideram esta doença um mito. Os testes que são oferecidos para diagnosticar esta “doença” para nada servem. Apesar disso, conceito de fadiga adrenal levou ao surgimento de uma indústria de suplementos alimentares e hormonais para dar resposta a este “problema”. Os suplementos são ineficazes ou mesmo perigosos para a saúde.

Ou seja, reduz-se a questão de marketing, para venda de suplementos dietéticos e hormonais. Você, que se revolta com a indústria farmacêutica, porque é que não se revolta com isto?!

DHEA – O Antídoto do Stress e do Envelhecimento (LOL)

Este é um dos títulos do livro. Nesta secção, sugere-se a suplementação com DHEA para combater o stress e o envelhecimento. O cómico desta recomendação é que os autores do livro citam várias vezes o site Hormone.org. Mas com toda a certeza que se esqueceram de ver o que dizia sobre a DHEA:

Traduzindo: não há qualquer prova científica robusta que a suplementação com DHEA retarde o envelhecimento, aumenta a energia, aumente a massa muscular, estimule o sistema imune, diminua o peso corporal. A utilização da DHEA não foi aprovada para tratar a Doença de Addison, Depressão, Lúpus, Obesidade, Doença de Alzheimer, Osteoporose, Doença de Crohn, Infertilidade e problemas relacionados com a Menopausa. É importante notar que a suplementação com DHEA está contraindicada em doentes com cancros dependentes de esteróides sexuais, como cancros da próstata, mama e endométrio.

A esta informação junto-lhe a seguinte da mesma citação. Quais os riscos de tomar a DHEA:

“Nas mulheres, a DHEA pode causar alterações relacionadas com o aumento da testosterona: períodos menstruais irregulares, aumento do pêlo facial, aumento da transpiração, peitos mais pequenos e uma voz mais profunda. Nos homens, a DHEA também pode causar alterações relacionadas com o aumento do estrogénio e/ou uma queda na testosterona: inchaço das mamas, diminuição do tamanho dos testículos, acne e perda de cabelo. Alguns efeitos colaterais desaparecem quando a DHEA é interrompida, mas ainda não está claro se outros efeitos colaterais podem ser permanentes.”

Um artigo de revisão da evidência de 2014, diz o seguinte sobre este tema:

“Para já não existe evidência suficiente para recomendar a utilização rotineira de DHEA na prática clínica. As meta-análises mais recentes produziram resultados contraditórios. Alkatib et al. confirmou uma pequena mas trivial melhoria da qualidade de vida, depressão, ansiedade e função sexual nas mulheres idosas com insuficiência adrenal tratadas com DHEA oral. Davis et al. concluíram que a toma oral de DHEA nas mulheres pós-menopausa não tinham melhoria da função sexual, bem-estar, performance cognitiva ou do metabolismo lipídico e dos hidratos de carbono. Nos homens envelhecidos, a suplementação com DHEA estava associada a uma pequena, mas significativa redução de massa gorda, mas sem qualquer efeito no perfil lipídico ou no metabolismo ósseo, glicemia, função sexual ou qualidade de vida.

(…) A DHEA parece ser promissora em algumas formas de doença cardiovascular e na hipertensão pulmonar hipóxica associada à DPOC, mas estudos clínicos mais robustos são necessários. Baseado nos estudos publicados recentemente, a DHEA parece ser benéfica na infertilidade feminina, aumentando a fecundidade e fertilidade. No entanto, estes estudos contrastam com duas pequenas meta-análises que falharam em demonstrar qualquer diferença significativa na taxa de gravidez e abortamento entre as mulheres tratadas com DHEA e as que não foram tratadas. Assim, é demasiado cedo para recomendar a utilização de DHEA (…).

Ainda tem dúvidas? Então deixo-lhe uma revisão sistemática e meta-análise de 2014 , que conclui a ausência de benefício na líbido ou função sexual em mulheres na pós-menopausa com função adrenal normal. Mesmo nas mulheres com função adrenal comprometida, a suplementação com DHEA não parece trazer benefícios clínicos que justifiquem a sua suplementação.

Concluindo: A evidência existente sobre suplementação com DHEA ainda não permite dar certezas sobre a sua utilidade em nenhum tipo de patologia. No entanto, é possível que em determinadas circunstâncias possa vir a ser útil. São necessários mais estudos para definir essas circunstâncias. No entanto, as extrapolações que habitualmente são feitas de estudos em animais, laboratoriais ou de estudos clínicos metodologicamente fracos são perigosas e indutoras de erro com bastante frequência. E não se esqueça: a fadiga adrenal é uma treta que não existe. Lamento.

Suplementação com testosterona

Como não poderia deixar de ser, Pinto Coelho e os acólitos aconselham testosterona para o menino e para a menina, referindo os mais incríveis efeitos para a saúde com este tipo de suplementação. Vamos ver quais os eventuais benefícios na mulher e no homem, em separado.

Suplementação de testosterona na Mulher

A suplementação de testosterona na mulher tem sido pouco estudada. No entanto, tendo em consideração essas limitações, foi realizada uma revisão em 2015 sobre as possíveis vantagens na mulher:

Em 2004, um painel de especialistas da FDA dos EUA decidiu aprovar a testosterona transdérmica para o tratamento da síndrome do desejo sexual hipoativo. No entanto, deixou o alerta da falta de informação sobre a segurança e possíveis efeitos secundários desta medicação. Isso realça o quão atrasada está a investigação sobre o papel da testosterona e outros androgénios na mulher em relação aos homens. 

Esta revisão sugere que a testosterona foi negligenciada como uma hormona com efeitos cardiovasculares potencialmente favoráveis ​​nas mulheres e que as associações entre a testosterona e o risco de doenças cardiovasculares e a mortalidade total em mulheres mais velhas ainda não foram estabelecidas. Os possíveis efeitos benéficos da testosterona na função cardiovascular precisam de mais investigação.

Os poucos estudos que sugerem efeitos favoráveis ​​da testosterona no desempenho cognitivo são provocadores, de modo que estudos adicionais são necessários para determinar se a terapia com testosterona pode atrasar o declínio cognitivo leve e possivelmente a demência.

Ensaios clínicos de alta qualidade que avaliam os efeitos da testosterona sobre a saúde musculoesquelética e o risco de fraturas de fragilidade também são necessários. Mais urgente é a necessidade de investigação para esclarecer se a terapia com testosterona modifica o risco de cancro da mama em mulheres pré e pós-menopáusicas, porque esta é a questão que preocupa a maioria dos médicos quando se considera prescrever testosterona para disfunção sexual feminina.

O tratamento com testosterona deve ser considerado, mas não deve ser rotineiro no tratamento de mulheres com declínio prematuro na produção de testosterona, especificamente mulheres com insuficiência ovariana prematura, menopausa cirúrgica e hipopituitarismo. As guidelines atualizadas da Sociedade de Endocrinologia Americana inclui recomendações para o uso de testosterona em mulheres. No entanto, os estudos propostos acima são necessários para a realização de novas guidelines sobre o papel da testosterona na prevenção de doenças do envelhecimento e a segurança de tal tratamento.

Então, agora vamos ver o que dizem as guidelines de 2014 da Sociedade de Endocrinologia Americana sobre a utilização de testosterona na mulher:

Continuamos a recomendar contra o diagnóstico da síndrome de deficiência de andrógenios em mulheres saudáveis ​​porque não há uma definição clara dessa síndrome e os dados que correlacionam os níveis de andrógenios com sinais ou sintomas específicos não estão disponíveis.

Recomendamos contra o uso geral de testosterona para as seguintes indicações: infertilidade; disfunção sexual que seja diferente da síndrome de desejo sexual hipoativo; saúde cognitiva, cardiovascular, metabólica ou óssea; bem-estar geral.

Recomendamos contra o uso rotineiro de DHEA devido a dados limitados sobre sua eficácia e segurança em mulheres normais ou com insuficiência adrenal. 

Recomendamos contra a prescrição de rotina de testosterona ou de DHEA para o tratamento de mulheres com níveis baixos de andrógenios devido ao hipopituitarismo, insuficiência adrenal, menopausa cirúrgica, administração de corticóides ou outras condições associadas a baixos níveis de andrógenios, porque os dados que suportam nos sinais e sintomas com estas terapias são limitados e não há estudos de risco a longo prazo.

A evidência apoia a eficácia e segurança a curto prazo de altas doses fisiológicas de testosterona em mulheres pós-menopáusicas com disfunção sexual devido a distúrbios de desejo sexual hipoativo.

Concluindo: dado o estado atual da evidência científica, a prescrição de testosterona na mulher é pura experimentação. Não há dados que nos dêem segurança suficiente para fazê-lo, mesmo na disfunção sexual feminina – não confundir com a sua eficácia, porque parece funcionar, com a sua segurança. Portanto, caro leitor(a), colocar-se nas mãozinhas desta gente não é prevenir o envelhecimento ou tratar sintomas…é apostar a sua saúde num jogo de roleta russa. Pode correr bem, mas também pode correr muito mal…simplesmente não sabemos, para já.

Suplementação de testosterona no Homem

Felizmente, foi feita recentemente uma revisão sistemática, em 2016, sobre as supostas vantagens da suplementação de testosterona nos homens com “níveis baixos” da hormona. E as coisas não são tão cor-de-rosa como o nosso amigo vende no seu livrito:

“A suplementação de testosterona não mostrou benefícios consistentes para risco cardiovascular, função sexual, humor e comportamento, ou cognição. Estudos que examinaram os eventuais benefícios cardiovasculares não favoreceram a terapia com testosterona em relação ao placebo. A testosterona é ineficaz no tratamento da disfunção erétil e os ensaios controlados não mostraram efeito consistente sobre a libido. A suplementação de testosterona aumentou consistentemente a força muscular, mas não teve efeitos benéficos sobre a função física. A maioria dos estudos sobre parâmetros relacionados ao humor não encontrou efeito benéfico do tratamento com testosterona sobre personalidade, bem-estar psicológico ou humor.

A prescrição de suplementação de testosterona em doentes com níveis baixos desta hormona não têm suporte dos ensaios clínicos randomizados para a saúde cardiovascular, função sexual, função física, humor ou função cognitiva.”

(Mic drop…)

E caso haja dúvidas, aconselho a leitura do relatório do FDA de 2016 sobre esta temática, a qual traduzo um parágrafo essencial:

“As terapias com testosterona estão aprovadas como terapia de reposição, dado terem demonstrado nos ensaios clínicos que podem aumentar os níveis de testosterona para o intervalo normal em homens jovens, saudáveis ​​e eugonadais. Este paradigma apoia a aprovação [do uso de testosterona] em homens que têm o que chamamos de hipogonadismo clássico. Estes são homens que possuem uma patologia intrínseca do eixo eixo hipotálamo-hipofisário-gonadal devido a condições médicas reconhecidas, como a síndrome de Klinefelter e a síndrome de Kallmann. Nesses homens, o objetivo é restaurar a testosterona para níveis normais.

No entanto, nos últimos anos, a testosterona tem sido amplamente utilizada numa população diferente.  Nos homens que têm o que chamamos de hipogonadismo relacionado à idade. E estes são homens que não têm razão aparente para a baixa testosterona além da idade avançada. Nessa população, não foi demonstrado de forma conclusiva que aumentar a testosterona confira benefícios clínicos e que seja seguro.

Caro leitor: como é fácil de perceber, a suplementação com testosterona deixa muito a desejar, de acordo com a evidência científica existente. Estando na posse desta informação, caso queira fazer testosterona fica por sua conta e risco, principalmente se em situações de cancro da mama ou próstata, hematócrito superior a 50%, apneia obstrutiva do sono severa não tratada, sintomas graves do trato urinário inferior com pontuação acima de 19 no International Prostate Symptom Score ou insuficiência cardíaca não controlada.

Para já, ficamos por aqui. Num segundo artigo, falaremos das restantes hormonas. Ajude a prevenir que o seu amigo, familiar, conhecido, vizinho seja enganado. Partilhe este artigo com ele, caso esteja interessado no tema. Ao menos ficará com informação factual, antes de cair nas teias desta malta.

Achegas genéricas – Parte 1

 

Primeira achega:

O livro, para além de todas as asneiras que refere, ainda promove a quimiofobia, o medo irracional de químicos, com frases como esta:

“Comece a ler os rótulos das embalagens dos produtos que tem em casa e contaste a presença de inúmeras substâncias químicos com as quais convive diariamente.”

Em 2008, o diretor do Royal Society of Chemistry ofereceu um milhão de libras a quem encontrasse um produto sem químicos. O prémio nunca foi reclamado. Sabe porquê? Porque tudo são químicos. Se comprar uma coisa sem químicos vem para casa de mãos a abanar. E este tipo de frases apenas demonstra a baixa capacidade técnica dos seus escritores.

Segunda achega:

Agora peço que esteja atento as seguinte encadeamento de mensagens no livro:

  1. Começamos com: “se ultimamente se tem sentido menos que ótimo, talvez seja altura de avaliar o seu perfil hormonal
  2. A que se junta “muitas pessoas fazem uma visita ao seu médico e pedem um teste hormonal“.
  3. E cereja em cima do topo do bolo: uma página inteira a explicar que mesmo que as análises hormonais estejam normais, não quer dizer que os valores sejam normais para si, caro leitor: “O nível hormonal ótimo deve ser um nível que permita à pessoa a ausência de quaisquer queixas ou sintomas de desequilíbrio hormonal.”

Dado que os sintomas atribuídos ao desequilíbrio hormonal pelos autores do livro são literalmente dezenas, o caro leitor está tramado. Porque vai encontrar um sintoma que se enquadra neste “problema de saúde” e mesmo que faça um teste e ele seja normal, pode estar “doente” na mesma. Visto que o seu perfil está normal, mas pode não ser o seu normal.

É confuso? Eu explico. O objetivo é criar um mercado de doentinhos das hormonas. E a ratoeira é que você será com grande probabilidade enquadrado nesse perfil. Porque terá eventualmente alguns sintomas das dezenas enunciadas e porque mesmo com análises normais não deixa de ser doente. Aliando isto ao “mantra” de todo o livro: “procure um profissional especializado em modulação hormonal“, os autores do livro acabaram de o tramar. E lá vai o caro leitor deixar umas centenas de euros aos padres e sácristões das hormonas.

Terceira achega:

Este livro confirma que o Pinto Coelho é apenas uma versão recaixotada do Lair Ribeiro. Se gosta do Lair Ribeiro (as minhas condolências) e já viu os vídeos dele sobre modulação hormonal, então o livro não lhe vai desensinar nada. Fica aqui um pequeno exemplo, em que Lair Ribeiro inventa sobre hormonas bio-idênticas…qualquer semelhança é pura realidade. Até uma das frases mai lindas  do livro – “As hormonas atuam como uma orquestra” – é “inspirada” no Lair.

Quarta achega:

Pinto Coelho começou a sua saga apelando às alterações do estilo de vida: “Tenha esta dieta assim e assado” – paleo, alcalina, cetogénica e jejum intermitente…não sei como é possível fazê-las todas ao mesmo tempo, mas isso nunca fez confusão ao culto que o idolatra; “beba água do mar“; “deixe os medicamentos para o colesterol, esses venenos“; “apanhe sol à vontade“; “encharque-se de vitamina D“; etc., etc., etc.

Neste livro, porém, a ideia é outra…”toca a tomar hormonas“.

Uma das principais defesas dos seus seguidores era: “é um médico que vai contra os interesses instalados…vai contra a indústria farmacêutica…e isso está a causar aflição aos outros médicos que estão todos comprados“. Para além deste argumento ter falhas a todos os níveis, fiz esta imagem a pensar em si:

Claro que o caro leitor pode dizer “Mas e a indústria dos suplementos? Também faz esses produtos! Estás a enganar-me” – caro leitor…a indústria dos suplementos é muito pior que a indústria farmacêutica, beneficiando de medidas regulatórias muito mais brandas. Caso queira saber mais, leia este artigo.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar