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Desfazer os Mitos da Dieta Cetogénica

admin Cancro, Dietas, Geral, Nutrição 1 Comment

Depois da morte do Marcelo Rezende, um jornalista e apresentador muito conhecido no Brasil, faz sentido falarmos da dieta cetogénica.

Para quem não seguiu a história, Marcelo Rezende foi diagnosticado com um cancro do pâncreas, possivelmente já metastizado para o fígado. Teria portanto um cancro do pâncreas em estadio IV, com péssimo prognóstico, dado que a sobrevivência a 5 anos é de 1%. No fundo, a probabilidade de curar este cancro com o conhecimento médico atual é praticamente nula. Isso não significa que a quimioterapia e radioterapia não possam aumentar a sobrevivência dos doentes nesta situação. Aumentam. Sem tratamento a mediana de sobrevivência são 3 meses e meio. Com tratamento, são 8 meses.

Marcelo Rezende chegou a fazer um ciclo de quimioterapia. Mas devido aos efeitos secundários abandonou o tratamento. Influenciado pelo charlatão Lair Ribeiro, que em múltiplos vídeos faz afirmações sobre o potencial da dieta cetogénica para o tratamento do cancro, Marcelo Rezende optou por esta via.

De uma forma simples podemos descrever a dieta cetogénica como uma dieta rica em gordura, com proteínas em quantidade moderada e muito pobre em hidratos de carbono. Quando fazemos uma dieta normal, os hidratos de carbono contidos nos alimentos são convertidos em glicose, que é transportada para as células de todo o organismo e utilizada para a produção de energia. No entanto, se não existir hidratos de carbono na dieta, o fígado converte gordura em ácidos gordos e corpos cetónicos, sendo estes os substratos utilizados para a produção de energia, em substituição da glicose. É esta particularidade que dá à dieta cetogénica os seus supostos benefícios.

Contexto histórico sobre a dieta cetogénica

Primeiro, é preciso compreender que a dieta cetogénica é uma derivação do jejum prolongado para o tratamento da epilepsia. O registo da primeira utilização moderna do jejum para o tratamento de epilepsia foi realizada por dois investigadores parisienses, Gulep e Marie, em 1911. Foram tratadas 20 crianças e adultos com epilepsia e os investigadores concluíram que as convulsões eram menos graves durante o tratamento, apesar de ausência de detalhes específicos.

Pela mesma altura, nos Estados Unidos, surgiram vários relatos sobre a utilização do jejum no controlo da epilepsia. O Dr. Conklin, médico osteopata, adotou o jejum como método para tratamento de várias doenças, influenciado pelo guru do fitness da época, Bernarr Macfadden, que afirmava que jejuar 3 dias a 3 semanas poderia aliviar ou mesmo curar qualquer doença, incluindo a epilepsia.

A revista Physical Culture, de Bernarr Macfadden, chegou a ter um tiragem de 500.000 exemplares no final da Primeira Guerra Mundial.

Foram os resultados obtidos pelo Dr. Conklin sobre o jejum para tratar a epilepsia que chamaram a atenção de outro pioneiro nesta área, H. Rawle Geyelin, endocrinologista do New York Presbyterian Hospital. O Dr. Geyelin falou pela primeira vez na American Medical Association Convention, em 1921, sobre o jejum como forma de tratamento da epilepsia, o que aumentou consideravelmente a popularidade desta dieta. Foi também o primeiro a documentar que a melhoria cognitiva dos epilépticos quando submetidos ao jejum.

Nos primeiros anos da década de 1920, o Dr. Cobb e o Dr. Lennox, da Harvard Medical School, também se dedicaram ao estudo do jejum para controlar a epilepsia. Foram os primeiros a notar que a melhoria das convulsões normalmente ocorriam após 2-3 dias de jejum. Lennox documentou que o controlo das convulsões ocorria através de uma mudança no metabolismo corporal e que a simples ausência de alimento ou escassez de hidratos de carbono forçava o organismo a queimar gordura.

Em 1921, foram feitas duas observações fundamentais. O Dr. Woodyatt reparou que quando fazemos jejum ou uma dieta baixa em hidratos de carbono e alta em gordura, o corpo produz acetona e ácido beta-hidroxibutírico (corpos cetónicos). Ao mesmo tempo, o Dr. Wilder na Mayo Clinic teorizou que os benefícios do jejum podiam ser obtidos se um estado de cetonemia fosse produzida por outros meios que não o jejum e propôs a dieta cetogénica para tratar doentes com epilepsia. O Dr. Wilder conseguiu provar isso mesmo, sendo considerado o criador da dieta cetogénica.

Posteriormente, Peterman na Mayo Clinic  formulou os cálculos da dieta cetogénica semelhantes aos usados hoje e também observou melhorias nos comportamentos e efeitos cognitivos que acompanharam a adesão dos epilépticos à dieta cetogénica.

Dada a existência de resultados positivos, esta dieta foi amplamente utilizada na época. No entanto, quando a fenitoína, o primeiro fármaco anti-epiléptico foi descoberto em 1938, a atenção dos médicos e investigadores mudou. O foco passou para a compreensão do mecanismo de ação e descoberta de novos fármacos anti-epiléticos. A partir desse momento a dieta cetogénica secundarizou-se no tratamento da epilepsia.

O uso e a investigação sobre a dieta cetogénica diminuiu muito e a PubMed listou apenas duas a oito publicações por ano entre 1970 a 2000 sobre este assunto. No entanto, isso mudou drasticamente quando a dieta cetogénica recebeu a atenção do programa Dateline da NBC-TV, que exibiu um programa sobre este tratamento. Isso levou a um aumento dramático das publicações do PubMed com uma média de mais de 40/publicações/ano desde então.

Este programa de televisão baseou-se na história verdadeira de Charlie, um menino de 2 anos com crises generalizadas intratáveis, que se apresentou no hospital Johns Hopkins. Na altura iniciou a dieta cetogénica. Rapidamente ficou sem crises e devido a estes resultados positivos o pai criou a Fundação Charlie. Esta fundação divulgou vídeos informativos para pais, para médicos e nutricionistas sobre a dieta cetogénica. Em 1997, o pai de Charlie dirigiu o filme “First Do No Harm“, protagonizado por Merryl Streep, aumentando a sensibilidade de toda a sociedade para esta dieta no tratamento da epilepsia. O filme, no fundo, é um retrato dramatizado da história de Charlie.

A Fundação Charlie também apoiou o primeiro estudo prospectivo multicêntrico sobre a eficácia da dieta cetogénica em crianças com epilepsia refratária a tratamento farmacológico. O estudo concluiu o seguinte:

“Oitenta e oito por cento de todas as crianças que iniciaram a dieta permaneceram nela ao fim de 3 meses, 69% permaneceram aos 6 meses e 47% permaneceram ao final de um ano. Três meses após o início da dieta, a frequência de convulsões diminuiu mais de 50% em 54% das crianças. Aos 6 meses, 28 (55%) das 51 crianças que iniciaram a dieta apresentaram, pelo menos, uma redução de 50% em relação à linha de base. Ao final de um ano, 40% daqueles que começaram a dieta apresentaram uma diminuição de mais de 50% no número de convulsões. Cinco pacientes (10%) estavam sem episódios de convulsões ao final de um ano.”

Portanto, a dieta apresentava resultados bastante positivos, se considerarmos que estamos a falar de epilepsias de difícil controlo. Em contraste, este estudo também demonstrou que a adesão à dieta era bastante complicada.

Apesar da popularização da dieta e de estudos clínicos recentes também terem demonstrado que o tratamento é eficaz, mesmo a longo prazo, a sua utilização continua a ser de última linha. Os conspiracionistas dirão que isso acontece por questões económicas, já que é mais fácil rentabilizar um medicamento que uma dieta. No entanto, a dieta cetogénica é de adesão difícil (artigo e artigo) a longo prazo, dadas as restrições alimentares que impõe. Mesmo as tentativas de melhorar o paladar e a variedade desta dieta não têm sido bem sucedidas no aumento da adesão a esta dieta. A toma de um comprimido continua a ser a opção mais fácil, se bem tolerado, e não implica ensinos específicos aos doentes ou aos próprios médicos.

Evidência científica sobre dieta cetogénica

Dieta cetogénica na epilepsia

Apesar do contexto histórico resumido anteriormente e da evidência apresentada ser bastante favorável à dieta cetogénica, saliento um estudo da Cochrane realizado em 2016, que refere o seguinte:

“Os estudos randomizados e controlados demonstram resultados promissores para a utilização da dieta cetogénica na epilepsia. No entanto, o número limitado de estudos, as amostras pequenas e uma população exclusivamente pediátrica levam a que a qualidade da evidência seja, na sua generalidade, baixa.

Existe falta de evidência que apoie a utilização clínica da dieta cetogénica na população adulta com epilepsia. Portanto, mais investigação seria benéfica. Para as pessoas com epilepsia intratável com recurso a medicação ou pessoas que não são boas candidatas para intevenção cirúrgica, a dieta cetogénica mantém-se uma opção válida.”

Concluindo: A dieta parece ser válida no tratamento das crianças mas a evidência é de baixa qualidade. Nos adultos o desconhecimento é ainda maior, não existindo RCTs. Uma revisão de 2014 valida os efeitos positivos na população adulta, no entanto todos os estudos eram open-label (tanto os doentes como os investigadores sabiam qual o tratamento que estava a ser administrado). Além disso, alerta mais uma vez para uma alta taxa de abandono do tratamento, rondando os 50%.

Dieta cetogénica para a perda de peso – Dieta de Atkins

Dentro da dieta cetogénica existem diferentes variações. Uma delas foi inventada pelo Dr. Atkins na década de 60, que investigou a alimentação dos Esquimós e ficou surpreendido ao constatar que esses povos tinham uma grande esperança de vida, não tinham doenças cardiovasculares e tinham energia o suficiente para caçar e sobreviver em baixíssimas temperaturas. Os Esquimós não consumiam hidratos de carbono e tinham uma alimentação baseada acima de tudo na ingestão de proteína e gordura animal (peixes, leões marinhos, ursos polares).

O que incomoda nestas teorias baseadas em tribos é que se esquecem sempre de referir que estes povos têm uma vida que obriga a uma atividade física intensa, ao contrário da população ocidentalizada. E a atividade física intensa é que capaz de ter alguma relação com a baixa frequência de doenças cardiovasculares e grande longevidade…

Atkins escreveu posteriormente o livro “A Nova Dieta Revolucionária do Dr. Atkins”, tendo ficada popularizada como a Dieta de Atkins. Nesse livro, Atkins fez um argumento controverso de que a dieta com baixo teor de hidratos de carbono produz uma vantagem metabólica relativamente às outras dietas porque “a digestão de gordura obriga o organismo a gastar mais calorias”. No entanto, estudos realizados posteriormente concluíram que tal vantagem não existe (artigo e artigo).

Mas quanto à utilidade da dieta de Atkins para perder peso, vou deixar as conclusões de dois estudos de revisão recentes sobre as dietas mais conhecidas para perder peso. Começamos com um quadro-resumo da primeira revisão sobre as dietas low-carb (baixas em hidratos de carbono):

A coisa mais importante a destacar deste quadro é que a dieta pobre em hidratos de carbono leva a uma rápida perda inicial de peso, no entanto é sobretudo à custa de perda de água e não propriamente de gordura.

Depois temos a comparação entre as duas dietas que possivelmente mais atrito causam. A mítica batalha entre as dietas low-carb e low-fat – dietas pobres em hidratos de carbono versus pobres em gorduras. Vamos analisar as imagens:

O que se verifica é uma perda inicial maior com a dieta pobre em hidratos de carbono, principalmente nos primeiros 6 meses. No entanto, ao final de um ano há uma aproximação do peso perdido, o que faz com que as duas dietas sejam equivalentes a longo prazo.

Este estudo conclui com os seguintes pontos-chave:

“As dietas para a perda de peso são utilizadas há mais de 2500 anos, mas só foram rigorosamente testadas em ensaios clínicos randomizados nos últimos 20 anos. O balanço de energia negativa através da restrição calórica é necessário para a perda de peso (conforme já falamos) quando se faz dieta (…).

A perda de peso é altamente variável com todas as dietas, com algumas pessoas perdendo muito peso e outras ganhando peso; As diferenças na composição dos macronutrientes não favorecem convincentemente qualquer dieta.

As dietas com baixo teor de gordura estão associadas a níveis mais baixos de colesterol de lipoproteínas de baixa densidade e as dietas com maior teor de gordura estão associadas a níveis mais baixos de triglicerídeos e maiores níveis de lipoproteínas de alta densidade na maioria dos estudos de perda de peso a mais longo prazo; estes efeitos nos lípidos são geralmente relacionados com a magnitude da perda de peso.

Uma maior ingestão protéica e menor consumo de gordura podem ser benéficas na manutenção da perda de peso.”

Passamos à conclusão da segunda revisão:

“Os seres humanos preferem coisas simples e, portanto, há um desejo de identificar a melhor dieta, que resolva tudo. Infelizmente, o mundo raramente funcionam dessa forma. Não há uma distribuição ideal de macronutrientes para atingir a perda de peso. Nenhuma estratégia superior a que todos respondam da mesma forma. (…) Parece haver pouca vantagem na perda de peso ou em termos metabólicos entre as diferentes abordagens alimentares. As melhorias na saúde verificadas estão relacionadas com o grau de perda de peso. A restrição calórica é a premissa fundamental de todas as estratégias bem-sucedidas de perda de peso, seja isso conseguido pela redução de gordura, hidratos de carbono, jejum ou substituição de refeições.

Tudo é relativo e a melhor dieta, em última instância, é a que a pessoa conseguir manter o tempo suficiente para alcançar a perda de peso desejada. Dada a gravidade das taxas crescentes de obesidade, será inteligente não limitarmos as nossas opções e adotar uma abordagem individualizada. Como os resultados são habitualmente apresentados como média isso esconde o facto de que, em todos os estudos, há uma minoria que consegue uma resposta excelente. Portanto, nenhuma estratégia deve ser descartada.

Embora os estudos tenham demonstrado respostas variáveis à mesma restrição energética, a principal razão que sustenta o sucesso ou o fracasso de uma dieta alimentar será sempre a adesão à mesma. A chave para melhorar isso não é apenas a escolha da dieta. Uma série de fatores influenciam o processo de mudança. Os profissionais de saúde devem perguntar-se a si próprios não qual é a melhor dieta, mas como podem otimizar a adesão ao plano. A equipa de saúde que vê doentes com o objetivo de fazê-los perder peso deve possuir capacidades avançadas de comunicação. Trabalhar em colaboração com o doente para, em conjunto, escolher o melhor caminho a seguir (em vez de dizer o que vai fazer), já que irá percorrer um longo caminho para alcançar os objetivos traçados.”

Concluindo: Mais uma vez: Não há, para já, nenhuma dieta que se tenha imposto como sendo a melhor dieta. Nem a dieta alcalina, nem o jejum intermitente, nem mesmo a dieta mediterrânica ou vegetariana. Espero que isso tenha ficado claro. A dieta de Atkins ou outras dietas pobres em hidratos de carbono não são diferentes. Além disso, é importante salientar que ao contrário de outras dietas, a dieta de Atkins é nutricionalmente inadequada. A sua manutenção a longo prazo leva a que seja necessário suplementar com vitaminas e minerais, principalmente selénio, zinco, cálcio e vitamina D.

Dieta cetogénica no controlo da diabetes

Tem existido alguma discussão sobre o interesse da utilização da dieta cetogénica no controlo metabólico e no tratamento das complicações da diabetes. Dado que é o controlo da glicemia a base do tratamento da diabetes (apesar do controlo do colesterol e outros fatores de risco cardiovasculares serem, eventualmente, até mais importantes) e visto que os hidratos de carbono são o macronutriente que leva a um maior aumento da concentração de glicose sérica e da insulina após as refeições, faz todo o sentido que uma dieta baixa em hidratos de carbono seja eficaz a ajudar a controlar a doença.

De facto, existem vários estudos que apoiam essa hipótese no caso da diabetes tipo 2. No entanto, uma revisão sistemática e meta-análise de 2014 demonstrou que essas dietas não são superiores a outras dietas isoenergéticas (ou seja, com o mesmo número de calorias):

“Em participantes não diabéticos, a nossa análise revelou pouca ou nenhuma diferença na perda média de peso nos dois grupos em 3-6 meses (MD 0,74 kg, 95% IC -1,49 a 0,01 kg; I2 = 53%; n = 1745, 14 ensaios, evidência de qualidade moderada) e 1-2 anos (MD 0,48 kg, 95% IC -1,44 kg a 0,49 kg; I2 = 12%; n = 1025; 7 ensaios, evidência de qualidade moderada). Além disso, pouca ou nenhuma diferença foi detectada em 3-6 meses a 1-2 anos para tensão arterial, LDL, HDL e colesterol total, triglicerídeos e glicemia em jejum (> 914 participantes). Em participantes diabéticos, os resultados demonstraram um padrão similar.

Em 2017 foi publicada uma nova meta-análise e revisão sistemática, que acrescenta alguma informação:

“As dietas pobres em hidratos de carbono têm um maior efeito sobre o controle glicémico na diabetes tipo 2 em comparação com dietas ricas em hidratos de carbono no primeiro ano de intervenção. Quanto maior a restrição de hidratos de carbono, maior a o controlo, uma relação que não foi demonstrada anteriormente. No entanto, apesar desta redução da HbA1c no curto prazo, não há superioridade das dietas com baixo teor de hidratos de carbono em termos de controlo glicémico, peso ou colesterol LDL [após esse período inicial].”

Portanto, verificou-se uma melhoria do controlo da diabetes tipo 2 no curto prazo. Mas no médio/longo prazo, essa vantagem desaparece. Teoriza-se que pode ser a menor adesão à dieta pobre em hidratos de carbono ou eventualmente a existência de mecanismos compensatórios. Seja qual for o mecanismo, isso compromete a suposta vantagem desta dieta em comparação com as “concorrentes”.

No caso da diabetes tipo 1 as coisas são mais complicadas…existe muito pouca evidência sobre a utilização de uma dieta cetogénica nestes doentes, dado que evitar o estado de cetoacidose diabética é um dos principais objetivos do tratamento. Um estudo de revisão recente refere o seguinte:

As quantidades de cetonas produzidas nos doentes diabéticos são muito maiores que as observadas em indivíduos em jejum, pois os doentes diabéticos apresentam níveis de insulina diminuídos (insuficiência de secreção de insulina ou ação ineficaz de insulina), níveis aumentados de hormonas reguladoras como a glicagina (ou glucagon) que aumentam os níveis de ácidos gordos livres em circulação, juntamente com a diminuição da depuração da cetona. A deficiência de insulina, juntamente com o excesso da glicagina, leva à libertação não regulada de corpos cetónicos por parte do fígado.

Portanto, embora tenham sido relatados benefícios dos corpos cetónicos, em excesso podem causar efeitos nocivos. E a probabilidade de atingir altos níveis de corpos cetónicos no sangue é maior nos doentes com diabetes tipo 1. Atingir um equilíbrio, neste tipo de doentes, será bastante difícil. Na minha opinião, será preferível evitar este tipo de dieta nestes doentes. Os riscos assumidos parecem ser claramente superiores a eventuais benefícios.

Dieta cetogénica no tratamento de cancro

Falar da dieta cetogénica no tratamento do cancro obriga-nos a falar do Otto Warburg, o prémio Nobel que, coitado, ficou associado à dieta alcalina e aos seus supostos benefícios para tratar o cancro (que como já falamos, são inexistentes). E sim…também ficou associado à dieta cetogénica no tratamento do cancro.

Otto observou que a maioria das células cancerígenas, independentemente da disponibilidade de oxigénio e da presença de mitocôndrias funcionais, capturavam e metabolizavam grandes quantidades de glicose e convertiam-na em lactato em vez de oxidá-la completamente (como no caso de células saudáveis) para o dióxido de carbono. Esse fenómeno, agora denominado efeito de Warburg, representa um uso ineficiente da glicose, dado que o rendimento teórico na produção de ATP (molécula que conserva a energia para ser utilizada pela célula) gerado pela glicólise anaeróbia (2 moles de ATP/mol de glicose) é menor que o obtido através da respiração mitocondrial (36 moles de ATP /mol de glicose).  Este uso ineficiente da glicose é contrariado por uma taxa aumentada de absorção de glicose por parte das células cancerígenas.

Considerando que o cancro é uma doença altamente heterogénea por causa dos seus diferentes genótipos, o efeito de Warburg é uma característica importante, já que a maioria das células cancerígenas partilham este fenómeno, representando uma via metabólica susceptível de ser um alvo terapêutico. Apesar deste fenómeno ser conhecido há décadas, houve poucas investigações clínicas e desenvolvimento de estratégias de tratamento baseadas numa compreensão do efeito de Warburg.

No entanto, como temos verificado, não têm faltado gurus a preencher o vazio deste conhecimento com certezas sem bases válidas de apoio. Principalmente através da utilização de manipulações dietéticas, como a dieta alcalina e dieta cetogénica.

No caso da dieta cetogénica, o objetivo seria explorar o excesso de dependência que as células cancerígenas têm relativamente à glicose e do processo de glicólise para a produção de energia. Ou seja, eliminando a glicose, as células cancerígenas seriam incapazes de gerar energia e o cancro iria eventualmente “morrer à fome”.

Se levarmos em consideração estudos em animais, a dieta cetogénica tem demonstrado eficácia na diminuição do crescimento do tumor e no aumento do tempo de sobrevivência, de acordo com uma revisão sistemática deste ano. Isto foi observado no cancro do pâncreas, próstata, gástrico, cerebral e pulmonar. No entanto, mesmo estes estudos em animais apresentavam várias limitações, com uma qualidade média dos artigos a rondar os 60%. Para além disso, como já referimos várias vezes, não é possível fazer uma transposição direta da informação obtida desta forma para os seres humanos.

De facto, também este ano foi publicada uma revisão sistemática dos estudos realizados em seres humanos sobre a dieta cetogénica no tratamento do cancro. Não foram encontrados estudos rigorosos. A amostra totalizou 330 doentes. Cerca de 53% destes doentes aderiram à dieta cetogénica em alguma fase após o diagnóstico de cancro, mas apenas 20% conseguiram fazê-lo durante toda a duração do estudo.

No global, não entrando em pontos específicos, os estudos são de qualidade bastante questionável. Nem sequer o mesmo protocolo alimentar foi replicado de estudo para estudo. Não é de estranhar que os resultados dos estudos sejam inconsistentes. No entanto, a maioria não encontrou nenhuma relação com a dieta cetogénica e o aumento da sobrevida dos doentes ou diminuição no crescimento dos tumores.

Como resumido num outro artigo recente:

“Nove estudos avaliaram os efeitos da dieta cetogénica no metabolismo do tumor e/ou progressão da doença. Entre eles, 2 relataram resultados negativos, 2 apresentaram resultados diversos entre os participantes,  4 não relataram diferenças entre os tratamentos e 1 demonstrou uma alteração no metabolismo das células cancerígenas associadas à intervenção com a dieta cetogénica.”

Portanto, na globalidade, o efeito da dieta é neutro a negativo. Apesar da limitação dos estudos em termos de amostra e metodologia, estes resultados não aparentam produzir qualquer tipo de promessa futura para este tipo de dieta no tratamento do cancro.

Além disso, alguns cancros podem ter vias capazes de metabolizar corpos cetónicos, tornando ainda mais difícil provar a utilidade da dieta cetogénica, como no caso de alguns gliomas.

Concluindo: Os estudos em animais de facto demonstraram uma potencial utilidade da dieta cetogénica no tratamento do cancro. No entanto, os poucos estudos que existem em humanos não validam esse potencial. É preciso, com toda a honestidade, salientar que os estudos existentes devido à sua fraca metodologia não permitem retirar quaisquer conclusões. São necessários mais estudos para chegar a uma conclusão válida. Apesar disso, como referido anteriormente, esta dieta é uma dieta nutricionalmente incompleta e que induz uma perda de peso importante. Só esse facto poderá ter implicações no prognóstico dos doentes, já que a malnutrição e a perda de peso precoce são fatores de risco para mortalidade aumentada na população oncológica (artigo, artigo), habitualmente com menor capacidade de tolerarem a quimioterapia.

Conclusão final

Relativamente à dieta cetogénica esta tem, de facto, um papel relevante no tratamento das epilepsias refratárias. Eventualmente até deveria ser utilizada com maior frequência. Mas a dificuldade de adesão a longo prazo, ser nutricionalmente desadequada e obrigar a ensinamentos bastante específicos tanto a doentes como a médicos e nutricionistas, leva a que haja uma dificuldade acrescida na sua implementação.

Na perda de peso, voltamos ao mesmo de sempre. Escolha uma dieta que goste e que consiga aderir a longo prazo. Se for a dieta de Atkins ou outras dietas “low-carb”, força. Se não for, fique descansado(a)…a eficácia é semelhante a longo prazo.

Na diabetes tipo 2, apesar da dieta “low-carb” ser superior numa fase inicial, essa superioridade desvanece com o passar do tempo. Se é por menor adesão à dieta ou por mecanismos compensatórios, teremos que aguardar por mais estudos que esclareçam esta situação. Na diabetes tipo 1 não poderá ser aconselhada a dieta cetogénica dado o alto risco de provocar cetoacidose diabética.

Quando ao tratamento do cancro, é pura irresponsabilidade aconselhar esta dieta com o conhecimento que temos atualmente. Mas essa irresponsabilidade não é algo que afeta os charlatões como o Lair Ribeiro, Pinto Coelho, etc…dado que os seus interesses não se regem pelo bem estar dos doentes.

Honestamente, quando falamos do caso específico do Marcelo Rezende, dificilmente a dieta cetogénica ou outros tratamentos, mesmo com eficácia demonstrada, iriam alterar o curso desta história. No entanto, aqui o problema que se coloca não é o Marcelo Rezende. São todos os doentes que desistem de tratamentos validados cientificamente por outros sem qualquer validade. Porque, para estas pessoas, dada a grande promoção destas terapias sem contraditório, são tão válidas como os tratamentos oferecidos pela medicina.

Já vimos que isto acontece. Não são devaneios. E acontece, ainda por cima, em doentes que supostamente teriam melhor prognóstico à data do diagnóstico do cancro. Mas não são casos conhecidos ou publicitados pela comunicação social. Foi necessário um “famoso” aderir a este tipo de terapias para falarmos da ausência de evidência científica sobre a sua utilidade.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar