Clínica Placebo – Clínica Dr. Pinto Coelho e a Desintoxicação Plantar

admin Charlatanice, Desintoxicação Plantar, Geral Leave a Comment

Neste artigo regressamos a um dos médicos mais falados. O Dr. Manuel Pinto Coelho.

Caso não tenham acompanhado, após a publicação do artigo do Dr. Vaz Carneiro, o Dr. Pinto Coelho invocou o direito de resposta por sentir que a sua honra foi afetada. A resposta foi publicada na versão em papel mas ainda não está disponível online.

De qualquer forma, faço um resumo:

 1. A razão pela qual invocou o direito de resposta:

“…violentamente atacado não só na minha conduta enquanto médico junto dos meus doentes, a que não escapou uma consideração brutal, duma insensibilidade inacreditável, tão despudorada como amoral, chegando a pôr em causa o tratamento de um Filho meu, vítima duma doença neurodegenerativa grave, desprezando a minha imensa dor, o meu saber, a minha dedicação, a minha competência profissional e, mais grave ainda, a minha honra enquanto cidadão e médico…”

O Dr. Pinto Coelho utiliza o filho como arma de arremesso, quando o Dr. Vaz Carneiro apenas questionou o risco de utilizar medicamentos/suplementos em altas doses, sem qualquer evidência científica que o justifique.

2. Ficamos a saber que o Dr. Manuel Pinto Coelho usa o número de pessoas que esperam pelas suas consultas – referindo ter 5 meses de lista de espera – como métrica da moralidade, ética e evidência de eficácia das suas práticas. Como já falamos, não interessa o número de testemunhos que apresentamos ou a procura que determinado serviço tem…isso não indica que praticamos uma medicina baseada na evidência e muito menos que estamos a ajudar os doentes. Apenas indica que existe uma máquina de marketing bem montada e eficaz.

3. Utiliza argumentos científicos estranhos para apoiar a sua posição:

“No passado dia 18 de maio, fui convidado pela Delegação do Norte da ANF como orador, na conferência realizada no âmbito do meu livro e onde tive a oportunidade de desafiar a Direção a olhar com mais atenção para os suplementos nutricionais. Um repto aplaudido pelos presentes e aceite de forma positiva pelo presidente da direção da delegação norte da ANF, Dr. Francisco Faria, que afirmou publicamente no seu comentário final à minha intervenção, que “as farmácias vão acompanhar” este tema.”

O que é que este parágrafo justifica?! O que acrescenta? Nada…

4. O Dr. Pinto Coelho volta a referir que o limite inferior para a determinação do risco de doença cardíaca é 330 mg/dL de colesterol total, de acordo com a Associação Americana de Cardiologia (ACC).

Não vamos discutir colesterol ou estatinas neste artigo. Apenas deixo uma imagem abaixo dos quatro principais grupos de pessoas que podem beneficiar com as estatinas, de acordo com a ACC – guideline de 2016. Supõe-se que beneficiam do tratamento com estatinas acima destes níveis, pela existência de risco cardíaco… Além disso, em nenhum local da guideline é referido o valor de 330 mg/dL de colesterol total para a determinação do que quer que seja.

Também se pode consultar a guideline de 2013, dirigida exclusivamente ao tema estatinas…as recomendações são as mesmas.

Identification of 4 Statin Benefit Groups – in which the potential for an ASCVD risk reduction benefit clearly exceeds the potential for adverse effects in adults with:

  • Individuals with clinical ASCVD;
  • Individuals with primary elevations of LDL–C ≥190 mg/dL;
  • Individuals 40 to 75 years of age with diabetes with LDL-C 70-189 mg/dL;
  • Individuals without clinical ASCVD or diabetes who are 40 to 75 years of age with LDL-C 70.

5. O Dr. Pinto Coelho diz o seguinte sobre as estatinas:

“…a este propósito a Agência Europeia do Medicamento notificou em Março de 2012 todos os laboratórios produtores de estatinas para porem obrigatoriamente nas bulas que as estatinas são diabetogénicas, coisa que até hoje nem um cumpriu…”

Estas afirmações são tão fáceis de apanhar, que não se percebe porquê usar este caminho! Basta consultar o folheto informativo do Infarmed sobre a Sinvastatina, a estatina mais utilizada no mercado, atualizado pela última vez em 2015, onde se lê o seguinte:

“Efeitos secundários de origem desconhecida (a frequência não pode ser calculada a partir dos dados disponíveis):

  • depressão
  • tendinopatia (inflamação dos tendões)
  • disfunção eréctil
  • Diabetes. É mais provável ter diabetes se tiver níveis elevados de açúcar e gorduras no sangue, excesso de peso ou pressão arterial elevada. O seu médico irá avaliar se tem diabetes enquanto estiver a tomar este medicamento.”

Portanto, o folheto não só alerta para o risco como para a necessidade de vigilância…o que dizer sobre isto? Deixo à vossa consideração.

6. O Dr. Pinto Coelho desconhece o efeito de dose, algo básico na área da Toxicologia.

Grande parte da resposta do Dr. Pinto Coelho debruça-se sobre a vitamina D. Por questões de simplicidade, vamos assumir que o Dr. Pinto Coelho tem toda a razão nas afirmações que faz. O sol é ótimo e quanto mais melhor. A vitamina D é uma panaceia que só não faz ressuscitar mortos. Podemos assumir que a evidência científica está do seu lado, que os médicos (como eu) não estão atentos à evidência…

Só há um problema…Os estudos científicos que são realizados não utilizam as megadoses que o Dr. Pinto Coelho assume em entrevista utilizar. E a dose é extremamente importante. Deixo uma imagem relativamente ao que me refiro:

Este gráfico de curva em U aplica-se a praticamente todas as substâncias do nosso organismo…existem valores que consideramos deficientes, valores normais ou ótimos e valores excessivos.  O organismo tem uma série de mecanismos para regular estes valores. No entanto, nas vitaminas do grupo ADEK (cada sigla é uma vitamina), que são vitaminas lipossolúveis de fácil absorção, é mais fácil atingir doses tóxicas, com consequências para a saúde.

Logo, o Dr. Pinto Coelho pode estar a querer ajudar  os doentes quando lhes dá vitamina D…o problema é que opta por dar doses em níveis tóxicos e não em níveis terapêuticos…e isso é gravíssimo. Agradeço que o Dr. Pinto Coelho nos aponte os estudos que validem as doses que utiliza.

7. O Dr. Pinto Coelho adora citar prémios Nobel. Este tipo de falácia da autoridade é ótima para reforçar nossos argumentos, mesmo quando eles não têm qualquer apoio científico.

Tenho a certeza que se houvesse prémios Nobel no tempo de Hipócrates e Galeno, teriam com toda a certeza ganho pelo menos um. No entanto, tanto Galeno como Hipócrates apoiavam-se na teoria humoral, que hoje se sabe não ter qualquer relação com o que consideramos ser o funcionamento do corpo, o surgimento de doenças e o seu tratamento…ou seja, é necessário contextualizar, coisa que o Dr. Pinto Coelho não faz.

Se o Linus Pauling, um Nobel da Química – não de Medicina – disse em 1950 que doses altas de vitamina C são boas para a saúde, com certeza que toda a investigação realizada desde essa altura até à atualidade não tem qualquer validade! (sarcasmo)

Não vou perder tempo a desmontar um por um os argumentos do Dr. Pinto Coelho por não ser produtivo e muito menos informativo. Ainda por cima quando deixou de fora, “por falta de espaço no jornal”, coisas tão engraçadas como o “intestino poroso, a água do mar, o jejum intermitente, a dieta cetogénica e a utilização de hormonas bio-idênticas.” – ou seja, o mais importante.

Seguindo em frente

Neste artigo vamos abordar um tratamento promovido na Clínica do Dr. Pinto Coelho – a Desintoxicação Plantar Eletrolítica.

O que é a Desintoxicação Plantar Eletrolítica?

Integro a definição que está no site da clínica Dr. Pinto Coelho:

“Devido à poluição do meio ambiente, ao stress, à má alimentação e a várias doenças, vamos acumulando e armazenando uma grande quantidade de toxinas.

O Detox é uma forma agradável e eficaz de desintoxicação celular, limpeza e reequilíbrio do corpo. As impurezas são libertadas através dos milhares de poros dos pés imersos em água ionizada e dinamizada por um processo de eletrólise.

Como funciona:

Nos cerca de 30 minutos em que os pés estão mergulhados na água ionizada, ocorre através dos poros, por osmose e difusão, um importante estímulo, que potencia no corpo a eliminação de substâncias tóxicas e metais pesados, aumentando assim as nossas defesas naturais.

Benefícios:

• Favorece a desintoxicação do fígado e a drenagem dos rins;
• Estimula a eliminação de resíduos ácidos;
• Estimula e regula a circulação periférica;
• Aporte de maior oxigenação celular;
• Maximiza o processo metabólico do organismo;
• Retarda o envelhecimento;
• Fortalece o sistema imunológico;
• Melhora a qualidade do sono;
• Aumenta a energia física e mental;
• Contribui de forma significativa para a redução de rugas, acne e outros problemas da pele;”

Portanto, pomos os pezinhos na água ionizada – água com eletrólitos – que está dentro de uma maquineta que gera uma pequena corrente elétrica e através do processo de eletrólise vamos remover as toxinas e metais pesados que temos armazenados no nosso organismo. Como é habitual, não há especificação que toxinas e metais pesados são libertados do organismo.

Os benefícios são incríveis, como se pode verificar…quem não quer dormir melhor, retardar o envelhecimento, fortalecer o sistema imunológico e ter mais energia? Tudo isto colocando os pezinhos na água…porque é que os Hospitais não têm estas máquinas!? Malditas restrições orçamentais!

Deixo um vídeo do marketing realizado a este tipo de máquina detox. Se não quiser ver o vídeo, fica uma imagem abaixo.

Quem leu o artigo anterior sobre os purificadores da água, começa a perceber o que se passa com esta máquina…e de facto, o Dr. Pinto Coelho faz aqui uma jogada interessante…admite que a mudança de cor da água irá acontecer independentemente de ter lá os pés ou não:

“A água irá mudar de cor independentemente dos pés nela mergulhados, devido à reação dos metais do dispositivo, e a polarização do sal e dos minerais nela presentes. Contudo, ela irá conter 10 a 20 vezes mais detritos celulares no fim de cada sessão com um utilizador.”

Obrigado, Dr. Pinto Coelho…poupou-me algum trabalho. Já não tenho que explicar o truque.

Refere, no entanto, que a água irá conter 10 a 20 vezes mais detritos celulares…mas isso é óbvio! Se não tiver lá os pés, não haverá detritos celulares! Perdemos cerca de 300 milhões de células por minuto, todos os dias. É normal que após 30 minutos com os pés nessa água, encontrarmos “detritos celulares”! E isso prova o quê?

O Dr. Pinto Coelho também refere que “As cores também variarão bastante de pessoa para pessoa dependendo dos locais de armazenamento das toxinas.”

De facto, os proponentes destes tratamentos até referem o que significam as cores:

  • Água amarela – vem dos rins ou da bexiga (faz sentido, cor de urina);
  • Cor de laranja/castanha – articulações;
  • Verde/castanha escura até negra – fígado, vesícula ou intestinos;
  • Branca – sistema linfático.

Então, o que diz a evidência sobre a Desintoxicação Plantar Eletrolítica?

Desintoxicação Plantar Eletrolítica é simplesmente um embuste. 

O conceito é ridículo. Mas mesmo que levássemos este tratamento a sério, as solas dos pés e as palmas das mãos são das zonas do corpo com a camada de queratina mais densa. Logo, seria um péssimo sítio para realizar troca de partículas e conseguir “desintoxicar” o organismo.

Mas, de qualquer forma, fizemos uma pesquisa no Pubmed com “foot detox” encontramos apenas UM ARTIGO.

O artigo não está disponível, mas pelo título claramente não abona a favor do tratamento que a Clínica Dr. Pinto Coelho vende aos seus doentes.

Mas se ainda houvesse dúvidas, Ben Goldacre deu-se ao trabalho de ir fazer um tratamento destes, e levar a água para análise…o que encontraram? Apenas ferro…dos circuitos metálicos da máquina que reagem com a água.

Agora, caro leitor…se uma clínica vende este tipo de tratamentos…o que se pode dizer da ética e moral da mesma?

Tendo em consideração este claro embuste, sem qualquer base científica, apetecia-me dar 10 valores na escala de charlatanice…mas já que o Dr. Pinto Coelho me poupou trabalho a explicar como a máquina funciona, dou 9 valores…9 TRUMPS COM PROBLEMAS DE ARTICULAÇÕES.

 

9/10

 

Se chegou aqui, tem prenda! O Dr. Ben Goldacre a fazer desintoxicação plantar a uma Barbie. 🙂 Fala também da insistência em rituais de saúde que não trazem qualquer benefício em detrimento de comportamentos importantes que deveríamos reforçar: exercício físico, boa alimentação e boa higiene de sono.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar