Evidência Científica Sobre a Dieta Alcalina

Dieta Alcalina…Mitos e Factos

admin Dieta Alcalina, Dietas, Geral, Nutrição 3 Comments

Muita tinta tem corrido sobre a dieta alcalina e os seus supostos benefícios para a saúde.

A base teórica é simples: os alimentos têm influência no pH do organismo.  Uma dieta com alimentos alcalinos será mais saudável, já que um “corpo ácido” será mais susceptível ao aparecimento de uma série de doenças.

De uma forma mais “científica”, o tipo de cinza que os alimentos produzem após a sua combustão determina se são ácidos ou alcalinos. Os alimentos que produzem cinzas alcalinas, ricas em cálcio, sódio, potássio e magnésio fazem bem à saúde. Alimentos ricos em cinzas ácidas, ricas em cloro, fosfato e enxofre fazem mal à saúde.

Vegetais e frutas, com algumas excepções como as ameixas e o arando, produzem cinzas alcalinas. De forma surpreendente, alguns alimentos ácidos como os citrinos também produzem cinzas alcalinas. A carne, peixe, ovos, queijo e grãos produzem cinzas ácidas. As gorduras puras e os açúcares são neutros, já que não contêm proteínas nem minerais. Ou seja, isto faz com que a dieta alcalina seja bastante semelhante à dieta vegetariana.

Os promotores desta dieta referem que é ótima para perder peso, aumentar a energia, reduzir o risco de várias doenças como osteoporose, doenças cardiovasculares e cancro. Mas vão mais longe…esta dieta ajudará, supostamente, no tratamento do cancro.

No caso do cancro, o Prémio Nobel Otto Warburg é utilizado como a autoridade na matéria…as suas afirmações são distorcidas para dar força a este argumento. Segundo alguns, Otto Warburg disse que o cancro não sobrevive num ambiente alcalino. Segundo os mais extremistas, Otto disse que nenhuma doença consegue sobreviver em ambiente alcalino. O que é uma boa publicidade para quem pretende vender água alcalina.

Esta é a frase que Otto disse:

Cancer, above all other diseases, has countless secondary causes. But, even for cancer, there is only one prime cause. Summarized in a few words, the prime cause of cancer is the replacement of the respiration of oxygen in normal body cells by a fermentation of sugar. — Otto H. Warburg

O cancro, mais do que as outras doenças, tem inúmeras causas secundárias. Mas, mesmo para o cancro, há apenas uma causa primária. Resumido em poucas palavras, a principal causa do cancro é a substituição da respiração dependente de oxigénio nas células normais do corpo pela fermentação de açúcar.

Não tem muito a ver com o que circula na internet, pois não? Para quem quiser saber mais sobre este mito, aconselho a leitura deste artigo.

É possível alcalinizar o organismo com a alimentação?

O corpo executa várias funções com o objetivo de manter o equilíbrio (a chamada homeostasia). Uma dessas funções é garantir que os fluidos, tecidos e células do corpo não sejam muito ácidos ou alcalinos, mas permaneçam numa faixa de pH saudável – entre os 7.35 e os 7.45. Caso isso não ocorra, entramos em acidose ou alcalose, o que é prejudicial ao funcionamento do organismo.

Facto: Os alimentos não conseguem influenciar o pH do sangue, dos tecidos ou das células.

O pH da urina muda com a alimentação, é certo (artigo e artigo). Aliás, a acidificação ou alcalinização da urina é uma das formas do organismo manter o pH  dentro da faixa dos 7.35-7.45. Mas de resto, não há qualquer efeito da alimentação no pH do organismo. E quem defende o contrário desconhece os conceitos mais básicos da fisiologia humana. Chamando os burros pelos nomes: se são ignorantes num facto tão básico, acha que são pessoas de confiança para falar sobre saúde?! Para aconselhar sobre saúde?!

É o que prova a Holmes Place, que promove no seu site a dieta alcalina, com pérolas como esta:

O ideal é evitar os alimentos ácidos, com pH abaixo de 7. Uma boa dieta é composta de 70% de alimentos alcalinos e 30% de acidificantes. O ideal seria ter o sangue com o pH acima de 7,5, o que proporciona uma maior resistência a doenças e, consequentemente, mantém uma boa imunidade, além de melhorar o metabolismo, aumentar a eliminação de toxinas e diminuir a retenção de líquidos.”

Numa alusão à Guerra dos Tronos: “Shame…Shame…Shame…”. Como é que uma empresa que opera a nível nacional, amplamente conhecida, permite um artigo onde se promove este tipo de aldrabices?!

O site VidaActiva vai pelo mesmo caminho:

O pH do organismo pode ser influenciado pelos alimentos ingeridos. É neste fundamento que assenta a dieta alcalina. Por norma, o pH do sangue deve ser (ou é) alcalino, variando entre um pH de 7,2 e 7,5.”

Depois temos o nosso amigo Pinto Coelho, numa das suas aparições no programa degredo “Agora Nós”.

Diz que num ambiente alcalino é difícil adoecer; que nas idades mais avançadas estamos mais ácidos e o corpo vai buscar minerais a outros órgãos para se manter alcalino e isso provoca doenças; que a acidez é o primeiro passo para a inflamação. Mais uma vez, o nosso amigo demonstra a sua completa ignorância na televisão pública, paga pelos nossos impostos, a desinformar os portugueses sobre os conceitos básicos do funcionamento do corpo humano.

Mas Manuel Pinto Coelho não está sozinho. Está bem acompanhado pelo charlatão Lair Ribeiro, que defende o mesmo. No fundo, quanto mais leio sobre o Pinto Coelho, mais ele se assemelha a uma recaixotagem de má qualidade do Lair Ribeiro.

Mas existe algum fundamento na dieta alcalina?

A discussão sobre as vantagens de uma dieta alcalina ou ácida tem décadas. Já D.C. Jarvis, um médico americano do início do século XX, promovia o uso de vinagre para manter o corpo mais “ácido” do que alcalino, sendo que acreditava que trataria problemas de saúde como queimaduras e varizes.

Mais recentemente, em 2002, o “Dr.” Robert O. Young ressuscitou esta discussão com o livro “The pH Miracle”, onde promove a dieta alcalina como o Santo Graal da prevenção e tratamento de praticamente todas as doenças. Várias celebridades começaram a seguir esta dieta, como a Kate Hudson, a Jennifer Aniston e a Victoria Beckham. Isto deu uma grande visibilidade a esta moda.

Mas antes de avançarmos, é importante percebermos quem é o Dr. Young:

No fundo, o “Dr.” Young é um naturopata que nem o curso de naturopatia tem de uma entidade minimamente acreditada (não que fizesse diferença…um naturopata acreditado e não acreditado continua a ser um naturopata). Defende teorias absurdas, já desmistificadas há décadas, como a capacidade das bactérias se transformarem em eritrócitos (células do sangue que transportam o oxigénio) e os eritrócitos se transformarem em bactérias; afirma que a acidez do organismo é a raiz de todas as doenças; que não existem células cancerígenas, mas sim células que foram “estragadas pelo ambiente ácido”; e, mantendo a coerência, acredita nas teorias da conspiração que rodeiam as vacinas, sendo contra a vacinação.

Como charlatão que é, acabou por ser acusado por roubo e prática de medicina sem licença, correndo o risco de ficar preso durante uns tempos. Este é o grande promotor moderno da dieta alcalina…este é o seu grande representante. Assustador, não?

Infelizmente, não são só os charlatões que alimentam estas ideias, sem bases científicas sólidas. Recentemente surgiram alguns artigos onde se teorizava que dietas ricas em alimentos com “cinzas ácidas” fariam com que o corpo tentasse neutralizar a acidez recorrendo ao tampões de acidez presente no osso, levando à perda de cálcio, ao enfraquecimento do osso e ao risco aumentado de osteoporose . Por outro lado, os alimentos que produzem “cinzas alcalinas” fariam exatamente o oposto, diminuindo a perda de cálcio no osso e o risco de osteoporose.

Esta hipótese foi apoiada, inclusive, pela Associação Americana de Dietética.

Então a dieta alcalina é boa para a osteoporose!

Nem por isso…o problema da recomendação avançada pela Associação Americana de Dietética é que foi feito sem bases científicas sólidas. Os estudos feitos sobre esse tema têm demonstrado de forma consistente a ausência do efeito teorizado. Uma meta-análise de 2009 diz o seguinte:

“There is no evidence from superior quality balance studies that increasing the diet acid load promotes skeletal bone mineral loss or osteoporosis. Changes of urine calcium do not accurately represent calcium balance. Promotion of the “alkaline diet” to prevent calcium loss is not justified.”

Não há evidências de estudos de qualidade superior que o aumento da carga ácida da dieta promova a perda mineral óssea ou a osteoporose. As alterações do cálcio na urina não representam com precisão o equilíbrio de cálcio. A promoção da “dieta alcalina” para evitar a perda de cálcio não é justificada.

Outra meta-análise de 2009 conclui exatamente o mesmo:

“All of the findings from this meta-analysis were contrary to the acid ash hypothesis. Higher phosphate intakes were associated with decreased urine calcium and increased calcium retention. This meta-analysis did not find evidence that phosphate intake contributes to demineralization of bone or to bone calcium excretion in the urine. Dietary advice that dairy products, meats, and grains are detrimental to bone health due to “acidic” phosphate content needs reassessment. There is no evidence that higher phosphate intakes are detrimental to bone health.”

Todas as conclusões desta meta-análise foram contrárias à hipótese das cinzas ácidas. A ingestão mais alta de fosfato foi associada à diminuição do cálcio urinário e ao aumento da retenção de cálcio. Esta meta-análise não encontrou evidências de que a ingestão de fosfato contribua para a desmineralização do osso ou para excreção de cálcio ósseo na urina. O aconselhamento dietético que os produtos lácteos, carnes e grãos são prejudiciais para a saúde óssea devido ao seu conteúdo em fosfato necessita de ser reavaliado. Não há evidências de que a ingestão de fosfato mais alta prejudique a saúde óssea.

Uma revisão sistemática de 2011 conclui o mesmo:

“A causal association between dietary acid load and osteoporotic bone disease is not supported by evidence and there is no evidence that an alkaline diet is protective of bone health.”

Uma associação causal entre a carga ácida da dieta e a osteoporose não é apoiada pela evidência. Não há evidência de que uma dieta alcalina proteja a saúde óssea.

Paradoxalmente ao que a dieta alcalina defende, a ingestão de proteína animal pode ajudar a diminuir o risco de osteoporose. Portanto, ao tentarem prevenir a doença promovendo um determinado tipo de alimentação estão, inversamente, a aumentar o risco das pessoas vir a sofrer dessa doença (artigo e artigo)…é o problema das pessoas se basearem em fantasia e não em factos.

E o cancro…é possível tratar com dieta alcalina?

Como falamos anteriormente, uma das reivindicações mais populares da dieta alcalina é que ela pode prevenir e curar cancro. Os defensores dizem que o cancro só pode crescer em um ambiente ácido. Logo, uma dieta alcalina poderá impedir o seu crescimento e eliminar as células cancerígenas existentes.

Esta teoria é incorreta por vários motivos. Como já falamos anteriormente,  não é possível alterar o pH do organismo. Nem mesmo uma dieta vegetariana tem esse efeito.

Além disso, não é o ambiente ácido que causa o cancro…é o cancro que causa o ambiente ácido. À medida que o tumor se desenvolve, ele cria um ambiente ácido através de vários mecanismos como a respiração anaeróbia (fermentação láctica) e devido a uma vascularização local reduzida (os vasos sanguíneos não conseguem acompanhar o crescimento do tumor). Portanto, o pH do organismo não determina o pH local, onde o cancro se desenvolve. Mesmo que fosse possível alcalinizar o corpo, isso teria pouco impacto no pH local e no desenvolvimento do cancro.

Desfazendo mais um mito, o cancro consegue crescer em ambiente alcalino. O pH do tecido corporal normal é de 7,35-7.45 – ligeiramente alcalino – e em várias experiências laboratoriais essas células são cultivadas com esse pH.  Além disso, em termos lógicos não faz qualquer sentido essa afirmação, já que o cancro precisa de estar em contato com um pH de 7.35-7.45 no momento da metastização, quando abandona o seu ambiente local, mais ácido. E quando se estabelece noutro órgão, esse ambiente não é ácido…só depois dessa metástase crescer é que surge o ambiente ácido local promovido pelas células cancerígenas.

É verdade que a maioria dos cancros crescem melhor em ambiente ácido e a anulação desse ambiente ácido poderá atrasar o crescimento e eventualmente a metastização. Até poderá ajudar alguns fármacos antineoplásicos a serem mais eficazes. No entanto, nalguns cancros o ambiente extracelular alcalino poderá ter o efeito exatamente oposto e potenciar a sua metastização.

Juntando a estes factos, uma revisão sistemática de 2016, conclui com base no único estudo de qualidade sobre este tema:

“Despite the promotion of the alkaline diet and alkaline water by the media and salespeople, there is almost no actual research to either support or disprove these ideas. This systematic review of the literature revealed a lack of evidence for or against diet acid load and/or alkaline water for the initiation or treatment of cancer. Promotion of alkaline diet and alkaline water to the public for cancer prevention or treatment is not justified.”

Apesar da promoção da dieta alcalina e da água alcalina pelos meios de comunicação e os vendedores destes produtos, quase não existem pesquisas reais para apoiar ou refutar essas ideias. Esta revisão sistemática da literatura revelou falta de evidência científica para apoiar ou desanconselhar uma dieta alcalina para o tratamento de cancro. A promoção da dieta alcalina e da água alcalina ao público para prevenção ou tratamento do cancro não é justificada.

A Canadian Cancer Society diz o seguinte:

“Some people believe that this type of diet will help you lose weight, increase your energy and reduce your risk of heart disease and cancer. However, there is no evidence to support any of these claims.”

Algumas pessoas acreditam que esse tipo de dieta irá ajudá-lo a perder peso, aumentar sua energia e reduzir seu risco de doença cardíaca e cancro. No entanto, não há evidências para apoiar nenhuma dessas afirmações.

Portanto, se tem cancro,não brinque nem procure terapias alternativas. Apenas vai atrasar um tratamento eficaz em detrimento de tratamentos mágicos baseados em teorias desorganizadas de pessoas que não sabem nada de ciência.

E a perda de massa muscular?

Os proponentes da dieta alcalina referem que conforme vamos envelhecendo, vamos perdendo massa muscular. Isso estará relacionado com o ambiente mais ácido do organismo, que promove essa perda.

De facto, há alguns estudos que referem que a dieta formadora de ácido levam a uma perda de massa muscular. O mecanismo proposto é semelhante ao da osteoporose: para eliminar o excesso de ácido e manter a homeostasia, os rins são obrigados a “roubar” os aminoácidos do tecido muscular. Isso é supostamente validado pela maior excreção de nitrogénio na urina – a base da formação dos aminoácidos – quando fazemos uma “dieta ácida”.

No entanto, o problema de alguns desses estudos é que não medem o balanço de nitrogénio/azoto. Em vez de contabilizar as entradas e as saídas apenas contabilizam as saídas (artigo e artigo).

Qual é o problema disto? Vamos supor que eu tenho uma dieta ácida, que em princípio será mais rica em proteína animal. Logo, se ingiro mais proteína é de esperar um aumento da excreção de proteína urinária. Aqui não há necessariamente uma perda de proteínas musculares. O que está a acontecer é que o organismo está a livrar-se do excesso de proteína que estou a consumir. Por isso é importante medir o balanço de nitrogénio/azoto, por forma a perceber se as saídas são superiores às entradas. Só assim se consegue concluir alguma coisa.

Esta teoria também não leva em conta o facto das proteínas, apesar de terem uma carga ácida, facilitarem a excreção de ácidos pelo rim. Pior, alguns estudos têm demonstrado que o consumo de proteína animal ajudam a conservar a massa magra e tal não acontece com a proteína vegetal (artigo e artigo). Tendo em consideração que a dieta alcalina é quasi-vegetariana, isso é um problema.

No entanto, existe um estudo observacional de 2013, de boa qualidade, que apoia a dieta alcalina para preservação de massa magra:

“We observed a small but significant positive association between a more alkaline diet and muscle mass indexes in healthy women that was independent of age, physical activity and protein intake (…). Although protein is important for maintenance of muscle mass, eating fruits and vegetables that supply adequate amounts of potassium and magnesium are also relevant. The results suggest a potential role for diet in the prevention of muscle loss.”

Observamos uma pequena mas significativa associação positiva entre uma dieta mais alcalina e os índices de massa muscular em mulheres saudáveis, que era independente da idade, atividade física e ingestão proteica (…). Embora a proteína seja importante para a manutenção da massa muscular, comer frutas e vegetais que fornecem quantidades adequadas de potássio e magnésio também é relevante. Os resultados sugerem um papel potencial para a dieta na prevenção da perda de músculo.

O que concluir daqui? A proteína animal, os frutos e os vegetais são importantes para a manutenção da massa magra nos idosos. Esqueça o ácido e o alcalino.

E nas outras doenças? A dieta alcalina ajuda?

Relativamente a hipertensão (e eventual aumento do risco cardiovascular), os resultados dos estudos existentes são mistos, não existindo, para já, qualquer conclusão nesse sentido (artigo e artigo).

A dieta alcalina poderá eventualmente ajudar na prevenção de pedras renais ricas em cálcio (cerca de 80% dos cálculos renais). Os aconselhamentos para prevenir as pedras renais são resumidos neste estudo:

  • Beber suficiente fluido para produzir consistentemente um volume de urina de pelo menos 2,2-2,5 l/dia;
  • Eliminar, na medida do possível, o consumo de alimentos com alto teor de oxalato;
  • Ingerir carne, peixe ou proteína de aves de capoeira apenas uma vez por dia e numa dose não superior a 120-150 g/dia;
  • Aumentar a ingestão de frutas e produtos hortícolas frescos, com exceção daqueles com alto teor de oxalato;
  • Não eliminar ou reduzir notavelmente a ingestão de cálcio, mas manter o consumo a um nível razoável (cerca de 20 mmol/dia).
  • Mudar o consumo de pão branco para o pão integral e o seu consumo de cereais para produtos que contenham farelo, a fim de corrigir uma dieta de baixo teor de fibras e aumentar a ingestão de magnésio, MAS não consumir quantidades excessivas de alimentos ricos em fibras, a menos que seja compensado com aumento da ingestão de líquidos;
  • Limitar a ingestão de sal e alimentos salgados;
  • Limitar a ingestão de açúcar ou alimentos ricos em açúcar.

Estes aconselhamentos aproximam-se bastante dos princípios da dieta alcalina. Portanto, é expectável que seguindo essa dieta haja benefícios no controlo deste problema de saúde.

E o argumento antropológico? Que antes a nossa dieta era mais alcalina e agora é mais ácida?

Este também é um dos argumentos recorrentes dos promotores da dieta alcalina. Referem que a nossa dieta ocidental mudou muito rapidamente nos últimos anos e o nosso corpo não acompanhou essas mudanças. Os nossos antepassados tinham uma dieta mais alcalina e agora temos uma dieta mais ácida. Será essa uma das causas dos nossos problemas de saúde atuais.

De facto, existem alguns estudos em que investigadores tentaram descobrir qual seria a alimentação na era paleolítica. Um desses estudos estimou que 87% da população da era pré-agrícola tinha uma dieta mais alcalina.

No entanto, um estudo mais recente estimou que apenas metade das sociedades caçadoras-recoletoras do mundo comia dietas mais alcalinas, enquanto a outra metade comia dietas mais ácidas. Esta diferença advém do facto do estudo anterior avaliar a dieta dos nossos antepassados mais antigos, onde o clima mais tropical proporcionaria frutas e vegetais em maior quantidade.

Essa ideia é confirmada por outra análise que mostrou um aumento de dietas mais ácidas com o aumento da latitude geográfica. Ou seja, existem zonas menos propensas ao crescimento de plantas e árvores de fruto comestível e os nossos antepassados teriam que depender mais de outros alimentos, mais ácidos, como a carne e grãos.

Se a dieta alcalina tivesse o impacto na saúde proposto, então metade da população mundial daquela época teria sofrido das “doenças da civilização moderna”, já que estão relacionadas com a dieta ácida. Isso não aconteceu. Logo, é mais um argumento que invalida a importância de uma dieta alcalina para evitar o aparecimento de doenças.

Onde está o negócio?

É óbvio que a promoção da dieta alcalina, sendo uma dieta bastante semelhante à dieta vegetariana, em princípio será saudável e não haverá grandes contraindicações para que as pessoas a façam. Mas esta dieta não surgiu em prol do doente. Surgiu com objetivos comerciais. Para além de ajudar à auto-promoção dos charlatões supracitados, essa dieta alcalina também tem servido de promoção das “águas alcalinas” como a água de Monchique.

Pior, tem servido para a promoção da venda de ionizadores de água, que prometem transformar a água lá de casa em água alcalina. Um ionizador custa mais de 2000€! Um dos sites que vende ionizadores promete ajudar no tratamento de diabetes, obesidade, artrose, peso, hemorróides, depressão…tudo o que quiserem, desde que paguem uns milhares de euros.

Concluindo

A dieta alcalina é uma má dieta? Não…é uma dieta semi-vegetariana e existem várias vantagens em aderir a uma dieta mais rica em legumes e frutas. No entanto, toda a teoria ácido-base que sustenta esta dieta tem muito poucas evidências que a suportem. E não, não cura cancro. E não, não trata doenças, salvo raras excepções.

O problema bate sempre no mesmo…esta dieta é mais uma moda usada para promoção de determinados indivíduos e venda de determinados produtos. Não interessa se é mentira. Não interessa se não tem bases científicas. Menos interessa se há doentes com cancro que acreditam nestas tretas e depositam a sua esperança nas mãos destes charlatões. O que interessa é que alguém enriqueceu com isso.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar