Avaliação Crítica da Dieta do Paleolítico

Dieta Paleo…a Nostalgia pelo Homem da Caverna

admin Dietas, Geral, Nutrição Leave a Comment

A dieta paleo será possivelmente uma das modas alimentares contemporâneas mais populares. Contam com um grupo português no Facebook com mais de 300.000 membros! 

Nesse grupo, o foco é a partilha de fotos de receitas paleo, tirar dúvidas sobre que alimentos são paleo ou não e a partilha de testemunhos de pessoas que aderiram à dieta e se sentem melhor, perderam peso, etc. –  já falamos do problema dos testemunhos.

A popularidade deste grupo levou à criação de uma série de serviços como venda de refeições, venda de consultas (inclusive de naturopatia…), publicitação a marcas e criação de uma série de parcerias, nas quais se incluem clínicas de medicina alternativa. Um verdadeiro negócio, com uma grande pitada de “alternativo”.

Levou inclusive ao surgimento de uma revista. No primeiro número foi escolhido o charlatão Pinto Coelho, um dos ídolos dos seguidores da dieta, para ser entrevistado…conclui-se que ciência não é com esta gente.

Quando um grupo tem como ídolo alguém como o Pinto Coelho, estamos mal…

O Conceito da Dieta Paleo

A dieta Paleo, apesar de derivar de conceitos antigos, foi popularizada recentemente por Loren Cordain através do seu livro The Paleo Diet, publicado em 2002. 

O conceito da dieta paleo é relativamente simples. Supostamente o corpo humano é geneticamente incompatível com a dieta moderna que emergiu com práticas agrícolas – uma ideia conhecida como hipótese de discordância. A agricultura mudou de forma importante os padrões alimentares das pessoas. Esta mudança relativamente rápida e tardia, de acordo com esta hipótese, ultrapassou a capacidade de adaptação do organismo. Os defensores desta teoria acreditam que este desajuste seja um fator que contribui para a prevalência da obesidade, diabetes e doença cardíaca nos dias de hoje. Logo, se queremos ser saudáveis devemos ter hábitos alimentares semelhantes aos praticados na era do Paleolítico, que data de aproximadamente 2,5 milhões até 10 mil anos atrás. Assim, uma dieta paleo inclui a ingestão de carnes, peixe, frutas, vegetais, frutos secos e sementes – alimentos que no passado poderiam ser obtidos por caça e coleta.

Por outro lado, deve limitar-se a ingestão de produtos lácteos, legumes/leguminosas e cereais (trigo, milho, centeio, cevada, etc.), alimentos que se tornaram comuns quando a agricultura surgiu há cerca de 10 mil anos.

Desde o livro de Cordain que surgiram conceitos diferentes de dieta paleo, alguns dos quais não encaixam no princípios descritos acima. Existe, aliás, quem considere a “evolução” do Paleo 1.0 para o Paleo 2.0. No fundo, esta mudança do seu conceito original aproximou a dieta Paleo da dieta Low-Carb ao que se junta o jejum intermitente. Já falamos sobre o jejum intermitente e sobre o facto de não promover a saúde de nenhuma maneira em particular…mas não vamos deixar que os factos atrapalhem os Homens das Cavernas.

Onde erra o conceito Paleo?

No fundo, a dieta Paleo é mais uma dieta que demoniza os laticínios e os alimentos com glúten. Pior, coloca de lado uma série de alimentos que sabemos serem saudáveis. Uma revisão sistemática e meta-análise deste ano fez uma avaliação dos estudos prospetivos de 12 grupos alimentares e a sua relação com a mortalidade e concluiu o seguinte:

Nove dos 12 grupos de alimentos mostraram associação com a mortalidade geral na análise categórica ou contínua da dose-resposta; uma associação inversa (menor mortalidade) estava presente para o consumo de grãos integrais, vegetais, frutas, frutos secos, legumes/leguminosas e peixe, enquanto uma associação positiva (maior mortalidade) estava presente para o consumo de carne vermelha, carne processada, ovo e bebidas açucaradas. Encontramos uma indicação clara para as relações não-lineares entre legumes, frutas, frutos secos e produtos lácteos com mortalidade por todas as causas. A ferramenta NutriGrade para avaliar a meta-evidência sugeriu alta confiança na estimativa de efeito para grãos integrais. De acordo com esta afirmação, este grupo de alimentos tem sido considerado importante na prevenção da morte precoce e incapacidade.”

Estes resultados são compatíveis com os de outras meta-análises. Então, conclui-se que a dieta paleo elimina dois grupos alimentares que claramente demonstraram diminuir a mortalidade (legumes/leguminosas e grãos), elimina um grupo que tem impacto neutro (laticínios) e dá preferência a outros grupos, com forte incidência na proteína animal, que claramente demonstra aumentar a mortalidade. 

Para além disso, toda a hipótese da discordância já foi amplamente refutada. Nem sequer precisamos ser demasiado técnicos para explicar as limitações desta filosofia. Basta observar o que aconteceu com a relação do homem com o leite:

“Os cálculos estatísticos dos dados genéticos estimam que a seleção para a persistência da enzima lactase começou recentemente, nos últimos 10.000 anos. A persistência da lactase foi benéfica para os nossos antepassados, fornecendo uma fonte limpa de fluídos e uma fonte de proteína, gordura e hidratos de carbono. A persistência da enzima lactase gerou uma vantagem seletiva de 1,5 a 19% a cada geração. Isso indica uma forte pressão de seleção comparável aos genes de resistência à malária (2-5% para deficiência de G6PD, 5-18% para traço falciforme) em várias partes do mundo.”

Ou seja, o ser humano não parou de evoluir há 10.000 anos. Continua em constante mudança e sujeito a pressões selectivas, mesmo nos dias de hoje. O leite é exemplo disso. Foi tão importante para o Homem nos últimos 10.000 anos que deu uma vantagem seletiva enorme a quem possuía a persistência da lactase, comparável com a resistência a doenças como a malária. 

Mas se esta teoria é débil, pior é achar que os alimentos que os Paleo selecionaram como sendo alimentos que mimetizam a alimentação do Homem das Cavernas, são os que existiam naquela época. Esta imagem é paradigmática:

A mostarda selvagem deu origem nos últimos 3.000 anos a verduras como o repolho, couve e os brócolos, através de processos de seleção promovidos pelo Homem. Portanto, a não ser que os Paleo comam apenas a mostarda selvagem, não vejo como estão a mimetizar a dieta dos nossos antepassados. E como falamos de verduras, podíamos falar dos citrinos.

Mas não ficamos por aqui. Se analisarmos alguns frutos selvagens, rapidamente percebemos que nada têm a ver com o que comemos hoje em dia:

Mas, mais uma vez, não ficamos por aqui. As vacas foram domesticadas há cerca de 10.500 anos recorrendo ao búfalo selvagem. O porco foi domesticado há 9.000 anos recorrendo ao javali. A galinha foi domesticada recorrendo ao Galo-banquiva há 7.000-10.000 anos atrás. A não ser que os Paleo comam Javali, Búfalo e Galo-banquiva, como é que estão a “imitar a dieta da era paleolítica”? Não estão…em nada. Nós não somos o Homem das Cavernas e os alimentos que eles consumiam já cá não andam, na sua maioria.

Por outro lado, é giro ver os Paleo a demonizar os cereais, quando existem estudos que demonstram que os nossos antepassados tinha dietas ricas em cereais há milhões de anos (artigo, artigo e artigo). Mas, mais uma vez, não deixem que os factos atrapalhem os Homens das Cavernas..

O Mito do Homem Paleo Saudável

Esta nostalgia pelo passado, em que se endeusa o Homem do Paleolítico como sendo um ser mais saudável e em comunhão com a natureza, não passa de um mito. No Paleolítico, a esperança média de vida rondava os 33 anos:

“Com base nos dados do Neolítico e da Idade do Bronze, a expectativa de vida rondaria os 15 anos não excederia 34 anos. Com base nos dados das populações modernas de caçadores-recoletores, estima-se que aos 15 anos, a expectativa de vida fosse de 39 anos adicionais (54 anos), com uma probabilidade de 60% de atingir os 15 anos.”

Ou seja, quem passava a fase crítica dos primeiros 15 anos de vida, chegaria a viver, em média, até aos 54 anos. Isto está muito longe dos números que os defensores da dieta Paleo referem, falando por vezes em valores superiores aos 70 anos. Mesmo assim, em comparação com outras épocas, verifica-se que o Homem Paleo até tinha uma esperança média de vida razoável. Mas só a partir do advento da medicina moderna é que se verifica um aumento drástico da esperança de vida, como se verifica no gráfico abaixo:

Coloquem a questão como quiserem. Esta nostalgia pelo antigamente, pelo natural e pelo regresso às raízes, achando que vão ser mais saudáveis por causa disso é uma história cor-de-rosa sem sustentação na realidade. A modernidade e a tecnologia é o que nos permitiu reduzir de forma dramática a mortalidade infantil e aumentar continuamente a nossa esperança de vida. 

“Mas os Homens Paleo não tinham estas doenças modernas!”

Não?! Você estava lá para ver?!

Primeiro, se viviam em média até aos 54 anos de idade (após passarem a fase crítica dos 15 anos), é fácil de compreender que seria raro o surgimento de problemas como doenças cardiovasculares, cancro e demência, que tendem a aparecer mais tarde na vida. Aliás, este gráfico demonstra que as principais causas de morte no ano 1900, na sociedade americana, nada têm a ver com as principais causas de morte hoje em dia:

Mas estas alterações não se deveram a alterações da dieta. As doenças infeciosas predominavam como a principal causa de morte. Com o advento da medicina moderna e medidas de saúde pública (antibióticos, vacinas, saneamento e tratamento de águas), esses problemas foram praticamente resolvidos. Mas as pessoas têm que morrer de alguma coisa, certo? Logo, outras doenças irão surgir para tomar o lugar delas…neste caso, sobretudo o cancro e doenças cardiovasculares.

Mas numa coisa os Paleo têm toda a razão. Foi o afastamento das nossas origens que levou ao aumento das doenças modernas…mas apenas se considerarmos as nossas origens morrer de gastroenterite encostado a uma árvore (super paleo).  Portanto, quem tiver o mínimo de sentido crítico, rapidamente percebe que o aumento das “doenças da modernidade” advém de fatores relativamente bem identificados: evolução da ciência com a quase erradicação de determinadas doenças, envelhecimento da população, tabaco, álcool em excesso, sedentarismo e obesidade devido à abundância de alimentos (não é um problema de determinados alimentos, mas da quantidade).

De qualquer forma, desengane-se quem acha que não havia “doenças da modernidade” naquela época. A aterosclerose, percursor das doenças cardiovasculares, parecia ser comum nas civilizações pré-industriais, incluindo em civilizações de caçadores-recoletores. O cancro também não é uma doença da modernidade, existindo vários casos documentados de cancro no homem primitivo. É difícil estimar qual seria a incidência de cancro na época dado que 99% dos cancros atingem tecidos moles e a não ser que tenham originado metástases ósseas não deixaram pistas para serem analisadas.  Mas certamente que seria mais baixo que nos dias de hoje porque, mais uma vez, as pessoas morriam muito cedo (de coisas giras como uma infeção num dente ou numa perna) e não havia tempo para desenvolver cancro.

Concluindo: é perceptível as graves falhas da filosofia Paleo: (1) a demonização do leite, do glúten e dos legumes/leguminosas não tem qualquer fundamentação científica; (2) os humanos continuaram e continuam a evoluir desde há 10.000 anos (a persistência da lactase é um dos exemplos disso); (3) as plantas e os animais de hoje em dia foram drasticamente alterados através da reprodução selectiva; (4) as doenças da modernidade não são nada modernas…simplesmente são mais frequentes porque erradicamos as outras; (5) alimentos como os cereais, demonizados pelos Paleo, já faziam parte da nossa dieta há milhões de anos.

A dieta Paleo é uma dieta baseada em filosofias, teorias e conceitos não validados cientificamente. Logo, é uma fad dieta, uma dieta de culto que promete vantagens para a saúde sem apoio científico.

“Mas para emagrecer é a melhor dieta! A minha prima perdeu 400Kg!”

Parabéns à prima…no entanto, exemplos desses existem em todas as dietas. Já falamos que não há uma melhor dieta para emagrecer. A longo prazo, todas as dietas atingem resultados idênticos. O que faz diferença é a adesão à dieta. Quem adere e consegue continuar a seguir os princípios subjacentes à dieta, irá ter resultados…simples. Portanto, o melhor é escolher uma dieta que consiga manter a longo prazo. Seja Paleo, “Alcalina“, Baixa em Gorduras, Mediterrânica ou Vegetariana.

A Ciência da Dieta Paleo

Sim…só agora chegamos à ciência da dieta Paleo…mas não desespere porque é praticamente inexistente. A primeira e única revisão sistemática e meta-análise sobre a dieta paleo foi publicada em 2015. Estudou a relação entre a dieta Paleo e a Síndrome Metabólica. Os resultados expostos no Abstract foram os seguintes:

“Foram incluídos quatro RCTs que envolveram 159 participantes. (…) A nutrição paleolítica resultou em maiores melhorias a curto prazo do que as dietas de controlo (modelo de efeitos aleatórios) para a circunferência da cintura (diferença média: -2,38 cm; IC95%: -4,73; -0,04 cm), triglicerídeos (-0,40 mmol/L IC95%: -0,76, -0,04 mmol/L), pressão arterial sistólica (-3,64 mm Hg, IC95%: -7,36, 0,08 mmHg), pressão arterial diastólica (-2,48 mmHg, IC95%: – 4,98, 0,02 mmHg), colesterol HDL (0,12 mmol/L; IC95% -0,03, 0,28 mmol/L) e glicose no sangue em jejum (-0,16 mmol/L; IC95%: -0,44, 0,11 mmol/L). A qualidade da evidência para cada um dos 5 componentes metabólicos foi moderada.”

Observando estes resultados de forma acrítica, o leitor distraído diria que são resultados bastante positivos. Mas não são. Os autores não foram lá muito honestos na forma como apresentaram os resultados, como demonstra uma carta ao editor acerca desta revisão. Para quatro dos seis resultados, os intervalos de confiança demonstram que a dieta paleolítica não foi melhor que os controlos, apesar dos autores se terem “entusiasmado” na exposição dos resultados. Além disso, todos os seis resultados são considerados resultados secundários (chamados surrogate outcames ou resultados DOE), sem grande interesse prático. Para terminar, a dieta paleo foi comparada com dietas baixas em gorduras que eram recomendadas há 10-15 anos atrás, o que também não acrescenta muito.

Foi feita uma revisão mais extensa da evidência, publicada em 2016, que conclui:

A dieta paleolítica é atualmente sobrestimada e pouco investigada. Embora as reivindicações feitas pelos seus defensores e celebridades não sejam apoiadas por evidências científicas, a dieta paleolítica poderá ser benéfica na gestão de vários distúrbios metabólicos. Mais investigação é necessária para testar essas descobertas iniciais. Os médicos devem alertar os pacientes sobre a dieta paleolítica e a ingestão adequada de cálcio, especialmente aqueles com maior risco de osteoporose.

Portanto, uma dieta com grande marketing e pouca sustentação. Alguns sinais encorajadores na gestão de alguns problemas metabólicos (apesar da revisão sistemática citada acima não demonstrar a existência de tais sinais).

Fosse só uma dieta sem sustentação científica, não era mau…o pior é ser uma péssima dieta para o ambiente, dada a importância da proteína animal na mesma.

Juntando a isto, existe um ranking de dietas realizado com bases em vários parâmetros e coloca a dieta paleo na posição 32 em 40 dietas analisadas…A avaliação da metodologia utilizada dá alguma robustez à listagem, apesar da existência de alguma subjetividade, mas não deixa de ser interessante. Já agora, em primeiro lugar estão as dietas Mediterrânica e DASH, o que não surpreende.

Site Paleo XXI

Também levado pelo sucesso do grupo do Facebook, surgiu o site Paleo XXI, que explica o conceito de dieta Paleo. Uma verdadeira ode à pseudociência, com promoção dos alimentos orgânicos, sem qualquer vantagem prática em termos nutricionais; demonização dos alimentos geneticamente modificados, considerados perfeitamente seguros pela esmagadora maioria da comunidade científica; a contínua apologia ao “natural”, terminologia sem qualquer significado prático. Tudo isto demonstra o distanciamento do que é ciência e evidência, que é assassinada com pérolas como estas:

“A escolha da palavra “Paleo” surge naturalmente em função das evidências que têm vindo a demonstrar que a raça humana atingiu o auge da sua evolução (em termos de capacidades) na era Paleolítica e que apenas as tem vindo a aperfeiçoar.”

Evidências que a raça humana atingiu o auge da sua evolução! 😀 Gostava de saber onde anda essa evidência…outra pérola:

“A ciência resulta da aplicação sistemática de conhecimento. Aplicação essa feita pelo Homem, logo, terá falhas. Pode falhar em qualquer momento, tal como qualquer um de nós pode falhar em muitos momentos da nossa vida. Não é por isso que não podemos acreditar nela – no seu conhecimento, não necessariamente nos seus homens. É por isso que Nós, os Paleo-Descomplicados, reconhecemos a sua importância e o conhecimento que nos trouxe sobre a evolução do Homem e o conhecimento que nos vai trazendo diariamente sobre o mundo que nos rodeia. E é por isso que Nós, os Paleo-Descomplicados, adotamos uma alimentação que não fecha a porta ao novo conhecimento, mas que não se coíbe de – em cada momento, no caminho que resolvemos seguir – colocar de parte alimentos que acreditamos não serem apropriados para o regular consumo humano (com base no até aqui exposto).” 

Se não quiser ler ou interpretar o que está escrito, eu traduzo: eh pá, nós até curtimos a ciência, mas só aquela que nos dá jeito. Dado que a ciência é feita por Homens, corre o risco de estar errada. Logo, iremos usar essa desculpa quando a ciência for contra os nossos princípios, já que “acreditamos” numa série de crenças pseudocientíficas que queremos manter.

Conclusão

A dieta Paleo é uma verdadeira homenagem à falácia do apelo ao natural. Como resume David Gorski

“Desde o surgimento da ciência e da indústria tem havido uma proporção significativa da população que desconfia, teme e chega a detestar a modernidade. A ciência muda muito rápido; pensa-se que põe em perigo “questões espirituais”; minoriza os “valores tradicionais”. As pessoas fantasiam sobre uma época (inexistente) de há muito tempo atrás, quando os seres humanos supostamente viviam em harmonia com o meio ambiente e vêm a ciência, especificamente para os propósitos dessa discussão, como algo que participou na destruição da “sabedoria antiga”.”

É uma visão partilhada pelas medicinas alternativas. O apelo à antiguidade…o apelo ao natural…o apelo à tradição. A promoção do regresso a um passado supostamente áureo. Lembra o movimento americano trumpiano “Make America Great Again”. Quando se pergunta aos seguidores desse movimento quando é que a América foi “grande” no passado, referem a época em que havia escravatura, as mulheres não tinham direitos e a comunidade LGBT era perseguida. Portanto, uma ilusão de um passado ilustre que nunca existiu. Uma nostalgia bacoca e vazia. 

Não havia nada de áureo no tempo do Paleolítico. E não há nada de especial no estilo de vida Paleo contemporâneo. Nem sequer considero que seja uma dieta propriamente saudável, seja fácil de seguir ou que sobreviva a testes comparativos com dietas como a Mediterrânica, DASH, pescetariana e vegetariana não restritiva. 

Obviamente que não é tudo mau. A promoção do consumo de vegetais e frutas, a evicção de hidratos de carbono refinados são pontos claramente positivos. Por outro lado, a importância excessiva dada à proteína e gordura animal vai completamente contra o que a ciência tem vindo a demonstrar. A sua eliminação não é desejável, mas devemos trabalhar num consumo extremamente moderado deste tipo de alimentos.

Havia muito mais a dizer sobre esta dieta, principalmente sobre o consideram gorduras “naturais” e saudáveis, como o óleo de coco (grande LOL)…mas deixaremos isso para um segundo capítulo sobre o tema.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar