Dietas não curam cancro. Mas algumas coisas podem ajudar…

admin Cancro, Dietas, Exercício Físico, Geral, Nutrição, Suplementos, Vitamina D Leave a Comment

Não é raro surgirem “testemunhos” de pessoas que tiveram cancro e foram curados (dizem) graças a uma alimentação da moda. A mais recente foi a história de uma Youtuber que se tinha curado do cancro recorrendo ao veganismo e do seu lesbianismo através da reza…não há nada que se aproveite nesta afirmação. O final da história? A Youtuber, chamada Mari, morreu com cancro metastizado. Porque a realidade não muda, independentemente do que se acredita. E a ciência também não quer saber das nossas crenças.

Mas, infelizmente, os crentes também não mudam. A sobrinha da Mari, que também participava no canal do Youtube, “sente” que a culpa do reaparecimento e metastização do cancro foi devido à utilização de micro-ondas para aquecer os alimentos e por causa da renuncia à dieta vegana no estadio final da doença…e é por isso que este blog, onde o caro leitor se encontra, não é para crentes.

Na Internet já vi de tudo…cenoura cura cancro, limão cura cancro, alimentação vegana cura cancro, sumos detox curam cancro, crudivorismo cura cancro, beber urina cura cancro e, claro, como não podia deixar de ser, a dieta alcalina e a dieta cetogénica curam cancro. Tudo cura cancro…com tantos tratamentos para o cancro é de estranhar como é que ainda há pessoas a morrer de cancro.

Mas deixando a treta de lado, vamos falar de ciência a sério.

Antes da cura, a prevenção

Não há qualquer dúvida que o ambiente é extremamente importante para o desenvolvimento do cancro. Ou seja, o que comemos, bebemos, fumamos, substâncias a que estamos expostos, atividade física e mesmo o stress poderá ter impacto no risco de ter cancro. Ter atenção a estes fatores é importante. Aliás, existem estudos (artigo e artigo) que demonstram que 4 em cada 10 cancros podem ser prevenidos apenas por alterações do estilo de vida. A fatia de leão cabe ao tabaco e obesidade. Portanto, se não fumam e têm um peso dentro do aceitável, já fizeram muito para prevenir o aparecimento de cancro.

Apesar do estilo de vida ser importante, não devemos cair no extremo oposto, viver obcecado com isso e querer ser o morto mais saudável do cemitério. Fazer sacrifícios inúteis pensando que vão conseguir fintar o cancro quanto mais puristas se tornarem. É que parte significativa dos cancros é devido ao acaso

Foi o que demonstrou estudo em 2015. O estudo foi replicado em 2017 tendo abordado a questão de outros pontos de vista…as conclusões foram semelhantes. Pensa-se, com base nestes dois estudos, que em cerca de 66% dos cancros este “fator azar” tenha um papel relevante. E este “azar” está dependente da quantidade e rapidez com que as células estaminais de determinados tecidos se replicam independentemente dos fatores genéticos e ambientais associados. 

Obviamente que isto é uma simplificação de um tema complexo e é provável que a contribuição da genética e do ambiente seja bem maior do que estes estudos supõem

No entanto, estes números não deixam de ser surpreendentes. Tão surpreendentes que os autores destes dois artigos foram fortemente criticados pela comunidade científica, principalmente pelos que (como eu), insistem na prevenção primária…sim, os médicos fazem prevenção apesar dos tretólogos profissionais afirmarem o contrário. A figura abaixo demonstra os cancros (a verde) em que o acaso tem maior influência e os cancros (a azul) em que a genética e o ambiente terão maior impacto:

cancro e o acaso ou má sorte

Tem cancro…e agora?

Tem cancro, está assustado. Como não podia deixar de ser, vai procurar todas as soluções e mais algumas para aumentar a probabilidade de sobrevivência. Infelizmente não faltam charlatões a aproveitar-se desse desespero. O primeiro ponto é simples…NÃO HÁ DIETAS QUE CUREM CANCRO. No entanto, a dieta pode ser extremamente relevante no prognóstico do doente e na resposta aos tratamentos, como quimioterapia e radioterapia.

Sabemos que a malnutrição está associada a pior prognóstico porque os doentes não conseguem tolerar tão bem os tratamentos médicos como a quimioterapia e radioterapia (artigo, artigo e artigo). Por outro lado, sabemos que a resistência à insulina e a obesidade estão relacionados com maior probabilidade de recorrência do cancro (artigo e artigo).

Existem alguns gurus de vão-de-escada que referem que determinadas dietas inibem o crescimento do tumor ou ajudam à sua proliferação. Isso não parece ser verdade quando se compara a dieta Low-Fat versus Low-Carb. Uma revisão de 2011 também não encontrou, de acordo com a evidência existente, nenhuma alteração nutricional que influenciasse a proliferação do cancro. Mas refere que a evidência existente é fraca…é necessária mais investigação nesta área. Também já falamos sobre esse assunto quando abordada a dieta alcalina e cetogénica.

Sabemos que o cancro é uma doença que leva habitualmente ao emagrecimento. Isto acontece por várias razões, sendo a mais frequente a anorexia (perda de apetite). Se associada a esta anorexia o doente se lembrar de fazer uma dieta restritiva porque um destes charlatões afirmou ser positivo para a saúde, arrisca-se a ficar malnutrido e piorar o seu prognóstico. Um estudo publicado em 2015 demonstra bem isto…o melhor prognóstico é verificado nos doentes com um Índice de Massa Corporal normal (até com algum excesso de peso) e que conseguem manter o seu peso (melhor = 0; pior = 4).

Mesmo que não haja uma perda de peso absoluto e houver uma perda importante de massa magra, isso também será um indicador de pior prognóstico (artigo e artigo), assim como a performance física.

Em 2016, a European Society for Clinical Nutrition and Metabolism fez uma revisão extensa sobre o tema.

O que é que aconselham?

Recomendam um bom aporte proteico, no mínimo 1 g/kg/dia e, se possível, atingir os 1.5 g/kg/dia. Referem que o valor até poderá ser maior (mais próximo dos 2 g/kg/dia), apesar de ainda não existir muita evidência que valide a eficácia desta recomendação. 

A utilização de multi-vitamínicos em doentes com uma dieta restritiva deve ser ponderada, sendo que as vitaminas e os minerais devem ser fornecidos em quantidades aproximadamente iguais às Doses Diárias Recomendadas. Ou seja, desaconselham a utilização de micronutrientes em altas doses na ausência de deficiências específicas, algo que é frequentemente realizado pelos charlatões que acham que conseguem tratar cancros com este tipo de medidas. Estima-se que 50% de todos os pacientes com cancro consomem produtos médicos complementares ou alternativos; uma grande uma fração disto é explicada por suplementos multi-vitamínicos. É necessário estar atento a isto.

Quanto aos antioxidantes, já falamos. Paradoxalmente não dão saúde, mas tendem a piorar o prognóstico de doentes com cancro.

A deficiência em vitamina D é frequente em doentes com cancro e outras doenças. Mas como falamos aqui, isto parece ser mais um marcador de doença do que outra coisa. Ou seja, a suplementação com vitamina D não previne aparecimento de cancro e dificilmente ajudará a melhorar o prognóstico dos doentes com cancro, apesar de existir pouca investigação nesta área. Teremos que aguardar.

Evitar dietas que restrinjam o consumo de energia

A Sociedade é contra todas as formas de dietas que não sejam baseadas em evidência clínica, que não tenham eficácia comprovada e que possam ser potencialmente prejudiciais. Parece-me óbvio. Aderir a estas dietas podem causar deficiência de micronutrientes, exacerbação da desnutrição e custos avultados.

Como já referi anteriormente e é validada por esta revisão, não há dietas conhecidas para curar cancro ou prevenir a sua recorrência numa pessoa que já teve cancro. Destaco esta parte da revisão:

“Dependendo da região e da cultura, surgem muitas vezes afirmações complexas e contraditórias, em que determinadas dietas são proclamadas como capazes de antagonizar o crescimento do cancro e são propostas como dietas anti-cancro. Em muitos casos, os argumentos não são baseados no raciocínio científico nem em evidências sólidas e a informação de apoio deriva de fontes anedóticas não verificáveis (relatos de caso), da literatura popular e da Internet em vez de estudos científicos válidos.

Algumas dietas podem ser descritas como dietas da moda (definidas como um intenso entusiasmo, de curta duração e não baseado nas qualidades do objeto; uma mania). A evidência para seguir regimes dietéticos extremos (por exemplo, ricos em hidratos de carbono ou gorduras) é baixa. Desencorajamos conselhos nutricionais ou dietas que aumentam o risco de induzir ou agravar a desnutrição. As dietas da moda são geralmente altamente restritivas no tipo e quantidade de alimentos específicos, e, como tal, geralmente restringem a ingestão de alimentos. Essas dietas aumentam o risco de ingestão insuficiente de energia, gordura e proteína, além de gerar risco de deficiência de micronutrientes. (…) Em doentes com cancro que já estão desnutridos, isso pode ser prejudicial e deve ser evitado.”

A revisão aborda também a dieta cetogénica, validando o que já escrevi antes sobre este assunto. Refere-se também ao jejum antes, durante e após a realização de quimioterapia, dizendo que pode existir algum benefício, mas que para já a evidência é muito precoce. Além disso, pode existir a tentação de manter o jejum e isso contribuir para a desnutrição, o que já vimos que tende a piorar o resultado final (mais sobre jejum intermitente).

Em doentes com caquexia (muito emagrecidos), a utilização de corticóides e progestinas para aumento do apetite poderá ser uma opção para o aumento do apetite. Curiosamente, não aconselham derivados canabinóides devido a evidências inconclusivas sobre o seu efeito. Pela mesma razão também não aconselham esteróides androgénicos, como a testosterona.

Atividade física para reforçar a massa muscular, função física e padrão metabólico

Para além da alimentação, a revisão também salienta a importância do exercício físico em doentes com cancro. Dados de estudos randomizados resumidos em várias metanálises, fornecem evidências relativamente fortes de que a atividade física é bem tolerada e segura em diferentes estágios de cancro. Além disso, poderá melhorar o prognóstico, principalmente no que diz respeito aos tumores sólidos. Mesmo em casos mais avançados poderá existir algum benefício, mas a evidência é preliminar (artigo e artigo).

Estes estudos seguiram as recomendações de prescrição de exercícios iguais à população em geral. Ou seja, treino de intensidade moderada, entre 50 a 75% da frequência cardíaca máxima basal, três vezes por semana, entre 10 a 60 minutos por sessão. A atividade física, nestes casos, parece estar associada à manutenção ou melhorias significativas na capacidade aeróbica, força muscular, qualidade de vida relacionada à saúde e auto-estima. Também se verifica redução da fadiga e ansiedade (artigo, artigo e artigo).

Portanto, doentes com cancro devem ser aconselhados a reduzir a inatividade e evitar viver um estilo de vida sedentário. Nem que seja apenas uma caminhada diária, por forma a reduzir o risco de atrofia muscular (como falamos, perda de massa magra = pior prognóstico). Eventualmente, juntar treino de resistência ao treino aeróbico poderá ajudar a otimizar os resultados, mas a evidência é precoce.

Conclusão

A revisão é muito mais extensa, mas depois torna-se interessante acima de tudo para quem trabalha na área.

As ilações a tirar da informação exposta são claras. Não há nenhuma dieta que cure cancro, mas isso não quer dizer que não possamos fazer nada perante este diagnóstico. Podemos. E o que podemos fazer é muito mais importante, eficaz e barato do que andar a torrar dinheiro num vendedor de banha da cobra que se aproveita da vulnerabilidade dos doentes. E enquanto anda distraído com o sumo de bagas goji, o Reiki e em alcalinizar o corpo, está a perder o foco e a dedicação que necessita para apostar nos ajustes de estilo de vida que realmente fazem a diferença. Manter uma dieta equilibrada com bom aporte proteico, fazer exercício físico regular e suplementar com multi-vitamínicos em situações específicas.

Depois de ter sobrevivido a esta doença, as recomendações são semelhantes para evitar que o cancro volte a surgir: manter um peso saudável, ser fisicamente ativo e fazer uma dieta baseada em vegetais, frutas e grãos integrais e pobre em gordura saturada e trans, carnes vermelhas e processadas e álcool.

Não perca tempo com tretoterapias. Em consultar pseudo-profissionais de saúde que prometem mundos e fundos mas, no final, apenas lhe agravam o prognóstico conforme discutimos aqui.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar