A dificuldade em convencer pessoas de opiniões contrárias

É Inútil Discutir com Crentes?

admin Geral, Literacia em Saúde Leave a Comment

“Não é possível convencer um crente de coisa alguma. As suas crenças não se baseiam em evidências; baseiam-se numa profunda necessidade de acreditar.” – Carl Sagan

Esta foi a primeira frase escrita neste blog. Serve para lembrar constantemente que discutir com crentes é desgastante, consumidor de tempo e pior…parece ter o efeito oposto ao que se pretende, reforçando as convicções dos crentes por mais factos científicos que coloquem à disposição.

Este problema tem demonstrado ser um desafio difícil de ultrapassar no combate à desinformação, seja na área das medicinas alternativas, movimentos anti-vacinas, nas alterações climáticas, teorias da conspiração, notícias falsas ou “factos alternativos”.

Assim, neste artigo vamos mostrar a evidência que existe sobre a dificuldade de tentar convencer os crentes que estão errados e como podemos fazê-lo de forma mais produtiva.

Informação e factos não convencem crentes

O investimento e a importância que damos a cada crença é variável. Existem crenças que estão presentes apenas porque, por exemplo, ouvimos alguém dizer que “o preto é a cor da moda este ano”. A frase ficou, a crença também, mas a importância que lhe damos não é muito relevante e perante os factos será facilmente desfeita.

Por outro lado existem crenças difíceis de desfazer, estando dependente da importância que aquela crença tem para nós, para a nossa identidade e visão do mundo. Perante estas crenças, recorremos a uma série de ferramentas cognitivas que nos ajudam a lidar com as possíveis incongruências das mesmas e com a informação contraditória que nos é disponibilizada.

Perante as crenças as pessoas recorrem, por exemplo, ao chamado viés de assimilação ou confirmação, procurando informação que apenas validam as suas posições e ignorando a restante. 

Num estudo que marcou este tema, foram dados os mesmos argumentos aos opositores e aos apoiantes da pena de morte. Os participantes não só assimilaram a informação de uma forma enviesada (aceitando a evidência que apoiava o seu ponto de vista e ignorando a restante), como ficaram ainda mais convencidos que os seus pontos de vista eram os corretos.

Esse comportamento também é replicado no tema das alterações climáticas, em que se demonstrou que pessoas com posições opostas assimilam a informação de forma diferente e enviesada; os jornais que vão de encontro às crenças prévias dos participantes são supostamente mais credíveis; e, como no estudo sobre a pena de morte, os factos não levaram à mudança de posição, mas a uma intensificação das crenças.

Por outro lado, a apresentação de factos de forma objetiva, sem carga emocional, parece ter um efeito menos prejudicial… mesmo assim as crenças não são desfeitas, mas reforçadas.

De forma interessante, verificou-se que no caso das alterações climáticas, a apresentação de soluções que ajudam a prevenir as potenciais perdas futuras, em vez de falar dos riscos e ameaças, aparenta ter um efeito positivo na atitude das pessoas aumentando a probabilidade de agirem na proteção do meio ambiente.

No caso das vacinas, a correção do mito que a vacina da gripe leva a que algumas pessoas fiquem com gripe, não fez com que as pessoas se quisessem vacinar. Pelo contrário, após o esclarecimento e apresentação dos factos, aqueles com fortes crenças que as vacinas têm efeitos secundários importantes ainda tinham menos vontade de ser vacinadas.

O mesmo aconteceu com tentativa de esclarecimento de futuros pais relativamente à vacina VASPR (rubéola, sarampo e parotidite), que supostamente seria a vacina responsável pelo autismo. Quatro tipos de intervenção foram utilizadas: (1) explicar a falta de evidência que a VASPR causa autismo usando informação presente no CDC; (2) informação textual sobre os perigos das doenças preveníveis com a vacinação; (3) imagem de crianças com doenças preveníveis pela vacinação; (4) uma narrativa dramática sobre uma criança que quase morreu com sarampo.

Nenhuma das intervenções aumentou a intenção dos futuros pais vacinarem os filhos.

De forma paradoxal, nalguns casos os crentes até aceitaram que a vacina não causa autismo…no entanto a vontade de vacinar ainda era menor após a intervenção. A utilização de imagens e a narrativa dramática (as intervenções mais emocionais) aumentaram a crença da existência de uma ligação entre a vacina e o autismo assim como o medo dos efeitos secundários associados à vacinação.

Os autores concluíram que tentar alertar para os perigos das doenças ou corrigir mitos e informações falsas sobre a vacinação era contraproducente.

Outro estudo usou três métodos diferentes para tentar “converter” os proponentes anti-vacinas: (1) desfazer mitos contrastando-os com os factos existentes; (2) apresentar factos de forma objetiva; (3) apresentar imagem de crianças doentes não vacinadas. Mais uma vez, nenhuma das intervenções resultou e apenas agravou a situação, reforçando as crenças pré-existentes e reduzindo a intenção de vacinar. E mais uma vez, a apresentação objetiva dos factos foi a que teve resultados menos maus.

Porque é que isto acontece?

Primeiro, verifica-se que a simples repetição dos mitos ou das crenças, mesmo que de forma bem intencionada para fazer o contraste com os factos, amplifica a familiaridade com as informações falsas fazendo-as parecer ainda mais credíveis. Isto acontece, pelo menos em parte, porque as pessoas tendem a confundir a repetição com a verdade, um fenómeno conhecido como “ilusão da verdade” (artigo e artigo) ou Argumentum ad nauseam.

Depois temos uma série de comportamentos que no seu conjunto se denominam raciocínio motivado, em que as pessoas tentam manter-se convencidas que as suas crenças estão corretas.

Um dos fatores mais importantes que leva as pessoas a ignorar os factos é a já falada dissonância cognitiva, em que rejeitar uma crença já estabelecida iria gerar uma série de inconsistências cognitivas que ameaça a própria pessoa:

“Em defesa ao ego, a pessoa é capaz de contrariar mesmo o nível básico da lógica, negar evidências, criar falsas memórias, distorcer percepções, ignorar factos científicos e até mesmo desencadear uma perda de contato com a realidade (surto psicótico).”

Por outras palavras:

Para reduzir o medo emergente que sentem (principalmente quando há um grande investimento pessoal ou partidário numa determinada crença), as pessoas tendem a utilizar diferentes mecanismos de defesa que podem aparecer em combinação e que incluem exposição selectiva/viés de confirmação (procurar apenas a informação que suportam as suas opiniões), derrogação da origem (colocar em causa a validade da fonte de onde provieram as informações contraditórias com as crenças), validação social (trazer para a discussão outras pessoas que acreditam no mesmo que nós), e reatância psicológica (interpretação da mensagem como ameaça à sua liberdade de atitudes; tentam reafirmar a liberdade mantendo as suas posições iniciais, ou de maneira mais provocatória, mudar de opinião e atitude numa direção oposta a posição defendida pela mensagem).

Outro problema da manutenção de crenças falsas é o facto das pessoas terem modelos mentais do funcionamento das coisas. As pessoas criam histórias e organizam a informação de forma a que não existam contradições internas. Todos nós o fazemos. As boas histórias são facilmente lembradas e os vazios das histórias preenchidas com erros de intrusão (quando a informação está relacionada com o tema de uma certa memória, mas não faz parte desse episódio…no entanto, fica associado a esse evento).

Conhecem o ditado “quem conta um conto, acrescenta um ponto”? É que as histórias que nós contamos não são nada semelhantes com o que realmente aconteceu…e quanto mais tempo passa, menos semelhantes se tornam. Os vazios e esquecimentos foram sendo preenchidos por estes erros de intrusão. No entanto, para nós toda a história faz sentido e foi assim que aconteceu.

Por vezes verifica-se que a história é construída ao contrário, em que partimos daquilo em que queremos acreditar e formamos toda uma história, do fim para o princípio, para justificar essa crença.

Para além destas questões, ainda temos o tribalismo, a pertença a um grupo com o qual nos identificamos. Verifica-se que ter apoio social é mais importante em termos evolutivos que a verdade. A necessidade de pertença a um grupo é mais importante que a veracidade da informação transmitida.

Nestes casos, a informação não é tratada como informação. É tratada como um “marcador” da nossa identidade: “Eu faço parte deste grupo”. As pessoas muitas vezes sabem que a informação é falsa mas mesmo assim optam por acreditar nela.

É o que acontece com a política e polarização partidária. Com a propagação de notícias pouco abonatórias sobre adversários políticos mas que muitas vezes sabemos serem distorcidas ou simplesmente falsas (o que aconteceu com o Obama supostamente não ter nascido na América, por exemplo). O mesmo ocorre com a teoria da evolução…muitas vezes, as pessoas ao dizerem que não acreditam na teoria da evolução o que pretendem transmitir é que são religiosas.

Outro paradoxo observado é que as pessoas que rejeitam a evidência científica, crêem ser os mais bem informados sobre o assunto. Isso foi perceptível na avaliação das crenças sobre as alterações climáticas.

Na presença destes comportamentos, ser mais inteligente ou mais informado pode agravar o problema, já que conseguem construir argumentos mais complexos e difíceis de desconstruir.

Esta forma de estar, acreditar em crenças erradas ou simplesmente falsas, tem consequências mais graves do que ser simplesmente ignorante (ausência de conhecimento). Quando uma pessoa é ignorante sobre um determinado tema e necessita de tomar decisões, recorrem a heurísticas simples (atalhos mentais que os humanos desenvolveram para poderem tomar decisões rápidas sobre o ambiente que nos rodeia). E como falamos, estes atalhos permitem que muitas das nossas decisões sejam acertadas. Pelo contrário…crenças erradas levarão, inevitavelmente, à tomada de decisões erradas (não vacinar os filhos, colocando em risco a sua vida e dos que os rodeiam, por exemplo).

Como disse Lee McIntyre no seu livro “Respecting Truth: Willful Ignorance in the Internet Age”:

“The real enemy of truth is not ignorance, doubt, or even disbelief…It is false knowledge.”

O verdadeiro inimigo da verdade não é a ignorância, dúvida ou mesmo a descrença…é o falso conhecimento.

Então, o que podemos fazer?

Não há uma estratégia bem definida para lidar com este problema, apesar de terem sido propostos alguns modelos. Deixo um desses exemplos:

Resumindo: 

1 – Repetir de forma contínua a mensagem correta;

2 – Evitar falar diretamente dos mitos/crenças/informação falsa, por forma a não repetir essa informação;

3 – Se o mito continuar a ser mais atraente que os factos, refutar o mito com poucos argumentos, de forma objetiva; avisar previamente, antes de abordar o mito, que este vai ser discutido e que o mesmo é falso ou enganador.

4 – Ensinar as pessoas a serem cépticas relativamente à informação que recebem e como verificar a sua veracidade (tema de um próximo artigo);

5 – Caso os factos ameacem a visão do mundo dos crentes ou os seus valores pessoais, enquadrar os factos nesse contexto, validando os seus valores pessoais. Por exemplo, não é porque a teoria da evolução está mais do que estabelecida que não é possível acreditar em Deus.

6 – Focar a discussão nas oportunidades e potenciais benefícios em vez de abordar os riscos ou ameaças.

7 – Ser empático com a audiência que se pretende esclarecer.

Outra coisa que poderá ser importante é a discussão de temas em grupos alargados, onde existe ressonância e crítica relativamente às nossas crenças. O The Atlantic tem um artigo muito interessante sobre este tema onde também aborda esta questão.

Mais importante:

Os seguidores deste blog e outros blogs científicos; utilizadores de redes sociais; cépticos, cientistas, apaixonados pela ciência são uma força subaproveitada para impor os factos sobre os mitos/crenças:

 “(social) media values individual expertise, allowing scientists to serve as a “Nerd of Trust” for their online friend and family networks. Science outreach via social media demands a renewed interest, and Facebook may be an overlooked high-return, low-risk science outreach tool in which scientists can play a valuable role to combat disinformation.”

As redes sociais valorizam o saber dos especialistas, permitindo-lhes ser os “Nerds” de confiança para os seus amigos e família com os quais estão conectados. O alcance da ciência via redes sociais necessita de um interesse renovado e o Facebook pode ser um instrumento subaproveitado de grande retorno e baixo risco que os cientistas podem utilizar para combater a desinformação.

Estejam principalmente atentos a quem partilha frases pseudo-profundas, tema também já abordado quando falamos sobre o fitness 🙂

“It found that those who are receptive to pseudo-profound, intellectual-sounding ‘bulls***’ are less intelligent, less reflective, and more likely to be believe in conspiracy theories, the paranormal and alternative medicine.”

As pessoas que são receptivas a frases pseudo-profundas e tretas que soam a inteligente são menos inteligentes, reflectem menos sobre as coisas e são mais susceptíveis a acreditarem em teorias da conspiração, no paranormal e em medicinas alternativas.

Para terminar, deixo um vídeo já partilhado na nossa página do Facebook, que aborda esta questão:

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar