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Estamos cada vez mais doentes? Não…não estamos…

admin Charlatanice, Geral, Literacia em Saúde Leave a Comment

Um dos meus vieses cognitivos preferidos é o efeito de verdade ilusória. A tendência para acreditar que determinada informação é verdadeira se a mensagem for repetida várias vezes. E nisto os tretólogos alternativos são fantásticos, tendo criado várias destas “verdades”. Por exemplo, quando dizem que “os médicos não apostam na prevenção”; “os médicos tratam os sintomas e não as doenças”; “os terapeutas alternativos tratam o doente de forma holística e integrada”; “tóxicos, tóxicos, tóxicos em todo o lado!”; “artificial é mau, natural é bom”.

E a mais importante, sendo o tema deste artigo, a mítica frase “estamos cada vez mais doentes!”.

Obviamente que todas estas afirmações anteriores são falsas. Mas são uma vitória do efeito de verdade ilusória. O discurso dos promotores de terapias alternativas têm esse grau de sofisticação e organização…todos batem nas mesmas teclas de forma repetida…até que estes parasitas ideológicos invadam os cérebros dos mais susceptíveis que alegremente repetem ad nauseum a mensagem contaminando outras pessoas.

Mas, na verdade, estamos cada vez mais saudáveis. Um choque…eu sei…

Vou repetir dois parágrafos que escrevi quando critiquei o livro da Alexandra Vasconcelos. Se formos consultar os dados da Organização Mundial de Saúde, percebemos que no ano 2015 vivíamos bem melhor que no ano 2000. Verifica-se uma diminuição dos DALYs em todo o mundo. Os DALYs (Disability-Adjusted Life Year) são a soma do número de anos perdidos por morte prematura (YLL – Years of Life Lost) com o número de anos perdidos devido a morbilidade (YLD – Years Lost due to Disability)…ou seja, viver com perda de qualidade de vida devido a doenças. E esta diminuição dos DALYs verificou-se em todo o mundo, incluindo no mundo ocidental:

Evolução da saúde mundial 2000-2015

Além disso, um estudo da Lancet verificou que a esperança de vida saudável à nascença (HALE – Healthy Life Expectancy) aumentou de 2005 para 2015, em média 2.9 anos no homem e 3.5 anos na mulher. Isso também se verificou nas pessoas com 65 anos, com um aumento de 0.85 anos no homem e 1.2 anos na mulher.  Portanto, na globalidade as pessoas morrem menos e são mais saudáveis, mesmo as pessoas idosas! No entanto, com o envelhecimento da população nos países desenvolvidos verifica-se um aumento absoluto de doenças relacionadas com a idade. Nada de estranho e perfeitamente enquadrado no que seria expectável.

Mas morremos de quê, exatamente?

Nos países de rendimento médio a alto, segundo a OMS, as principais causas de morte são as Doenças Cardiovasculares (doença cardíaca isquémica e AVC), Cancro (Cancro do Pulmão, Cólon e Mama), Doença de Alzheimer,  Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica, Infeções Respiratórias Baixas (como Pneumonia), Diabetes e Doença Renal.

Portanto, vamos ver como é que estão a evoluir estas doenças em termos de incidência e mortalidade.

Começamos pelo cancro…certamente morremos mais de cancro!

Não..por incrível que pareça, a mortalidade por cancro é cada vez menor. Cito apenas um dos estudos mais recentes que faz uma avaliação bastante abrangente deste tema, tendo verificado a evolução da mortalidade por cancro entre 2000 e 2010:

“Este estudo inclui 60 países de 6 continentes e representa a análise sistemática mais abrangente da mortalidade observada sem dados estimados ou extrapolados. De 2000 a 2010, as taxas de mortalidade padronizadas por idade globais de cancro diminuíram anualmente em 1,2% para homens e 0,8% para mulheres. Na maioria dos países (41/60 para homens e 35/60 para mulheres), essa redução foi de 1% ao ano ou mais. Declínios foram observados em muitos países para os cancros mais comuns, exceto o cancro de fígado com um aumento da taxa em metade dos países analisados, particularmente na América Latina e na América do Norte. A mortalidade por cancro de pulmão em mulheres aumentou na maioria dos países.”

Então, na globalidade diminuiu, com um aumento no que diz respeito ao cancro do fígado e cancro do pulmão na mulher. O aumento do cancro hepático é multifatorial, mas a obesidade parece ter um papel fundamental.  O aumento de casos de cancro do pulmão na mulher parece estar relacionado com o facto de que as mulheres fumam mais agora que no passado.

Mas estas quedas não são de agora…a taxa de mortalidade por cancro caiu nos EUA cerca de 26%, entre 1991 e 2015:

evolucao da incidencia e mortalidade por neoplasia

A mortalidade pode estar a diminuir, mas as pessoas têm cada vez mais cancro!

Também não parece ser o caso. Apesar de haver variações de subida e descida se considerarmos diferentes cancros de forma individual, o que se tem verificado é que a incidência de cancros se tem mantido a mesma nas últimas décadas nas mulheres e tem diminuído a 2% ao ano nos homens (entre 2006-2015).

Temos que perceber que a distinção entre números relativos e absolutos para não criar confusão. Se eu tiver 70 anos, hoje em dia tenho menos probabilidade de ter cancro que no passado. No entanto, como vivemos cada vez mais, existem cada vez mais pessoas com 70 anos. Então, apesar do risco de ter cancro ter diminuído em termos relativos, como existe mais gente com 70 anos, verifica-se que nesta faixa etária há mais cancros em termos absolutos (números em bruto). Existem outras razões, para além da idade, para o aumento do cancro considerando os números absolutos. A maioria das quais está perfeitamente identificada, conforme falamos aqui.

Mas o número de cancros está a aumentar nas crianças!

Os cancros pediátricos correspondem a menos de 1% dos cancros totais diagnosticados. No entanto, de facto, verificou-se um aumento de 0.54% do risco de cancro por ano, entre 1991–2010 na União Europeia, na população pediátrica (0-14 anos). Os promotores do medo que lêem estes dados na diagonal pensam ter aqui uma prova que “tóxicos, tóxicos, veneno, veneno em todo o lado”…a conversa habitual.

No entanto, quais são as razões apontadas para este aumento? Primeiro, não sabemos ao certo se este aumento é real. Existem estudos regionais que apontam para uma estabilização da incidência dos principais cancros pediátricos. Também se especula que a melhoria da capacidade diagnóstica e a melhoria dos registos clínicos possa ter contribuído para este aumento. Haverá quem coloque como hipótese o aumento da utilização de pesticidas, no entanto isso não explica a uniformidade do aumento dos cancros pediátricos:

Existe um grande “contraste entre as regiões europeias no diz respeito ao uso de pesticidas na agricultura. Em 2014, as quantidades de vendas de pesticidas per capita foram cerca de três vezes maiores em Espanha, Itália e França do que na Suécia ou no Reino Unido. Se as tendências de incidência de cancro aumentassem devido aos pesticidas, diferenças nas incidências de leucemia e linfoma seriam esperadas entre regiões europeias, o que não foi o caso.”

Existe uma hipótese interessante que foi colocada e que passo a citar:

“(…) a mortalidade infantil na Europa caiu de 16.0-77.5 mortes por 1.000 recém-nascidos em 1960 para 2.3-9,8 mortes por 1000 recém-nascidos em 2010 – um decréscimo de 4,4% ao ano em média. Esse fenómeno levanta a hipótese de que a morte precoce impediu a ocorrência de cancro nessas crianças. (…) [A]s crianças que morreram poderiam estar sob maior risco de cancro por duas possíveis razões. Primeiro, doenças potencialmente mortais, como aquelas causadas por agentes infecciosos, podem estar envolvidas na ocorrência de cancro, especialmente leucemia e linfoma. Segundo, a composição genética ou uma malformação congénita pode aumentar tanto a susceptibilidade de ser afetada por uma doença potencialmente mortal assim como aumentar o risco de cancro. Essas hipóteses assumem que se uma criança escapa da morte porque foi protegida contra doenças potencialmente mortais (por exemplo, pela vacinação ou melhoria das condições de vida) ou sobreviveu à sua ocorrência (devido a tratamentos eficientes), então o risco de cancro a ocorrência seria maior nesta criança do que nas outras crianças. Essa hipótese poderia explicar por que o pico de incidência de leucemia mudou para idades mais jovens ao longo do tempo. A redução constante da mortalidade nos meses após o nascimento aumentaria o número de crianças mais jovens com maior risco de desenvolver leucemia.”

Ou seja, poderá ser graças ao avanço da medicina e à diminuição de mortalidade infantil que se registam agora mais casos de cancro pediátrico. Crianças com problemas e que tenderiam a morrer precocemente são hoje salvas pela medicina convencional. Mas como essas crianças já têm problemas e eventualmente um maior risco de ter cancro, então verificamos um aumento de casos de cancro nesta idade específica.

 Mas as doenças cardiovasculares estão a aumentar!

Como explicado anteriormente, a população está cada vez mais envelhecida. Portanto, sim. As doenças cardiovasculares estão a aumentar em termos absolutos. Mas se ajustarmos para a idade, a incidência de doença coronária está a diminuir e os casos que têm sido diagnosticados são mais brandos que no passado. Não só a incidência está a diminuir, como a mortalidade por causa dessas doenças está a diminuir:

Globalmente, o número de mortes por doenças cardiovasculares aumentou 41% entre 1990 e 2013, passando de 12,3 milhões de mortes para 17,3 milhões de mortes. No mesmo período, as taxas de mortalidade dentro de grupos etários específicos caíram 39%, de acordo com uma análise de dados de 188 países. As taxas de mortalidade por doenças cardiovasculares estavam estáveis ​​ou diminuíram em todas as regiões do mundo, exceto na África subsariana ocidental, onde as taxas aumentaram.

Esta imagem é gira, demonstrando a evolução da mortalidade cardiovascular com a introdução de vários avanços científicos:

impacto dos avancos cientificos na mortalidade cardiovascular

E o AVC, como é que está a evoluir?

Uma coorte americana estudou a evolução da incidência e mortalidade por AVC nos EUA entre 1987 e 2011. Verifica-se uma diminuição tanto da incidência quanto da mortalidade. Mesma coisa numa coorte no Reino Unido, com diminuição da incidência e mortalidade provocada pelo AVC entre 1999–2008. Mesma coisa no Japão entre 1999-2007.  Esta tendência de queda é verificada praticamente no mundo inteiro.

Ou seja, somos cada vez mais eficazes tanto a prevenir como a diminuir a mortalidade por esta doença, o que não deixa de ser giro, já que dizem que “os médicos não fazem prevenção”. Mesmo em Portugal temos registado uma diminuição progressiva de doenças cardiovasculares e do AVC, especificamente. Isto de acordo com os últimos dados disponíveis, de 2015 (imagem abaixo). Tendências que se mantém no relatório de 2017.

Mas a demência! A demência está a aumentar! Venenos, tóxicos!

Não…não está. Lamento, apologistas da promoção do medo, a incidência e a mortalidade por demência têm diminuído nas últimas décadas, se ajustarmos à idade. (1, 23, 4, 567). Sim, vamos ter mais pessoas com demência no futuro, já que as pessoas estão cada vez mais envelhecidas. Mas a probabilidade de ter esta doença e morrer dela é cada vez menor. Deixo a avaliação de uma coorte na imagem abaixo, demonstrando que o risco tem diminuído em todas as faixas etárias:

diagnosticos de demencia estao a diminuir

Isto é extremamente relevante, por que os critérios de diagnóstico e a sensibilidade diagnóstica relativamente a esta doença tem vindo a aumentar nos últimos anos. E mesmo assim, a incidência e mortalidade continuaram a diminuir.

Mas as doenças infecciosas!

O que verificamos é mais do mesmo…a incidência de doenças infecciosas têm diminuído de forma drástica, assim como a mortalidade relacionada com essas doenças. Por exemplo, relativamente ao HIV, há cada vez menos pessoas infetadas, cada vez menos mortes pela doença e as pessoas infetadas vivem cada vez mais tempo. Neste momento a infeção por HIV é praticamente considerada uma doença crónica, tal a eficácia do tratamento.

evolução do HIV coorte

O mesmo se verifica relativamente à malária e à mortalidade infantil por doenças infecciosas. Mesmo relativamente à pneumonia, que é uma causa de morte importante nos extremos de idade (crianças e idosos), as taxas de mortalidade têm vindo progressivamente a diminuir na Europa (dados 2001 a 2014), apesar de ser a ritmos diferentes, dependendo do país (Portugal não está representado):

mortalidade por pneumonia esta a diminuir

A Diabetes…a Diabetes está a matar mais de certeza!

É indiscutível que a incidência e prevalência da diabetes tipo 2 está a aumentar. Este aumento tem causas conhecidas: sedentarismo e obesidade. E atacar estes problemas poderia reduzir de forma substancial o diagnóstico desta doença. No entanto, mesmo neste ambiente adverso e de difícil resolução, a medicina convencional conseguiu reduzir a mortalidade e morbilidade das pessoas com este diagnóstico. Por exemplo, entre 2001 e 2006, a mortalidade por diabetes diminuiu em média 26% no Reino Unido. Na Austrália, entre 1997-2010 assistimos a uma redução da mortalidade tanto da Diabetes tipo 1 como da Diabetes tipo 2 na ordem dos 20-30%. Mesma coisa nos EUA, onde se verificou uma diminuição por mortes cardiovasculares na ordem dos 40% e da mortalidade geral na ordem dos 23% entre 1997 e 2006. Se considerarmos o período 1985 a 2008, a mortalidade diminuiu cerca de 50%. E porque é que isto está a acontecer? Acima de tudo devido a um melhor controlo da diabetes, da tensão arterial e do colesterol dos doentes diabéticos. Não…não foram aqueles pensos para colocar nos pés que removem as “toxinas” do organismo.

Porque é que este artigo é importante?

Podíamos continuar. Podíamos falar do facto da doença pulmonar obstrutiva crónica estar a estabilizar ou a diminuir em incidência, com uma diminuição importante da mortalidade (quase 50%), acima de tudo graças ao abandono tabágico e à melhoria do tratamento (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7). Podíamos falar de forma mais extensa da diminuição da mortalidade por doença renal crónica nos países desenvolvidos (1, 2). Mas neste momento acho que a mensagem é clara: a medicina convencional está a conseguir dar resposta aos nossos problemas de saúde.

Isto é importante para voltarmos à realidade. Para desconstruir os argumentos dos terapeutas alternativos que eles são necessários APESAR da evolução que a ciência trouxe. No entanto, eles criaram esta narrativa, promovem o medo nas pessoas, pegam em pequenos riscos ou riscos imaginários e cavalgam esses argumentos de forma constante e sem tréguas para dar a ideia que eles têm alguma coisa para oferecer. Não têm.

Os terapeutas alternativos são tão necessários hoje em dia como a lepra era necessária no passado. Não acrescentam nada. São um resquício social que já devia ter sido cremado ou enterrado. É uma pena ver jovens a ser enganados, seguindo vias profissionais que apenas fazer duas coisas: desinformam a população e atrasar o início de tratamentos que realmente funcionam…

Felizmente, em alguns países, as coisas parecem estar a mudar.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar