O Mito do “Mito do Colesterol”

admin Colesterol, Geral 0 Comments

No dia 16 de Junho o Dr. Pinto Coelho foi novamente convidado para ir à RTP, ao programa Agora Nós, para falar sobre o Mito do Colesterol (obrigado RTP…mais uma vez, muito obrigado). Como bom masoquista, decidi ouvir os 30 minutos da sua intervenção sobre este tema. Após dezenas de afirmações incorretas ou simplesmente falsas e na tentativa de repor a verdade, decidi fazer este artigo.

Agradeço a vossa paciência 😀

Introdução

O Dr. Pinto Coelho começou a sua intervenção em tom de carpideira, a queixar-se de perseguição dos colegas médicos e da Ordem, dizendo que “não estamos na Coreia do Norte”…Queixa-se de ser condenado pela Ordem dos Médicos antes de ser ouvido (quando há poucas pessoas neste país que se fazem mais ouvir que este médico); refere que a maior condenação que lhe fazem é à sua posição relativamente ao colesterol e estatinas.

Destaco especialmente a atitude da entrevistadora quando disse “que gosta muito de o ouvir e há-de voltar quantas vezes o Dr. Pinto Coelho quiser”. Tivesse a medicina a sério tal privilégio.

Outro ponto interessante é a referência a um convite que lhe fizeram pela Fundação Portuguesa de Cardiologia para falar sobre a sua posição acerca do colesterol. Participou numa mesa redonda onde deu a sua opinião e outro colega fez o contraditório. Refere também que “é assim que as pessoas de bem devem fazer…”. Pergunto então porque é que nestes programas o Dr. Pinto Coelho nunca tem qualquer tipo de contraditório relativamente às inverdades que continuamente debita.

Afirmações sobre o colesterol e estatinas

Neste artigo, apesar de várias falsidades que foram debitadas acerca de outros assuntos, irei concentrar-me apenas no tema do colesterol, para que não se perca o rumo. Por forma a melhorar a compreensão deste texto, também iremos ajustar a ordem pela qual as afirmações foram feitas. Utilizaremos, como habitualmente, o melhor tipo de evidência existente para suportar as afirmações deste texto (revisões sistemáticas, meta-análises e RCTs).

1- O Colesterol ser o mau da fita começou o estudo do Framingham Heart Study

O estudo Framingham começou em 1948 e continua até à data. Foi e será um dos estudos mais importantes realizados em medicina no que diz respeito às doenças cardiovasculares e os seus fatores de risco. Deixo um resumo histórico do que se descobriu no estudo sobre o colesterol:

“In 1977, Gordon and other Framingham investigators reported an inverse relationship between HDL concentrations and coronary heart disease incidence, in contrast to the positive association between LDL concentrations and coronary heart disease incidence. That same year, in collaboration with other epidemiological studies in the United States, investigators reported that individuals with coronary disease had lower HDL concentrations than healthy participants across multiple ethnicities. Framingham researchers commented, “It is curious … that the determination of HDL cholesterol has not long since become part of standardized coronary heart disease risk profile.” Notably, the 1998 version of the Framingham Risk Score, adopted by the National Cholesterol Education Program, contained both total and HDL cholesterol.”

Ou seja, o estudo Framingham detetou a existência de uma inversão entre o nível do HDL (bom colesterol) e a incidência de doença coronária. Ou seja, quanto menor o nível de HDL, mais doença coronária era diagnosticada. Verificaram também a existência de uma relação direta entre o LDL e a doença coronária. Quanto mais colesterol LDL, mais problemas coronários.

Foi graças a estudos como o Framingham que iniciamos o controlo do colesterol, seja através de medidas dietéticas, seja através da utilização das famosas estatinas.

E as vantagens das estatinas para controlo do colesterol, por forma a reduzir o risco de eventos cardiovasculares é cada vez mais sólida. Citamos um estudo que avalia a evidência existente acerca da utilização de estatinas na prevenção primária (que significa que os doentes têm colesterol alto mas ainda não tiveram consequências importantes relacionadas com isso):

“The systematic review by Taylor et al. reported a 14% reduction in all-cause mortality (OR 0.86, 95% CI 0.79–0.94), 25% reduction in major cardiovascular events (RR 0.75, 95% CI 0.70–0.81), and reductions in fatal and nonfatal coronary heart disease and stroke events. Mean baseline (SD) low-density lipoprotein cholesterol (LDL) in CTT trials was 143.1 (27.1) mg/dL and mean (SD) difference in LDL between statin regimen and control was 41.8 mg/dL. Treatment effects standardized per 40.6 mg/dl (1 mmol/L) reduction in LDL cholesterol were also reported by the CTT for all-cause mortality (RR 0.91, 95% CI 0.85–0.97) and major vascular events (RR 0.75, 95% CI 0.70–0.80).

Effects of statin treatment in participants with diabetes mellitus were reported in 3 systematic reviews and demonstrated similar proportional benefits compared with the general primary prevention group. (…) After adjusting for baseline differences in prognostic characteristics and 5-year vascular risk, no sex-specific heterogeneity was seen.”

Portanto, a utilização de estatinas diminuiu de forma considerável a mortalidade geral, eventos cardiovasculares importantes, doença coronária aguda fatal e não fatal e o risco de AVC. E isto nos doentes que nunca tiveram problemas cardiovasculares. E quanto mais se reduz o LDL, melhor são os resultados na prevenção da ocorrência de eventos cardiovasculares:

“Compared with less intensive regimens, more intensive regimens produced a highly significant 15% (95% CI 11–18; p<0·0001) further reduction in major vascular events, consisting of separately significant reductions in coronary death or non-fatal myocardial infarction of 13% (95% CI 7–19; p<0·0001), in coronary revascularisation of 19% (95% CI 15–24; p<0·0001), and in ischaemic stroke of 16% (95% CI 5–26; p=0·005).”

No caso da prevenção secundária (que significa que a pessoa já tem doença coronária), está comprovado que as estatinas reduzem a mortalidade geral e a mortalidade cardiovascular.

Network meta-analysis showed that statins were significantly more effective than the control in reducing the risk of CHD mortality (Odds Ratio (OR) 0.69, 95% CI 0.61-0.77) and all-cause mortality (OR 0.84, 95% CI 0.80-0.87).

Aliás, o nível do colesterol “não HDL” parece ser um preditor de mortalidade nos casos de doença coronária. Quanto mais alto, maior a mortalidade.

Mas só com as estatinas conseguimos estes resultados? Não…

Na prevenção primária – ainda não há doença, apenas fatores de risco presentes como o colesterol alto – se conseguirmos reduzir o colesterol com alterações do estilo de vida (alimentação e exercício), conseguimos atingir os mesmos resultados que as estatinas na redução de eventos vasculares importantes.

Esta é a mensagem mais importante: O colesterol aumenta o risco de eventos cardiovasculares. As estatinas parecem ser uma arma importante para o controlo deste fator de risco e aumento da sobrevida, tanto na prevenção primária como na prevenção secundária. Agora vamos ao resto.

2-  O ovo é um alimento que não faz aumentar o colesterol – “Não há um único trabalho que o diga, em lado nenhum.”

Dr. Pinto Coelho…aqui tem um trabalho…que cita vários trabalhos…e do melhor tipo de trabalhos científicos (RCTs).

“Li et al. previously showed a dose–response effect between egg consumption and cardiovascular disease. In Li et al.’s meta-analysis, each 4 incremental eggs consumption per week was associated with an increased risk of developing cardiovascular disease (CVD; relative risk [RR] D 1.06, 95% confidence interval [CI], 1.03 to 1.10; p D 0.001). The effect of egg consumption on the risk of developing CVD was even more predominant in the patients with diabetes in other meta-analyses (RR D 1.40, 95% CI, 1.25 to 1.57, p < 0.001, in Li et al.’s study; RR D 1.69, 95% CI, 1.09–2.62 in Shin et al.’s study; RR D 1.54, 95% CI, 1.14 to 2.09, p D 0.01, in Rong et al.’s study).”

Ou seja, existem estudos que demonstram uma relação dose-resposta entre o consumo de ovo e doenças cardiovasculares – por cada aumento de quatro ovos por semana há um aumento do risco de doença cardiovascular. Esse problema é maior nos doentes diabéticos.

3- “Aliás, os alimentos não fazem colesterol…porquê? Porque a fábrica de colesterol que é o fígado produz menos colesterol se ingerirmos mais alimentos ricos em colesterol e produz mais colesterol se ingerirmos alimentos pobres em colesterol.”

Nem precisamos de sair do estudo sobre os ovos para provar que esta afirmação é falsa. Demonstra que por cada ovo consumido diariamente existe um aumento do coloesterol total de 9.6 mg/dL e colesterol LDL de 7,7 mg/dL. O problema agrava-se a partir dos três ovos/dia:

“Consumption of 1 additional egg daily increased serum values of TC and LDL-C by 9.6 and 7.7 mg/dl; the effects of increasing TC and LDL-C were even more pronounced in those subjects who consumed an additional 3 eggs daily (TC and LDL-C increased by 13.1 and 11.8 mg/dl, respectively). Rueda and Khosla conducted a study of college students that explored the effects of breakfast with or without egg on serum lipids for a study period of 14 weeks. A large main effect of time (from week 8 to week 12) was significant for serum concentration of TC and LDL-C. At the end of the study, serum TC and LDL-C increased by 23 and 15 mg/dl in the egg group and changes in serum TC and LDL-C were 17 and 10 mg/dl in the no egg group.

Egg consumption is positively associated with increased serum TC and LDL-C, thereby associating with the increased incidence of CHD mortality.”

O mais engraçado disto tudo, é que os efeitos do aumento do colesterol associado ao consumo do ovo não foram verificados nos doentes que consumiam estatinas, esses fármacos malditos:

“On the other hand, additional egg consumption had no effects of increased serum TC and LDL-C for subjects with hyperlipidemia already on statin treatment. In Klangjareonchai et al.’s study, all hyperchelestrolemic individuals already on statin treatment  (…) consumed an additional 3 eggs for a period of 12 weeks and no significant changes in serum TC and LDL-C were observed at the end of the study .”

4 – “O ovo é o alimento mais completo que existe. A seguir ao leite materno é o melhor alimento que existe. Porque gera vida…como é que pode ser má uma coisa de onde sai vida!?”

Mais uma vez, nem precisamos de sair do estudo dos ovos…pessoas que consomem mais de sete ovos por semana em comparação com as pessoas que consomem menos de um ovo por semana têm um risco duas vezes superior de ter doença coronária:

“In Choi et al.’s study, consumption of more than 7 eggs vs less than 1 egg per week almost doubled the risk of increased coronary CI, 1.15–2.84); there was also a significant association between CAC score and each extra egg consumed per week (adjusted OR D 1.54, 95% CI, 1.11–2.14, p for trend D 0.003). Choi et al.’s study also showed that more than 7 eggs vs less than 1 egg per week was associated with an increased risk of CAC score > 100 (adjusted OR D 1.75, 95% CI, 1.14–2.68), though there was only a tendency toward a signification association between each extra egg consumed and CAC score > 100 (adjusted OR D 1.36, 95% CI, 0.99–1.89, p for trend D 0.02).”

Portanto, o ovo gera vida mas também pode matar…o Dr. Pinto Coelho continua a desconhecer o efeito dose-resposta…

5 – O problema do colesterol é um problema das pessoas que têm um défice genético – quadro de hipercolesterolemia familiar. É o único caso em que se deve tomar estatinas.

Segundo a Associação Americana de Cardiologia, que o Dr. Pinto Coelho cita por diversas vezes, existem quatro grupos que beneficiam da medicação com estatinas:

“Identification of 4 Statin Benefit Groups – in which the potential for an ASCVD risk reduction benefit clearly exceeds the potential for adverse effects in adults with:

  • Individuals with clinical ASCVD;
  • Individuals with primary elevations of LDL–C ≥190 mg/dL;
  • Individuals 40 to 75 years of age with diabetes with LDL-C 70-189 mg/dL;
  • Individuals aged 40–75, LDL-C 70–189 mg/dL, without ASCVD but estimated 10 yr CVD risk of ≥7.5%”

Indivíduos com doença cardiovascular aterosclerótica; Indivíduos com elevação de colesterol LDL superior a 190 mg/dL; Indivíduos com diabetes, entre os 40 e 75 anos com colesterol LDL entre os 70 e os 189 mg/dL; Indivíduos entre os 40 e 75 anos com colesterol LDL entre os 70 e os 189 mg/dL e com um risco cardiovalscular superior a 7.5% a 10 anos.

Não percebo porque é que o Dr. Pinto Coelho cita sucessivamente a Associação Americana de Cardiologia e depois recusa seguir as suas recomendações. Mais incompreensível é dizer-se porta-voz dessa mesma Associação nas afirmações que faz, quando esta aconselha claramente a utilização de estatinas tanto na prevenção primária como na prevenção secundária.

6 – A associação americana de cardiologia considera que o colesterol total recomendado é de “200 mg por mL.”

Relembro que anteriormente o Dr. Pinto Coelho referiu que o limite recomendado pela Associação Americana de Cardiologia era de 330 mg/dL. Pronto, pelo menos agora o senhor aprendeu qualquer coisa…só falta acertar na concentração…mg por dL!

7 – O colesterol na maioria das vezes vai a pique com alteração da alimentação e exercício. Se não for há suplementos que se podem dar. A corcumina, o omega-3 e vitamina B3 com vitamina B5.

Primeiro…a curcumina não parece ter qualquer efeito a baixar o colesterol:

“In light of the present meta-analysis, curcumin supplementation has apparently no effect on serum total cholesterol, LDL-C, triglycerides and HDL-C levels when considering heterogeneous populations.”

Segundo…vitamina B3 ou Niacina. Revisão da Cochrane, do melhor que há, não recomenda o uso da vitamina B3:

“Moderate- to high-quality evidence suggests that niacin does not reduce mortality, cardiovascular mortality, non-cardiovascular mortality, the number of fatal or non-fatal myocardial infarctions, nor the number of fatal or non-fatal strokes but is associated with side effects. Benefits from niacin therapy in the prevention of cardiovascular disease events are unlikely.”

Terceiro…sobre a vitamina B5 ou Ácido Pantoténico existem muito poucos estudos. No melhor estudo que encontrei, que apenas avalia 32 pessoas ,a vitamina B5 eventualmente poderá ter um papel, mas o seu poder de redução do colesterol LDL é muito fraco em comparação com as estatinas:

“An 11% decrease in LDL-C from baseline was seen in participants on pantethine, at weeks 4, 8, 12, and 16, while participants on placebo showed a 3% increase at week 16.”

Quanto ao Ómega-3, de facto poderá ter benefícios, principalmente nos doentes com triglicerídeos superiores a 150mg/dL e Colesterol LDL superior a 130mg/dL:

“Our results indicate that EPA+DHA provision reduced CHD risk among subjects with triglyceride levels of 150 mg/dL or more in RCTs but not among those with triglyceride levels within normal limits. Similarly, a CHD risk reduction benefit of n-3 LCPUFA provision was found among RCT subjects with low-density lipoprotein (LDL) cholesterol levels of 130 mg/dL or more but not for those with LDL cholesterol levels of less than 130 mg/dL.”

Portanto, destes quatro apenas recomendaria aos doentes a toma de ómega-3. E não de forma isolada mas em associação com a estatina.

8 – O colesterol é o principal responsável pelas doenças do coração…não pode ser mais errado. O principal responsável pelas doenças do coração é o açúcar.

Primeiro, a Cochrane faz uma revisão que demonstra uma melhoria pequena mas importante na redução dos risco cardiovascular com a diminuição do consumo de gorduras saturadas.

“The findings of this updated review are suggestive of a small but potentially important reduction in cardiovascular risk on reduction of saturated fat intake.”

Uma revisão sobre o tema mais recente chega à mesma conclusão:

“Taking into consideration the totality of the scientific evidence, satisfying rigorous criteria for causality, we conclude strongly that lowering intake of saturated fat and replacing it with unsaturated fats, especially polyunsaturated fats, will lower the incidence of CVD.”

Podemos concluir que a gordura que comemos é importante para a saúde cardiovascular…e o açúcar?

Sim, o açúcar também é importante, aumentando os níveis de colesterol e dos triglicerídeos e aumentando a tensão arterial:

“Higher compared with lower sugar intakes significantly raised triglyceride concentrations (…), total cholesterol (…), low-density lipoprotein cholesterol (…), and high-density lipoprotein cholesterol (…).

The effect of sugar intake on blood pressure was greatest in trials ≥8 wk in duration – MD: 6.9 mm Hg (…) for systolic blood pressure and 5.6 mm Hg (…) for diastolic blood pressure.”

Portanto, o consumo de açúcar também tem consequências e deve ser moderado…isto é algo que todos os médicos reconhecem. Não é novidade nenhuma. Tanto o açúcar a mais como as gorduras a mais são prejudiciais para a saúde dos doentes…mas porque é que o Dr. Pinto Coelho apenas se concentra no açúcar? Marketing? Porque vende ser diferente?!

9 – Um dos variadíssimos efeitos secundários do colesterol é a impotência. E há laboratórios que fazem as duas coisas…dão os medicamentos para baixar o colesterol e fazem os “azuis”.

É no mínimo engraçado ver o Dr. Pinto Coelho fazer este tipo de afirmação, por duas razões. Primeiro, a utilização das estatinas parece melhorar a disfunção eréctil, principalmente nos doentes que não respondem a comprimidos como o Viagra. No entanto, o estudo citado ressalva o possível papel das estatinas na diminuição da produção da testosterona e as possíveis consequências para a função sexual:

“A meta-analysis using a random effects model showed that statins were associated with a significant increase in IIEF-5 scores (mean difference (MD): 3.27; 95% confidential interval (CI):1.51 to 5.02; P < 0.01) (…). In summary, our study revealed positive consequences of these lipid-lowering drugs on erectile function, especially for nonresponders to phosphodiesterase type 5 inhibitors (PDE5Is). However, it has been reported that statin therapy may reduce levels of testosterone and aggravate symptoms of ED. Therefore, larger, well-designed RCTs are needed to investigate the double-edged role of statins in the treatment of ED.”

O outro ponto engraçado é a ligação entre a produção de estatinas e a produção de Viagra…primeiro, o Dr. Pinto Coelho devia saber que já existe “Viagra” genérico e que existem várias alternativas não genéricas ao Viagra, produzido por diversas empresas. Depois, este tipo de associações são simplesmente ridículas. É mesma coisa que dizer que a indústria farmacêutica produz fármacos para quimioterapia que dão vómitos só para vender os anti-eméticos.

Só com esta associação este senhor mostra o seu carácter…(esta frase foi editada por diversas vezes por forma a evitar processos por difamação…) 😀

10 – Para além da impotência fazem outra coisa extraordinária. 25% do colesterol está no cérebro. As pessoas que fazem medicamentos para o colesterol ficam com défices cognitivos.

Um estudo recente debruçou-se sobre todos os fatores de risco que podem causar Alzheimer. O que diz sobre estatinas:

“Four cohort and two case-control studies identified by Zhou et al. (2007) examined AD as an outcome. According to a random effects meta-analysis, statin therapy was not associated with risk of AD (OR = 0.81; 95% CI = 0.56, 1.16; test for heterogeneity: p=0.14).

Two longitudinal cohort studies identified by Patterson et al. (2007) examined the effect of statin use. Both studies failed to detect an association. One study examined the effect of all lipid lowering drugs. Results from this study suggest that use of lipid lowering drugs was associated with a reduced risk of AD (OR = 0.26; 95% CI = 0.08, 0.88).

Findings from these six studies were included in a random effects meta-analysis, which detected a statistically significant reduced risk of AD associated with statin use (HR = 0.73; 95% CI = 0.57, 0.94). There was no evidence of statistical heterogeneity (Q statistic = 5.132, p-value= 0.40; I2 = 2.58%) or publication bias. (…) Based on the available evidence from observational studies, the reviewers concluded that statin use appeared to reduce the risk of AD.

Li et al. (2010) prospectively examined the effect of statin therapy on risk of AD. According to the results of the study, statin therapy was associated with a reduced risk of AD (HR = 0.62; 95% CI = 0.40, 0.97). Stratified analysis by age detected a protective effect in younger subjects and a detrimental nonsignificant association in older subjects (<80 years of age, HR = 0.44; 95% CI = 0.25, 0.78. ≥80 years of age, HR = 1.22; 95% CI = 0.61, 2.42).”

Assim, a maioria da evidência aponta para um possível fator protetor das estatinas na Doença de Alzheimer…o que é muito, muito engraçado.

Uma revisão da Cochrane refere, no entanto, que esse fator protetor não parece existir. Mas reparem que estamos a falar do outro espectro de ação do medicamento…o Dr. Pinto Coelho fala em dano quando os estudos falam em possível proteção!

11 –  As estatinas aumentam o risco de cancro

Mais uma para a coleção…mesmo quando se utiliza estatinas em doses maiores, não há aumento do risco de cancro.  Pelo contrário…as estatinas podem ajudar a reduzir a mortalidade por cancro da mama. A mesma coisa com o cancro renal. Sem qualquer efeito no cancro da próstata.

E como cereja em topo do bolo, uma meta-análise de 95 coortes com 1,111,407 doentes na totalidade conclui que existem possíveis benefícios das estatinas no cancro em geral:

“A meta-analysis of 55 articles showed that statin use was significantly associated with decreased risk of all-cause mortality (HR 0.70, 95% Cl 0.66 to 0.74) compared with nonusers. The observed pooled estimates were retained for cancer-specific mortality (HR 0.60, 95% Cl 0.47 to 0.77), progression-free survival (HR 0.67, 95% Cl 0.56 to 0.81), recurrence-free survival (HR 0.74, 95% Cl 0.65 to 0.83) and disease-free survival (HR 0.53, 95% Cl 0.40 to 0.72).

These associations almost remained consistent across those outcomes when stratified by publication type, tumour location, study design, sample size, initiation of statins, disease stage, research country, follow-up duration or research hospital involved.

Subgroup analyses according to initiation of statins showed postdiagnosis statin users (HR 0.65, 95% Cl 0.54 to 0.79) gained significantly more recurrence-free survival benefit than prediagnosis statin users (HR 0.86, 95% Cl 0.77 to 0.96) (p for interaction = 0.018).

Statin therapy has potential survival benefit for patients with malignancy. Further large-scale prospective studies emphasising survival outcomes of individual cancer type are strongly encouraged.”

Ou seja, as estatinas diminuíram a mortalidade geral, a mortalidade específica por cancro e a sobrevivência pós-tratamento da neoplasia. E estes resultados foram muito consistentes! Agora digam-me se o Dr. Pinto Coelho não é um perigo para a saúde pública…

12 – As estatinas aumentam o risco de hemorragia cerebral

Sim, parece ser verdade que as estatinas podem aumentar o risco de hemorragia cerebral, mas apenas em altas doses. Nas doses consideradas normais, que são as utilizadas pela larga maioria dos doentes, esse risco é praticamente inexistente.

13 – As estatinas causam cegueira por aumentar o risco de cataratas

Mais uma vez, o Dr. Pinto Coelho adora ignorar factos bem fundamentados, pegar em possibilidades remotas e extrapolar conclusões que não existem. A meta-análise mais recente afirma:

“Based on the present meta-analysis of these studies, we could only conclude that there is no clear evidence showing that statin use increases the risk of cataracts. The most likely case is that there is no association between statin use and cataracts. Because of the considerable benefits of statins in cardiovascular patients, this issue should not deter their use.”

Não se consegue afirmar com certezas absolutas, mas possivelmente esse risco não existe. E mesmo que exista, é preferível ter catarata ou falecer de enfarte do miocárdio?! Risco e benefício…são contas simples de fazer.

14 – As estatinas causam diabetes

Sim…isto parece ser verdade. As estatinas parecem aumentar o risco de diabetes. No entanto, tal situação já está descrita inclusive na bula dos medicamentos das estatinas. Os médicos já estão atentos a esta situação e o benefício de fazer uma estatina, nas circunstâncias apropriadas, ultrapassa claramente esse risco.

Para terminar

Como disse, contabilizei imensas falsidades que foram ditas no programa. Tenho a certeza que irão surgir outras oportunidades de abordar essas questões.

Para acabar, por forma a não ser demasiado extenso, refiro a bibliografia que o Dr. Pinto Coelho levou ao programa…uma folha que afirma ser da Sociedade Americana de Cardiologia, quando aparece no canto inferior o símbolo do site Mercola.com.

Claramente o Dr. Pinto Coelho acha que andamos todos a dormir…para quem não sabe o que é o site Mercola deixo só um “cheirinho”:

“Joseph Michael Mercola (born 1954) is an alternative medicine proponent, osteopathic physician, and web entrepreneur, who markets a variety of controversial dietary supplements and medical devices through his website, Mercola.com. Until 2013, Mercola operated the “Dr. Mercola Natural Health Center” (formerly the “Optimal Wellness Center”) in Schaumburg, Illinois. He wrote the best-selling books The No-Grain Diet (with Alison Rose Levy) and The Great Bird Flu Hoax. Mercola criticizes many aspects of standard medical practice, such as vaccination and what he views as overuse of prescription drugs and overuse of surgery to treat diseases. On his website mercola.com, Mercola and colleagues advocate a number of unproven alternative health notions including homeopathy, while promoting anti-vaccine positions. Mercola is a member of the political advocacy group Association of American Physicians and Surgeons as well as several alternative medicine organizations.”

Ou seja, um médico osteopata, que acredita na homeopatia, não acredita nas vacinas e ganha a vida a vender suplementos alimentares, entre outras coisas…agora expliquem-me que credibilidade tem um médico que usa o site Mercola como fonte de referência.

A segunda bibliografia que levou foi um livro francês do  Dr. Michel de Lorgeril…um livro anti-estatinas. Se há alguma coisa que o Dr. Pinto Coelho nos mostrou é que qualquer pessoa, por muito pouco que saiba de medicina e de evidência científica, pode escrever um livro…é a mesma coisa que eu usar o livro da Maria Helena para afirmar que se rezar ou andar com uns cristais ao pescoço vou ficar rico e cheio de saúde:

Assim, deixo aqui o meu profundo desejo de um dia a comunicação social e os portugueses em geral consigam ver o que este homem realmente é. Classificação desta entrevista? Atribuo 9 em 10 na escala da charlatanice e deixo um Trump a fazer o que ele sabe fazer melhor (possivelmente a única coisa que sabe fazer):

 

Se chegaram até ao final desta maratona e ainda querem ler mais um bocadinho, deixo um artigo do David Gorski que tenta explicar algumas das coisas que vamos observando por esse mundo fora:

How do scientists become cranks and doctors quacks?

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar