Análise crítica - vacinação e sarampo

Factos Sobre Sarampo e a Vacinação

admin Autismo, Doenças Infecciosas, Geral, Vacinas Leave a Comment

Recentemente tivemos “direito” a um surto de sarampo em Portugal, com mais de 62 casos confirmados e várias dezenas por confirmar. Isto ocorre poucos meses depois de ter sido declarado o fim da imunidade de grupo em Portugal, já que os valores de seroprevalência estão abaixo dos 95%, limiar para que essa imunidade seja estabelecida.

Perante este surto surgiram várias dúvidas que tentarei esclarecer neste artigo.

História da vacina do sarampo em Portugal

A vacina do sarampo foi desenvolvida em 1963 por John Enders, após o isolamento do vírus por Thomas Peables em 1954.

Uma versão melhorada da vacina foi desenvolvida em 1968 por Maurice Hilleman. Maurice Hilleman é um dos gigantes da ciência que merece ser reconhecido. Hilleman e a sua equipa criaram (ou melhoraram) mais de 40 vacinas humanas e animais, incluindo as vacinas para o sarampo, parotidite, varicela, rubéola, hepatite A e B e meningite. A sua equipa desenvolveu 8 das 14 vacinas que são dadas rotineiramente nos Planos de Vacinação em todo o mundo. Foi o primeiro a identificar como o vírus da gripe sofre mutação. Desempenhou um papel importante na descoberta dos adenovírus responsáveis pela constipação, dos vírus da hepatite e do vírus SV-40, um fator de risco para vários tipos de cancro.  Será o investigador que mais vidas salvou no século XX e, no entanto, é pouco conhecido do público em geral. Assim, deixo esta pequena homenagem a um verdadeiro “milagreiro” de bata branca.

Voltando à vacina do sarampo. A vacinação contra o sarampo iniciou-se em Portugal com a VAS, em 1973, tendo sido realizada uma campanha dirigida a crianças até aos 5 anos de idade. Portanto, supõe-se que as pessoas nascidas a partir de 1968 (neste momento com 50 anos), terão pelo menos uma dose da vacina. A vacina foi introduzida no Plano Nacional de Vacinação (PNV) em 1974, sendo administrada a crianças entre os 12-15 meses. 

Em 1987 a VAS foi substituída pela VASPR, que protegia não só contra o sarampo mas também contra a parotidite e a rubéola. Em 1990 foi introduzida uma segunda doses da VASPR, a ser administrada aos 11-13 anos. Em 1999 diminuiu-se a idade da segunda dose para 5-6 anos, com o objectivo de conseguir maior cobertura vacinal. Podemos supor que as pessoas nascidas a partir de 1990 (neste momento com 28 anos) terão duas doses da vacina se cumpriram o PNV.

Isto é importante porque as pessoas que receberam uma dose da vacina contra o sarampo têm uma proteção de 93% (de forma simplificada). Quem recebeu as duas doses, tem uma proteção de 97%. Além disso, com o passar do tempo parece existir uma perda dessa proteção (artigo e artigo), o que poderá ajudar a explicar o surto a que assistimos recentemente, mesmo com a maioria dos profissionais de saúde vacinados.

Portanto, a proteção da vacina não é total o que, mais uma vez, reforça a necessidade de imunizar toda a população para se atingir a imunidade de grupo. Além disso, mesmo não sendo totalmente eficaz, sabemos que as pessoas vacinadas quando têm sarampo apresentam uma forma mais leve da doença e com menos complicações. E também são focos de contágio menos eficazes, o que é bom para evitar o surgimento de epidemias.

Agora vamos abordar alguns argumentos antivacinas.

“O sarampo é uma doença benigna. Porquê a preocupação?”

Este é um dos muitos argumentos dos antivacinas: “o sarampo é um doença benigna”, “os nossos antepassados tinham sarampo e ainda cá andamos”,” é natural contrair estas doenças”, etc. 

Primeiro, é importante que as pessoas percebam que o sarampo mataSegundo a Organização Mundial de Saúde, o sarampo continua a ser uma das principais causas de morte infantil a nível global. A morte pela doença é mais comum abaixo dos 5 anos e acima dos 30 anos. Na presença de deficiência de vitamina A, malnutrição e ausência de cuidados de saúde, a mortalidade varia entre os 3-6% até 30%.

Nos países desenvolvidos, com crianças bem nutridas e saudáveis, a mortalidade atinge 1 em cada 1000 crianças, relacionada com complicações da doença como a pneumonia e a encefalite. E a encefalite, mesmo que não mate, pode deixar sequelas permanentes como défices cognitivos associados.

Outra sequela muito frequente do sarampo é a perda permanente de audição, atingindo 1 em cada 10 crianças vítimas da doença. Nos países em desenvolvimento, é também uma das principais causas de cegueira nas crianças, registando-se 15.000 a 60.000 casos por ano.

Portanto, esta doença não tem nada de benigno.

“A vacina não funciona…várias pessoas vacinadas apanharam sarampo na mesma”

Já salientámos que, de facto, a vacina não é 100% eficaz e que pode existir uma perda da imunidade ao longo dos anos, mas para provar a eficácia da vacinação, basta acompanhar a evolução do número de casos de sarampo em comparação com o estado vacinal da população:

À medida que a vacinação aumenta, o número de casos registados de sarampo diminui. Contas simples, não sendo necessário nenhum doutoramento em epidemiologia para perceber isso. Esta diminuição do número de casos de sarampo leva indiretamente à redução de todas as sequelas de que falei anteriormente. 

“Eu quero que o meu filho apanhe sarampo, para reforçar o sistema imunitário”

Este também é um dos habituais argumentos antivacinas. A doença é boa porque “estimula o sistema imune” e até há quem diga que confere proteção contra o cancro mais tarde na vida (não protege e a história foi distorcida, mas fica para outra altura).

Existe um ponto positivo em ter sarampo de forma “natural”: quem contrai a doença tem uma imunidade superior às pessoas vacinadas. Só em condições muito específicas poderá voltar a ter sarampo. 

No entanto, quem pretender usar este argumento, é bom que conheça dois factos importantes…

Primeiro, as crianças que têm sarampo transformam-se em verdadeiras bombas relógio. Isto porque existe uma doença, habitualmente fatal, denominada panencefalite esclerosante subaguda. Esta doença desenvolve-se 7 a 10 anos após as pessoas terem tido sarampo.  A doença é rara, mas o risco é real. Atinge, em média, 4 a 11 crianças em cada 100 000 casos de sarampo. Se a criança tiver sarampo com menos de um ano de idade, este valor sobe consideravelmente para os 360 casos por cada 100 000 crianças que tiveram sarampo. A morte ocorre em 95% dos casos.

Mais giro…parece existir alguma evidência que a vacina do sarampo confere proteção cruzada contra outras infeções. Isto porque ter sarampo, ao contrário do que os antivacinas referem, enfraquece o sistema imunológico da criança durante vários anos (cerca de 3 anos)! Assim, fazer a vacina impede que esse enfraquecimento do sistema imunológico ocorra. Como é que isso se reflete na prática? Verifica-se uma queda da mortalidade infantil por outras doenças infeciosas sem relação com o sarampo após campanhas de vacinação contra o sarampo. Viva a vacina contra o sarampo 🙂

Logo, achar que ter sarampo é fixe está para lá de estúpido.

Referência a Andrew Wakefield e à vacina do sarampo

Anteriormente falámos de Maurice Hilleman, um dos maiores cientistas de sempre. Em contraste, falamos agora de Andrew Wakefield, um dos piores cientistas de sempre.

Em 1998, Wakefield e colegas publicaram um artigo fraudulento intitulado MMR vaccination and autism na revista The Lancet, no qual estabeleceram uma suposta relação entre a VASPR e o autismo. Era um artigo com uma amostra de 12 crianças, sem grupo controlo e com conclusões claramente especulativas. O artigo foi retratado, vários estudos foram publicados demonstrando a inexistência de uma relação entre a vacina e o autismo, mas o mal estava feito. 

Dos 12 investigadores, 10 assumiram o erro e retrataram-se. Também se ficou a saber que Wakefield tinha sido pago por advogados que representavam pais com crianças autistas e que tinham processado empresas farmacêuticas culpando a vacina. Mais tarde concluiu-se que o artigo não era apenas especulativo como fraudulento, tendo sido falsificados os dados do estudo.  Além disso, Wakefield tinha uma empresa que preparava uma vacina concorrente à VASPR e promovia a comercialização de produtos para crianças autistas. 

Este caso foi algo vergonhoso para a comunidade científica. Primeiro, porque os conflitos de interesses de Wakefield foram descobertos por um jornalista de investigação, Brian Deer, demonstrando a inabilidade de autorregulação da comunidade científica. Segundo, o The Lancet apenas fez a retração total do artigo (e muito timidamente) em 2010, o ano em que Wakefield perdeu a sua licença para exercer medicina, muito após as descobertas de Brian Deer, o que deixa a comunidade científica muito mal vista, em particular a revista The Lancet.

Apesar disso, Wakefield continua de forma irresponsável a promover o seu discurso antivacinação. Em 2016 lançou o seu “fraudumentário”, Vaxxed, como ferramenta de produção do medo. Contribuiu recentemente para o maior surto de sarampo em 30 anos no Minnesota, USA. O surto ocorreu numa comunidade imigrante, de origem Sumali, visitada por diversas vezes pelos ativistas antivacinas, incluindo Wakefield. Isso levou a uma diminuição do número de crianças vacinadas e ao surgimento do surto.

A isto chama-se uma ameaça à saúde pública com pernas. É um exemplo do que acontece quando temos excesso de tolerância e deveríamos ser intolerantes.

Conclusão

É necessário um esforço de toda a comunidade para que as vacinas sejam eficazes. É necessário que esse esforço de solidariedade seja feito para proteger os mais vulneráveis. Talvez esteja na altura de falar da obrigatoriedade do PNV, um assunto que não devia levantar qualquer tipo de controvérsia. 

O Estado obriga-nos usar cinto de segurança, obriga-nos a conduzir com um limite máximo de álcool, obriga-nos a não falar ao telemóvel durante a condução, obriga-nos a fazer a escolaridade obrigatória… Qual é a diferença? E neste caso em concreto, obrigaria os pais irresponsáveis a não colocar em risco a vida das crianças, que não têm voz neste tipo de escolha. Está na altura de seguir o exemplo Australiano. Está na altura dos políticos se deixarem de sendas pós-modernas.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar