evidência científica sobre homeopatia

Homeopatia – A Rainha das Alternativas

admin Geral, Homeopatia 1 Comment

Este artigo é dedicado a James Randi, um mágico de profissão mas que passou grande parte da sua vida a expor charlatões. O seu trabalho permitiu salvar centenas, senão milhares de doentes de pessoas sem escrúpulos, que parasitam e monetizam o desespero dos doentes em seu próprio benefício. Aconselho vivamente a ver este vídeo da sua participação no TED Talks.

Ainda hoje oferece um milhão de dólares a quem conseguir provar que a homeopatia funciona. Vamos ver se conseguimos ir buscar esse dinheiro! 😀

Então, o que é a Homeopatia?

A homeopatia surgiu (oficialmente) em 1796, quando o Dr. Samuel Hahnemann, descontente com o estado da medicina da época, decidiu inovar na área da saúde. Fica um excerto dessa história:

“Naquela época, sangrias, eméticos e purgantes eram receitados sem nenhum resguardo. Os médicos julgavam-se autoridades máximas, acima da natureza, e não duvidavam de seus métodos mesmo diante de desastrosas evidências do dano que causavam. Hahnemann frustra-se profundamente com a prática médica e decide abandoná-la em 1789. Um de seus escritos reflete a angústia e o desânimo que pousaram sobre ele naquela época: “converter-me em assassino de meus irmãos era para mim um pensamento tão terrível que renunciei à prática para não me expor mais a continuar prejudicando”. Essa postura mostra sintonia com a máxima hipocrática: “primum non nocere”, ou seja, primeiramente não prejudicar.”

Portanto, o surgimento da homeopatia parece ter fins beneméritos…ajudar o doente, dada a ineficácia dos tratamentos da época. Respeitar a máxima Hipocrática de não prejudicar o doente…Tudo ótimo!

Agora vamos contextualizar…na época, se eu realizasse tratamentos que eram prejudiciais para os doentes e, descontente com isso, inventasse um tratamento que não seria bom nem mau (tratamento placebo), o que aconteceria?

A taxa de sucesso dos meus tratamentos seria superior aos que existiam na altura, certo? Não estava a ajudar os doentes, mas também não estaria a prejudicá-los. Se fizessem estudos comparativos entre o meu tratamento placebo e as sangrias, por exemplo, o meu tratamento ganharia com toda a certeza. Não salvava mais, mas matava menos.

Além disso, a principal causa de morte à época eram doenças infeciosas, associadas a febres e desidratação. Vamos supor que eu inventava um tratamento que não agravava a desidratação do doente, como ocorre com as sangrias. Pelo contrário, ainda lhe dava uma aguinha para beber (tem piada, porque aguinha é um termo homeopático). Nesse caso estaria a hidratar o doente e a aumentar a sua probabilidade de sobrevivência!

Ou seja, naquele tempo, o meu tratamento seria revolucionário! Grande médico! Teria mudado o paradigma da medicina, inventando um tratamento com uma taxa de sucesso superior à prática convencional! Mereceria um prémio Nobel à Pinto Coelho.

Vamos ver se a homeopatia encaixa nesta “teoria”…

O Dr. Hahnemann, em 1796, escreveu o livro “Organon da Arte de Curar”, onde colocou os quatro princípios básicos da homeopatia.

  • Lei dos Semelhantes: Segundo esta lei – similia similibus curantur – um produto que causa doença numa pessoa saudável, tratará essa doença numa pessoa doente.

Um medicamento que numa pessoa saudável provoca diarreia, numa pessoa doente cura a diarreia…o veneno de uns, a cura de outros. Semelhante cura semelhante…A lógica deste princípio não é muito sólida. Aliás, aconselho as pessoas a experimentarem fazer Microlax quando estiverem saudáveis e depois quando estiverem doentes…contem-me como foi! 😀

Mas pode ser que esta teoria resulte apenas com medicamentos homeopáticos e não com os medicamentos convencionais…

  • Experimentação na pessoa saudável: Os homeopatas realizavam as chamadas patogenesias: testavam em pessoas saudáveis, muitas vezes neles próprios, os efeitos de determinadas substâncias. O objetivo era identificar os efeitos puros de cada substância. A substância que provoca determinado sintoma/doença na pessoa saudável seria utilizada para curar esse sintoma/doença numa pessoa doente.

Ou seja, os testes eram realizados em pessoas saudáveis. Por exemplo: “Deixa ver o que faz este veneno de cobra…Ups! Esvaziem-me em sangue! Espetáculo! Quando tiver um doente com hemorragia, podemos utilizar este veneno como medicamento!”

  • Doses infinitesimais: A preparação homeopática dos medicamentos segue uma técnica própria que consiste em diluições infinitesimais seguidas de sucessões rítmicas, ou seja: mistura-se uma pequena quantidade de uma substância específica em muita água e/ou álcool e agita-se bastante. Supostamente esta técnica “desperta” as propriedades latentes da substância. Chama-se a “dinamização” ou “potencialização” do medicamento.

Portanto, vamos diminuindo de forma progressiva a concentração de uma substância para acordar os seus efeitos terapêuticos, potencializando a sua ação. E quanto mais diluirmos, mais “acordada” fica a substância! Ou seja, é uma pura contradição das leis mais básicas da física e da química…

Compreendendo este conceito, coloco uma imagem que explica como é produzido o “Oscillococcinum” (imagem adaptada deste site), um medicamento homeopático popular que supostamente trata a gripe, criado a partir de fígado e coração de pato e diluído a 200C:

Portanto…depois de tanta diluição temos apenas água colocada num comprimido de açúcar…e os homeopatas aceitam isso! Então, como é que explicam que os medicamentos homeopáticos tenham efeito? Segundo eles, a água tem memória:

“Em homeopatia, memória da água refere-se à suposta capacidade da água reter propriedades de substâncias que nela estiveram diluídas, mas que não mais se encontram ali. A teoria foi publicada pelo imunologista Jacques Benveniste na revista científica Nature em 1988. Este suposto efeito seria obtido por meio da dinamização, um processo em que as substâncias diluídas em água são agitadas vigorosamente (sucussão), utilizando técnicas descritas em Farmacopeias para transferir a energia das substâncias para a água.

A pesquisa publicada na Nature foi feita utilizando soluções diluídas dos anticorpos IgE e verificando se essas teriam o mesmo efeito de uma solução não diluída dos mesmos anticorpos sobre os basófilos. A equipe de Jacques Benveniste observou os mesmos efeitos, mas tais resultados foram depois contestados pelos editores da revista devido à falta de reprodutibilidade, um princípio básico da ciência.”

Portanto, a água tem memória das substâncias que lá estiveram presentes…tal teoria teve mesmo direito a publicação na revista Nature, uma das revistas mais conceituadas mundialmente. Qual é o problema? Este estudo nunca foi reproduzido por outras equipas de investigação…e na ciência, a reprodutibilidade dos resultados é fundamental. Isto porque uma equipa de investigação pode ter conflitos de interesse, ter feito algum erro de observação/estatístico ou, simplesmente pelo acaso, a experiência deu um resultado falso-positivo.

Mas como é que funciona esta memória? Como é que transmite a informação? 

“Diluir e fazer sucussão formam um análogo a hidratos de clatrato que podem multiplicar-se. Portanto, formam-se estruturas chamadas de nano-cristalóides a partir de minerais, vegetais e animais diluídos na água ou álcool. Estes nano-cristalóides emitem sinais eletromagnéticos que podem interagir com as células de um organismo. Uma pequena molécula da tintura original fica retida dentro de uma estrutura chamada de nano-bolha, formada pelas ligações de hidrogénio das moléculas da água. Os movimentos da sucussão fazem estas estruturas colidirem o que forma uma espécie de hiper-protão ou buraco branco onde não existe matéria e sim a capacidade de emitir radiação (Trítio tipo β).”

Portanto…energia, radiação eletromagnética, tudo muito complicado e científico…mas esta teoria não foi reproduzida por outras equipas.

Mas vamos aceitar que sim…que as moléculas deixam lá um resíduo que emite radiação, que poderá ser a origem do efeito do medicamento homeopático. Como já explicamos, não é necessário compreender como um medicamento funciona para testá-lo.

  • Medicamento único: o último princípio da homeopatia dita que se utilize uma substância de cada vez. Só assim é possível ver seus efeitos, a resposta terapêutica e avaliar a sua eficácia ou ausência dela. Após a primeira prescrição é que se pode fazer a leitura prognóstica, ver se é necessário repetir a dose, modificar o medicamento ou aguardar a evolução.

No entanto, este princípio foi ultrapassado e neste momento existem quatro escolas de homeopatia:

  • Unicismo: Prescrição de um único composto homeopático;
  • Pluralismo: É chamado também de alternismo, dois compostos homeopáticos administrados em horas distintas, um complementando o outro;
  • Complexismo: São prescritos dois ou mais compostos homeopáticos que podem ser administrados simultaneamente. A indústria produz em larga escala compostos homeopáticos ditos complexos, não considerando a lei dos semelhantes.
  • Organicismo: O composto homeopático é prescrito conforme o órgão doente. Esta prática aproxima-se muito da alopatia.

É a prova que a homeopatia também tem vindo a evoluir! 🙂

Mas qual é a evidência científica sobre a homeopatia?

Conhecendo as bases teóricas da homeopatia, só pela lógica podemos pressupor que este tratamento é um puro placebo à base de água. Mas vamos dar o benefício da dúvida e assumir que a água tem “memória”, liberta radiação Trítio tipo β – ou seja, a água homeopática será radioativa – e que esta característica poderá ter alguma benefício para a saúde dos doentes.

Vamos ver o que diz a evidência sobre a homeopatia…

Consenso Australiano:

“Com base na avaliação das evidências sobre a eficácia da homeopatia, o NHMRC chegou a estas conclusões:

  • Não há evidências confiáveis ​​de que a homeopatia seja eficaz no tratamento de qualquer problema de saúde;
  • A homeopatia não deve ser usada para tratar problemas de saúde crónicos, sérios ou que se podem tornar sérios.
  • As pessoas que escolhem a homeopatia podem colocar a sua saúde em risco se rejeitarem ou atrasarem tratamentos para os quais existem boas evidências de segurança e eficácia.
  • As pessoas que estão a considerar utilizar a homeopatia devem primeiro obter aconselhamento de um profissional de saúde. Aqueles que usam a homeopatia devem dizer ao seu profissional de saúde, e devem continuar a fazer os tratamentos prescritos. “

Portanto, não há evidência fidedigna dos efeitos da homeopatia no tratamento de qualquer tipo de doença. A homeopatia não deve ser utilizada no tratamento de doenças crónicas, doenças graves ou potencialmente graves. Quem recorre à homeopatia coloca a sua vida em risco se rejeitarem ou atrasarem tratamentos para os quais existe evidência de segurança e efetividade. Quem pretende utilizar homeopatia, deve consultar um médico (um médico a sério), informá-lo do tratamento homeopático que está a fazer e manter as prescrições médicas convencionais.

Consenso britânico:

O consenso é longo, pelo que deixo apenas a conclusão:

“Ao fornecer homeopatia no NHS e permitir o licenciamento destes produtos que aparecem nas prateleiras das farmácias, o Governo corre o risco de patrocinar a homeopatia como um sistema eficaz. Para manter a confiança dos doentes,  o direito à escolha e segurança, o Governo não deve apoiar a utilização de tratamentos placebo, incluindo a homeopatia. A homeopatia não deve ser financiada pelo NHS e a MHRA deve parar de licenciar produtos homeopáticos. “

Informação da instituição norte-americana National Center for Complementary and Integrative Health:

  • Existe pouca evidência que apoie a homeopatia como tratamento eficaz em qualquer doença.
  • Apesar dos medicamentos homeopáticos estarem muito diluídos, em alguns casos podem ter princípios ativos importantes e causar efeitos secundários.
  • A FDA regula os medicamentos homeopáticos, mas não avalia a sua segurança ou eficácia.
  • Vários conceitos da homeopatia são inconsistentes com os conceitos fundamentais da química e física.
  • É importante informar os profissionais de saúde acerca de todos os tratamentos complementares que utiliza, por forma a garantir a segurança na prestação de cuidados.

O Edzard Earnst, em 2010, verificou todos os trabalhos publicados pela Cochrane até 2010 sobre homeopatia, concluindo:

“As conclusões das revisões Cochrane atualmente disponíveis sobre homeopatia não demonstram a existência de efeitos para lá do placebo por parte dos medicamento homeopáticos.”

Conclui-se que a homeopatia não será eficaz para lá do placebo.

Acrescento um estudo realizado após 2010, pela Cochrane, sobre um dos medicamentos homeopáticos mais vendidos, o Escillococcinum –  Homeopathic Oscillococcinum® for preventing and treating influenza and influenza-like illness – que conclui:

“Não há evidências suficientes para permitir conclusões robustas sobre o Oscillococcinum® na prevenção ou tratamento de influenza e doenças semelhantes à gripe. Os nossos resultados não descartam a possibilidade de que o Oscillococcinum® possa ter um efeito terapêutico clinicamente útil mas, dada a baixa qualidade dos estudos elegíveis, a evidência não é convincente. Não houve evidência de danos clinicamente importantes devido ao Oscillococcinum®. “

Portanto, evidência não é robusta. Não parece fazer bem, também não parece fazer mal. É o tipo de conclusões quando os estudos são de fraca qualidade. Não se pode retirar ilações preto no branco.

Este estudo demonstra a seriedade da Cochrane, que mesmo perante algo que não faz qualquer sentido sob todos os pontos de vista, mantêm-se objetivos à informação produzida até à data, de acordo com o método científico.

Mas isto é tudo uma conspiração!

Então, existem vários consensos internacionais que não apoiam a homeopatia. A Cochrane, que produz os artigos de revisão da evidência de maior qualidade, não parece ter provas de que a homeopatia funcione. Chegando a este ponto, uma pessoa de “mente aberta” aceitaria que a homeopatia não é mais do que água.

No entanto, surge sempre o argumento da “conspiração global” e do “lobby da indústria farmacêutica”, que não quer perder dinheiro.

Aconselho os apologistas destas teorias a lerem este artigo, que contabiliza os gastos dos americanos em 34 biliões de dólares em medicinas alternativas, anualmente. Desses 34 biliões, 3.1 biliões foram gastos em homeopatia. Ou seja, a vender água. 

Qual vos parece ser o melhor negócio?

1 – Investir em investigação, descobrir moléculas novas, testá-las durante anos antes de entrarem no mercado, investir na publicidade a esses medicamentos, ser obrigado a estar atento a todos os efeitos secundários que surjam e colocá-los na bula do medicamento, etc.

Ou

2 – Pegar em coração e fígado de pato, diluí-lo até não existir qualquer molécula, colocar essa água num comprimido de açúcar, vendê-lo nas farmácias. Investir em marketing.

Deixo ao vosso critério.

Concluindo

Quando o Dr. Samuel Hahnemann inventou a homeopatia estava genuinamente a tentar ajudar os seus doentes. E poderá ter conseguido fazê-lo, na época, se considerarmos que os tratamentos disponíveis eram extremamente prejudiciais. Fazer nada era melhor do fazer sangrias aos doentes.

No entanto, com o evoluir da medicina e do método científico, hoje é claro que a homeopatia não passa de um placebo. Não existem consensos internacionais que apoiem a utilização da homeopatia, o que significa que a evidência científica comprova a inutilidade da homeopatia como tratamento médico.

Para não o ser, teríamos que reescrever várias leis da física e da química, já bastante consolidadas pelo conhecimento adquirido.

Até os farmacêuticos que valorizam a ética e a moral acima do dinheiro se mobilizaram contra a homeopatia.

Portanto, a homeopatia é um negócio como outro qualquer e há mesmo empresas que admitem vender estes tratamentos apenas pelo dinheiro.  Está na hora de enterrarmos este “tratamento” de vez. E para isso, é necessário que as entidades reguladoras atuem e proíbam a venda deste tipo de medicação, que se aproveita do desconhecimento de quem compra estes medicamentos sobre as bases desta medicina alternativa…

Ainda não está convencido? Então aqui ficam dois vídeos interessantes sobre homeopatia…

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar