Iridologia: fraude, nonsense e ignorância científica

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Apesar de já ter conhecimento da iridologia há alguns anos, fui recentemente relembrado deste método de diagnóstico alternativo. O motivo do esquecimento desta “arte” é facilmente explicado: é tão ridícula que considerava impossível que alguém dotado de uma capacidade cognitiva aceitável fosse capaz de acreditar nos seus efeitos positivos. Estava enganado. Seja por desconhecimento ou, simplesmente, por fé, a verdade é que existem seres humanos racionais a crerem nesta “técnica diagnóstica”.

Comecemos por perceber a história da iridologia

A iridologia, iridodiagnose ou irisdiagnose é uma forma de diagnóstico na qual a análise da íris (estrutura anatómica do olho) permite que se conheça o estado de saúde do doente, baseado na suposição de que alterações nesta estrutura reflectem doenças específicas.

Este sistema de diagnóstico foi inventado por Ignatz Peczely, um médico húngaro que publicou as suas ideias em 1893. A história reza que Peczely, quando era uma criança, encontrou uma coruja com uma perna partida. No momento que pegou na coruja reparou numa proeminente faixa preta na íris do olho do pássaro. Peczely cuidou o pássaro até à sua recuperação e então reparou que a faixa negra havia desaparecido, substituída por linhas brancas esfarrapadas. A partir desta única observação, Peczely desenvolveu a noção de iridologia.

No entanto, esta é a história romântica será apenas um conto inventado ou excessivamente simplificado. Na verdade, Peczely começou a sua carreira profissional como homeopata e “curandeiro milagroso”. Já na altura fora denunciado como um charlatão perigoso. Mais tarde, obteve a licenciatura em medicina apenas para evitar as autoridades. Portanto, Peczely era um bom rapazote.

Esta ideia que Peczely vendia, em que a íris representa um mapa do resto do corpo, incluindo sistemas de órgãos, é chamada de abordagem homúnculo:

A reflexologia, acupuntura auricular e até quiropraxia e a osteopatia (de forma parcial) seguem essa abordagem.

Mas, perante a descoberta da iridologia, o que deveria ter acontecido? 

Depois de publicar suas observações iniciais, Peczely começou a testar a sua teoria com estudos bem desenhados, capazes de provar a sua teoria. Construiu cuidadosamente um conjunto de factos descritivos, mas bem estabelecidos, sobre a relação entre a íris e a saúde dos doentes. Mais tarde, os anatomistas descobriram o mecanismo subjacente desta relação – um vasto sistema que interligava a íris e o resto do corpo. Investigações adicionais baseadas nesta interligação realizadas por outros cientistas, mais recentemente, encontraram formas alternativas de explorar este fascinante aspecto da anatomia e fisiologia.

Mas claro que não foi isso que aconteceu… 

Peczely não fez qualquer tipo de investigação científica séria. Em vez disso, simplesmente inventou uma pseudociência, desenhando mapas da íris que eram tanto um produto da sua imaginação como da sua observação enviesada, em grande parte resultado do viés de confirmação e raciocínio motivado. Peczely não realizou estudos controlados nem produziu o tipo de evidência que separa um fenómeno real de um imaginário.

Além disso, nenhum estudo subsequente apoiou a plausibilidade biológica da iridologia. Não há anatomia ou fisiologia subjacente que possa explicar como a íris reflete o estado ou a função de qualquer outra parte do corpo.

Isso, infelizmente, não impediu a iridologia de sobreviver à margem da medicina por mais de um século. Aliás, parece que esta prática volta a ser popular. Não faltam cursos nesta área em Portugal, existindo mesmo uma Associação Portuguesa de Iridologia…às vezes penso que me colocam cogumelos mágicos no café da manhã, porque estas coisas são demasiado surreais.

Claro que o Lifestyle da Sapo teria que abordar a Iridologia, onde o iridologista refere que consegue detetar “queda de cólon”, um problema que nunca foi descrito pela medicina.

Pasme-se, caro leitor. Muitas vezes o diagnóstico de doenças através da leitura da íris a recomendações para suplementação, que são convenientemente vendidos pelo iridologista… Mas este tipo de conflito de interesse não faz mossa nos crentes destas terapias. Destaco esta frase da Associação Portuguesa de Iridologia:

“Através da análise iridológica podemos recuperar com mais eficiência o equilíbrio do indivíduo, porque a íris, ao revelar a origem das deficiências, permite elaborar um programa específico com as modalidades terapêuticas mais adequadas (aconselhamento psicológico, homeopatia, nutrição, ortomolecular, trabalho corporal, etc.).”

Mas não só…a Associação Portuguesa de Iridologia também promove esta técnica como uma espécie de “observação da alma” fundida com o filme “Regresso ao Passado”:

“Com o estudo da iridologia, pode-se determinar a forma como o indivíduo elabora os seus processos de aprendizagem, expressão, modificação e gestão de relacionamentos, inclusivé desde a primeira infância.”

Mais uma vez…quem é que anda a colocar-me cogumelos mágicos no café da manhã?

Apesar destes desvios de tudo o que é racional no mundo da medicina e da ciência, os iridologistas não são tontinhos…criaram um método apoiado na falácia da súplica especial, que lhes permite nunca estar errados. Como?

Os iridologistas referem que o seu método de diagnóstico avalia tendências, sejam hereditárias ou adquiridas em relação à saúde e à doença. Ou seja, a iridologia não pode detetar uma doença específica, mas pode dizer que um indivíduo tem uma “alteração de atividade” numa área específica do corpo. Por exemplo, um pâncreas sub-ativo pode indicar a existência de diabetes. Um problema na zona do intestino pode significar de tudo, desde prisão de ventre até doença inflamatória intestinal (mas isso não especificam).

Outros sites advertem que a iridologia não pode diagnosticar gravidez, porque essa é uma condição natural do corpo, e também não pode diagnosticar cirurgias prévias, pois qualquer coisa que ocorra sob anestesia bloqueará os sinais que, de outro modo, mudariam a íris. Por outras palavras, criaram-se regras em que a iridologia não pode diagnosticar uma doença ou qualquer outra condição verificável, mas ao mesmo tempo ser um método de diagnóstico útil…percebe o paradoxo? Assim, a iridologia só pode detetar coisas que não podem ser verificadas de forma objetiva.

No fundo, é uma leitura de palma da mão, realizada no olho. A criação de uma ilusão. Com a vantagem que o iridologista faz um questionário extenso prévio às consultas, o que facilita a sua capacidade de adivinhação. Ao fazer a leitura da íris, se o iridologista acerta ao dizer que a senhora tem uma vesícula biliar alterada e são descobertas pedras na vesícula, há uma validação da prática. Se errar, então o iridologista poderá alegar que convém ficar atento…há uma “susceptibilidade” naquele órgão, apesar de ainda não manifestar doença. Situação Win-Win

Um artigo da Quackwatch – Confissões de um ex-iridologista, por Joshua David Mather, dá uma visão por dentro sobre o processo:

“Cedo descobri que as “alterações estruturais” poderiam ser criadas no vídeo simplesmente alterando o ângulo da luz que incide no olho. Áreas que eu pensava que estavam escuras, de repente, mostravam linhas de cura quando a posição da luz mudava. As linhas brancas grossas mudariam para finas linhas, de cor cinza, à medida que a luz se movia. Durante este período fui chamado diversas vezes por um iridologista conceituado, ao seu consultório, para me mostrar uma mudança que havia ocorrido na íris do doente minutos depois de lhe fazer um ajuste da coluna vertebral. Depois de examinar cuidadosamente as suas gravações, tornou-se óbvio para mim que a posição da luz e o ângulo da câmara é que tinham variado, causando a aparência de uma mudança na íris.”

Por outras palavras, a iridologia é altamente dependente da técnica e de variáveis ​​como o ângulo da câmara e da intensidade da luz. Com essas ferramentas, o iridologista pode produzir mudanças aparentes na íris. Mas Mather descreve esta técnica de forma ainda mais detalhada:

“A beleza de não ter que fornecer um diagnóstico é que o praticante simplesmente usa a íris para questionar o doente. Vamos supor que eu tenho um doente com uma marca na área pulmonar. A minha primeira pergunta seria: “Você já teve algum problema nos pulmões? Como asma, pneumonia ou enfisema? ” Se o doente se lembrar de algo deste género, serei considerado um génio mas, se não houver nada óbvio, faria mais perguntas. “Talvez tenha tido um constipação recentemente?” Se a resposta for não, o próximo passo seria olhar para o intestino, que em teoria provoca fraqueza pulmonar. O intestino é representado no olho como a área diretamente ao redor da pupila e geralmente é mais escuro do que o resto da íris. Se o intestino estiver escuro, então a resposta óbvia era que o doente teria uma fraqueza pulmonar desconhecida resultante de problemas no intestino. Se não houvesse qualquer problema no intestino, a última resposta seria a existência de uma fraqueza genética do pulmão que precisava ser tratada para evitar problemas futuros.”

Ou seja, é o processo típico de adivinhação…andar às apalpadelas até apanhar alguma coisa. Os nossos vieses cognitivos tratam do resto.

E qual a evidência científica desta prática?

Como já falamos, não existe nenhum fundamento biológico para tal assumpção pois, à excepção de algumas doenças que também atingem a íris como intoxicações por cobre (anel de Kayser-Fleischer na Doença de Wilson), não se conhece qualquer mecanismo fisiopatológico que suporte esta tese. Ainda assim, como sempre, há quem advogue que a ciência ignora conhecimentos que podem ser verdadeiros, ou seja, que poderá haver um mecanismo biológico não identificado que explique a alegada eficácia desta técnica.

No entanto e de uma forma resumida, perante condições controladas, os iridologistas não conseguem concordar entre si e acertarem em diagnósticos é puro acaso probabilístico. Ficam alguns estudos na área.

Uma avaliação da irodologia

“Foram tiradas fotografias a ambos os olhos de 143 pacientes.  Nove e cinco doentes estavam livres de doença renal, definida como um nível de creatinina inferior a 1,2 mg/dL (média, 0,8 mg/dL) e 48 apresentavam doença renal grave o suficiente para elevar o nível de creatinina plasmática para 1,5 mg/dL ou maior (média, 6,5 mg/dL). Três oftalmologistas e três iridologistas viram os slides numa sequência aleatória sem conhecimento do número de doentes nas duas categorias ou qualquer informação sobre o histórico do paciente. A iridologia não apresentou habilidade clínica ou estatisticamente significativa para detectar a presença de doença renal. A iridologia não foi nem seletiva nem específica e a probabilidade de detecção correta não foi melhor que o acaso.”

Tentar identificar doença da vesícula biliar na íris do doente

“Em cuidados médicos alternativos, a iridologia é utilizada como um método diagnóstico. O diagnóstico de doença da vesícula biliar foi utilizado para estudar sua validade e consistência inter-avaliador. Os irodologistas referem que a presença de uma vesícula inflamada contendo cálculos biliares é facilmente reconhecida por certos sinais na parte lateral inferior da íris do olho direito. Foram tiradas fotografias a cores do olho direito a 39 doentes com este problema de saúde e a 39 indivíduos-controlo do mesmo sexo e idade. Os slides foram apresentados numa ordem aleatória a cinco iridologistas sem informações suplementares. A prevalência da doença foi estimada em 56%. A validade mediana foi de 51% com 54% de sensibilidade e 52% de especificidade. Estes resultados foram próximos da validade casual (iota = 0,03). Nenhum dos iridologistas atingiu uma alta validade. A consistência inter-avaliador foi de 60%. Isso foi apenas um pouco maior do que a consistência casual (kappa = 0,18). Este estudo mostrou que a iridologia não é um auxiliar de diagnóstico útil.”

A iridologia pode detetar susceptibilidade ao cancro?

Estudo prospectivo de casos e controlos que pretendeu investigar o valor da iridologia como ferramenta diagnóstica na deteção de alguns tipos de cancro comuns. Cento e dez (110) indivíduos foram inscritos no estudo: 68 indivíduos apresentaram cancro da mama, ovário, útero, próstata ou colorectal, comprovados histologicamente, e 42 indivíduos foram usados como controlo.  Todos os voluntários foram examinados por um profissional experiente de iridologia, que desconhecia o género ou detalhes médicos dos doentes. O iridologista foi autorizado a sugerir até cinco diagnósticos para cada voluntário e os seus resultados foram comparados com o diagnóstico médico de cada voluntário para determinar a precisão da iridologia na deteção de malignidade.

A iridologia identificou o diagnóstico correto em apenas 3 casos (sensibilidade de 4%). A iridologia não teve valor no diagnóstico dos cancros investigados neste estudo.”

Este estudo é importante…o irodologista teve a possibilidade de dar cinco hipóteses de diagnóstico…CINCO…e mesmo assim apenas acertou em três casos…Sensibilidade de 4%! É que nos estudos anteriores, os iridologistas teriam que dizer se tem ou não doença renal; se tem ou não doença vesicular. Têm 50% de hipóteses de acertar. E é mais ou menos nesta percentagem que andaram (na casa dos 50%). Neste último estudo, tinham que dar hipóteses de diagnóstico, o que aumenta muito as opções de resposta. E mesmo com cinco hipóteses ficaram nuns míseros 4%.

E terminamos com uma revisão sistemática do tema:

Iridologia: uma revisão sistemática

“Os iridologistas afirmam poder diagnosticar condições médicas através de anormalidades na pigmentação da íris. Esta técnica é popular em muitos países. Portanto, é relevante perguntar se é válido. Este estudo reviu de forma sistemática todos os testes interpretativos da validade da iridologia como ferramenta de diagnóstico. Foram encontrados quatro estudos de caso-controlo. A maioria dessas investigações sugere que a iridologia não é um método de diagnóstico válido.

A validade da iridologia como ferramenta de diagnóstico não é suportada por avaliações científicas. Os doentes e os terapeutas devem ser desencorajados de usar este método.

No entanto, se o caro leitor for pesquisar a eficácia da iridologia sem sentido crítico, poderá ficar surpreendido. É que existem muitas publicações metodologicamente fracas que favorecem esta técnica. Repare nesta frase duma revisão sistemática (pouco sistemática) de 2008: 

“Esta revisão foi baseada em apenas 4 literaturas, embora o artigo Francês relate que até 1998 já existiam 67 artigos publicados sobre a confiabilidade da Iridologia. A maioria é a favor do método, porém com uma metodologia científica questionável e 4 contra com uma pesquisa irrepreensível no plano metodológico.”

Ou seja, como habitualmente…se se fizerem estudos metodologicamente fracos, é possível encontrar evidência de eficácia para qualquer técnica. Por mais disparatada que seja. No entanto, quanto maior for a qualidade do estudo, mais se percebe que as medicinas alternativas, no seu todo, pouco têm para oferecer.

Concluindo

Como é possível verificar não há absolutamente nenhuma dúvida que a iridologia é uma fraude. O iridologista tem tanta probabilidade acertar um diagnóstico como qualquer construtor civil, padre, empregado de café, professor de filosofia ou outro profissional não médico.

Por fim, convém adicionar que todo este método, além de falso (e, como tal, ser um desperdício de tempo e dinheiro), não é inócuo, podendo ter efeitos nocivos na saúde do paciente.

Este estudo da Archives of Ophthalmology avança que o elevado número de falsos positivos resultantes da utilização desta técnica causa stress emocional desnecessário em indivíduos saudáveis e que, mais grave ainda, os falsos negativos decorrentes da prática fazem com que muitos doentes adiem o diagnóstico verdadeiro de patologias graves. Traduzindo esta última conclusão por linguagem simplificada, imaginem um doente com um carcinoma em estadio precoce que consulta um iridologista. Este pseudo-profissional poderá, devido à aleatoriedade da sua técnica, afirmar que o doente se encontra saudável, não necessitando de consultar um verdadeiro médico. Desta forma, o doente irá adiar o diagnóstico verdadeiro e o respectivo tratamento, destruindo a possibilidade de intervenção precoce e diminuindo a probabilidade de resolução médica da patologia, devido à progressão da doença até estadios avançados.

Portanto, conclui-se que o iridologista nada mais é que um adivinho de feira ambulante, a ser praticado apenas para entretenimento do caro leitor num dia que esteja aborrecido e lhe apeteça ficar mais pobre uns euros.

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Dr. Nuno Leal

Médico de Medicina Interna

Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar