médicos que prescrevem homeopatia

Médicos que prescrevem medicamentos homeopáticos…são piores médicos?

admin Geral, Homeopatia, Literacia em Saúde Leave a Comment

Já falamos sobre homeopatia, a rainha das alternativas. Expliquei que a homeopatia não tem plausibilidade biológica. Para funcionar, teríamos que reescrever praticamente todos os livros na área da química, física e biologia (entre outros). Simplesmente não é possível que a homeopatia ofereça alguma coisa para lá do efeito placebo.

Mesmo assim, a homeopatia foi extensamente estudada. Já lá vão mais de 1800 estudos e a loucura não parece ter fim. Recentemente saiu mais uma Cochrane com resultados que não podiam ser diferentes: a homeopatia não funciona para a prevenção ou tratamento das infeções respiratórias.

Mas esta publicação não é sobre homeopatia. É sobre os médicos que prescrevem medicamentos homeopáticos.

Ben Goldacre Et al. tiveram uma ideia brilhante

No Reino Unido, existe uma ferramenta digital que tem os dados sobre o que os médicos prescrevem: OpenPrescribing.net

Ben Goldacre e a sua equipa decidiram verificar como os médicos que prescrevem medicamentos homeopáticos comparam com médicos que não prescrevem estes placebos, em relação a outras práticas de prescrição:

  • Avaliaram os médicos de acordo com as 36 medidas de prescrição padrão do OpenPrescribing, que foram desenvolvidas para abordar questões de custo, segurança ou eficácia;
  • Verificaram a redução de custos potencial que se conseguiria seguindo essas medidas;
  • Avaliaram o comportamento de prescrição no que diz respeito a 18 medicamentos considerados de “baixo valor”, que no fundo cria gastos desnecessários sem vantagens para o doente;
  • Também avaliaram as potenciais poupanças de dinheiro por unidade prescrita. Ou seja, se o médico prescreveu um medicamento mais caro existindo outro mais barato no mercado.

Ben Goldacre Et al. concluíram que todas as medidas de qualidade de prescrição elencadas acima estão associadas de forma significativa com a prescrição de medicamentos homeopáticos. As práticas sem prescrição de medicamentos homeopáticos mostraram melhores pontuações em todas as medidas avaliadas do que as práticas com prescrição de medicamentos homeopáticos. Ou seja, os médicos que prescreviam medicamentos homeopáticos prescreviam mais, prescreviam medicamentos mais caros e mais medicamentos de baixo valor para o doente (sem contar com os homeopáticos). Mais engraçado, descobriram que quanto mais um médico prescreve medicação homeopática, pior é o seu perfil de prescrição. Parece existir um tipo de relação “dose-resposta”, mesmo após ajuste de vários fatores confundidores.

Apesar de não ser possível estabelecer uma relação de causa-efeito devido ao tipo de estudo realizado, estes dados (que são pioneiros) poderão ser indicativos que os médicos que prescrevem homeopatetices são piores no que diz respeito à medicina baseada na evidência. E isto é um problema para a população e para o Estado. Para a população porque tem custos desnecessários com medicação e a probabilidade de um medicamento ser prescrito de acordo com as guidelines estabelecidas é menor. Para o Estado porque apesar do custo global com os medicamentos homeopáticos no Reino Unido ser relativamente baixo (nesta amostra abrangente foi gasto 36,532£ num período de seis meses), o desperdício e má prática estende-se para lá da homeopatia. Mesmo no que diz respeito à medicina convencional, estes profissionais de saúde têm piores perfis de prescrição, dando mais despesa ao Estado.

Felizmente, nem tudo é mau. A avaliação da qualidade do serviço e dos resultados, métricas produzidas pelo NHS Digital não parece sofrer com este perfil de prescrição. Ou seja, não há diferenças na satisfação do serviço prestado, qualidade de vida ou diferenças na mortalidade geral, por exemplo. 

Concluindo

Este estudo é pioneiro e abrirá portas para uma investigação mais aprofundada sobre o impacto da inclusão deste tipo de práticas pseudocientíficas com a medicina convencional. No fundo, a verificação objetiva do impacto a diferentes níveis da aceitação da “medicina integrativa”, onde se integra a fantasia com práticas científicas estabelecidas. E para já, as coisas não estão famosas. 

Num país como Portugal em que o dinheiro para a Saúde é escasso, a percepção de que a aceitação destas práticas têm custos que vão muito para lá de acreditar e promover tratamentos placebo talvez ajude a mudar a opinião dos que são tolerantes com estas práticas pseudocientíficas.

Mas o mais interessante deste artigo é sem dúvida o seguinte: os prescritores de homeopatetices parecem ser os que mais dinheiro entregam à maldita Indústria Farmacêutica, em termos relativos…tem piada, não tem? 🙂

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar