Medidas de Prevenção da Gripe e os Mitos da Vacinação

admin Doenças Infecciosas, Geral, Vacinas Leave a Comment

No último artigo falamos de medidas para a prevenção da constipação. Neste vamos falar sobre o que funciona para a prevenção da gripe.

A gripe é provocada pelos vírus influenza (tipo A, B, C e D) e temos uma síndrome semelhante à gripe provocada pelos vírus parainfluenza (tipo 1,2,3 e 4).   Os efeitos da gripe são muito mais severos e duram mais tempo que uma simples constipação. A maioria das pessoas recupera totalmente em cerca de uma a duas semanas, mas outras irão desenvolver complicações que podem ser fatais.

Após ficar doente, a pessoa será contagiosa a partir de um dia antes do aparecimento dos sintomas até 5 a 7 dias após (no caso das crianças, o tempo de contágio pode ser superior a 7 dias).  A gripe é transmitida através do ar pela tosse, fala e espirros que criam aerossóis contendo o vírus. Como falamos no artigo anterior, convém manter uma distância de 1.8 metros para evitar contaminação por aerossóis infetados. Beijar também pode transmitir o vírus, assim como mãos infetadas com a nossa saliva, seja de forma direta ou indiretamente através da contaminação de objetos.  

É difícil identificar exatamente quantas pessoas morrem todos os anos com gripe. A nível mundial os números rondam as 375.000 pessoas/ano. Muitas mortes ocorrem uma ou duas semanas após a infecção inicial, seja porque a pessoa desenvolveu uma infecção bacteriana secundária (como uma pneumonia bacteriana) ou porque a gripe sazonal pode agravar uma doença crónica pré-existente (como insuficiência cardíaca congestiva, doença pulmonar obstrutiva crónica, etc.) As mortes estimadas nos Estados Unidos da época gripal de 1976-1977 a 2006-2007 variaram entre um mínimo de aproximadamente 3.000 pessoas/ano a um máximo de cerca de 49.000 pessoas/ano.

Em Portugal temos a plataforma Saúde Sazonal que nos permite verificar a atividade da gripe durante o Inverno. Estes dois últimos Invernos foram dos mais mortais que há registo, com 4467 óbitos no ano passado e 5591 mortes há 2 anos relacionadas com o frio e a gripe (pensa-se que mais de 80% terá tido relação com a gripe). Apesar da difícil contabilização, sabemos que existem grupos de risco mais vulneráveis como as crianças pequenas, pessoas imunodeprimidas, grávidas e adultos idosos. No entanto, qualquer pessoa pode ser infectada pelo vírus da gripe e ter problemas graves por causa disso. 

Fumar é outro fator de risco associado ao aumento de complicações, hospitalizações e mortalidade pela gripe (artigo e artigo).

Prevenção da Gripe

Medidas gerais

Assim como na constipação, a desinfeção das mãos e uma boa higiene oral parece ser uma forma eficaz de redução da transmissão do vírus da gripe. No entanto, a utilização de máscaras, apesar de ser um meio eficaz na redução da transmissão da doença em meio hospitalar, não parecem ser eficazes quando utilizadas na comunidade.

Uma meta-análise recente indica que gargarejar com chá ou ingredientes do chá (verde e preto) poderá ter um efeito benéfico na prevenção da gripe em comparação com gargarejar com água ou não fazer nada. No entanto, os resultados são preliminares.

O exercício físico antes da vacinação para a gripe não parece ter qualquer impacto na probabilidade de adoecer. Mas quem faz exercício ligeiro a moderado parece ter menor mortalidade do que quem não faz exercício.

Oscillococcinum

O Oscillococcinum é um dos “medicamentos” mais publicitados para a prevenção da gripe e tratamento dos seu sintomas. Um verdadeiro dois em um.

O Oscillococcinum é um medicamento homeopático e tendo em consideração que a homeopatia não funciona, é uma impossibilidade este tratamento tenha qualquer eficácia. Quem quiser saber mais sobre a história da invenção do Oscillococcinum, pode ler aqui. De qualquer forma, se ainda tem dúvidas sobre a possível eficácia deste medicamento, fica a imagem elucidativa (via TheQuestionist):

Não vamos perder mais tempo com este medicamento.

Vacina da Gripe

A vacina da gripe é a melhor forma de prevenir o aparecimento da gripe. Funciona como as restantes vacinas – ensina o nosso sistema imunológico a combater o vírus. O problema é que o vírus Influenza sofrem mutações genéticas frequentes devido ao seu método de replicação. Além disso vamos perdendo a memória imunológica com o tempo, o que obriga a que todos os anos seja necessário uma nova vacina para nos proteger contra o vírus, mesmo que seja para a mesma estirpe.

Outro problema da vacina da gripe é que precisamos de prever qual das diferentes estirpes vão ser mais frequentes a cada Inverno. E existem várias estirpes:

  • H1N1, causou a gripe espanhola em 1918, causando 50 a 100 milhões de mortes, e a gripe suína de 2009;
  • H2N2, causou a gripe asiática em 1957, causando 1 a 2 milhões de mortes a nível mundial;
  • H3N2, causou a gripe de Hong Kong em 1968, causando 1 a 4 milhões de mortes a nível mundial;
  • H5N1, causou a gripe aviária de 2004;
  • H7N7;
  • H1N2;
  • H9N2;
  • H7N2;
  • H7N3;
  • H10N7;
  • H7N9.

Essa análise é feita pela Organização Mundial de Saúde que recolhe informação durante todo o ano provenientes de centenas de centros de avaliação sobre a disseminação e prevalência do vírus. De acordo com essa informação, um grupo de analistas decide quais as estirpes que a vacina vai ter a cada ano, em cada um dos hemisférios. Após a decisão, a indústria farmacêutica produz a vacina de acordo com as especificações indicadas na esperança que as estirpes selecionadas sejam as mais prevalentes e que o vírus não sofra mutações importantes que diminua a eficácia da vacina. Mas às vezes isso acontece…e quando isso acontece, a vacina não tem a eficácia desejada.

Para perceberem melhor a complexidade de fazer uma vacina da gripe, deixo um vídeo bastante educativo:

Apesar disso, continua a ser a melhor forma de prevenir a gripe. A taxa de proteção é inferior às outras vacinas (ronda os 40-60%), mas é melhor que nada principalmente se o número de pessoas vacinadas for elevado. É sempre importante relembrar que o vírus Influenza mata. E mesmo que as pessoas tenham sintomas mais leves, isso leva a perda de produtividade, maior absentismo laboral e maiores custos em termos de saúde e para a sociedade em geral, principalmente se considerarmos o tratamento das complicações da doença (artigo e artigo).

Desfazer mitos sobre a Vacina da Gripe

Existem grupos de pessoas que continuam a recear as vacinas. Um estudo recente demonstra que as principais preocupações referem-se “à segurança das vacinas, seguida pela percepção de baixa probabilidade de contrair as doenças evitáveis ​​pela vacina, percepção de baixa gravidade das doenças evitáveis, crenças de que as vacinas não funcionam e falta de informação de uma forma global. Estas preocupações são específicas de acordo com a vacina, os países e as populações estudadas. ” A perpetuação destes medos tem custos importantes para toda a sociedade. E já vimos que a naturopatia ajuda de forma substancial a que isso ocorra assim como a homeopatia, com a promoção das suas “vacinas homeopáticas.”

Assim, vamos desfazer alguns dos mitos relacionados com a vacina da gripe. (Se quiserem algo mais extenso, aconselho este artigo).

Um dos ataques frequentes à vacina da gripe foi todo o episódio da gripe A (H1N1) em 2009. O Estado Português foi acusado de um intervencionismo excessivo e de pânico sem razão, tendo gasto vários milhões de euros a comprar vacinas que não chegaram a ser utilizadas (apenas 700 mil foram utilizadas, dos dois milhões de vacinas compradas), “enriquecendo a indústria farmacêutica”…….No entanto, esta é uma falsa questão. É fazer “prognósticos no fim do jogo.” Ninguém sabia como a gripe iria evoluir e, por acaso, a evolução foi bastante favorável. Relembro que a estirpe H1N1 foi a que levou à morte de 50-100 milhões de pessoas durante a gripe espanhola de 1918. Felizmente na pandemia de 2009 verificou-se o seguinte:

  • As “assinaturas moleculares” para alta virulência e mortalidade não estavam presentes nesta estirpe H1N1 quando comparada com a H1N1 responsável pela gripe espanhola;
  • As pessoas expostas à gripe asiática de 1957 ficaram com alguma imunidade ao H1N1 de 2009, diminuindo a disseminação da doença pelas pessoas mais idosas, habitualmente com pior prognóstico e maior mortalidade quando infetadas.

Graças a estes fatores e a todas as medidas de saúde pública implementadas, as coisas correram bem…mas a história podia ter sido muito diferente.Podemos considerar que o Estado foi excessivamente cauteloso e gastou mais dinheiro do que o necessário, mas pessoalmente prefiro um Estado cauteloso do que irresponsável.

#1 A Vacina da Gripe pode Causar Gripe

Não…não pode… A maioria das vacinas (se não todas as vacinas usadas hoje em dia), contêm o vírus inativado ou apenas partículas do vírus o que a torna completamente inócua.  Teoricamente é possível que haja uma reação imunológica (o corpo a reagir aos componentes da vacina com o objetivo de ganhar a imunidade), que pode ser confundido com sintomas gripais – febre baixa, dor de cabeça, algumas dores musculares, etc.

No entanto, os RCTs feitos sobre esta matéria, em que compararam os efeitos secundários entre a vacina da gripe e uma injeção de soro fisiológico, não detetaram quaisquer diferenças entre os dois grupos (para além de dor e vermelhão no local da injeção). Isto significa que poderá haver um efeito nocebo associado em vez de existir, objetivamente, o aparecimento de sintomas gripais causados pela vacina.

#2 A Vacina da Gripe tem Mercúrio

Como é sabido, na Internet não faltam sites de propaganda anti-vacinas. Deixo como exemplo este artigo pseudocientífico de título ” Veneno Mortal: Vacina da Gripe tem mercúrio 25.000 vezes superior ao Nível Máximo Permitido e não há Ensaios Controlados!”. Meu Deus! Se tem pontos de exclamação no final de todas as frases só pode ser verdade! E SE TIVESSE SIDO ESCRITO EM MAIÚSCULAS, SERIA UMA VERDADE INQUESTIONÁVEL POR NÓS, COMUNS MORTAIS!…no entanto, apenas as vacinas multi-dose e algumas inativadas contêm mercúrio (timerosal). Em Portugal, as principais vacinas da gripe (Influvac e Istivac) não têm timerosal. Portanto, pode ficar descansado se isso o preocupa – não deveria preocupar porque as doses são extremamente reduzidas, o timerosal não se acumula no organismo e não existe qualquer ligação com problemas de saúde.

#3 A Vacina da Gripe Aumenta o Risco de Mortes Fetais

Outro mito relacionado com a vacina da gripe, em particular a vacina da gripe A (H1N1) é que pode levar à ocorrência de mortes fetais. Essa relação chegou a ser falada mesmo em Portugal, após morte de dois fetos em grávidas que fizeram a vacina da gripe A. No entanto, estas ocorrências apenas têm relação temporal e não têm qualquer relação causal, dado que a última meta-análise publicada este ano indica que a vacina da gripe A reduz o risco de parto prematuro sem interferência relativamente a outras complicações obstétricas. Para além disso, a vacina da gripe, no global, parece levar à diminuição de abortos espontâneos. Ou seja, faz exatamente o contrário daquilo que é acusada…

#4 A Vacina da Gripe Aumenta o Risco de Síndrome de Guillain-Barré

Um dos mitos mais dramáticos é a suposta ligação entre a vacina da gripe e o risco de síndrome de Guillain-Barré,  uma doença auto-imune em que o sistema imunológico danifica as suas células nervosas da própria pessoa, causando fraqueza muscular e por vezes paralisia. A maioria das pessoas recupera completamente da doença mas algumas ficam com danos neurológicos a longo prazo. No entanto, os estudos sobre este risco são inconsistentes. E se existir um risco associado, será de um a dois casos por milhão de pessoas vacinadas.

#5 A Vacina da Gripe Não é Eficaz

A vacina da gripe não é tão eficaz com as outras vacinas devido aos problemas mencionados acima. Além disso, a eficácia varia de acordo com a idade, sendo menos eficaz nos idosos, um dos grupos populacionais mais vulneráveis e que deveria estar mais protegido. Por essa razão começa a ser indicada uma vacina de dose superior nos idosos, que aumenta a resposta imunitária e a proteção deste grupo etário.

Apesar destas condicionantes, podemos considerar a vacina da gripe como moderadamente eficaz. Num estudo com uma população 100% vacinada, uma epidemia de gripe só atingiu 24% da população. Pelo contrário, numa população não vacinada a percentagem de pessoas infetadas dispara para os 80%. Além disso, na população vacinada que é infetada com o vírus Influenza, a evolução da doença tende a ser menos grave e a mortalidade diminui de forma significativa, acompanhando o aumento do número de pessoas vacinadas.

Dado que as infeções são menos graves nas pessoas vacinadas, a vacina também ajuda a prevenir as hospitalizações por complicações relacionadas com a gripe. Numa meta-análise publicada este ano, verificou-se que “a efetividade combinada da vacina contra a gripe foi de 41% (IC95%: 34; 48) para qualquer gripe, 51% (IC95%: 44; 58) nas pessoas com idade entre 18-64 anos e 37% (IC95%: 30; 44) nos doentes com mais de ≥65 anos.” Portanto, com a vacinação verifica-se uma diminuição de 41% no número de hospitalizações. 

#6 A Vacina da Gripe Não é Eficaz nas Crianças

Isso é falso. Verifica-se que a eficácia da vacina da gripe nas crianças é bastante alta, na ordem dos 60-80% para a estirpe que a criança é vacinada. No entanto, a proteção real andará na ordem 30-40%, segundo uma meta-análise de 2013. Isto porque, como explicado acima, por vezes a vacina que é aconselhada não é coincidente com a estirpe de vírus da gripe que atinge a população. Apesar destas limitações, um estudo recente demonstrou que a vacina da gripe, na população dos 6 meses aos 17 anos de idade, reduz a mortalidade.

Além disso, a vacina da gripe pode ajudar a prevenir a transmissão da doença aos adultos e ajuda a proteger as pessoas mais vulneráveis através da imunidade de grupo. E parece mesmo ajudar a reduzir o número de otites médias e a consequente utilização de antibióticos, de acordo com uma Cochrane deste ano. A redução é de um episódio de otite em pelo menos seis meses de seguimento (a evidência é de baixa qualidade metodológica, pelo que é necessária alguma crítica na aceitação destes dados).

#7 Sou Profissional de Saúde, Mas Não Acredito que Tomar a Vacina Faça Diferença

Pode fazer diferença, mas infelizmente a evidência não é clara. Faz sentido a vacinação dos profissionais de saúde, dado que entram em contato com populações especialmente vulneráveis.  Quando os profissionais de saúde são vacinados, parece existir diminuição da mortalidade dos doentes que recorrem aos serviços de saúde e os benefícios chegam à comunidade: “Por cada 15 profissionais de saúde que sejam vacinados, menos uma pessoa na comunidade irá contrair uma doença similar a uma gripe.”

Nos Estados Unidos a vacinação dos profissionais de saúde é obrigatória devido aos resultados obtidos de quatro RCTs de longa duração. Estes estudos indicavam que era necessário vacinar oito profissionais de saúde para impedir a morte de um doente com gripe. No entanto, recentemente foi realizada uma reanálise desses estudos que concluiu que a metodologia utilizada sobrestimou de forma importante os benefícios da vacinação nos profissionais de saúde, colocando o número necessário vacinar entre os 6000 a 32,000 funcionários hospitalares. Os autores concluem que os dados existentes não permitem definir claramente a vantagem da vacinação obrigatória, mas o estudo também não coloca em causa os benefícios da vacinação voluntária, a utilização de máscara ou ficar em casa quando doentes.

Para quem quiser saber mais, aconselho este artigo do Dr. Mark Crislip (Infecciologista).

Conclusão

A vacina da gripe funciona. Diminui o número de infeções, diminui a gravidade da doença, diminui o número de hospitalizações e diminui a mortalidade. É importante que todos tenham conhecimento destes benefícios. Devemos considerar a vacinação contra a gripe não apenas como uma forma de nos protegermos, mas também uma forma de proteger os grupos mais vulneráveis (crianças, grávidas, idosos e doentes crónicos).

Se o caro leitor tem contato com estes grupos, vacine-se. Se ficar infetado com gripe, poderá ser o veículo de transmissão a estes grupos vulneráveis. Pode ser a razão que os levou a ficar doentes, a serem internados e, no pior dos casos, a ter complicações graves e a falecerem. A gripe não é uma simples constipação. A gripe mata.

Se tiver alguma dúvida, coloque nos comentários.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar