Médicos não gostam de quimioterapia - é um mito

Mito: Médicos Recusam Quimioterapia Quando Têm Cancro

admin Cancro, Geral, Literacia em Saúde Leave a Comment

Quando escrevi o artigo “Tens cancro e queres viver? Diz não às terapias alternativas…“, recebi um email de um leitor do blog, com um link para um artigo e com a mensagem associada:

Não há verdades absolutas“…

Esta é uma daquelas frases usadas de forma recorrente por crentes em terapias alternativas e nas conspirações da Big Pharma. Está ao nível da mítica frase “a verdade que não querem que você saiba“. Foi giro ler esta frase ao mesmo tempo que lia, no Livro Sapiens, uma boa descrição do que é a ciência:

A disponibilidade para admitir a ignorância. A ciência moderna tem por base a sentença latina Ignoramus – «não sabemos». Presume que não sabemos tudo. Ainda mais importante, aceita como possível que se prove estarem erradas as coisas que pensamos saber à medida que obtivermos novos conhecimentos. Nenhum conceito, ideia ou teoria é sagrada ou está vedada ao desafio.”

A humildade faz parte da matriz da ciência. Até as teorias científicas mais bem estabelecidas como a teoria da gravidade ou a teoria da evolução são suscetíveis de serem repensadas e modificadas perante observações que coloquem em causa as bases em que estão estabelecidas. Quem não muda as práticas confrontados com novas observações são as terapias alternativas. Aliás, têm orgulho nisso. De dizerem que fazem assim e assado há centenas ou mesmo milhares de anos, como se isso fosse algo de bom. Como se querer uma medicina a cheirar a mofo, quando se tinha uma esperança média de vida de 40 anos fosse algo desejável. Como continuar a dar comprimidos de açúcar ou espetar agulhas baseados em conceitos esotéricos ou místico-mágicos sem qualquer comprovação, como “memória da água” e “meridianos”, fosse motivo de orgulho.

Mas que artigo vinha associado no email?

Vinha um argumento anti-quimioterapia perpetuado na Internet com o título “75% dos médicos do mundo recusam a quimioterapia para eles próprios“. Eh pá…isto é incrível! Se for verdade, representa uma profunda contradição. Como podem os médicos aconselhar os seus doentes a fazerem quimioterapia se, caso precisassem, não aceitariam este tratamento? A resposta é simples…porque é falso. Ou pelo menos os promotores do medo não contam a história toda. Primeiro, vamos ver os pontos altos do artigo relativamente a esta controvérsia (tradução livre):

“Questionários continuam a mostrar que 3 de cada 4 médicos e cientistas recusariam a quimioterapia para si mesmos devido aos seus efeitos devastadores em todo o corpo e no sistema imunológico, e por causa da sua taxa de sucesso extremamente baixa.

Os  questionários foram feitos por cientistas do McGill Cancer Center, a 118 médicos especialistas em cancro. Eles pediram aos médicos para imaginarem que tinham cancro e para escolher entre seis diferentes terapias “experimentais”. Esses médicos não só negaram fazer quimioterapia, como também disseram que não permitiriam que os seus familiares passassem por este processo! O que diz isto sobre a verdadeira opinião médica relativamente a este método arcaico?

Estes questionários estão a ter um profundo impacto na opinião pública sobre a utilização da quimioterapia na sociedade ocidental, especialmente nos Estados Unidos, que usa mais do que qualquer nação do mundo. Essa falta de confiança dos médicos está a transbordar para os doentes e o movimento em direção aos remédios naturais está a aumentar, da mesma maneira que aconteceu no início de 1900, antes do surgimento da medicina e da indústria farmacêutica corrupta.”

Como é habitual, não há qualquer tipo de referência bibliográfica para confirmar o que é dito nesse site. Mas uma pesquisa rápida na Internet leva-nos ao que parece ser uma das origens destas afirmações. O blog do “médico” italiano Tullio Simoncini, um senhor que pelos vistos descobriu a causa do cancro e a sua cura. Afinal, o cancro é causado por um fungo e o tratamento faz-se com injeções de bicarbonato de sódio! Génio!…como é que ninguém se lembrou disto antes? Gastam-se biliões a investigar estas doenças e surgem estes tipos que descobrem a cura para o cancro com produtos de supermercado.

O problema é que quando vamos ver quem é esta besta, percebemos que é um charlatão que perdeu a licença para exercer medicina. Em 2003 foi condenado por fraude e homicídio involuntário. Mais incrível, apesar de ter perdido a licença para exercer medicina, continuou a fazê-lo como terapeuta alternativo, tendo em 2007 morto uma doente com cancro da mama devido à sua cura milagrosa com bicarbonato de sódio. E em 2018 foi condenado a 5 anos de prisão por mais uma morte, desta vez um doente com um tumor cerebral. Mais informação sobre este charlatão aqui e aqui.

Pelo menos o assassino deixou a referência a que recorreu para fazer as suas afirmações anti-quimioterapia. Estão presentes no livro “Cancer: Why we’re still dying to know the truth”, de Philip Day, publicado em 2000. O livro é um verdadeiro nojo, propaganda descarada contra a quimioterapia e a favor de métodos naturais do tratamento do cancro. Segundo o livro, a cura para o cancro já foi descoberta há 50 anos, mas os médicos mauzões e a indústria farmacêutica corrupta suprimiram esse conhecimento. Se isso for verdade, só podemos aplaudir a dedicação dos médicos e dos empregados da indústria farmacêutica. Dispostos a morrer e deixar morrer os seus familiares de cancro para defenderem o segredo que enriquece o patrão. São todos empregados do mês todos os meses.

E o que diz o livro, em concreto, sobre o facto dos médicos recusarem quimioterapia?

Em 1986, cientistas do McGill Cancer Center enviaram um questionário a 118 médicos que tratavam de cancro de pulmão não-pequenas células. Mais de 3/4 deles recrutavam doentes e realizavam estudos clínicos com fármacos tóxicos para o cancro do pulmão. Eles foram convidados a imaginar que eles mesmos tinham cancro, e foram questionados sobre qual das seis investigações a decorrerem eles escolheriam. Sessenta e quadro dos 79 entrevistados não concordariam em participar num estudo contendo cisplatina, um medicamento comum de quimioterapia. Cinquenta e oito acharam todos os testes inaceitáveis. A razão? A ineficácia da quimioterapia e seu inaceitável grau de toxicidade “.

O que está escrito aqui é diferente da primeira citação, parece-me. Falamos do ano de 1986 (!). Falamos de um cancro específico (cancro de pulmão não-pequenas células) e falamos de terapias experimentais, sendo que a recusa é sobretudo no que diz respeito à cisplatina. Não especifica quais são os outros protocolos. Ou seja, utilizam-se questionários realizados há mais de três décadas, para um cancro específico e sobre a aceitação ou não em participar de protocolos experimentais para concluir que, afinal, os médicos acham que a quimioterapia é um tratamento inútil. Esta malta ou é deficiente mental ou sabem demasiado bem o que está a fazer.

É interessante verificar que o livro também não cita qualquer estudo publicado para fazer estas afirmações. Parece que esta malta anda a esconder qualquer coisa…típico dos promotores do medo. Mas com mais alguma investigação chegamos ao que parece ser o estudo original publicado por MacKillop et al. E lendo o estudo, conseguimos perceber melhor as circunstâncias específicas que levariam a essa recusa. O estudo foi publicado em 1986, os questionários realizados em 1985, tendo abordado um tipo específico de fármaco (a cisplatina, que era um tratamento inovador à época e pouco se sabia sobre ele) para um tipo específico de cancro do pulmão (cancro do pulmão de não-pequenas células), numa situação específica: cancro avançado com metástases ósseas sintomáticas. Ou seja, em situação paliativa e não curativa! Nessas circunstâncias até eu pensaria seriamente se valia a pena fazer quimioterapia. Parece-me perfeitamente razoável a existência de dúvidas.

Mas agora é que a coisa vai bater no fundo. O que os vendedores de banha da cobra não dizem é que este questionário foi repetido em 1997 tendo sido colocada uma pergunta semelhante à de 1985:

“Você é um oncologista de 60 anos com cancro do pulmão de não-pequenas células, com uma metástase hepática e metástases ósseas. (…) Você aceitaria fazer quimioterapia? Sim ou não?”

As conclusões do estudo falam por si:

“No estudo de MacKillop et al. (que ser refere aos questionários realizados em 1985), apenas 17% dos médicos oncologistas disseram que fariam quimioterapia para metástases ósseas dolorosas e outros 17% disseram que iriam fazer radioterapia na coluna além da quimioterapia, para um total de 34% [da amostra]. Os nossos resultados mostram que agora 64,5% fariam quimioterapia – indicando que a aceitação quase dobrou (de 34% para 64.5%) no que diz respeito a fazerem quimioterapia em conjugação com a radioterapia e quase quadriplicou (17% para 64.5%) se consideramos a quimioterapia de forma isolada”

Como podemos perceber, o número de médicos oncologistas que escolheria fazer quimioterapia aumentou de forma abismal. Isto pode ter acontecido porque entre 1985 e 1997 houve produção de conhecimento suficiente, aprimoramento dos protocolos de quimioterapia e radioterapia que permitiu uma maior confiança nas vantagens destas práticas em comparação com as suas desvantagens. E reparem que estamos a falar de 1997, para um cancro do pulmão metastizado. Ou seja, há mais de 20 anos atrás, para tratamento de cancro em fase muito avançada. A vantagem da quimioterapia nem sequer se coloca em casos menos avançados. Aliás, em 1991 foi publicado um estudo que demonstrou que a aceitação da quimioterapia por parte dos médicos podia chegar aos 98%. Era variável de acordo com o tipo de cancro e com a fase em que a doença se encontrava. O que é perfeitamente legítimo e racional:

Este é outro estudo que os promotores do medo não citam. Infelizmente não encontrei questionários mais recentes sobre o tema, mas tenho a certeza que os valores serão certamente superiores para a maioria dos cancros dada a melhoria dos tratamentos existentes hoje em dia. Reparem…isto é em 1991. O que a medicina já evoluiu desde essa altura.

A medicina evolui e os médicos adaptam-se

Isto parece uma coisa óbvia, mas pelos vistos não é para muitas pessoas. A medicina está em constante evolução e é necessário manter a abertura para aceitar que algumas coisas que fazíamos no passado não estão certas. Assim como muitos dos receios que tínhamos no passado devido à falta de conhecimento relativamente a alguns tratamentos (como a quimioterapia), se vão desvanecendo. Os médicos na sua generalidade querem o melhor para os doentes. Ninguém é maluco de andar a prescrever “venenos” se não houvessem provas de que esses “venenos” trazem algum tipo de benefício para os doentes. E assim como se introduz a quimioterapia em determinadas situações, também se desaconselha a sua prescrição em outras situações em que era prática comum. Isso tem acontecido com alguns cancros da mama, com perfil genético específico, onde se demonstrou que a quimioterapia não traz vantagens. E como falamos, em alguns cancros da mama a hormonoterapia demonstrou obter tão bons resultados a longo prazo em comparação com a quimioterapia. Então estamos a deixar de aconselhar a quimioterapia nessas circunstâncias.

Quem não evolui no conhecimento são os vendedores de banha da cobra, que continuam a citar questionários realizados em 1985 para a promoção do medo. Se os charlatões deixassem de dizer que a quimioterapia é um veneno, quem é que lhes comprava a curcuma? Quem é que ia à clínica deles fazer enemas de café e ozonoterapia rectal? Como é que eles exploravam economicamente as pessoas fragilizadas? Não dava…então cria-se uma narrativa. Mente-se. Faz-se cherry-picking dos estudos científicos e distorce-se o que está escrito nos mesmos. Não se diz que o questionário avaliava apenas um tipo de cancro com péssimo prognóstico em fase avançada, já com metástases. Essas partes são escondidas…

O que aqui escrevi, é “a verdade escondida que eles não querem que você saiba“.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar