O Autismo Está a Aumentar, Certo? Nem Por Isso…

admin Autismo, Geral Leave a Comment

Um dos principais argumentos do movimento antivacinas é que o autismo está a aumentar a um ritmo alarmante. E isso, de acordo com o ponto de vista deste movimento, só pode estar relacionado com as vacinas. Segundo os próprios dados do CDC, a prevalência do autismo nos EUA aumentou de 1 em cada 150 crianças em 2000 para 1 em cada 68 crianças em 2012 (dados lançados em 2016). E esta prevalência já chegou a ser de 1 em cada 2.500 crianças. Lendo estes dados desta forma, sem contexto, até considero normal alguma ansiedade gerada pelo suposto aumento da prevalência desta doença. 

No entanto, dados estatísticos são apenas dados estatísticos. Necessitam de um contexto para serem compreendidos e é isso que vamos fazer neste artigo. Contextualizar os dados.

A evolução do diagnóstico do autismo

Vamos começar do início. O diagnóstico de autismo foi introduzido há cerca de 75 anos por Leo Kanner, em 1943.  Kanner designou a doença como “autismo infantil” para descrever as crianças que se isolavam e não interagiam socialmente.  Em 1966, os investigadores estimaram que cerca de 1 em cada 2500 crianças teriam autismo, de acordo com as critérios descritos por Kanner. No entanto, os critérios definidos por Kanner só diagnosticavam o autismo severo e não contemplavam as crianças com características mais subtis da doença.

Em 1980, este diagnóstico foi inserido no Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM), considerado o manual de referência para diagnóstico de perturbações mentais, estabelecendo os critérios para os diagnosticar. Em 1987, uma nova edição (DSM-III-R) ampliou os critérios para o diagnóstico de autismo. Para obter um diagnóstico, uma criança precisava atender 8 de 16 critérios, em vez de todos os 6 itens que estavam definidos anteriormente. Essas mudanças podem ter causado um aumento da prevalência do autismo para 1 em cada 1400 crianças.

Em 1994, a quarta edição do DSM (DSM-IV) ampliou ainda mais a definição de autismo, incluindo a síndrome de Asperger no final mais ameno do espectro. A versão atual, o DSM-5, lançada em 2013, também trouxe algumas novidades que poderão ter impacto na incidência do autismo. Isto porque o DSM-V permite múltiplos diagnósticos de doenças mentais (por exemplo, ter perturbação de atividade e défice de atenção juntamente com autismo), algo que o DSM-IV não contemplava. Estas alterações não estão limitadas ao DSM. Mudanças no International Classification of Diseases (ICD), um método de classificação de doenças promovido pela Organização Mundial de Saúde, contribuíram para estas alterações na prevalência do autismo, principalmente a passagem do ICD-8 para o ICD-10.

Ou seja, sempre que fazemos alterações aos critérios necessários para estabelecer um diagnóstico, tal pode ter um efeito dramático sobre a incidência e prevalência da doença. No passado, as crianças com a mesma constelação de sintomas teriam sido rotuladas como tendo um transtorno do linguagem ou um transtorno do desenvolvimento não específico; agora são diagnosticados com autismo.  A esta ocorrência chama-se substituição de diagnóstico. Não há propriamente um aumento de crianças com perturbação do desenvolvimento. O “rótulo” é que passa a ser diferente. Aliás, à medida o número de crianças com diagnóstico de autismo aumentou, o número de crianças com diagnóstico de atraso mental diminuiu.

Um estudo dinamarquês de 2015, fazendo a análise dos registos médicos, concluiu que 60% do aumento nos diagnósticos de autismo poderia ser explicado especificamente por mudanças nos padrões de diagnóstico e registo.

População mais sensível à doença também contribuiu para o aumento de diagnósticos

O conhecimento e sensibilidade aos sintomas típicos do autismo aumentou entre pais, professores e profissionais de saúde. E esta maior sensibilidade foi uma das razões que levou a um aumento de diagnósticos. Um estudo interessante demonstra isso mesmo.  Descobriu que há clusters espaciais no que diz respeito ao diagnóstico de autismo. Isto significa que se uma família morar perto de outra família com um membro com diagnóstico de autismo, essa família provavelmente também irá procurar um diagnóstico. O padrão não seguiu apenas a proximidade física, mas as redes sociais. Viver perto de centros urbanos e ter acesso a uma boa assistência médica também aumenta a probabilidade de diagnóstico.

Algumas políticas também podem ter servido de incentivo.  Em 1991, o Departamento de Educação dos EUA determinou que um diagnóstico de autismo qualifica uma criança para serviços de educação especial. Antes desta decisão, muitas crianças com autismo eram diagnosticadas como portadoras de deficiência mental. A mudança poderá ter incentivado as famílias a terem um diagnóstico de autismo para os filhos. Esta suposição é apoiada pelo gráfico anterior.

As mudanças de políticas de saúde também podem ter desempenhado um papel no aumento da prevalência da doença. Em 2006, a Academia Americana de Pediatria recomendou o rastreio de autismo a todas as crianças durante visitas de rotina ao pediatra, entre os 18 e 24 meses de idade. Esta política pode ter levado a um maior diagnóstico de crianças que, de outra forma, não seriam diagnosticadas. Isto é notório nas crianças afro-americanas e hispânicas que têm taxas de diagnóstico mais baixas devido à falta de acesso aos serviços, em comparação com as crianças caucasianas, principalmente de famílias de maiores rendimentos.

Resumindo a situação

A prevalência registada de autismo aumentou consideravelmente nos últimos anos. Isso reflecte-se no maior reconhecimento da doença, com mudanças na prática diagnóstica associadas a profissionais de saúde mais treinados; alargamento dos critérios de diagnóstico que transformou a doença num espectro; maior disposição de pais e educadores para aceitar o rótulo; e melhores sistemas de registo, entre outros fatores.

Vários estudos recentes sobre a prevalência de autismo validam estas afirmações

Os epidemiologistas realizaram uma série de estudos, utilizando diferentes métodos, para avaliar a verdadeira prevalência do autismo. Uma maneira foi comparar as populações de pacientes ao longo do tempo usando exatamente os mesmos critérios diagnósticos, recorrendo aos registos médicos existentes. Um desses estudos, publicado em 2015, refere que em 2010 foram estimados 52 milhões de casos dentro do espectro do autismo a nível mundial, equivalentes a uma prevalência de 7,6 por 1000 ou 1 em cada 132 pessoas. Depois de ajustar para as alterações metodológicas, não houve evidência clara de uma mudança na prevalência de transtorno autista ou outros ASD entre 1990 e 2010.  No mundo, houve pouca variação regional na prevalência de ASD. Uma revisão sistemática chinesa de 2017 (para quem se convence mais com estudos do Oriente que do Ocidente), também não demonstrou alterações significativas na prevalência de autismo entre 2006 e 2015, nas crianças dos 0 aos 6 anos.

Um estudo realizado na Austrália, em 2017, acrescenta à evidência existente, abordando a questão de forma diferente. Analisaram-se os registos de 1252 crianças autistas entre 2000 a 2009, ao longo de um período em que foram utilizados métodos de diagnóstico consistentes. Descobriram que ao longo do tempo a gravidade dos diagnósticos havia diminuído. Isso significa que os médicos diagnosticaram casos menos graves com autismo, o que, obviamente resulta num aumento significativo na prevalência da doença.

Mas existe algum aumento real do autismo?

Infelizmente, nem tudo deriva das alterações metodológicas e sensibilização à doença. O facto das pessoas terem filhos cada vez mais tarde, particularmente ter pai mais velho (a começar nos 30 anos), pode aumentar o risco da criança ter autismo. As crianças nascidas prematuramente também têm risco aumentado de autismo. Dado que os recém-nascidos prematuros têm cada vez maior hipótese de sobrevivência, isso também poderá contribuir para o aumento da prevalência da doença.

Conclusão

Em conjunto, a literatura demonstra claramente que a maioria do aumento nos diagnósticos de autismo pode ser explicada por alterações dos critérios diagnósticos, sensibilidade aumentada à doença e substituição de diagnóstico. É possível que exista um ligeiro aumento real da doença, relacionado com os fatores descritos anteriormente. Mas o que fica claro com a contextualização dos dados é que não existe nenhuma epidemia de autismo na população. Muito menos haverá qualquer relação com a vacinação das crianças. Tentar impor essa ligação é ridículo e não existe qualquer dado objetivo que o demonstre. 

Este é o primeiro de vários artigos sobre o autismo. Isto porque é uma doença que causa grande impacto nas famílias. O prognóstico a longo prazo não é favorável e a procura de soluções de tratamento alternativas é uma constante , percebendo-se assim que estas famílias sejam vítimas fáceis e apetecíveis para os promotores de pseudociência. Sobre isso falaremos futuramente.

Com este artigo, fechamos este argumento: não há nenhuma epidemia de autismo.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar