O Pós-Modernismo…um Movimento a Conhecer e Erradicar

admin Geral, Literacia em Saúde, Sociologia 1 Comment

Nota: A imagem acima representa o quadro Anna´s Light. Supostamente, a melhor criação de Barnett Newman, tendo sido vendido por mais de 100 milhões de dólares. Este quadro é uma das expressões máximas do relativismo artístico. Do elitismo bacoco que assola a arte. No fundo, resume perfeitamente este artigo.

Biopolítica“, de Leonor Nazaré. Um artigo publicado no Público que é, no mínimo, interessante. A minha reação ao ler este artigo foi um misto de descrença e perplexidade.

Ao início pensei que era mais uma pessoa que desconhecia os princípios básicos da ciência, dado que Leonor Nazaré é Assessora e Curadora no Museu Calouste Gulbenkian desde 1999. Se lerem o seu CV, a conclusão é uma: Leonor Nazaré é artista…não é cientista.

Pensei que a senhora, no desconhecimento típico de quem leu dois ou três livros sobre o assunto, tinha decidido libertar o seu Dunning-Kruger. Mas não…o que se passa aqui é algo muito pior que isso. O discurso da Sra. Leonor Nazaré é o típico discurso pós-modernista, um movimento que infetou a área das ciências sociais e das humanidades. Uma epidemia de pensamento aberrante que tenta, neste momento, colocar em causa o nosso conhecimento e a própria ciência.

Pós-modernismo…uma movimento de “pensadores” a erradicar

Segundo pós-modernismo não existe uma verdade, uma realidade objetiva. Existem várias verdades, que são relativas e dependentes do observador, do contexto e dos sistemas de valores da sociedade. Para os seguidores desta doutrina, não existem leis universais. Todas as narrativas são igualmente válidas e devem partilhar o mesmo espaço (o chamado relativismo, que aplicado à ciência permite a promoção do obscurantismo, onde se encaixam também as pseudociências). 

As principais críticas ao pós-modernismo são a utilização de uma prosa semi-desenvolvida, sem conteúdo, sem princípios teóricos, sem qualquer tipo de evidência que a suporte. Serem mestres no que os franceses designam por La Langue de Bois, uma forma de comunicação que pode servir para ocultar uma incompetência ou relutância em abordar um assunto proclamando banalidades abstratas e pomposas, que atraem mais sentimentos do que factos.

A grande demonstração da inutilidade desta pseudo-filosofia, do embuste que representa, foi o Caso Sokal. Sokal, um físico proeminente, para provar a inutilidade e o discurso vazio pós-modernista, estudou a linguagem utilizada neste meio e escreveu um artigo de acordo com esta linguagem abstrata. O artigo chama-se “Transgressing the Boundaries: Towards a transformative Hermeneutics of Quantum Gravity”. Conseguiu publicar o seu artigo numa das maiores revistas de referência das ciências sociais tendo depois anunciado o seu feito e exposto esta corrente filosófica pelo que é…uma fraude.

Mesmo assim, esta doutrina recusa-se a morrer. Como as pseudociências, por mais incongruências que se aponte, os factos não fazem mossa na crença. Deixo alguns vídeos que denunciam as absurdidades desta corrente. Um vídeo de Jordan Petersonoutro de Gad Saad e outro de Chomsky para compreenderem a dimensão e o ridículo do problema. Para uma visão mais completa, têm os vídeos do Stephen Hicks.

A ciência e o pós-modernismo

Muitos relativistas e pós-modernistas acreditam que o estabelecimento científico é como um governo opressivo ou uma autoridade religiosa que prejudica as pessoas e impedem ativamente o surgimento de outros conhecimentos ou formas de saber igualmente válidas. Fazem um ataque ao chamado cientismo, filosofia defensora da ciência como a melhor forma de compreensão da realidade, por ser a única capaz de apresentar benefícios práticos e alcançar autêntico rigor cognitivo. 

Os pós-modernistas apelam a certos filósofos da ciência, como Thomas Kuhn, num esforço para retratar a comunidade científica como constituída por ideólogos comprometidos que impedem que as suas visões do mundo sejam alteradas, enquanto os “Galileus” contemporâneos tentam fazer valer as suas ideias inovadoras normalmente descartadas como pseudociência.

Kuhn, no seu famoso livro, “The Structure of Scientific Revolutions” refere o seguinte: “se a ciência não é um processo gradual de acumulação de conhecimento, mas sim sujeito a repentinas “revoluções” que dominam as teorias desatualizadas, como se pode confiar no conhecimento científico?

A questão é que a evolução do conhecimento científico raramente se faz com “revoluções repentinas” mas através de um processo cumulativo de aquisição de conhecimento. O aparecimento de um novo modelo, mais bem fundamentado, que consegue explicar com mais clareza a realidade envolvente habitualmente é construído em cima do modelo antigo. Um novo modelo não se desvia arbitrariamente dos factos conhecidos. Deve fazer as mesmas previsões que o modelo antigo em áreas onde ambos se aplicam. Isto é conhecido como o princípio da correspondência e muitas vezes é visivelmente ausente de um grande discurso relativista, uma vez que radicalmente diverge da narrativa da ciência como apenas outra ideologia. Na história da ciência, há muito poucos exemplos que se encaixam na ideia de Kuhn de uma mudança de paradigma (e seu uso de “paradigma” foi muitas vezes citado de forma errada).

Foi publicado um artigo em 2012 com o objetivo de alertar os cientistas para a ameaça que esta corrente de pensamento representa na área dos transgénicos. Mas deixo alguns excertos gerais que ajudará a explicar o texto da Sra. Curadora e até o ambiente político em que vivemos (aconselho a ler o texto completo):

“A ciência tenta descrever o mundo de forma objetiva, com base na observação, medição e experimentação. A escola de pensamento pós-modernista surgiu para questionar esses pressupostos, postulando que as afirmações sobre a existência de um mundo real – o conhecimento do qual é alcançável como uma verdade objetiva – só foram relevantes na civilização ocidental desde o Iluminismo. Nas últimas décadas, o movimento começou a questionar a validade das reivindicações da verdade científica, seja com base na sua pertença a quadros culturais maiores ou através de críticas pesadas ao método científico. (…)

Se não existe uma verdade universal, como afirma a filosofia pós-moderna, cada grupo social ou político deve ter o direito à realidade que melhor lhes convém. (…) O perigo de uma abordagem pós-moderna da ciência, que procura incluir todos os pontos de vista como igualmente válidos, é que diminui ou impede pesquisas científicas muito necessárias, mesmo que negue que a ciência tenha um papel nessas decisões. É claro que uma abordagem pós-moderna, que aumenta o valor das visões “independentes” ao mesmo nível que as científicas, geralmente é justificada pela aparente necessidade política e democrática da expressão pluralista de opiniões. Na verdade, alguns políticos apoiam abertamente ativistas anti-tecnologia em nome da democracia e da liberdade de expressão. “

Portanto, a opinião da Sra. Curadora tem tanto valor, segundo o pós-modernismo, como a opinião do cientista que passou a sua vida a investigar determinado tema. E os políticos, defendendo a liberdade de expressão e de escolha, apoiam este conceito…uma completa aberração.

Se opino, logo existo?

Parece-me que agora, estamos em condições de avaliar o artigo da senhora.

“David Marçal tem assinado, sozinho ou com outros autores, artigos no PÚBLICO nos quais se posiciona como “céptico” militante em matéria científica, i.e., descrente e desacreditador de todo e qualquer paradigma científico que se desvie do materialismo positivista.”

A senhora curadora apresenta uma visão completamente contrária ao trabalho que o David Marçal e outros como ele fazem. Não desacreditam nada…apenas pedem provas para acreditar, o que é uma diferença avassaladora. Perante provas concretas que beber água com “memória” trata doenças, a comunidade científica terá todo o gosto em aceitar esse pressuposto. No entanto, 1800 estudos depois, continuamos à espera (a Sra. Curadora pode ler isso no site da Smithsonian). Mas claro, aplicando o relativismo, estes 1800 estudos têm tanto valor como a opinião de uma curadora de arte…é a sua realidade.

Acrescenta-se que o “materialismo positivista” é um conceito ultrapassado há umas boas décadas pela filosofia da ciência. Os positivistas focavam-se na validação de conhecimento científico por via da verificação. Mas, desde Karl Popper, que o foco é colocado não na verificação mas na falseabilidade. Ou seja, que algo não se prova definitivamente, mas simplesmente que pode ou não suportar as tentativas de ser falseado por confronto com novos dados e evidências. 

A sua agenda biopolítica já ficou clara e poderíamos apenas manifestar simples tristeza pela tonalidade do discurso. O problema é que o jornal tem caucionado o ponto de vista socialmente dominante, prestando assim um mau serviço público: parcial e reducionista.

Portanto, a defesa da verdade e a defesa da mentira, da aldrabice, da charlatanice, dos “factos alternativos” deveriam ter o mesmo tempo de antena. A tal visão pós-moderna da necessidade de dar voz a outras “verdades”.

Lembro que foi através destas táticas que os negacionistas das alterações climáticas conseguiram convencer tanta gente durante tanto tempo que havia dúvidas na comunidade científica se o Homem era o seu causador, apesar de 97% a 99.9% dos cientistas o afirmarem categoricamente.  A paridade nos debates que ocorreram na comunicação social causou confusão e permitiu os interessados na desinformação continuarem poluir o planeta…

A Sra. Curadora pede paridade, eu peço proporcionalidade. Infelizmente, pelo que se vai vendo nos programas da manhã e da tarde dos canais generalistas, parece-me algo hipócrita dizer que as pseudociências não têm palco para expor as suas mentiras (ou “concepções alternativas da realidade). Direi até que a proporcionalidade está invertida, tendo muito mais voz estas “realidades alternativas”. Claramente que ganham os artistas. Perde a população que a eles recorre.

“Desde os anos 20 do século XX que, com a revolução epistemológica operada pela física quântica, a ciência não é exclusivamente aquilo que os autores do artigo “Terapias alternativas: quando as portarias substituem as provas” (PÚBLICO, 21/02/18) reclamam que é. Não só não é e não pode ser aquilo que um grupo decide que é, impondo a todos um modelo epistemológico exclusivo para os modos de procura de conhecimento e investigação, como não pode e não deve assentar em dogmas (a ciência tornou-se a religião inquestionável do século XX) a partir dos quais se fabrica a chantagem emocional, a estratégia sempre eficaz do medo e a caricatura fácil.”

Quando li este parágrafo, o meu queixo bateu no chão…

Por alguma razão a senhora acha que a descoberta da física quântica colocou em causa a ciência e o conhecimento existente?! Que permitiu abrir horizontes para lá do método científico?! É tão estranho utilizar uma descoberta científica incrível para tentar colocar em causa a ciência. Foi a física quântica que ajudou a trazer uma revolução tecnológica. Admito que é de grande complexidade e existe muito desconhecimento sobre o comportamento da matéria a nível subatómico.  No entanto, extrapolar esse desconhecimento para vender uma visão pseudocientífica do mundo é desonesto.  (Já agora, para quem quiser saber um bocadinho de física a nível médio/avançado, aconselho este canal de Youtube fantástico: PBS Space Time).

Depois, a Sra. Curadora refere que a ciência se faz por imposição?! Uma das maravilhas da ciência é que nada é imposto, mas sim demonstrado e sujeito a escrutínio interpares. E é paradoxal rejeitarem a ciência porque está sujeita a constante mudança e ao mesmo tempo classificá-la como um organismo fechado, dogmático e de cariz religioso.

A religião é acreditar sem provas. A ciência é pedir provas para acreditar.

Depois, não deixa de ser irónico que os “amigos” da Sra. Curadora andem a desenvolver um modelo de compreensão da realidade, da sociedade e da mente humana que querem que seja hegemónico: o Standard Social Science Model. Este modelo é agora aplicado nas ciências sociais (principalmente, na sociologia) e nas humanidades, e opera segundo 4 grandes princípios: relativismo (social, cultural, moral, epistemológico); mente humana como tábula rasa; construção social; e determinismo cultural. Portanto, a Sra. Curadora queixa-se da imposição de um “modelo epistemológico exclusivo” e no entanto os seus “amigos” demonstram exatamente essas pretensões.

“A quantidade de investigação científica séria e independente a ser praticada e publicada em todo o mundo, que propõe alternativas ao paradigma materialista da ciência, é imensa e tremendamente desafiante para qualquer espírito interessado no conhecimento e em claro desapego em relação ao poder que um modo de apreensão da realidade lhe possa conferir.”

Este é o discurso típico de quem lê uns artigozitos científicos ou um livro contrafactual mas não tem capacidade técnica para avaliar a sua qualidade, erros e limitações dessa informação. Certamente que existe muita investigação na área da pseudociência e já a abordamos neste blog, parcialmente. No entanto, saber ler um artigo científico, interpretar a validade e limitações desse artigo e perceber os instrumentos estatísticos utilizados são três níveis diferentes de compreensão. 

Este discurso lembra o “médico” espanhol (charlatão), que disse “Portugal está na vanguarda da Europa nas terapias complementares“. Que refere existirem “milhares de estudos permaneçam desconhecidos da maioria das pessoas, quase tudo está publicado sobre homeopatia, medicina chinesa e naturopatia.” Segundo este médico, são esses estudos “desconhecidos” que validam estas práticas.

Já falamos dos 1800 estudos de homeopatia, podemos falar dos mais de 3000 sobre acupuntura. Mesmo assim, não demonstram que essas terapias funcionam para lá do placebo. Mas se existem artigos de qualidade desconhecidos, apresentem-nos…como referi, a ciência apenas pede provas para acreditar. Nada mais que isso. 

“Não me alongarei em relação à componente financeira avassaladora associada às indústrias agro-química e farmacêutica mundiais, na dependência da qual 25.000 lobbyistas trabalham diariamente em Bruxelas, no sentido de inverter, impedir, ludibriar, adiar qualquer esforço legislativo que vise proibir, por exemplo, os perturbadores endócrinos e, de forma geral, os mais de 1500 produtos tóxicos e cancerígenos cuja utilização é LEGAL no que comemos, respiramos, habitamos, cultivamos, medicamos, etc. (cf. Stéphane Horel, Intoxication. Perturbateurs endocriniens, lobbyistes et eurocrates: une bataille d’influence contre la santé, 2015).”

Aqui, a Sra. Curadora demonstra a sua profunda ignorância sobre os conceitos mais básicos de toxicologia, que já temos vindo a falar ao longo do blog. Refere que estamos expostos a 1500 produtos tóxicos e cancerígenos. Eu acrescento…só? Só mil e quinhentos? Eu direi que estamos expostos a muitos mais. A questão é a dose…a dose faz o veneno. Esta extrapolação pseudocientífica é um argumento habitual dos mercadores do medo.

Depois fala dos lobbies da indústria agro-química e farmacêutica. E que definitivamente existem. Mas falar apenas destes é hipócrita, porque também poderia referir o lobby da vidência na Coreia do Sul, que irá atingir os 3.7 biliões de dólares no futuro próximo. O lobby da medicina anti-envelhecimento que irá valer cerca de 191.7 biliões de dólares em 2019. O lobby da medicina tradicional chinesa, que valia 100 biliões de dólares em 2015. O da indústria dos suplementos que valerá cerca de 278 biliões de dólares em 2024. Ou o lobby da homeopatia, que só na América vale cerca de 3 biliões de dólares

Achará a Sra. Curadora que os alternativos trabalham de graça?! Achará que esta gente não tem e não defende os seus interesses? Se acha, é ingénua.

“A interferência do observador e da natureza do seu questionamento no estado e qualidade do seu objecto de estudo nunca foi tão amplamente reconhecida como nos séculos XX e XXI por todos os grandes nomes da física quântica e a própria realidade da consciência tem sido associada aos múltiplos factores que permitem definir e estudar o humano, quando a abordagem é sistémica (Análise Global de Sistemas): para muitos cientistas o ser humano não é apenas um conjunto de células em funcionamento, o seu psiquismo não emerge apenas do seu funcionamento cerebral e neuronal, a sua natureza não é apenas animal e a complexidade da sua termodinâmica (aberta, irreversível, espantosamente neguentrópica) exige a formulação de outros quadros de experimentação, de outras metodologias, de outros imaginários de indagação e, portanto, de respostas com outros horizontes de referência.”

Este blá blá todo para dizer que os estudos científicos não são perfeitos. Que o ser humano não é apenas um conjunto de células. Devemos ter mente aberta a outros quadros de experimentação e metodologias, etc. Muito giro.

Mais uma vez. Os cientistas e a ciência têm a chamada “mente aberta”. Mas não tão aberta que o cérebro salta fora. Um dos estudos paradigmáticos na comprovação da ineficácia das medicinas alternativas foi abordado neste artigo. Responde a uma simples questão: o que acontece quando as pessoas optam pelas medicinas alternativas para tratar cancro, em detrimento da medicina convencional? A resposta é simples…morrem. As suas células deixam de funcionar, o seu funcionamento cerebral e neuronal apagam e o psiquismo desaparece. Deixam de poder escrever artigos bonitos no jornal de assuntos que não entendem nada.

E mais uma vez, para perceber a ineficácia das medicinas alternativas, basta olhar para uma curva de esperança média de vida. Essas medicinas, que andam cá há tanto tempo, nunca conseguiram aumentar a esperança média de vida para lá dos 40 anos. E, no entanto, a ciência aliada à medicina convencional praticamente dobrou esse valor. Remeto o resto deste parágrafo para La Langue de Bois.

“Rupert Sheldrake, em Science set Free, 2013, assim como o recente manifesto para uma ciência pós-materialista assinado por mais de 300 cientistas, filósofos e investigadores doutorados de todo o mundo, denunciam os dogmas que limitam a ciência actual; por outro lado, um livro como o de Jean Andouze, Michel Cassé e Jean Claude Carrière, Du Nouveau dans l’Invisible, 2017, permite enriquecer o debate sobre a natureza profundamente perigosa e eugenista do projecto transumanista que está a ser imposto ao mundo, em nome do progresso científico.”

Aconselho vivamente a ler este manifesto. E depois aconselho a ver quem assina este manifesto. Pessoal do espiritismo, das medicinas integrativas e alternativas e o grande Deepak Chopra. Sim…o maior charlatão em formato sopa de letras assina este manifesto. Algo que deve ser um sinal de alerta para qualquer pessoa com o mínimo de sentido crítico.

Mas se não chega, investiguem quem é Rupert Sheldrake, que fez um TED tão mau  que foi retirado do canal do Youtube e remetido para o blog com um “disclaimer” associado: “prepare-se…vem aí treta.” E o que diz o senhor? Que as constantes universais não são constantes. A velocidade da luz e a gravidade variam. Defende a “ressonância mórfica“, em que a “a memória é inerente à natureza” e que “os sistemas naturais, como as colónias de formigas, os pombos, as plantas ou as moléculas de insulina, herdam uma memória coletiva de todas as coisas anteriores do género”. A ressonância mórfica também explica, segundo este lunático, as “interconexões do tipo telepatia entre organismos “.

No manifesto defendem esses conceitos: a nossa consciência consegue alterar a realidade, a telepatia e outros fenómenos psíquicos existem, assim como a projeção astral. Supostamente validados por vários estudos científicos! É estranho, porque não encontro nenhuma revisão crítica que valide estes conceitos. E estes senhores certamente que não os citam.

“Qualquer pessoa tem o direito de concluir que a única medicina que “provou ser segura e eficaz” se chama “simplesmente medicina”. Tem até o direito de não se informar sobre a toxicidade elevada da maioria dos medicamentos químicos, sobre as mentiras dos laboratórios, sobre os problemas sérios que tiveram milhares de pessoas em todo o mundo na sequência de actos médicos. Não pode é assumir que a máxima de que errar é humano só se aplica aos médicos alopáticos. Não pode é afirmar, sem os ter procurado, que não há argumentos e resultados comprovados. Milhares de pessoas já trataram com sucesso milhares de patologias de formas alternativas.”

Quimiofobia..o velhinho argumento da promoção do medo relativamente aos químicos. Eu quero acreditar que na realidade da Sra. Curadora, também as plantas medicinais utilizadas na Medicina Tradicional Chinesa são compostas de químicos, alguns dos quais causam cancro e insuficiência hepática. É certo que há pessoas que morrem devido à medicina convencional. No entanto, temos que avaliar o custo benefício dos tratamentos existentes, sendo que o benefício é claro. Remeto, mais uma vez, para a esperança média de vida.

Depois é estranho esta senhora referir que “não pode é afirmar, sem os ter procurado, que não há argumentos e resultados comprovados”. Achará a Sra. Curadora, que os profissionais de saúde, os investigadores e todas as entidades que se dedicam a avaliar a evidência na área das terapias alternativas são ignorantes, desconhecedores dos argumentos existentes. Será a Sra. Curadora que nos irá elucidar, com toda a certeza. Fico ansiosamente à espera por esse dia.

“Ninguém pode, acima de tudo, argumentar que é preciso impor a toda a população um ponto de vista, atropelando assim o direito de cada um, consagrado na Constituição portuguesa, à autodeterminação, à escolha das formas de se tratar e às decisões relativas ao seu corpo e ao “entendimento dos seres vivos”.”

Mas claro que todos têm direito à liberdade de escolha. Já no passado as pessoas consultavam o bruxo, a taróloga e mesmo os terapeutas alternativos. O que aqui se discute não é a autodeterminação das pessoas, mas a validação institucional da fraude. A aprovação de práticas que demonstraram claramente que não funcionam. Pouco me importa que os doentes procurem um Shaman para lhes tratarem o espírito, desde que devidamente informadas que essas práticas não têm validação objetiva. Mas já me importa muito, se o Governo decidir promover cursos de “Shamanologia” nos institutos superiores deste país, com atribuição de cartõezinhos da ACSS para pendurarem na batinha. Dando autoridade institucional a estas práticas e a falsa sensação de validade científica.

“A ciência não tem de informar o poder político, porque não há só um modelo científico e porque ninguém está em condições de dizer que um é mais válido do que outro. O poder político tem o dever de garantir e promover a pluralidade dos espaços de informação e de prática cívica, terapêutica ou outra (na educação, no debate, na edição, nos media, na iniciativa legislativa) e de alargar o espaço de decisão individual. Chama-se a isso maturidade democrática.”

Não…a isso chama-se falta de senso. Num mundo perfeito, a ciência informaria o poder político por forma a que as decisões tomadas melhor servissem a população. Mas ignorar a ciência é uma prática constante na política e a razão pela qual este artigo está a ser escrito. Sim, a Sra. Curadora, na sua senda pós-modernista, acha que devemos aceitar a opinião de quem diz ter sido sondado por extraterrestres com a mesma seriedade e validade de quem alerta para as alterações climáticas. Acha que devemos aceitar tratamentos como a urinoterapia apenas porque existem testemunhos que isso curou cancro a alguma pobre alma. Que devemos respeitar quem acredita que os porcos têm asas e dar-lhe espaço para debater o seu ponto de vista.

Ou pior…um exemplo que vem no livro do Sokal, “Fashionable Nonsense”, refere quem um defensor do pós-modernismo disse ser impossível terem descoberto uma múmia com sinais de tuberculose porque não existia tuberculose antes de terem criado o conceito/palavra. Compreendem a gravidade disto? Da negação da realidade objetiva? Isto é raciocínio de lunáticos que, infelizmente, estão a ganhar terreno.

Já estragaram a arte…não estraguem a ciência

Os pós-modernistas e o seu relativismo artístico já “estragaram” a arte. Só este relativismo elitista permite que a arte seja confundida com lixo, que uns óculos colocados no chão passe por arte aos visitantes, que um calhau gigantesco seja considerada arte. Para quem quiser ver os extremos a que arte chegou, aconselho o vídeo abaixo, que desmarcara alguma da arte pós-moderna como o expoente máximo desta doutrina (sim, eu sei…é de um tipo que participa no Info Wars do Alex Jones…mas até um relógio parado está certo duas vezes por dia).

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar