Prevenção da Constipação – O Que Funciona?

admin Doenças Infecciosas, Geral, Literacia em Saúde Leave a Comment

Está a chegar o Inverno. E com o Inverno o frio, as constipações e as gripes. E como habitual, a constante publicidade a medicação ou suplementos para prevenir ou tratar gripes e constipações.

Assim, por forma a não ser enganado, vamos ver o que sabemos sobre a prevenção da constipação.  No próximo artigo falaremos sobre a prevenção da gripe.

A constipação é provocada por cerca de duas centenas de vírus diferentes, sendo os mais comuns os Rhinovirus. Ao contrário da gripe, a constipação raramente causa problemas de saúde graves. Apesar disso, é uma patologia com altos custos económicos dada a sua frequência, sendo mesmo considerada a doença infecciosa mais frequente do mundo. Estima-se que as perdas económicas atinjam os 25 mil milhões de dólares de custos diretos e 15 mil milhões de dólares de custos indiretos, anualmente, nos EUA. E um poster britânico da segunda guerra mundial colocou as coisas em perspectiva, com o objetivo de sensibilizar na época as pessoas a prevenir a disseminação da doença.

Prevenção da constipação

Medidas gerais

Segundo uma revisão de 2014, a incidência da constipação ou resfriado comum diminui com a idade. As crianças menores de dois anos têm cerca de seis infeções por ano, os adultos têm cerca de duas a três e as pessoas idosas uma constipação por ano. A perturbação de sono e o stress podem aumentar o risco de constipação nos adultos, enquanto frequentar centros escolares e creches aumenta o risco nas crianças. 

Lavar as mãos parece ser uma forma eficaz de reduzir a probabilidade de ficar constipado e dos outros se constiparem. Os vírus da constipação conseguem sobreviver cerca de 48 horas nos objetos contaminados. Portanto, a lavagem das mãos e evitar tocar com as mesmas na face sem a devida higienização são medidas potencialmente importantes para prevenir a contaminação.

Como falamos anteriormente, o frio parece aumentar probabilidade de se constipar. Portanto, agasalhe-se. 🙂

Uma meta-análise de RCTs demonstrou que a realização de exercício físico poderá ajudar a prevenir o aparecimento de constipações. No entanto, o total da amostra era pequeno, pelo que a resposta a esta questão não é definitiva.

Gargarejar com água também poderá ajudar a reduzir o risco de infeções, no entanto a evidência é limitada a um único estudo. A vantagem é que o estudo foi rigoroso em termos metodológicos e demonstrou que gargarejar com água era efetivo na redução do risco de infeção respiratória superior (30,1% v. 40,8% no grupo controlo).  O gargarejar necessário é considerável, o que pode limitar a sua utilidade (20 mL por 15 segundos repetidos três vezes, realizado três vezes ao dia). No entanto, antes de adotar este comportamento, será melhor aguardar confirmação dos resultados.

Zinco

O zinco poderá ajudar a prevenir o risco de constipação. De acordo com a revisão de 2014 citada anteriormente:

O zinco parece ser eficaz na redução do número de resfriados por ano, pelo menos em crianças. Uma revisão Cochrane [de 2011] que utilizou dois RCTs onde o zinco na dose de 10-15 mg foi administrado às crianças verificou que o número médio de resfriados foi significativamente menor no grupo do zinco do que no grupo placebo, tanto na análise combinada quanto nos estudos individuais. As ausências escolares foram significativamente menores nos grupos do zinco em cada estudo, em média 0,4 dias a 0,8 dias. O uso de antibióticos também foi significativamente menor nos grupos de zinco de cada estudo. Num dos estudos,  a proporção de crianças sem resfriados durante o período de estudo foi de 33% no grupo de zinco versus 14% no grupo controle. Embora a evidência de prevenção de constipação com zinco provenham de estudos envolvendo apenas crianças, não existe razões biológicas para o zinco funcionar somente nas crianças e não nos adultos.

É importante referir que estes dois estudos têm limitações metodológicas importantes que poderá colocar em causa os resultados. Além disso, a última Cochrane realizada em 2013 sobre este tema deixa muitas dúvidas sobre a eficácia, tendo sido mesmo retratada por dúvidas importantes sobre a metodologia e o tratamento de dados estatísticos. E quem avaliou a evidência científica mais rigorosa sobre o tema, concluiu que este efeito é negligente ou mesmo inexistente. Portanto, aconselho algum ceticismo antes de começar a tomar zinco para prevenir a constipação. Está a ser neste momento realizada uma nova Cochrane, pelo que teremos que aguardar pelos resultados.

Probióticos

Os probióticos podem ser úteis na prevenção de infeções do trato respiratório superior, mas a evidência é inconsistente. Uma revisão sistemática onde foram incluídas populações pediátricas e adultas de uma grande variedade de países, concluiu que a utilização de probióticos reduziu o número de participantes que tiveram uma ou mais infeções do tracto respiratório superior (OR=0,58, IC95% 0,36 a 0,92) e o número de infeções do tracto respiratório superior por pessoa-ano (OR=0,88, IC 95% 0,81 a 0,96).  No entanto, nos estudos individuais os resultados foram inconsistentes, sendo que existia uma grande heterogenicidade dos estudos incluidos. Foi também verificado que o uso de probióticos reduziu o uso de antibióticos (RR=0,67, IC 95% 0,45 a 0,98).

O problema é que em todos os estudos, exceto dois, os probióticos variaram no tipos de organismos utilizados, nas combinações de organismos, nas formulações e na quantidade. Isto limita os resultados encontrados.

Uma meta-análise de 2013 chegou a conclusões semelhantes:

O efeito dos probióticos na prevenção do resfriado comum apresentou um risco relativo (RR) de 0,92 (IC 95%, 0,85 a 1,00, I2 = 26%). Na análise de subgrupos, o RR da administração de probióticos por 3 meses ou menos foi de 0,82 (IC 95%, 0,70 a 0,97). O RR da administração de probióticos durante mais de 3 meses foi de 1,00 (IC 95%, 0,92 a 1,09). O RR da administração de probióticos sem intervenção ativa (vitamina e mineral) foi de 0,87 (IC 95%, 0,78 a 0,97), [o que significa que a utilização de vitaminas poderá reduzir a eficácia dos probióticos].

Mais uma vez, a meta-análise refere problemas metodológicos importantes. E apesar dos resultados apontarem para um possível benefício, ainda não é possível tirar conclusões definitivas.

Vitamina D

Na revisão de 2014 não existia evidência que a suplementação com vitamina D fosse benéfica na prevenção de infeções do trato respiratório superior. No entanto, uma meta-análise de 2017 demonstrou que a suplementação poderá ter benefícios:

“Foram identificados 25 ensaios controlados randomizados elegíveis (total 11 321 participantes, com idade entre 0 a 95 anos). Foram obtidos informações para 10 933 (96,6%) participantes. A suplementação de vitamina D reduziu o risco de infecção aguda do trato respiratório superior em todos os participantes (OR ajustado 0,88, IC95% 0,81 a 0,96; P <0,001). Na análise de subgrupos, foram observados efeitos protetores naqueles que receberam vitamina D diária ou semanal sem doses de bólus adicionais (OR ajustado 0,81, IC95% 0,72 a 0,91), mas não naqueles que receberam uma ou mais doses de bólus (OR ajustado 0,97, IC95% 0,86 a 1,10; P = 0,05). Entre aqueles que receberam vitamina D diária ou semanal, os efeitos protetores foram mais fortes naqueles com níveis basais de 25-hidroxivitamina D <25 nmol/L (OR ajustado 0,30, IC95% 0,17 a 0,53) do que aqueles com níveis basais de 25-hidroxivitamina D ≥ 25 nmol / L (OR ajustado 0,75, IC95% 0,60 a 0,95; P = 0,006). A evidência que contribuiu para esta análise foi avaliado como sendo de alta qualidade.”

Portanto, a suplementação com vitamina D parece ser positivo, principalmente em pessoas com deficiência da vitamina. Isso vem alterar as conclusões do artigo sobre vitamina D e esclerose múltipla feito previamente. Nesse artigo, a evidência apontava que para além da diminuição do risco de queda numa população idosa específica, a suplementação com vitamina D não apresentava mais-valias significativas em nenhum tipo de patologia. No entanto, parece que pode existir algum benefício neste cenário.

Vitamina C

Os benefícios para a saúde da Vitamina C é daqueles mitos que por mais evidência que se produza não se consegue desfazer, muito por culpa de Linus Pauling. Pauling ganhou dois prémios Nobel na área da química, tendo ajudado de forma importante ao desenvolvimento da área. No entanto, na área da saúde nem por isso.  Em 1968, Pauling postulou que as necessidades das pessoas de vitaminas e outros nutrientes variavam muito e que para manter uma boa saúde, muitas pessoas precisariam de quantidades de nutrientes muito maiores do que a Ingestão Diária Recomendada (DDR). Especulou que megadoses de certas vitaminas e minerais podiam ser o tratamento de escolha para algumas formas de doença mental. Denominou esta abordagem “ortomolecular”, que significa “molécula certa.” Depois disso, expandiu de forma contínua a lista de doenças que acreditava poderem ser influenciadas pela terapia “ortomolecular” e o número de nutrientes adequados para tal utilização, incluindo o cancro (não, não parece funcionar) e a constipação comum.  Desta forma criou este novo conceito de charlatanice, a “medicina ortomolecular”, uma paródia da ciência nutricional.  Para mais informação, aconselho a leitura deste artigo.

Quanto à constipação comum, uma Cochrane de 2013 sobre Vitamina C demonstrou que é inútil a sua utilização na prevenção da constipação na população comum. A excepção serão as pessoas expostas a breves períodos de exercícios físicos muito intensos (corredores de maratona, por exemplo) ou pessoas sujeitas a ambientes muito frios, com temperaturas sub-árticas. Nestes casos poderá observar-se uma redução do número de constipações na ordem dos 50%, mas para o comum mortal não há qualquer interesse.

Outras intervenções

A revisão de 2014 citada não atribui efeitos importantes à equinácea na prevenção da constipação. Essa conclusão é validada por uma Cochrane publicada em 2014.  Alho, Homeopatia (que surpresa) e Gingseng  também não mostraram evidência de benefício. Fitoterapia chinesa também não parece ter grandes mais-valias, de acordo com uma revisão de 2010, assim como o Pelargonium sidoides (Umckaloabo), uma planta africana, que segundo a Cochrane de 2013 não demonstra eficácia clara devido a inexistência de estudos de qualidade.

Conclusão

Quer prevenir a constipação? Comece com medidas simples como boa higiene das mãos e prática de exercício físico. Baratas, seguras e com vários benefícios associados. E se já estiver doente, uma ótima forma de prevenir que as outras pessoas fiquem doente é ficar em casa.  Um estudo publicado em 2013 calculou a distância que devemos manter de alguém que está constipado é de cerca de 1.8 metros. Calcula-se que essa seja a distância máxima que as gotículas respiratórias viajam. O período em que é possível infetar outras pessoas começa 2-3 dias antes dos sintomas e pode prolongar-se até duas semanas, apesar dos primeiros dias após o aparecimento dos sintomas serem os mais críticos. Estes limites físicos e temporais são importantes conhecer para minimizar o risco de ficar doente.

Se quer mais uma ajuda na prevenção desta doença, neste momento a vitamina D (caso tenha níveis baixos) parece ser o suplemento em que a evidência é mais robusta. A evidência sobre o zinco não é clara, os probióticos também levantam dúvidas (principalmente sobre qual o probiótico a utilizar e em que doses) e a Vitamina C só é aconselhada se for um atleta de alta competição ou está exposto a condições ambientais extremas.

Se me esqueci de avaliar alguma intervenção importante, coloquem nos comentários, por favor 🙂

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar