desfazer mitos alterações climaticas

Refutação dos Argumentos Contra as Alterações Climáticas de Origem Antropogénica

admin Ambiente, Clima, Geral Leave a Comment

A ciência não é uma democracia, é uma ditadura….a evidência é o ditador.John Reismen

Não tinha intenção de escrever sobre alterações climáticas. Assim como não tenho intenção de escrever sobre Chemtrails ou o movimento defensor da Terra Plana. Há limites para o ridículo. Há assuntos nos quais a ciência está tão bem estabelecida, a informação é tanta, tão clara e de fácil compreensão que falar sobre isso é dar uma importância aos negacionistas da ciência que eles simplesmente não merecem. No entanto, depois da Sra. Maria Assunção Araújo, geógrafa e professora da Faculdade de Letras do Porto ter promovido ativamente um congresso de negacionistas das alterações climáticas de origem antropogénica, sou obrigado a desfazer mitos nesta área, algo que já foi feito de forma avassaladora. Como já tinha publicado no Facebook, o PotHoler54 tem um segmento de vídeos sobre alterações climáticas baseados na ciência, onde refuta de forma sistemática os argumentos dos negacionistas. É dos melhores canais de Youtube de sempre, que aconselho vivamente a acompanhar para entenderem melhor esta temática. Mas não se preocupe, caro leitor. Aqui não serão usados vídeos do Youtube.

Cético Versus Negacionista das Alterações Climáticas de Origem Antropogénica

Aqui começa a primeira distorção da verdade. Os negacionistas tendem a dizer que são céticos relativamente às alterações climáticas. Mas o ceticismo e o negacionismo são conceitos completamente distintos.

Apesar de ambos terem uma posição crítica relativamente à ciência sobre determinado tema, essas posições divergem na forma como visualizam, adquiram e interpretam os dados. O ceticismo é um método, enquanto o negacionismo é uma posição. Os céticos analisam os estudos para garantir que foram realizados adequadamente – controlos apropriados, análise de dados apropriada e conclusões coincidentes com os dados apresentados. Depois de examinarem toda a evidência, os céticos chegam a uma conclusão que deriva dessa avaliação. Os negacionistas, por outro lado, olham os dados de maneira diferente, como um meio para um fim predeterminado – minimizam a importância dos dados que contrariam a sua opinião, destacam os dados que apoiam essa posição ou simplesmente deturpam a evidência para proveito próprio. Os céticos mantêm a mente aberta até que os dados mostrem que uma hipótese é válida ou inválida, enquanto os negacionistas começam com uma conclusão e buscam apoio científico que a valide.

Citando Neil Degrasse Tyson:

Um cético questionará as alegações e depois abraçará as evidências. Um negacionista questionará as alegações e rejeitará as evidências.”

Diethelm and McKee identificaram cinco características padrão dos negacionistas:

1 – A promoção de conspirações. Isso inclui a crença de que os artigos científicos publicados estão corrompidos. Como, por exemplo, quando a Sra. Maria Assunção Araújo diz que a evidência existente que valida o modelo das alterações climáticas de origem antropogénica apoiado pela avassaladora maioria da comunidade científica, deriva de interesses dos próprios investigadores e dos interesses da Indústria das Energias Renováveis (facepalm do tamanho do mundo…):

“As pessoas estão a proteger os seus próprios salários, são empregos que estão em jogo. Há milhares, se calhar milhões de pessoas no mundo inteiro, a depender dos estudos que faz o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) e as agências governamentais que tratam destas questões”, afirmou Assunção Araújo.

A docente da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde decorre até sábado a conferência, acredita por isso que esta é “uma polémica que vai durar anos, porque daí depende o paradigma do atual modelo económico”, designadamente por considerar existirem interesses económicos dos dois lados.

Para a responsável, no caso dos cientistas que defendem que a ação humana tem impacto nas alterações climáticas, os interesses estão “ligados às energias renováveis”.

2 – O uso de falsos especialistas na área (muitas vezes menorizando os verdadeiros especialistas). Mais uma vez, basta olhar para o currículo dos convidados da conferência. A grande maioria (se algum) não são climatologistas. Não é a sua área de conhecimento. E o conhecimento não é transferível entre áreas. Um dos exemplos paradigmáticos é o negacionista das alterações climáticas de origem antropogénica, Nobel da Física, Ivar Giaever que chegou a dizer:

“Eu não estou realmente muito interessado no aquecimento global. Como a maioria dos físicos, não penso muito sobre isso. Mas em 2008 estava num painel sobre o aquecimento global e tive que aprender algo sobre isso. E passei um dia ou talvez meio dia no Google, e fiquei horrorizado com o que aprendi. E vou tentar explicar por que esse era o caso. “

Portanto, o senhor aprendeu em meio dia de pesquisa no Google o que havia para aprender sobre alterações climáticas. Se isto não é o expoente máximo de um Dunning-Kruger, não sei o que é. Não conheço melhor caricatura de um falso especialista. E, como tem um Nobel de Física, é levado a sério por algumas pessoas que acham que a autoridade é mais importante que a ciência estabelecida.

3 – Fazer cherry-picking da evidência. Escolher apenas os estudos científicos que vão de encontro às suas posições. Mais uma vez, é exatamente isso que a Sra. Maria Assunção Araújo promove quando diz que “Se forem contra o mainstream melhor ainda, porque o mainstream não sabe nada do assunto.” ou quando diz “Não me interessa ter cá alguém a dizer que a causa das alterações climáticas é o CO2: isso não é ciência é política“. Ou seja, não interessa ouvir as opiniões que têm por trás os milhares de climatologistas que trabalham na área. Não interessa a ciência e os consensos. O objetivo é apenas validar a posição negacionista.

4 – Exigindo padrões impossíveis para pesquisa. Ou seja, por mais ciência produzida, por mais replicações realizadas, por mais métodos de investigação desenvolvidos e que vão encontro às mesmas conclusões, nunca é suficiente. Existem sempre falhas. Existe sempre incerteza. Nada pode ser estabelecido sobre o tema. Este método é amplamente utilizado na área das alterações climáticas. Foi o mesmo método utilizado pela indústria do tabaco, dizendo que a ciência não está estabelecida e não foi provada a relação de causalidade entre o tabaco e o cancro, por mais avassaladores que sejam os dados.

5 – Uso da falácias, incluindo falácia da autoridade (muito usado nesta área, onde se apontam os currículos dos negacionistas e não os seus argumentos), deturpação dos resultados de estudos (extrapolando os resultados de determinados estudos ou as afirmações do IPCC por forma a validar os argumentos dos negacionistas) e falsas analogias. Informalmente, isso pode incluir uma mistura de meias-verdades e pequenas histórias e/ou redireccionar a atenção para tentar forçar o público a ignorar uma questão importante.

No caso específico das alterações climáticas, os argumentos e táticas dos negacionistas são tão recorrentes que foi possível estudar e estabelecer um padrão. O National Center for Science Education descreve a negação das alterações climáticas de origem antropogénica como uma série sequencial de argumentos. (1) Não existem alterações climáticas, (2) Afinal existem mas os seres humanos têm uma contribuição muito marginal na sua ocorrência,  (3) Afinal os seres humanos contribuem de forma importante para estas alterações, mas o impacto destas alterações para o ambiente e a sociedade é marginal. E por fim, (4) Aceitando isto tudo mas negando a capacidade dos seres humanos em alterar o rumo dos acontecimentos. Há quem tenha sido ainda mais metódico e definido seis estadios de negação das alterações climáticas de origem antropogénica. Uma série de passos em que os negacionistas vão mudando a sua posição à medida que os seus pontos de vista são refutados pela evidência científica demasiado expressiva para conseguirem contrariá-la:

  1. O CO2 não está a aumentar;
  2. Mesmo que esteja a aumentar, isso não tem impacto nas alterações climáticas e no aquecimento global, já que não existe evidência convincente que o planeta esteja a aquecer;
  3. Mesmo que o planeta esteja a aquecer, é devido a causas naturais;
  4. Mesmo que o aquecimento não possa ser explicado por causas naturais, o impacto do ser humano é marginal e o impacto da libertação de gases de efeito estufa é pouco importante;
  5. Mesmo que o impacto dos seres humanos nas alterações climáticas não seja negligenciável, as alterações serão boas para nós;
  6. Mesmo que as alterações não sejam boas para nós, os humanos são capazes de se adaptar à mudança; além disso, é demasiado tarde para fazer alguma coisa para alterar isso e alguma tecnologia irá surgir no futuro que irá resolver a situação.

Portanto caro leitor, quando encontrar alguém a negar as alterações climáticas, já lhe pode dizer em que ponto do negacionismo ele se encontra.

Mas em que ponto estamos sobre a ciência das alterações climáticas?

Um leigo na matéria, com a humildade suficiente para aceitar as suas limitações de conhecimento, perguntaria qual a posição da comunidade científica nesta matéria. E o consenso na comunidade científica sobre as alterações climáticas serem causadas pelo Homem é avassalador. Os sete estudos que avaliaram o consenso colocam-no entre 93 a 100% de concordância entre os especialistas na área (média de 97%).

consenso avassalador na comunidade científica sobre alterações climáticas

A avaliação da evidência realizada pelos institutos científicos é ainda mais relevante. Mais de 200 associações científicas a nível mundial que olharam para a evidência concorda com as alterações climáticas de origem antropogénica. Ou seja, elas existem e são provocadas pelo Homem.

Os consensos científicos emitidos por instituições não são falácias da autoridade, apesar de poderem parecer. Uma falácia da autoridade é uma falácia condicional, em que a pessoa tenta validar o seu ponto de vista apenas através do currículo das pessoas que defendem esse ponto de vista e não através da avaliação dos argumentos que utilizam.  Os consensos científicos não tendem a ser falácias de autoridade porque as posições são justificadas pela avaliação de toda a evidência existente e não pelos currículos das pessoas que emitem os consensos.

Mas o caro leitor pode ter dúvidas e dizer: “ah…mas porque é que existem 3% de cientistas que não concordam com os outros 97%?” – a pergunta é pertinente e a resposta vem sob a forma de um artigo científico que olhou para os artigos publicados pelos cientistas que não estão de acordo com o consenso. Perceberam que estes artigos não eram replicáveis devido a falhas metodológicas importantes. Ou seja, a evidência produzida contra o consenso era de fraca qualidade e muitas vezes contraditória entre si.

Concluindo: Um leigo na questão, humilde, concluiria que a ciência sobre as alterações climáticas de origem antropogénica está bem estabelecida e que o consenso na comunidade científica é esmagador. No entanto, os Dunning-Krugers das redes sociais que têm opinião sobre tudo, não concordarão. Portanto, agora passamos a falar sobre alguns desses argumentos que supostamente contrariam as alterações climáticas de origem antropogénica.  O blog Skepticalscience fez a recolha e respondeu a 197 mitos que continuam a propagar-se pelos Dunning-Krugers das redes sociais. Os que não falarmos aqui podem consultar no link.

“Mas as alterações climáticas sempre aconteceram!”

Sim…é verdade. As alterações climáticas sempre aconteceram e sempre acontecerão. Sabemos que existem vários fatores que influenciam esse aquecimento ou arrefecimento do planeta:

  1. Irradição Solar, que é influenciada pelo output de radiação solar, orientação do planeta Terra e a órbita do Planeta Terra;
  2. Concentração atmosférica de CO2 e outros gases de efeito-estufa como o metano;
  3. Concentração de aerossóis, provenientes dos vulcões, meteoritos e recentemente da poluição industrial. E estes tendem a arrefecer a Terra por bloquearem os raios solares.
  4. Fenómenos de amplificação, que aumentam o impacto destas alterações. Por exemplo, o aumento da humidade atmosférica ou a diminuição das calotes polares aumenta de forma expressiva o aquecimento global através de mecanismos de feedback positivo.

Isto é o básico.

Sabemos que o mundo tem aquecido e arrefecido ao longo de milhões de anos. Por exemplo, sabemos que os ciclos de aquecimento e arrefecimento que observamos nas últimas centenas de milhares de anos têm tido uma duração aproximada de 100.000. Estes ciclos têm sido estimulados principalmente por mudanças lentas na órbita da Terra, que alteram a maneira como a energia do Sol é distribuída de acordo com a latitude e a estação na Terra (os ciclos Milankovitch). No entanto, esta alteração da órbita da Terra não explica isoladamente os fenómenos de aquecimento e arrefecimento da Terra. O que esta mudança de órbita faz é desencadear uma reação em cadeia que leva, no caso do aquecimento, ao derretimento do gelo e aumento da libertação de gases de efeito estufa que amplifica a alteração de temperatura inicial e leva à transição de períodos frios para períodos quentes.

Como podemos ver no gráfico, o CO2 acompanha os períodos de aquecimento e arrefecimento dos últimos 800.000 anos.

ciclos de aquecimento e arrefecimento do planeta

O que os negacionistas dizem é que o CO2 só começa a aumentar 600-1000 anos após o início do aumento da temperatura. Ou seja, dizem que o CO2 não pode ser o causador do aumento da temperatura se o seu aumento vem depois do aumento da temperatura da Terra – conhecido como CO2 lag, algo descrito há mais de 40 anos e bem compreendido. Como disse acima, o iniciador do aumento de temperatura nos ciclos de aquecimento dos últimos 800.000 anos foi a alteração da órbita da Terra. Ou seja, foi o empurrão inicial. Mas 93% do aumento de temperatura que se seguiu é da responsabilidade do aumento de CO2.

Sabemos que a entrada no novo ciclo de aquecimento começou há cerca de 18.000 anos atrás, tendo nos últimos 7.000 anos levado ao aquecimento da Terra em 4-5ºC. No entanto, nos últimos 200 anos a Terra aqueceu 0.8ºC associado ao aumento de 40% de CO2 atmosférico. Esse aumento é derivado sobretudo da queima de combustíveis fósseis. Sabemos isso porque o CO2 existente na atmosfera não é todo igual. Existem vários isótopos de carbono. As emissões naturais são ricas em isótopos 14C e 13C. O tipo de CO2 que está a entrar na atmosfera é pobre nas frações 13C e 14C, o que nos indica que a proveniência do CO2 é das atividades humanas (combustíveis fósseis à cabeça).

Existe o chamado ciclo de carbono, que permite que o CO2 seja retirado da atmosfera através de um processo a que chamamos Chemical Weathering. Neste caso: CO2 + H2O = H2CO3 (ou ácido carbónico) que se deposita na forma de rochas calcárias. Outra forma que leva à diminuição das quantidades de CO2 atmosférica é a deposição de matéria orgânica sob a forma de carvão e petróleo (e mesmo através da reflorestação):

ciclo do dioxido de carbono

No entanto, o nível de emissões atuais é tão grande que não permite que este ciclo, que é relativamente lento, remova CO2 suficiente da atmosfera. Isso faz com que uma fração substancial do CO2 emitido pelas atividades humanas se acumule na atmosfera, onde parte dele permanecerá não apenas por décadas ou séculos, mas por milhares de anos. A comparação com os níveis de CO2 medidos no ar extraído de amostras de gelo indica que as concentrações atuais são as mais altas dos últimos 800.000 anos.

 Se as emissões continuarem inalteradas, então é expectável que até ao final do século a Terra aqueça em média 4ºC, o que significa que em 300 anos aquecerá tanto como nos 7000 anos anteriores. Esta rapidez de aquecimento é dez vezes superior que se observa nos períodos de aquecimento mais rápido devido a causas naturais. Só este simples sinal nos indicaria que os seres humanos têm um papel fundamental nas alterações climáticas que estamos a assistir.

“O CO2 não é o culpado das alterações climáticas. É um gás atmosférico residual.”

As primeiras observações que a concentração atmosférica do CO2 afeta a temperatura global foi estabelecida há mais de 120 anos. Em 1861, John Tyndall demonstrou que certos gases eram capazes de absorver a radiação térmica, incluindo o dióxido de carbono. Com base nisso, Tyndall concluiu que uma mudança na quantidade de gases de efeito estufa na atmosfera causaria necessariamente uma mudança climática. Em 1896, Svante Arrhenius publicou a sua teoria dos gases do efeito estufa no clima da Terra. Os seus cálculos sugeriam que a adição de dióxido de carbono teria um forte efeito sobre a temperatura da Terra (Arrhenius, 1896):

1896 estabeleceu relacao CO2 com aquecimento global

Esta relação foi confirmada com a publicação dos artigos de Hulbert  em 1931 e Callendar em 1938 onde estabeleceu matematicamente que o aumento atmosférico de CO2 teria um impacto importante no aumento da temperatura do Planeta Terra. De acordo com Hulbert:

Os cálculos demonstram que duplicar ou triplicar a quantidade de dióxido de carbono da atmosfera aumenta a temperatura média do nível do mar em cerca de 4° e 7ºK, respectivamente; reduzir para metade ou reduzir a zero o dióxido de carbono diminui a temperatura em quantidades semelhantes. Tais mudanças na temperatura são aproximadamente as mesmas que ocorrem quando a Terra passa de uma era glacial para uma fase quente ou vice-versa. Assim, o cálculo indica que a teoria do dióxido de carbono das idades do gelo, originalmente proposta por Tyndall, é uma teoria possível.

Com o acumular da evidência, em 1955 estabeleceu-se a “The Carbon Dioxide Theory of Climate Change“.

Mas como é que funcionam os gases efeito estufa?

A energia chega do sol na forma de luz visível e radiação ultravioleta. A Terra então emite parte dessa energia como radiação infravermelha (calor). Os gases de efeito estufa na atmosfera “capturam” parte dessa radiação e reemitem em todas as direções – incluindo de volta à superfície da Terra. Através deste processo, o CO2 e outros gases com efeito estufa mantêm a superfície da Terra 33°C mais quente, caso eles não existissem. Como nós adicionamos cerca de 40% mais CO2 à atmosfera, as temperaturas subiram cerca de 0.8ºC desde 1880 devido ao aumento deste efeito.

Mas como é que sabemos, dentro dos gases efeito-estufa, que o CO2 é o principal responsável?

Os negacionistas dizem que o CO2 tem pouco impacto no aquecimento global. Referem que o principal gás de efeito estufa é o H2O (a água) e que os restantes gases de efeito estufa menores, como o CO2, têm pouco efeito.

No entanto, a importância do CO2 pode ser observada analisando o espectro da radiação dos gases efeito estufa. Usando a espectroscopia FTIR de alta resolução, podemos medir os comprimentos de onda exatos da radiação de ondas longas (infravermelho) que chegam ao solo e verificar a sua origem. E o que se verifica é isto:

Os gases efeito estufa que irradiam a radiação infravermelha são, acima de tudo o CO2, CH4 (metano) e o O3 (Ozono). No entanto, o gás efeito estufa claramente mais importante é o CO2. Não só isso como sabemos através da avaliação por satélite que o planeta Terra está com maiores dificuldades em emitir o calor que recebe da irradiação solar. E sabemos que isso se deve principalmente ao CO2 e ao metano.

No gráfico acima não está contabilizado o efeito do H2O. E de facto, o H2O que é responsável por cerca de 60% do efeito estufa. Mas a quantidade de H2O presente na atmosfera é diretamente influenciado pela quantidade dos outros gases efeito estufa presentes. Ou seja, reage à quantidade dos outros gases efeito estufa presentes, aumentando e diminuindo conforme a concentração destes.

“O que provoca o aquecimento global e as alterações climáticas é a atividade solar/raios cósmicos”

Bem…para tirar essa dúvida basta avaliar a irradiação solar ao longo dos últimos 120 anos e a evolução da temperatura média global. E como é fácil de perceber pela imagem abaixo, a atividade solar tem-se mantido relativamente constante e se consideramos a média dos últimos 11 anos está a diminuir (linha azul), enquanto a temperatura da Terra está a aumentar (linha a vermelho):

atividade solar está a diminuir

Portanto, faz-me confusão isto ser, sequer, uma hipótese levantada e ainda defendida pelos negacionistas das alterações climáticas.

Depois temos a hipótese dos raios cósmicos galácticos, que é super engraçada. Sugere que, quando determinadas partículas carregadas de alta energia originárias de algum lugar da nossa galáxia chegam à Terra, são capazes de “semear” nuvens; assim, quando muitos raios cósmicos galácticos chegam à Terra, mais nuvens se formarão. As nuvens geralmente têm um efeito de arrefecimento da temperatura da Terra, porque refletem a luz do sol. Assim, esta hipótese sugere que uma alta atividade solar significa um campo magnético solar forte, que desvia estes raios cósmicos galácticos da Terra, o que significa menor formação de nuvens, o que significa que menos luz solar é refletida para longe da Terra, o que significa mais aquecimento.

Esse aquecimento causado pela ausência de raios cósmicos galácticos amplificaria o aquecimento já causado pelo aumento da atividade solar e vice-versa. O problema que nunca foi estabelecida uma relação entre os raios cósmicos galácticos e a formação aumentada de nuvens. Mais engraçado…o que se verifica é um aumento do número de raios cósmicos nos últimos anos (que deveria levar a um arrefecimento da terra), associado a uma diminuição da atividade solar e no entanto a Terra continua a aquecer.

alterações climáticas e raios cósmicos

Neste gráfico, a linha azul mostra que o número de raios cósmicos está a aumentar (a curva está invertida). Era suposto que o mundo estivesse a arrefecer se esse fosse um fator importante para definir a temperatura do planeta. No entanto, observa-se exatamente o contrário. Além disso, ao contrário do que se pensava anteriormente, as nuvens podem fazer parte de um efeito de feedback positivo que leva ao agravamento da temperatura do planeta Terra (artigo e artigo). Isto é algo que ainda não está totalmente esclarecido.

“Mas a atividade solar está a abrandar! Vamos entrar numa mini idade do gelo!”

A cientista Valentina Zharkova fez a apresentação de um artigo onde supostamente previa um abrandamento da atividade solar o que levaria a uma suposta mini idade do gelo. O primeiro erro foi a forma como os dados foram interpretados pelos divulgadores do encontro, onde diziam que a atividade solar iria decrescer 60% em 2030 sem clarificar que isso dizia respeito ao número de manchas solares e não a uma diminuição dramática da irradiação solar. Logo, ninguém disse, nem a própria autora, que iria haver uma mini idade do gelo. Além disso, mesmo que o modelo apresentado pela cientista estivesse correto, isso corresponderia a uma diminuição de 0.09 a 0.26ºC relativamente à temperatura média do planeta, o que equivale a 5-15 anos de emissões de gases efeito-estufa de origem antropogénica. Ou seja, poderia dar-nos algum tempo para implementar medidas e minimizar o impacto das alterações climáticas, mas não iria haver nenhuma mini idade do gelo.

Os defensores da mini idade do gelo referem que tal poderia acontecer porque houve uma mini idade do gelo no passado (conhecida como Maunder Minimum), quando o sol emitiu menos irradiação solar. No entanto, os modelos demonstram que o sol foi apenas um fator relativamente marginal na ocorrência dessa mini idade do gelo.

“Simulações de modelos climáticos sugerem que múltiplos fatores, particularmente a atividade vulcânica, foram cruciais para causar as temperaturas mais baixas no hemisfério norte durante a mini idade do gelo. Uma redução na irradiação solar total provavelmente contribuiu para isso num nível comparável ao aumento da utilização de terra pelos seres humanos.”

No entanto, mesmo esta diminuição da irradiação solar total parece não estar correta. Outros cientistas criticaram o modelo da Valentina Zharkova por ser muito simples, criado com base em apenas 35 anos de dados, e não conseguir reproduzir com precisão a atividade solar do passado. Valentina Zharkova tratou a atividade solar como um sistema simples e previsível quando na realidade o sol tem um comportamento mais aleatório e imprevisível (em termos científicos, “estocástico”).

Concluindo: Não vai haver nenhuma mini idade do gelo. Haja ou não haja diminuição da atividade solar. E o mais provável é que não haja diminuição importante da atividade solar.

“A contribuição dos seres humanos para as alterações climáticas é mínima!”

Na realidade, é precisamente ao contrário. Os estudos que fizeram uma avaliação do impacto dos seres humanos nas alterações climáticas, colocam-nos de longe como os principais causadores das mudanças recentes.

Na imagem abaixo, a contribuição percentual para o aquecimento global nos últimos 50-65 anos é separada em duas categorias: causas humanas (esquerda) e causas naturais (direita). Os vários estudos que avaliaram as diferentes contribuições utilizaram uma ampla gama de métodos independentes e forneceram múltiplas linhas de evidência de que os humanos são, de longe, a causa dominante do recente aquecimento global. Ironicamente, a maioria dos estudos demonstraram que as contribuições naturais têm sido no sentido do arrefecimento do planeta, o que mascara a contribuição humana. As duas maiores influências humanas são as emissões de gases de efeito estufa e de dióxido de enxofre, provenientes acima de tudo da queima de carvão, petróleo e gás natural (as emissões de enxofre tendem a ter um efeito líquido de arrefecimento do planeta, no entanto são um dos causadores da chuva ácida).

contribuição da humanidade para as alterações climáticas

Os estudos são Tett et al. 2000 (T00, azul escuro), Meehl et al. 2004 (M04, vermelho), Stone et al. 2007 (S07, verde), Lean e Rind 2008 (LR08, roxo), Huber e Knutti 2011 (HK11, azul claro), Gillett et al. 2012 (G12, laranja), Wigley e Santer 2012 (WG12, verde escuro), Jones et al. 2013 (J13, rosa), IPCC AR5 (IPCC, verde claro) e Ribes et al. 2016 (R16, roxo claro).

O quinto relatório do IPCC aponta exatamente no mesmo sentido. A atividade humana é de longe a responsável pelo aquecimento global, senão pela totalidade desse aquecimento entre o período de 1951 a 2010. O aquecimento observado é praticamente sobreponível às forças antropogénicas combinadas:

IPCC humanos principais contribuidores alteracoes climaticas

Portanto, nós somos definitivamente os maiores culpados. Neste momento não há grandes dúvidas sobre isso. E a cada relatório do IPCC, menos dúvidas subsistem:

IPCC e o aquecimento global - evolucao da posicao

Como refere na imagem, o primeiro relatório do IPCC em 1990 não quantificou a contribuição humana para o aquecimento global. Em 1995, refere que a evidência sugere que a influência humana era uma possibilidade. Em 2001 refere que seria provável que mais de 50% do aquecimento global observado desde 1951 seria provocado pelo Homem. Em 2007 refere que seria muito provável essa relação de causalidade (mais de 90% de probabilidade). Em 2013 refere que será extremamente provável a existência dessa relação de causalidade (95% de probabilidade). Em ciência é uma impossibilidade atingir resultados com 100% de certezas. Quando existem 95% de certezas, a tradução é: “O Homem é o responsável pelo aquecimento global a que assistimos desde 1951“.

“Mas os cientistas andaram a fabricar dados! Nunca ouviste falar do Climategate?”

Em 2009 um servidor  da Unidade de Pesquisa Climática (CRU) foi invadido e foram copiados milhares de emails e arquivos de computador sobre as alterações climáticas. A história surgiu primeiro nos sites dos negacionistas das alterações climáticas, popularizando o acontecimento como “Climategate”, já que estes defendiam que os emails mostravam que o aquecimento global era uma conspiração científica e que os cientistas manipulavam dados climáticos e tentavam suprimir os críticos. No entanto, quem ler os emails rapidamente percebe que a conversa diz respeito a trocas de opiniões científicas honestas e perfeitamente válidas.

Mas dado o frenesim em que se tornou este caso, graças ao histerismo dos negacionistas, foram realizadas oito comissões independentes, que investigaram as alegações de manipulação de dados, não encontrando evidência de fraude ou má conduta científica. O que se sabia antes das investigações foi o mesmo que se ficou a saber depois. O consenso científico sobre as alterações climáticas de origem antropogénica manteve-se inalterado. O único alerta das comissões de investigação foi para uma maior transparência dos cientistas por forma a “disponibilizar todos os seus dados de apoio – até os códigos de computador que usam – para permitir que suas descobertas sejam devidamente verificadas“. Ou seja, para que situações semelhantes a essa não acontecessem no futuro. Para quem quiser saber mais, a Nature acompanhou todo o processo.

“Mas os cientistas da NASA dizem que a ciência sobre o aquecimento global está errada!”

Mais uma vez, voltamos aos falsos peritos. Em 2012 um grupo residual de pessoas que trabalharam na NASA assinaram uma carta em que negavam a teoria “manistream” relativamente ao aquecimento global e as alterações climáticas. No entanto, apenas um número limitado das pessoas que assinaram essa carta tinha feito investigação na área da climatologia. E nessa carta não apresentaram qualquer argumento científico válido que levasse à revisão do consenso estabelecido. Ou seja, voltamos aos argumentos negacionistas falados acima. Voltamos aos típicos truques utilizados pela indústria do tabaco para criar confusão no público em geral quando não existe confusão nenhuma na comunidade científica.

“Mas os níveis de água do mar estão a subir menos do que era esperado! Os alarmistas climáticos não acertam uma!”

A Sra. Maria Assunção, negacionista (ou promotora do negacionismo) das alterações climáticas, publicou um estudo em que refuta os dados existentes relativamente à subida dos níveis do mar na ordem dos 4.1 mm/ano, na zona de Cascais. Refere que a incerteza dos dados não permite tirar essas conclusões. E que não estão de acordo com as medições realizadas em outros locais da Europa, que aponta para uma variação dos níveis do mar na ordem dos a 2,88 mm/ano. Isto está tudo correto.  No entanto, a Sra. Maria Assunção acha que somos alarmistas climáticos por achar que neste século irão ficar áreas submersas relacionadas com o aumento do nível do mar. Diz-nos que:

“Quando se discutem as mudanças ditas globais, há sempre posições particularmente alarmistas que afirmam que haverá regiões que podem ser riscadas do mapa devido à subida do nível do mar. Todos sabemos que, efetivamente, uma subida do nível do mar implica, naturalmente, um certo recuo da linha de costa. Por isso, quando se vê a linha de costa a recuar, muitas vezes se parte do princípio de que esse recuo é devido a uma subida do nível do mar… Ora isso pode não ser verdade. Só 10% da erosão costeira se deve à subida do nível do mar (Dias et al. 1997).”

O que a senhora falhou em perceber é que vai haver uma aceleração do aumento dos níveis do mar com o aumento da temperatura global, associada à expansão térmica e ao derretimento do gelo dos pólos terrestres.  Durante os anos 1901-1990 a elevação dos níveis do mar observada foi de 1.5 mm/ano. Entre 1993-2010 foi de 3.2 mm/ano. E essa elevação poderá aumentar para 8-16 mm/ano entre 2081-2100, dependendo dos níveis de CO2 atmosféricos.

A estimativa de aumento do nível do mar até 2100 é entre 0.28 centímetros a 1 metro de altura. Isto pode parecer pouco. Mas na realidade, e utilizando o exemplo da Flórida, o aumento de 1 metro o nível do mar leva a problemas catastróficos, tanto em perdas económicas, perda de áreas costeiras e um número brutal de deslocados:

2100 florida nivel do mar

Conclusão

Isto é apenas um cheirinho sobre alterações climáticas. Como referi acima, aconselho a verem os vídeos do PotHoler54 que explica em detalhe a grande maioria dos argumentos dos negacionistas e porque é que estão errados. Podíamos falar do que as alterações climáticas significarão para nós, sociedade, em termos de perda de qualidade de vida (menos produção agrícola e mais fome no mundo, mais doenças, mais refugiados, perdas económicas brutais, mais secas, tempestades mais intensas, etc), mas o artigo já vai longo.

Como nota final, saliento que isto é um assunto que devia preocupar toda a gente e indignar toda a sociedade quando grupos de negacionistas tentam criar a confusão na opinião pública (e com sucesso, pelo que tenho visto…não faltam oligofrénicos a negar as alterações climáticas nas redes sociais). Lembre-se que existe uma diferença muito grande quando falamos das alterações climáticas em comparação com as terapias alternativas ou o tabaco. É que quando alguém decide consultar um homeopata para tratar um cancro, é a pessoa que sofre com essa decisão. Quando alguém decide que não quer deixar de fumar e tem um cancro, é a pessoa que sofre com essa decisão. Mas quando temos oligofrénicos a negar as alterações climáticas e a adiar tomadas de decisões políticas para tentar travar o processo, todos nós sofremos com isso. E isto explica a indignação das pessoas sérias quando negacionistas montam “congressos” para, literalmente, mentir quanto à evidência estabelecida.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar