Mentiras Sobre o Sal - Crítica ao Lair Ribeiro

A Mudança do Paradigma do Sal – O Mítico Lair Ribeiro

admin Geral, Sal Leave a Comment

O mundo anda fascinado com Lair Ribeiro, o médico revolucionário que pretende mudar o paradigma da medicina.

Sou honesto…nunca me dediquei a ouvir o que o senhor diz, pelo menos até agora. No entanto, já que ele é citado por tantos charlatões, convém ir diretamente à fonte e saltar os intermediários.

Após ver alguns vídeos decidi que não poderia concentrar todas as afirmações do mítico Lair apenas num artigo…Por isso, vamos dividir os seus argumentos por tema e analisá-los à luz da evidência científica.

Começamos pelo Sal

A posição do Dr. Lair tem um sobre o sal que é uma autêntica abominação ao bom senso, à lógica e à racionalidade. Infelizmente os vídeos do Youtube onde o charlatão falava do sal foram removidos (sabe-se lá porquê). De qualquer forma, fica o resumo. No primeiro vídeo tínhamos as seguintes afirmações:

“O cloreto de sódio refinado não tem os outros 80 minerais, como também tem veneno.”

Lair, quando fala de cloreto de sódio refinado, refere-se ao sal de cozinha…que não tem os outros 80 minerais que alguns sais afirmam ter (como o sal dos Himalaias), mas tem veneno! Veneno, caros leitores!

Já abordamos este tema num outro artigo em que o Dr. Pinto Coelho aconselha beber água do mar. E já falamos que o sal, independentemente da fonte, tem mais de 97% de cloreto de sódio. O sal de cozinha por vezes atinge os 99% de pureza. O resto dos elementos são residuais e com pouco ou nenhum impacto na saúde dos consumidores.

Esta publicidade ao número de minerais é uma estratégia de marketing simplista do “quanto mais melhor”. O corpo humano apresenta na sua composição cerca de 41 a 60 elementos, dos quais alguns estão em concentrações residuais. Outros podemos considerar contaminantes, sem qualquer interesse em termos biológicos. Alguns desses contaminantes são elementos tóxicos e outros radioativos. Encontramos coisas como o Rádio, o Urânio, metais altamente radioativos.

Portanto, dizer que um sal tem 80 elementos ou dizer que tem 118 elementos (como afirmou o Pinto Coelho sobre a água do mar) é completamente indiferente. Não são elementos úteis, podem mesmo ser prejudiciais.

O sal de cozinha tem substâncias, solventes que são prejudiciais à saúde

O Dr. Lair fala de solventes no sal de cozinha…procurei em várias fontes que tipo de solventes existem no sal de cozinha e não consegui encontrar qualquer tipo de produto químico relevante. Além disso, não faz sentido encontrar solventes no sal, já que a própria definição de solvente é ser um composto que dissolve. A água é um solvente do sal…não me parece que seja um veneno ou um tóxico.

Como referi, o sal de cozinha é composto por mais de 97% de cloreto de sódio. Pode ser adicionado silicato de alumínio e de sódio ou carbonato de magnésio para manter o “sal solto”. Podemos adicionar iodeto de potássio como suplemento, importante principalmente em zonas geográficas onde a alimentação é pobre em iodo.

Não há muito mais no sal de cozinha. Podemos até dizer que será dos alimentos mais “puros” que ingerimos.

Os sais existentes são todos iguais no que concerne à saúde. Não vale a pena comprar sal rosa, azul ou amarelo às bolinhas. Está a gastar dinheiro sem qualquer proveito para a saúde.

O cloreto de sódio é outro problema sério…porque o cloreto de sódio causa hipertensão…o sal não!

Meus senhores e minhas senhoras, a licenciatura em medicina do Dr. Lair acabou de entrar em combustão espontânea. O sal é por definição cloreto de sódio…Como já falamos, o sal é composto 97 a 99% por cloreto de sódio. Não é preciso ser engenheiro de física atómica para perceber isto. 😉

Esta afirmação é a mesma coisa que dizer que os homens não engravidam mulheres. Indivíduos do sexo masculino engravidam indivíduos do sexo feminino.

Portanto, não é compreensível como um senhor que tem este tipo de afirmações tenha tantos seguidores por este mundo fora. É que não estamos a falar de ser charlatão. Estamos a falar de ser simplesmente ignorante relativamente aos conceitos mais básicos da semântica.

Os doentes que estão em “exaustão adrenal”, se ele não fizer uso de sal ele não sai da “exaustão adrenal”

Caros leitores…mais uma vez, a licenciatura do Dr. Lair faleceu, foi cremada e enterrada.  O que é a fadiga adrenal?

“A fadiga adrenal ou hipoadrenia são termos usados ​​na medicina alternativa para descrever a crença não científica de que as glândulas supra-renais estão esgotadas e incapazes de produzir quantidades adequadas de hormonas, principalmente o cortisol, devido ao stress crónico ou infecções. A fadiga adrenal não deve ser confundida com formas reconhecidas de disfunção adrenal, como a insuficiência adrenal ou doença de Addison.

O termo “fadiga adrenal”, cunhado em 1998 por James Wilson, um quiroprático, pode ser aplicado a uma coleção de sintomas inespecíficos. Não há evidências científicas que apoiem o conceito de fadiga adrenal e não tal conceito não é reconhecido pela comunidade médica. Uma revisão sistemática não encontrou evidências científicas para apoiar o termo fadiga adrenal, confirmando o consenso geral entre as sociedades endocrinológicas de que é um mito.

O teste sanguíneo ou à saliva é por vezes oferecido para fazer o diagnóstico, mas não há evidências de que a fadiga adrenal exista ou possa ser testada. O conceito de fadiga adrenal deu origem a uma indústria de suplementos alimentares que são comercializados para tratar esta condição. Esses suplementos não são regulados de forma eficaz nos EUA, são ineficazes e, em alguns casos, podem ser perigosos “.

Resumindo…o conceito de fadiga adrenal foi inventado em 1998 por um quiroprata, sendo aplicado a uma coleção de sintomas inespecíficos. Segundo este conceito, as glândulas adrenais estão “exaustas” e não produzem a quantidade adequada de hormonas, principalmente cortisol.

No entanto, não existe qualquer evidência científica que apoia a existência desta “doença”. As sociedades de endocrinologia consideram esta doença um mito. Os testes que são oferecidos para diagnosticar esta “doença” para nada servem. Apesar disso, conceito de fadiga adrenal levou ao surgimento de uma indústria de suplementos alimentares para dar resposta a este “problema”. Os suplementos são ineficazes ou mesmo perigosos para a saúde.

Porque quando temos exaustão adrenal, já temos deficiência de aldosterona. E um dos componentes do tratamento é introduzir sal…integral…pelo que eu recomendo uma colher de sal num copo de água e tomar juntamente com os medicamentos. Não adianta comprar sal marinho refinado, porque é cloreto de sódio…

Bem…o Dr. Lair tem que organizar o pensamento, mesmo quando está a tentar aldrabar as pessoas. Primeiro, para que serve a aldosterona? Quais as suas funções fisiológicas?

A função principal da aldosterona é a manutenção do volume de líquido extracelular, por conservação do sódio corporal; quando é detetada uma redução desse volume a nível do rim, despoleta uma série de mecanismos que levam à produção de aldosterona, com o objetivo de repor o volume de líquido extracelular considerado adequado.

Resumindo, a aldosterona:

  • Leva ao aumento da concentração de sódio no sangue/líquido extracelular;
  • Provoca uma perda de potássio (excretado nos rins para absorver o sódio);
  • Aumenta a absorção de cloro;
  • Aumenta a absorção de água a nível renal.

Ou seja, a principal função da aldosterona é na regulação do sódio, potássio, cloro e água. Então porque é que o mítico Lair fala do sal refinado como sendo mau para tratar o “défice de aldosterona”?! E se os outros sais tem mais de 80 elementos, qual o seu interesse no mecanismo da aldosterona?! Nenhum.

Não satisfeito com as asneiras que ouvi no primeiro vídeo, fui ver um segundo vídeo sobre o assunto (infelizmente também já não está disponível)…

Neste segundo vídeo o Dr. Lair refere que o sal não afeta a hipertensão, baseando-se no estudo INTERSALT. No entanto, as conclusões do estudo são diferentes do que o Dr. Lair afirma. Refere que apenas em 4 centros foi encontrada correlação entre o consumo de sal e hipertensão…nos restantes 48 centros associados ao estudo essa correlação não foi encontrada.

Coloco apenas as conclusões:

“Os resultados do INTERSALT, que concordam com os resultados de diversos outros estudos, incluindo dados de observações clínicas, intervenções terapêuticas, ensaios clínicos randomizados, investigação em animais, investigações fisiológicas, investigação na área da biologia evolutiva e antropologia e estudos epidemiológicos, apoiam a afirmação de que altos níveis de consumo de sal é uma das exposições evitáveis, quantitativamente importantes, que causam o padrão desfavorável de pressão arterial na população e que é um fator de risco importante para a epidemia de doenças cardiovasculares. “

Ou seja, o estudo INTERSALT apoia que um consumo alto de sal é um fator importante para o aparecimento de hipertensão e surgimento de doença cardiovascular. Logo, o Dr. Lair mente quando se apoia neste estudo para validar a sua posição.

Depois refere que afinal não consumir sal leva a uma diminuição da tensão arterial…mas esta diminuição é mínima (1.27 mmHg na sistólica e na diastólica de 0.54 mmHg), o que não tem qualquer relevância clínica. Vamos ver o que diz a evidência sobre a redução da pressão arterial com redução do consumo de sal. Estudo da Cochrane de Abril de 2017:

“A redução de sódio de um nível médio de ingestão elevado (201 mmol/dia) para um nível médio de 66 mmol/dia, abaixo do nível superior recomendado de 100 mmol/dia (5,8 g de sal), resultou numa diminuição Pressão arterial sistólica (PAS/Pressão arterial diastólica (PAD) de 1/0 mmHg em participantes brancos com normotensão e diminuição da PAS/PAD de 5,5/2,9 mmHg em participantes brancos com hipertensão. Alguns estudos mostraram que esses efeitos nas populações negra e asiática foram maiores. “

Portanto, numa pessoa sem hipertensão, uma dieta pobre em sódio leva a reduções marginais. No entanto, num doente hipertenso já não é bem assim. A redução atinge valores de 5.5mmHg na sistólica e de 2.9mmHg na diastólica. É espectacular? Não…mas é muito superior ao que o Dr. Lair afirma ser.

Depois o Dr. Lair usa o estudo NANHES I e NANHES II para dizer que uma dieta baixa em sal aumenta o risco de morte por doenças cardiovasculares ou mesmo a mortalidade geral. Isto é verdade…mas não totalmente verdade.

Primeiro, é preciso compreender que o estudos NANHES são estudos observacionais. A sua qualidade é intermédia. De qualquer forma vamos considerar estes estudos:

O que diz o NANHES I sobre o sódio:

“Este estudo observacional não justifica qualquer recomendação dietética específica. Especificamente, estes resultados não apoiam as recomendações atuais para a redução rotineira do consumo de sódio, nem justificam o aconselhamento para aumentar a ingestão de sal ou diminuir a sua concentração na dieta.”

Portanto, este estudo não recomenda a restrição de sódio na dieta.

O que diz o NANHES II sobre o sódio:

“O Hazard Ratio ajustado para a mortalidade por doenças cardiovasculares para uma ingestão de sódio <2300 mg foi de 1,37 (IC95%: 1,03-1,81, P = 0,033) e 1,28 (IC95%: 1,10-1,50, P = 0,003) para a mortalidade geral. A ingestão nos intervalos de referência entre os 1900-2700 mg deram os mesmos resultados. Os resultados também foram consistentes na maioria dos subgrupos examinados, mas não foram observadas associações para aqueles com <55 anos de idade, não brancos ou obesos.

A associação inversa do consumo de sódio com a mortalidade por doença cardiovascular que aqui observamos levanta questões sobre as vantagens para a saúde com uma dieta com baixo teor de sódio. Estes resultados destacam a necessidade de um estudo mais aprofundado sobre a relação entre sódio na dieta e a mortalidade “.

Portanto, o consumo de sal inferior a 2.7g/dia parece aumentar o risco de doença cardiovascular e mortalidade geral.

É aqui que o Dr. Lair pára…Mas existe o NANHES III, que diz:

“As associações observadas entre o baixo consumo de sódio com maior mortalidade foram modestas e na sua maioria não eram estatisticamente significativas. No entanto, estes achados também sugerem que, para a população geral adulta dos EUA, é improvável que o consumo aumentado de sódio esteja independentemente associado um risco maior de doenças cardiovasculares ou mortalidade por todas as causas”.

A observação de um consumo baixo de sódio com um aumento da mortalidade é modesto e na maioria não é estatisticamente significativo.

Uma outra avaliação dos dados do NANHES III conclui:

“A nossa avaliação sugere que uma maior ratio sódio-potássio está associado a um risco significativamente aumentado de doenças cardiovascular e mortalidade por todas as causas, e a maior ingestão de sódio está associada ao aumento da mortalidade total na população geral dos EUA”.

Quanto maior o rácio sódio/potássio, maior o risco de mortalidade geral e por doenças cardiovasculares. Um consumo alto de sódio está associado ao aumento da mortalidade geral na população americana.

Isto significa que o Dr. Lair faz “cherry-picking” de estudos para validar a sua opinião. Fazer cherry-picking significa escolher os estudos científicos que confirmam a nossa opinião ignorando toda a restante evidência produzida.

Eh pá…que confusão?! Então o sal faz mal ou não?

Caro leitor, como TODOS OS NUTRIENTES, nem demais, nem de menos. Pede-se moderação, já que parece existir uma curva em U associada ao consumo de sal:

“Tanto o baixo consumo de sódio quanto o alto consumo de sódio estão associados ao aumento da mortalidade, consistente com uma associação em forma de U entre a ingestão de sódio e os desfechos em saúde”.

“O nosso estudo acrescenta ao relatório da  o relatório do Institute of Medicine, identificando uma faixa específica de ingestão de sódio (2.645-4.945 mg) associada aos resultados de saúde mais favoráveis, dentro dos quais a variação na ingestão de sódio não está associada à variação na mortalidade”

Ou seja, assumir o consumo de 2.7 g a 4.9 g de sal por dia. A Direção Geral de Saúde, citando a Organização Mundial de Saúde, aconselha um consumo inferior a 5 g/dia…o que está de acordo com o que falamos aqui. No entanto, o consumo deverá ser ajustado de acordo com as patologias de que o doente padece (link no final).

O Dr. Lair refere que a evidência produzida sobre o baixo consumo de sal foi “deixada de lado, porque o paradigma que domina é que uma dieta baixa em sal faz bem”…espero ter esclarecido os leitores que isso não é verdade.

Concluindo

Ninguém está a esconder nada. Ninguém está agarrado a nenhum paradigma. A única diferença é que a medicina e a ciência seguem a evidência científica na sua globalidade. Não seguem apenas alguma evidência produzida para fazer capa de jornal, vender consultas ou ser polémico.

Se por acaso a evidência científica ficar mais sólida relativamente à ingestão de sal, novos consensos serão produzidos relativamente aos níveis de consumo aconselhados.

Só relativamente ao sal e hipertensão é que o Dr. Lair utilizou ciência. No restante, apresenta-se como mais um charlatão, que tenta vender falsos tratamentos para falsas doenças. Que pretende ser diferente da norma porque é a única forma que tem de sobressair da multidão. Não pela competência, mas pela polémica e controvérsia.

Assim, atribui 7/1o na escala de charlatanice em formato “Tiririca, pior que tá não fica.

Se chegou até aqui, é porque está mesmo muito interessado neste assunto! 😀

Sendo assim, deixo um artigo muito completo sobre esta controvérsia.

Sodium and Its Role in Cardiovascular Disease – The Debate Continues.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar