Sobre Unicórnios e Meridianos: Uma análise crítica à Medicina Veterinária Tradicional Chinesa

admin Acupuntura, Geral, Medicina Tradicional Chinesa, Medicina Veterinária Leave a Comment

Nota: Esta publicação é baseada no artigo “A Irrelevância da Medicina Veterinária Integrativa”, publicado no número 114 da revista VETERINÁRIA ATUAL.  O artigo foi realizado para fazer o contraditório à opinião da médica veterinária Someia Umarji, publicada no número 112 da revista VETERINÁRIA ATUAL, que pretendia demonstrar a relevância que as práticas ditas integrativas têm para a medicina veterinária contemporânea.

As ideias expressas no artigo que se segue são da exclusiva responsabilidade do seu autor.

Introdução

Nos últimos anos, a Medicina Tradicional Chinesa (MTC) tem ganho popularidade na área da Medicina Veterinária. Basta uma pesquisa rápida na internet para encontrar ofertas de serviços veterinários baseados na MTC, como seja a acupunctura e a fitoterapia, sendo que o interesse dos media tem dado visibilidade acrescida a este tipo de modalidades diagnósticas e terapêuticas. Se por um lado se louva a visibilidade que a prática da MTC em medicina veterinária agora goza –  na medida em que essa visibilidade acarreta acrescidas responsabilidades – por outro lado teme-se que os equívocos que a MTC encerra possam induzir em erro profissionais de saúde animal assim como o público em geral. Pretende-se com este artigo esclarecer alguns desses equívocos.

Em primeiro lugar, convém frisar que não pretendo com este exercício ofender o mérito profissional ou pôr em causa a competência dos colegas que praticam a MTC. Não tenho dúvidas que estes colegas actuam com total profissionalismo e na convicção que o fazem no melhor interesse dos animais ao seu cuidado. Nada disso, no entanto, legitima que a visão dominante da MTC, nomeadamente em contexto veterinário, permaneça sem contraditório.

Em segundo lugar, uma declaração de interesses: embora me considere um clínico de animais de companhia por formação profissional, não exerço prática clínica como actividade económica. Sou um amante da história da medicina veterinária e investigador em ética e deontologia profissional, pelo que o meu interesse está na procura da verdade e na defesa dos melhores interesses da profissão veterinária. Posto isto, passemos aos equívocos que é forçoso esclarecer.

Equívoco 1: O conceito de medicina integrativa

A Medicina Tradicional Chinesa faz parte de um conjunto de terapias alternativas, também designadas como ‘medicinas integrativas’. Não parece existir uma definição universalmente aceite de medicina integrativa, sendo que este termo tem aparecido junto a alguns sectores como complementar ao termo ‘medicina holística’, no sentido de designar práticas que “têm por finalidade um restabelecimento orientado da saúde, com o objectivo de cuidar dos três aspectos fundamentais do ser humano, o aspecto físico, o aspecto psíquico e o aspecto energético, os quais devem interagir em sinergia, de forma a manter um bom estado de equilíbrio” (www.omi.pt). Se os aspectos físicos e psíquicos constam na definição de saúde aprovada pela Organização Mundial de Saúde (OMS), a terceira dimensão da saúde – o aspecto energético – aparece aqui como uma espécie de novidade. Mas será assim?

Com efeito, a MTC basea-se no fluxo do Qi, a energia vital que percorre o corpo através de canais, ou meridianos, e que pode ser modelada estimulando determinados pontos de acupunctura. Mas parece haver pouco de integrativo em práticas que envolvem inserir agulhas num animal para tratar epilepsia ou queimar ervas junto das agulhas para tratar osteoartrite. Pelo contrário. Haverá algo mais redutor do que cingir a complexidade de um organismo vivo a pretensos fluxos energéticos, esquecendo (ou ignorando) conceitos de homeostasia, metabolismo e fisiopatologia? Medicina integrativa é toda aquela que integra vários sistemas e abordagens, e que é capaz de atender ao animal como um todo ao invés de o reduzir a uma única dimensão (seja ela um problema dermatológico, cataratas ou um desiquilíbrio no Qi). Um bom exemplo de medicina integrativa inclui uma anamnese exaustiva, seguida de um exame físico completo, consubstanciado pelos exames diagnósticos complementares que forem adequados. Não é necessário recorrer a conceitos esotéricos e cientificamente não provados (como deficiência do Jing ou síndrome Bi Fleuma) para se dar respostas holísticas e integrativas como as que se podem encontrar na medicina baseada na evidência.

Equívoco 2: A acupunctura veterinária remonta há milhares de anos

A verdade é que não remonta. A ideia de que a acupunctura veterinária vem desde a domesticação animal é pura fantasia, uma mera reverberação de afirmações nunca verificadas. Vários são os autores que defendem esta teoria apresentando inclusivamente referências corroborá-la. Da mesma forma, parece ser comum a ideia de que uma milenar escultura em baixo relevo da Dinastia Han representa soldados a fazer acupunctura com flechas nos seus cavalos. É pena que nenhuma destas referências remeta para uma prova convincente dessa prática, como a transparência e o rigor aconselham, mas isso não nos impede de fazer uma análise crítica ao que é dito. Para isso recorro a duas imagens, aqui reproduzidas com a devida autorização de David Ramey e a quem agradeço.

A Figura 1 é tida pelos defensores da acupunctura como representando pontos de inserção das agulhas no cavalo. É retirada do Yuan Heng liao ma ji, Tratado Terapêutico do Cavalo de Yuan Heng (1608). Mas o que parece ter acontecido é confundir os traços que legendam a figura com agulhas espetadas e os pontos que indicam os locais de impactação intestinal com pontos de acupunctura. Esse talvez fosse um erro compreensível numa época onde as infografias eram raras. Mas numa época visual como a nossa, não nos é difícil identificar na figura uma legenda para os locais de cólica no cavalo. Diagramas como estes em seres humanos, cavalos, elefantes e outros animais terão sido mal interpretados como representando mapas de acupunctura e ainda hoje são usados como suporte para esta prática.

Figura 1 – Reprodução de uma xilografia retirada do Yuan Heng liao ma ji (1608) representando os locais de impactação no abdómen do cavalo. Imagem gentilmente cedida por David Ramey (DVM).

O mais extraordinário é que nos textos que acompanham estas figuras existam tantas referências a unicórnios como à prática da acupunctura. Isso não parece impedir, no entanto, os seus defensores de persistir no erro até aos dias de hoje. Do mesmo modo, os soldados a que outros autores fazem referência não estão a espetar flechas no peito dos cavalos para os estimular antes da batalha; estão, pelo contrário, a removê-las durante a batalha como se pode ver na Figura 2 que representa o General Qiu Xinggong retirando uma flecha do peito do cavalo de Li Shimin, futuro imperador Taizong, da Dinastia Tang.

Figura 2 – Desenho feito a partir do baixo relevo da Dinastia Han (206 a.C. – 220 d.C.), Chinese Rotunda, University of Pennsylvania Museum of Archaeology and Anthropology. Imagem gentilmente cedida por David Ramey (DVM).

Para rematar esta sequência de equívocos históricos, é comum considerar-se que Sun-Yang escreveu o Cânone de Medicina Veterinária, no Séc. VII a.C, naquele que seria o primeiro tratado da arte veterinária do mundo. Só que não escreveu. Aliás, não se conhece nenhum escrito de Sun-Yang e muito pouco se sabe sobre ele (se é que realmente existiu). A obra a que se faz referência (Bai Le zhen jing, no mandarim original) terá sido escrita um milénio após a sua morte, e onde a referência a acupunctura é no mínimo duvidosa já que as supostas agulhas (zhen) parecem fazer referência a qualquer objecto afiado ou em brasa usado para sangrar ou cauterizar os cavalos e não para efeitos de acupunctura (artigoartigo). Já agora, aproveito para clarificar que o mais antigo texto chinês de medicina veterinária a chegar aos nossos dias (Simu Anji Ji) data talvez do século XIV e não faz qualquer referência a acupunctura. Não há, portanto, evidências históricas de que a acupunctura veterinária fosse realizada desde a idade média e muito menos desde a antiguidade. Mas pelo menos numa coisa os defensores da MTC estao correctos ao afirmarem que a acupunctura remonta a lendas antigas. A lenda e o mito, embora sirvam para nos ajudar a explicar de onde vimos e o que somos como civilização, não chegam para justificar práticas diagnósticas e terapêuticas.

Equívoco 3 – A Acupunctura assenta em evidências científicas sólidas

Não assenta. Na verdade, os ‘artigos minuciosos’ citados pelos defensores da MTC não apresentam a evidência de eficácia da acupunctura que parecem sugerir. É provável que lhes seja difícil avaliar a validade e relevância da evidência produzida por estes trabalhos experimentais, já que os estudos são por norma fracos e mal desenhados. Por exemplo, um estudo que defende a eficácia da acupunctura no controlo da epilepsia canina baseia os seus resultados num grupo heterogéneo e não controlado de 15 cães e ignora os efeitos do propofol, um anestésico usado no controlo de status epilepticus, como possível explicação.

Ainda assim, é verdade que, de entre todas as terapêuticas não convencionais, a acupunctura será aquela que apresenta resultados menos desmolarizadores no que à eficácia diz respeito. Ninguém disputa o facto de que inserir agulhas num animal (humano ou não humano) provoca efeitos neurofisiológicos mensuráveis, mas isso não quer dizer que a técnica de acupunctura tenha efeito terapêutico. Um estudo clínico cego, controlado e randomizado da Harvard Medical School demonstra que o que parece ter efeito terapêutico em humanos não é a acupunctura em si mas a atenção dada ao paciente. E neste particular a medicina convencional tem muito a aprender com a Medicina Tradicional Chinesa (MTC). Por sua vez, uma revisão sistemática de 2006 não encontrou evidência suficiente para aconselhar a utilização de acupunctura em medicina veterinária. Estudos em animais com implantes de ouro demonstram que é a manipulação do paciente e libertação de factores inflamatórios associados à prática da acupunctura que tem efeito terapêutico e não a inserção de agulhas nos meridianos. Outros estudos indicam que tanto dá que se espetem agulhas nos meridianos ou fora deles, o que parece deitar por terra a existência do próprio conceito de meridiano. Tudo indica que a acupunctura é apenas uma forma um pouco mais teatral de neuro-modelação, como esfregar o braço depois de batermos com ele contra a esquina da porta. Mais: se o efeito terapêutico entre falsa e verdadeira acupunctura for equivalente, como uma revisão sistemática parece sugerir, o ónus da prova está do lado dos acupunctores para justificar o uso de uma terapêutica invasiva e potenciamente desnecessária (espetar agulhas) ao invés da sua vertente não invasiva (pontos de pressão).

Equívoco 4 – A Medicina Tradicional Chinesa é uma ciência milenar

Não é. Mas como não, se é praticada há milhares de anos? Pois, mas o que eu quero dizer é que existem dezenas, senão centenas de MTC e não apenas uma. Aquilo que é conhecido no Ocidente como MTC não é mais do que uma invenção recente, uma moeda de exportação inventada pelo regime comunista chinês de Mao Tse Tung, e apresentada à comitiva do então presidente Norte-Americano Richard Nixon na sua visita à China em 1972, para consumo ocidental. Não existe, nem nunca existiu, um corpus homogéneo e cabalmente definido daquilo que são os princípios e as práticas da MTC. A MTC mais não é do que um apanhado de práticas médicas milenares que chegaram aos nosso dias com uma roupagem diferente dependendo de quem as veste. E a MTC que é ensinada em algumas universidades do mundo ocidental tem muito pouco a ver com aqueles princípios profiláticos e terapêuticos que terão contribuído para o avanço civilizacional do Império do Meio (artigoartigo). Acima de tudo, a MTC – uma prática que tinha sido banida da própria China na primeira metade do Século XX por ser considerada supersticiosa – é actualmente um florescente negócio estratégico controlado pelo Partido Comunista Chinês. De tal forma assim é que o governo chinês avançou com uma lei que visa isentar os medicamentos tradicionais chineses de testes de controlo de eficácia e segurança, para que nada impeça esta ‘jóia’ de prosperar. E assim o negócio da MTC prospera dentro e fora da China por pressão política e não devido ao seu mérito científico. Mas já lá vamos.

Equívoco 5 – O confronto entre Medicinas Ocidental e Oriental

A Medicina Ocidental não existe, pese embora ser um termo utilizado com frequência na literatura médica. Da mesma forma que não existe uma medicina oriental também não existe a medicina ocidental. Medicina há só uma, aquela que se baseia na evidência científica, e mais nenhuma. Quanto muito, podemos chamá-la de medicina convencional em oposição às terapêuticas (que não medicinas) não convencionais. Chamar medicinas ocidental e oriental parece remeter o debate para um confronto civilizacional entre ocidente e oriente, entre o moderno e o tradicional, entre o artificial e o natural, entre o reducionista e o holístico. Todos estes conceitos são falaciosos e pretendem apresentar um valor acrescentado ou uma virtude da segunda relativamente à primeira. Da mesma medida, não se pode dizer que uma é boa e outra é má (ou vice-versa). Aliás, a medicina convencional peca de muitos defeitos, alguns dos quais colocam em questão a própria eficácia de tratamentos em pacientes oncológicos. Mas a MTC peca de muitos mais, como sejam o cruel mercado das barbatanas de tubarão para prevenir o cancro, a criação em cativeiro de ursos para a extracção em vida da sua bílis, ou a caça furtiva de rinocerontes para abastecer o mercado com materia medica feita à base do seu corno com a promessa de que previne a impotência sexual masculina.

Equívoco 6 – A MTC tem suporte científico

No geral, não tem e, a menos que assuma os seus erros e limitações, dificilmente terá. Tomo como exemplo o artigo da Someia Umarji, que faz um paralelismo entre displasia da anca e deficiência do Jing e entre excesso de peso e Síndorme Bi Fleuma. Mas ao passo que a displasia de anca é um diagnóstico observável, mensurável e (por vezes) tratável, nunca ninguém observou ou mediu o Jing, quanto mais a sua deficiência. Da mesma forma, o excesso de peso é um problema de saúde grave para humanos e animais domésticos à escala global, ao passo que o síndrome Bi Fleuma não consta nas patologias a combater pela OMS, porque simplesmente não existe. Colocar conceitos pseudo-científicos lado a lado de conceitos cientificamente validados não chega para lhes conferir validade científica. Conceitos como fleuma foram desacreditados há pelo menos 150 anos quando a teoria dos germes veio definitivamente deitar por terra as milenares teorias humoral e miasmática. Nesse mesmo artigo,  a autora Someia Umarji defende que a MTC “se mantém actual exactamente pelas descobertas recentes da Medicina Ocidental”. Nada mais falso; pelo contrário, a MTC não parece ter acompanhado os avanços da ciência médica dos últimos dois séculos e apresenta-se como um anacronismo romântico que tem o dom de cativar os espíritos atraídos pelo orientalismo New Age. E aqui fazem falta umas lições de história da medicina: se conhecermos o contexto histórico a partir do qual se acreditava existir uma essência vital (Jing) ou um humor chamado Fleuma, percebemos de que forma esses conceitos preenchiam um vazio de saber e ofereciam uma explicação minimamente plausível para fenómenos para os quais não existia ainda uma explicação, explicação essa que a ciência médica hoje oferece para além de qualquer dúvida razoável.

Conclusão

É sabido que as terapêuticas não convencionais têm ganho adeptos, nomeadamente na área da medicina veterinária. Num tempo de pós-verdade e em que a informação é livre, gratuita e omnipresente, distinguir factos de ficção tornou-se cada vez mais difícil. Conhecer o passado da nossa profissão é uma competência importantíssima para compreender o presente e preparar o futuro. Para além disso, a qualidade da evidência científica de trabalhos experimentais na área da medicina veterinária é muito variável e torna-se necessário dotar a comunidade veterinária de competências para saber avaliar a validade desses trabalhos. Estes são problemas mais profundos que requerem análises mais aprofundadas. Para já, espero que este artigo de opinião ajude a esclarecer alguns dos equívocos associados à Medicina Tradicional Chinesa e promova um debate, que se quer cordial e fundamentado, sobre o lugar desta prática na medicina veterinária contemporânea.

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Dr. Manuel Sant´Ana

Especialista Europeu Veterinário em Bem-estar Animal