termografia funciona ou não

Termografia – Charlatanice Imagiológica?

admin Charlatanice, Geral, Termografia Leave a Comment

Não é segredo nenhum que não morro de amores pelas medicinas alternativas. Simplesmente porque se está catalogado como alternativo é porque não funciona, não provou que funciona ou então os benefícios são claramente inferiores ao prejuízo de recorrer a essas práticas. De tudo o que já li nas redes sociais, esta está certamente no top 10:

termografia não funciona

Portanto, uma senhora visitou um Alternativo-Mor que lhe fez uma termografia e detetou cancro da mama. Em vez de encaminhar para o médico de família ou para o hospital, decidiu iniciar um tratamento durante dois meses com suplementos vitamínicos sem qualquer eficácia comprovada. Passados dois meses iria repetir a termografia.

Primeiro, o comportamento do Alternativo-Mor coloca em causa o cliché habitual que os alternativos tanto gostam de publicitar: as terapias alternativas são “complementares à medicina convencional”. O Alternativo-Mor decidiu que a medicina convencional, perante um cancro da mama, não teria nada a oferecer que a medicina alternativa não oferecesse. E já vimos o sucesso dessa abordagem.

Este comportamento poderá ser justificado de duas formas. Ou o Alternativo-Mor vive num mundo completamente diferente do nosso, desligado da realidade, e acha mesmo que seria possível tratar um cancro da mama com vitaminas; ou isto tudo era um jogada promocional. Passados dois meses a doente repetiria a termografia e não iria ser detetado o cancro da mama. Diria à senhora que foi curada graças aos seus tratamentos inúteis. Criaria desta forma mais um testemunho, que iria divulgar a sua história e colocar o Alternativo-Mor num pedestal, aumentando a sua fama e clientela.

Isto são conjunturas da minha parte sem grande validade, obviamente. No entanto, vamos aproveitar este testemunho para responder às seguintes questões: a termografia funciona? Se sim, para quê? Deteta cancros da mama?

O que é a termografia?

Ao contrário de outros meios complementares de diagnóstico alternativos, a termografia tem plausibilidade biológica. Ou seja, baseia-se em princípios científicos válidos. Não há magia, vibrações quânticas, energia Qi,  Karmas ou abordagem homúnculo.

 Os dispositivos termográficos permitem observar a emissão de calor das superfícies do corpo, reproduzindo imagens num computador que o “terapeuta” interpreta. Ou seja, basicamente são câmaras que detetam a radiação na gama dos infravermelhos, tendo  várias aplicações práticas na área médica e fora da área médicaOs bombeiros usam a termografia para ver através do fumo, encontrar pessoas e localizar a origem do incêndio. Os técnicos de manutenção usam a termografia para localizar as juntas de sobreaquecimento e as seções de linhas de energia mais quentes, que são um sinal de falha iminente. Os técnicos de construção de edifícios podem identificar vazamentos de calor através do isolamento térmico defeituoso e usar os resultados para melhorar a eficiência energética do edifício, por exemplo.

O primeiro sensor elétronico foi inventado na década de 40. As primeiras imagens eram extremamente rudimentares, como esta fotografia tirada em 1949:

Com o passar do tempo os instrumentos termográficos foram melhorando. Maior resolução, maior detalhe da imagem e começou a ser possível a representação da imagem a cores:

Com a melhoria da qualidade dos dispositivos, cada vez mais baratos e com menores necessidades de manutenção, a sua utilização começou a ser comum na medicina. No entanto, como iremos ver, há sempre quem utilize um instrumento com potencialidades de forma errada, exagerando as suas capacidades e aplicando o método em situações inúteis ou para as quais existem alternativas muito melhores.

Quais as aplicações práticas atribuídas à termografia pela medicina alternativa?

Consultando alguns sites de clínicas que oferecem este serviço, a termografia serve para quase tudo, haja evidência disso ou não. E quem os impede, já que há uma completa falta de regulação neste área? Há que rentabilizar o investimento… Segundo a Clínica Capitalis (mais uma para evitar), a termografia serve para:

  • LER – Lesões Esforço repetitivo 
  • Fibromialgias
  • Lesões desportivas
  • Doenças de Ossos, Articulações e Músculos
  • Doenças de Ouvidos, Nariz e Garganta
  • Doenças Cardiovasculares
  • Doenças Ginecológicas
  • Doenças Andrológicas
  • Doenças Imunológicas e Hematológicas
  • Tumores de Pele
  • Doenças da Mama
  • Tiróide
  • Doenças Gastrointestinais
  • Doenças Pulmonares
  • Doenças Endocrinológicas
  • Trato Urinário
  • Doenças Nervosas 
  • Despiste de situações de falsas dores ou prova da sua existência.

Adoro a última…despistar entre dores falsas e dores verdadeiras…os médicos das juntas de renovação de baixa médica ficariam extremamente contentes com um instrumento destes:

– O Sr. Mário tem dores no ombro, é isso?

– Sim, Sra. Dra. Não consigo trabalhar por causa do ombro.

– Pois…mas não é isso que diz a termografia…a sua dor é falsa…toca a trabalhar e deixe de ser mandrião!…

Era termografias a torto e a direito nas juntas médicas. 🙂

No entanto, há pior…segundo a International Termography, dá para isto e muito mais, incluindo diagnóstico de doença coronária e o meu preferido:

termografia e acupuntura

Insuficiência de energia no Ponto C7 de acupuntura. A termografia permite ver que o ponto de acupuntura está com falta de energia! Com esta fiquei sem palavras…mas pelos vistos é algo publicitado com frequência, como nas Clínicas Viver (fujam deste lugar…), que consegue prever o surgimento do cancro da mama a 5 anos (!) e detetar os pontos de acupuntura bloqueados (!)…desculpem as exclamações, mas este nível de charlatanice é novo para mim.

Qual a evidência sobre a termografia?

Rastreio e diagnóstico de Cancro da Mama

A utilização da termografia tanto para diagnóstico e rastreio de cancro da mama será uma das suas principais utilidades, segundo os seus proponentes. E estas afirmações são perigosas. Sim, existe plausibilidade biológica do método. Um cancro da mama é supostamente mais ativo, leva ao aumento da vascularização na área afetada e poderá levar a que este método detete o cancro da mama. Mas as provas sobre a sua utilidade são no mínimo inconsistentes.

A termografia é estudada nesta área desde pelo menos a década de 70-80, tendo sido utilizada no Breast Cancer Detection and Demonstration Project e abandonada em 1978 por baixa sensibilidade. A melhor evidência que temos sobre a utilização da termografia no rastreio e diagnóstico de cancro da mama vem desta revisão sistemática de 2013, que chega à seguinte conclusão:

“A sensibilidade da termografia é baixa (47% como teste de rastreio e 59% como teste de diagnóstico). Isto é substancialmente menor do que a sensibilidade da mamografia. A taxa de deteção de cancro (CDR) do teste é inaceitavelmente baixo e a taxa de falsos positivos é alta pelos padrões de rastreio atuais. A evidência, portanto, não suporta o uso da termografia como alternativa à mamografia de rastreio ou como ferramenta para a investigação de mulheres sintomáticas; a evidência sugere fortemente que a termografia não deve ser usada como uma ferramenta para a deteção precoce do cancro da mama. A comercialização contínua da termografia para os consumidores como um teste alternativo de rastreio de cancro da mama, particularmente sem consentimento informado sobre a precisão inferior da termografia (e alta taxa de falsos positivos) tem potencial para minar os programas de rastreio de cancro da mama baseados na evidência e, mais importante, tem potencial para prejudicar as mulheres através da oferta de um rastreio que tem uma capacidade limitada de detectar cancro da mama.”

E juntando a termografia à mamografia? Terá alguma vantagem? Segundo a evidência existente, que não é muita, não há qualquer vantagem com a associação das duas técnicas. Uma revisão sistemática de 2012 chegou às mesmas conclusões.

Este ano, a FDA voltou a alertar relativamente ao uso da termografia. Não só sobre a sua inutilidade, mas sobre o perigo das mulheres acharem que este exame de diagnóstico substitui a mamografia. E como resumiu Robert Smith da American Cancer Society:

“A termografia é uma tecnologia não comprovada, promovida com falsas alegações de eficácia e o recurso a nenhuma exposição à radiação ou dor pela compressão da mama.”

“As mulheres que consideram fazer a termografia devem ler as “letras pequeninas” dos materiais promocionais: ‘A termografia não substitui a mamografia.’ “

“A mamografia salvou vidas – essa reivindicação não pode ser feita pela termografia”.

Conclusão: a termografia não substitui a mamografia no rastreio e diagnóstico de cancro de mama nem sequer é complementar a esta. As avaliações mostram que a termografia é pior do que a mamografia em termos de sensibilidade, especificidade e valor preditivo. Ou seja, dá mais falsos positivos, leva a mais preocupações e investigações desnecessárias e falha no diagnóstico objetivo do cancro. Por estas razões, a termografia não é considerada uma ferramenta de triagem credível ou útil. Não é nada de novo e já é assim desde 1977.

E para outras patologias? A termografia tem interesse?

Quanto aos pontos de acupuntura, nem vamos perder tempo. A forma como foram criados os pontos de acupuntura já foi discutida assim como a inexistência de mecanismos fisiológicos específicos desta técnica, além de que é um tratamento ineficaz.

Sendo a termografia um método que deteta a temperatura da superfície corporal, é espectável que tenha a capacidade de detetar estados febris. E de facto consegue e correlaciona-se com os valores obtidos pelos métodos convencionais. Devido a uma epidemia de SARS, foi implementado um método de rastreio de doenças infecciosas recorrendo à termografia em alguns aeroportos. No entanto verificou-se que este método não era eficaz para a deteção de pessoas doentes. Nalguns estudos havia um número elevado de falsos-positivos (pessoas que supostamente estariam doentes e não estavam) e noutros estudos verificou-se uma baixa sensibilidade, devido ao facto de muitas pessoas com doenças infecciosas só apresentarem febre passados alguns dias de serem contaminadas. Portanto, apesar deste método ter um interesse teórico, na prática não é eficaz.

Uma revisão sistemática de 2017 refere que poderá ter algum interesse na deteção de úlceras de pressão, mas a evidência é insuficiente tendo sido identificado apenas um estudo. Eventualmente poderá ter utilidade em prever o surgimento de úlceras de pé diabético, de acordo com uma revisão sistemática de 2013, já que parece existir uma correlação entre o aumento da temperatura de um pé e o surgimento de úlcera em comparação com o pé contralateral.

Uma revisão sistemática de 2014 não encontrou qualquer vantagem da utilização da termografia para deteção de lesões musculosqueléticas de acordo com a evidência existente. Lá se vai a teoria das dores falsas e verdadeiras…

Em 2013 também foi publicada uma revisão sistemática que avaliou as vantagens de utilização de termografia em várias patologias:

“Os resultados mostraram que a termografia de contato é uma técnica segura, rápida e barata para ser utilizada no rastreio e diagnóstico de diferentes doenças, mas os resultados não mostraram nenhum valor diagnóstico aceitável em comparação com outras técnicas de diagnóstico. Pode ser benéfico usá-lo como uma técnica complementar. Mais pesquisas são recomendadas nesta área.”

Uma revisão sistemática de 2016 sobre a utilidade da termografia, em especial na área da cirurgia plástica encontrou alguma evidência da sua utilidade, principalmente no que diz respeito à análise da profundidade das queimaduras, na avaliação da resposta ao tratamento de hemangiomas e como teste de diagnóstico de melanoma cutâneo e síndrome do túnel cárpico. As conclusões deste artigo eram muito favoráveis à termografia, pelo que fui vê-lo em pormenor.

Sobre queimaduras, a termografia poderá ser um método eficaz,  no entanto existem outros métodos que aparentam ter maior utilidade nesta situação:

(…) embora existam relatos de alta precisão na avaliação de profundidade de queimadura com a termografia, os resultados foram limitados pelos efeitos confundidores (…). Em 2008, Monstrey et al. reviu as várias técnicas utilizadas para a avaliação da profundidade da queimadura, incluindo a termografia e concluiu que a imagem do Doppler a laser foi a mais precisa na predição do desfecho da ferida, com base em evidências publicadas até o momento.

Sobre a avaliação da resposta ao tratamento de hemangiomas e diagnóstico de melanoma cutâneo havia apenas estudos nível 5 na escala de Oxford, que é o nível mais baixo de evidência, considerada “opinião de peritos sem comentário crítico explícito, ou baseada na fisiologia ou em estudos de fraca qualidade. ” Isto obriga a ter cautela nas conclusões sobre a sua utilidade.

Sobre síndrome do túnel cárpico:

“existiu um RCT realizado em 1992 em que a termografia apresentava uma especifidade diagnóstica de 98-100%. No entanto tal estudo não foi replicado. Em 2008, Jesensek Papez et al. realizou um estudo sobre o uso de termografia para diagnosticar o síndrome do túnel cárpico, com melhor tecnologia (…). Estudaram 502 imagens de mãos (de 132 pacientes saudáveis, 119 pacientes afetados) e demonstraram que a termografia conseguia classificar corretamente 72,2% das mãos. Usaram estudos de condução nervosa como padrão de referência. Concluíram que a termografia poderia ser útil como um método de triagem em populações com altos fatores de risco ergonómicos para síndrome do túnel cárpico, mas era inadequado como uma ferramenta de diagnóstico onde o nível de gravidade é necessário para determinar qual o tratamento indicado.”

Portanto, é possível que seja um bom teste de rastreio inicial, mas não indica a gravidade do problema. Tal tem que ser determinado por outros exames como a eletromiografia dos membros superiores para decidir se o doente deve ser operado ou não, por exemplo.

Concluindo: apesar das conclusões serem bastante favoráveis, o nível de evidência não acompanha esse optimismo na maioria dos casos. É necessário cautela e aguardar por estudos com maior qualidade para poder aconselhar a sua utilização nos contextos citados acima.

A título de curiosidade, a termografia também está a ser investigada para deteção de mentiras. Seria interessante aplicar aos alternativos que promovem este método de diagnóstico 😛

Conclusão

A termografia é uma técnica com plausibilidade biológica e poderá, no futuro, ter algumas aplicações práticas concretas com o acumular de evidência científica nesta área. Para já a evidência existente é pouco robusta e na maioria dos casos existem outros métodos de diagnóstico de maior precisão, tornando a termografia um exame secundário ou mesmo inútil.

Como podem observar, a evidência científica existente está muito distante relativamente ao tipo de promoção feito a esta técnica que, como habitualmente, dá para tudo e mais alguma coisa segundo os seus promotores.

Em determinadas circunstâncias fazer uma termografia não é grave e não coloca em causa a saúde do doente. No entanto, no caso do rastreio de cancro da mama, falamos de uma doença potencialmente fatal e com grande conotação emocional. Usar esta técnica para diagnóstico de cancro da mama é no mínimo irresponsável e num país sério deveria dar direito a uma ação legal por parte da doente…infelizmente, como já vimos, na saúde tudo é possível.

Partilhar Este Artigo

Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar