Teste Marshmallow e os Problemas de Replicabilidade nas Ciências Sociais

admin Geral, Literacia em Saúde, Psicologia Leave a Comment

Existe uma “crise de replicação” na área das ciências sociais. O que quer isto dizer? Que existem estudos que foram tomados como factos relativamente bem estabelecidos mas que na realidade os seus resultados não eram replicáveis por estudos mais robustos. Ou eram replicáveis, mas os resultados apresentados tinham um efeito muito menor do que aquilo que se pensava.

Outro problema existente na área das ciências sociais é o mediatismo que determinados testes ou tratamentos têm tido, sem a ciência necessária para lhes dar tal credibilidade. Por exemplo, o que tem acontecido na área do Mindfulness, com supostos estudos positivos que validam esta técnica. O problema é que o Mindfulness é uma misturada de técnicas, sem uma definição prática e concisa que permita fazer uma avaliação da sua eficácia, ao que se junta estudos de fraca qualidade que supostamente encontram efeitos positivos associados à sua utilização. Um artigo crítico à área do Mindfulness foi publicado recentemente, assinado por 15 peritos da área, apontando essas falhas de investigação. O objetivo é sensibilizar os investigadores para melhorarem a qualidade dos estudos, para sabermos o que estamos a medir e se o que estamos a medir não é ruído de fundo.

E chegamos ao teste Marshmallow. Um teste que sofre tanto de um problema de replicabilidade como de um mediatismo imerecido.

O teste Marshmallow

Numa série de experiências famosas realizadas nas décadas de 60 e 70 conduzidas pelo piscólogo Walter Mischel, as crianças em idade pré-escolar foram convidadas a sentar-se sozinhos numa sala mobilada apenas com uma pequena mesa. Sobre a mesa havia um marshmallow (ou iguarias tentadoras equivalentes). Era oferecida às crianças duas opções: poderiam comer imediatamente um marshmallow ou, se conseguissem esperar até que o investigador retornasse à sala passados 15-20 minutos, teriam direito a dois marshmallows. Algumas crianças comeram o marshmallow imediatamente; outras tentaram arranjar estratégias para se distraírem como tapar os olhos, cantar ou pontapear a mesa. Uma criança conseguiu mesmo adormecer durante o teste.

O que tornou esta série de experiências famosas foram os estudos de acompanhamento. Os investigadores descobriram que as crianças que resistiam a comer o marshmallow tendiam a ser mais bem ajustadas socialmente, a ter melhor pontuação nos SATs (exames de acesso às Universidades Norte-Americanas), consumiam menos drogas e tinham um índice de massa corporal mais baixo (IMC). Isto sugeria que as crianças capazes de atrasar a gratificação seriam mais bem sucedidas no futuro.

Este teste era simples e elegante. Parecia reduzir a complexa questão social e psicológica do porquê algumas pessoas terem sucesso na vida a uma formulação de fácil compreensão. E ao longo dos anos foi amplamente divulgado como prova científica da importância do auto-controlo. Chegou mesmo a ser considerado um dos factores mais importantes do sucesso numa apresentação TED. E claro, por divulgadores de ciência sem background na área, como o Michio Kaku, que considerou que este era, também, o fator mais importante de sucesso. Conseguir adiar a gratificação.

A queda de um mito?

O problema (e é por isso que trago este assunto para o blog) é que a maioria das pessoas que falaram do Teste Marshmallow possivelmente nunca leram os artigos sobre o mesmo. Era aceite como um facto relativamente incontestado na área da psicologia. No entanto, os estudos que validavam esta teoria eram relativamente fracos para o mediatismo criado à sua volta. Os estudos originais não tinham sido desenhados para ter qualquer valor preditivo sobre o sucesso das crianças. E apesar dos estudos originais terem uma amostra de 653 crianças, os investigadores apenas conseguiram encontrar 185 das crianças originais, das quais apenas 94 estavam dispostas a fornecer os resultados do SAT, por exemplo. Também se verificava que a amostra era demasiado homogénea (todas matriculadas numa pré-escola no campus da Universidade de Stanford) e como o estudo não estava projetado para ter valor preditivo, não controlou para uma série de variáveis importantes.

Em 2013 foi publicado um estudo que começou a corroer as bases do Teste Marshmallow. Observou que a capacidade de uma criança esperar por uma recompensa reflete não apenas o nível de auto-controlo da criança, mas também a confiança da criança de que um segundo marshmallow realmente se materializaria. Ou seja, se a criança foi criada num ambiente em que as promessas feitas são cumpridas e tem confiança que a promessa do investigador será respeitada, então tem maior probabilidade de resistir a comer o marshmallow. Por outro lado, se a criança vive num ambiente onde as promessas não são respeitadas, então a criança irá comer o marshmallow. As únicas guloseimas garantidas são as que já foram comidas.

Mas o grande rombo a esta teoria veio em 2018. Foi publicado um estudo mais robusto na revista Psychological Science que tentou replicar o Teste Marshmallow, explorando a ligação entre a capacidade das crianças pré-escolares retardar a gratificação e o seu desempenho académico, assim como o comportamento como adolescentes. A este modelo chama-se uma “replicação conceitual” porque não imita exatamente as condições do estudo original mas, ao invés disso, usa uma amostra maior (mais de 900 crianças), controla para outras variáveis não controladas anteriormente (como o nível económico familiar) e, neste caso, a amostra era mais representativa da população geral em termos de raça, etnia e nível académico dos pais.

Os resultados do novo estudo foram surpreendentes por um lado e, por outro, nem por isso. O novo estudo encontra apoio limitado para a ideia de que a capacidade de retardar a gratificação leva a melhores resultados. Em vez disso, sugere que a capacidade de resistir a um segundo marshmallow é moldada em grande parte pelo background social e económico da criança – e, por sua vez, que é esse pano de fundo e não a capacidade de retardar a gratificação que garante o sucesso a longo prazo.

Por exemplo, este estudo descobriu que entre as crianças cujas mães tinham um diploma universitário, aqueles que esperavam por um segundo marshmallow não tinham melhores resultados a longo prazo – em termos testes padronizados e o testemunho das mães sobre o comportamento dos seus filhos – do que as crianças que comeram imediatamente o marshmallow. Da mesma forma, as crianças cujas mães não possuíam diplomas universitários, os que esperavam não foram melhores do que aqueles que cederam à tentação, a partir do momento que outros fatores como o nível económico familiar e ambiente familiar das crianças foram ajustados.

Isto é algo amplamente demonstrado na literatura: filhos de pais com maior formação académica tendem a ter maior formação académica. Filhos de pais bem sucedidos em termos económicos tendem a ser mais bem sucedidos em termos de produção de riqueza (1, 2,3,4,5). Além disso, quando se vive num ambiente de abundância é mais fácil adiar a gratificação. Quem vive num ambiente de escassez, a gratificação imediata é a única gratificação garantida. E isto é uma variável importante que não foi devidamente considerada no primeiro estudo realizado.

A visão do próprio Walter Mischel

Quando Mischel começou a distribuir marshmallows às crianças em idade pré-escolar, ele queria apenas perceber como algumas delas poderiam atrasar a gratificação e outras não, e também se poderíamos ensinar as crianças a adiar essa gratificação. O que ele descobriu foi que se os investigadores dessem ferramentas às crianças para distraí-las do estímulo do marshmallow e as ajudassem a concentrar num pensamento mais abstrato, elas eram capazes de esperar mais tempo.Algumas crianças, como explicado acima, forneciam as suas próprias distrações. Pontapeavam a mesa, cantavam músicas ou afastavam-se do estímulo, por exemplo. Mas Mischel aprendeu que quando os investigadores incentivavam as crianças a pensar no marshmallow como uma nuvem branca ou uma bola de algodão, elas tinham maior probabilidade de resistir à tentação. 

Aliás, é engraçado que Mischel refere que os resultados do estudo original são frequentemente mal interpretados. Em 2014 escreveu um livro onde esclareceu o que o teste marshmallow pode e não nos pode dizer. Como referi anteriormente, Mischel não estava interessado na capacidade preditiva do teste Marshmallow, mas nas estratégias que as crianças e os adultos podem usar para regular as suas emoções e impulsos:

Crianças de quatro anos podem ser brilhantemente imaginativas sobre como se distrair, transformando os seus dedos em teclados de piano, cantando pequenas canções e explorando os seus orifícios nasais.

No fundo, o que Mischel pretendia demonstrar não era o valor preditivo do auto-controlo, mas que o auto-controlo poderia ser ensinado. Para adultos, ele recomenda implementar estratégias: “se está a tentar deixar de fumar, por exemplo, pode dizer a si mesmo: “Se eu quiser um cigarro, vou fazer uma pausa para jogar um jogo no meu telemóvel.“”

Portanto, se está à procura de uma lição para aprender com o Teste Marshmallow, o importante não é a importância de ensinar a adiar a gratificação, mas a importância de encontrar maneiras de exercer controlo sobre os impulsos. Em conseguir sobrepor o córtex pré-frontal (o nosso lado “racional”), ao sistema límbico (o nosso lado emocional, que procurar o prazer imediato).

O perigo da má interpretação dos estudos

É preciso compreender as implicações que este tipo de estudos, altamente divulgados mas não propriamente robustos pode ter na vida real. Se uma criança com 4 anos não consegue resistir a comer o marshmallow, poderá ser classificada como um “falhado” mesmo antes de falhar. Imaginem que isto era feito à entrada das escolas, criando uma segregação imediata entre os bem sucedidos e os futuros falhados. Mesmo antes, sequer, da criança provar o que vale. Toda a sua vida pode ser condicionada por um teste simples que não traduz a complexidade do mundo real. Pais podem criar preconceitos relativamente aos seus próprios filhos. Desinvestir, mesmo que inconscientemente, apenas porque um simples teste lhes disse que eles não seriam bem sucedidos.

E ao contrário. Crianças que se mentalizaram que iam ser bem sucedidas porque passaram no Teste Marshmallow têm um incentivo para não se esforçarem porque a previsão estava feita. O destino estava traçado. E a frustração destas crianças estará garantida quando no futuro perceberem que a vida não lhes deu aquilo que eles pensavam que mereciam.

E isto é grave. É apenas um exemplo do que esta distorção da ciência, a incompreensão dos dados apresentados e o ruído criado à volta do assunto pode causar. Reparem que o próprio autor escreveu um livro a explicar as limitações do seu teste.

E dificilmente iremos conseguir parar este mito…A literatura de Mischel está repleta de fórmulas estatísticas complexas cercadas de advertências e notas de rodapé preventivas, mas não é isso que o público vê. O que o público vê são todos aqueles vídeos fofinhos do YouTube de crianças a cantar para se distraírem de comer o marshmallow proibido. O que o público vê são as constantes mensagens que esperar pelo segundo marshmallowjá aos quatro anos entendia o princípio mais importante para o sucesso, que é a capacidade de retardar a gratificação – a autodisciplina ”.

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar