evidência científica sobre transgénicos

Transgénicos…a Caricatura do Poder da Promoção do Medo

admin Agricultura, Geral, Nutrição, Transgénicos Leave a Comment

Se me perguntarem quais as pseudociências ou movimentos anticiência que mais me irritam, a luta irracional contra os transgénicos está certamente no top. Argumentar a favor dos transgénicos é a mesma coisa que tentar convencer o leitor de que as alterações climáticas são de causa antropogénica, que o planeta Terra não é plano e que os chemtrails são um produto da ignorância associado a uma personalidade paranóide. A evidência a favor da segurança dos transgénicos é tão avassaladora que considero que este tema é um caso de estudo no que diz respeito à promoção do medo por parte de determinados grupos pseudocientíficos.

Mas vamos começar pelo princípio.

Os organismos geneticamente modificados andam cá há muito tempo

Os organismos geneticamente modificados, no seu conceito mais amplo, não são uma invenção recente. Andam cá há cerca de 10.000 anos, mais milénio menos milénio. Como falamos no artigo sobre dieta paleo, grande parte dos alimentos que comemos hoje foram alterados geneticamente dado que o Homem, desde essa altura, foi selecionando as características fenotípicas que mais lhe agradava nas plantas e animais com os quais trabalhava. Por exemplo, a mostarda selvagem deu origem nos últimos 3.000 anos a verduras como o repolho, couve e os brócolos, através destes processos de seleção.  O mesmo aconteceu com as vacas, que foram domesticadas há cerca de 10.500 anos recorrendo ao búfalo selvagem. O porco foi domesticado há 9.000 anos recorrendo ao javali. A galinha foi domesticada recorrendo ao Galo-banquiva há 7.000-10.000 anos atrás. Convém relembrar os animais de estimação como os cães e os gatos têm centenas de raças diferentes dentro da mesma espécie criadas pelo Homem com vários objetivos distintos.

O método utilizado pelos nossos antepassados para selecionar as características que lhe interessava em determinadas espécies chama-se seleção simples. Ou seja, uma população geneticamente heterogénea era inspecionada e as plantas ou animais “superiores” – com as características mais desejadas – seriam selecionadas para produzir uma nova geração de plantas ou animais com essas características. O processo de seleção dos animais e plantas ocorria durante um período de vários anos e em gerações consecutivas, o que aumentava a população da espécie com estas características “superiores” e deslocava a população genética para uma claro domínio do genótipo superior. 

Com a evolução da sociedade, a agricultura desenvolveu novas técnicas para conseguir atribuir determinadas características às plantas e animais que mais nos interessavam. Técnicas como as descritas abaixo, no caso das plantas:

Portanto, esta é a primeira mensagem: praticamente todas as plantas (e mesmo animais) que comemos hoje em dia derivam da seleção simples ou das técnicas de manipulação genética como as expostas acima (existem mais).  Se quer fugir a organismos geneticamente modificados, então prepare-se para deixar de comer.

No entanto, hoje em dia quando falamos em organismos geneticamente modificados estamos a falar de um conceito específico.  Segundo o Conselho de Informações sobre Biotecnologia, um transgénico ou organismo geneticamente modificado é aquele “que contém um ou mais segmentos de DNA ou genes que foram manipulados (introduzidos, removidos ou substituídos) entre ou intraespécie, por meio da tecnologia do DNA recombinante e do uso da engenharia genética. (…) A técnica da transgenia aplicada a plantas e animais tem como principal objetivo gerar variedades mais produtivas, mais nutritivas, resistentes a doenças e pragas e mais tolerantes a agressões agrícolas e ao stress ambiental, como os causados pelas alterações climáticas.”

Ou seja, este conceito apenas se aplica aos organismos obtidos através de transgenia e, mais recentemente, recorrendo à edição do genoma. E é apenas relativamente a estes organismos específicos que os promotores do medo se revoltam, rasgando as vestes e queimando plantações. Os “ativistas ambientais” já não têm problemas com organismos geneticamente modificados que se obtém recorrendo às outras técnicas…o leitor consegue perceber a ironia, certo?

Neste momento e falando exclusivamente de plantas, existem cerca de 26 espécies transgénicas aprovadas comercialmente em pelo menos um país. Estas modificações genéticas dizem respeito à maior resistência aos herbicidas (alfalfa, canola, algodão, milho, soja e beterraba), maior resistência aos insectos (algodão, beringela, milho e árvores pópulus), uma combinação de várias características (milho) ou outras características como resistência a vírus (papaia, abóbora e batata), resistência a inundações (cana-de-açúcar e milho), etc.

Portanto, no caso da transgenia e da edição de genoma é possível criar plantas, animais e bactérias com uma característica específica designada pelo Homem. São técnicas altamente direccionadas em que sabemos exatamente o que estamos a alterar e de que forma. Isto em contraste com alguns dos processos mais rudimentares como a mutagénese que também altera os genes das plantas, essas alterações são completamente aleatórias sem grande controlo por parte dos investigadores. O caro leitor, o que prefere? Fazendo uma analogia, se tiver um cancro prefere que exista um tratamento altamente direccionado para as células cancerígenas ou um tratamento que ataca todas as células do corpo indiscriminadamente? Não parece difícil escolher.

Os transgénicos são seguros para serem ingeridos

Se há mensagem que tem que levar para casa é esta: os transgénicos são seguros para ser ingeridos por animais e pelo ser humano. O consenso sobre esta matéria é tão amplo que se torna assustador como é possível estarmos a discutir isto. A American Association for the Advancement of Sciences, uma das instituições mais respeitadas a nível mundial na área da ciência, responsável pela revista Science, diz o seguinte sobre os transgénicos:

“A ciência é bastante clara: a melhoria das culturas agrícolas pelas técnicas modernas de manipulação genética é segura (…) A Organização Mundial de Saúde, a American Medical Association, a U.S. National Academy of Sciences, a British Royal Society e todas as outras organizações respeitadas que examinaram a evidência sobre o tema chegaram à  mesma conclusão: consumir alimentos contendo ingredientes derivados de culturas transgénicas não é mais arriscado do que consumir os mesmos alimentos que contêm ingredientes de plantas cultivadas modificadas por técnicas convencionais de melhoramento de plantas.”

E se não lhe chega, aqui fica uma lista exaustiva de todas as agências que validam os transgénicos como seguros. Contei 33 consensos emitidos, mas pode ter falhado algum. Portanto, se é daqueles que acredita que a Indústria Agrícola e a Monsanto (a famosa Monsanto) têm a capacidade de comprar a opinião de tanta gente e influenciar décadas de estudos sobre o assunto…bem, você é ingénuo e há pouco que possa fazer por si. Os transgénicos é um dos temas mais estudados pela ciência.

Os transgénicos são seguros e positivos para o ambiente

Um artigo publicado em 2013 sobre o impacto ambiental da adoção dos transgénicos na agricultura entre 1996 e 2011 conclui o seguinte:

“A adoção da tecnologia reduziu a pulverização de pesticidas em 474 milhões de kg (-8,9%) e, como resultado, diminuiu o impacto ambiental associado ao uso de herbicidas e inseticidas nessas culturas (conforme medido pelo indicador Quociente de Impacto Ambiental) em 18,1%. A tecnologia também facilitou uma redução significativa na libertação de emissões de gases de efeito estufa desta área de cultivo, que, em 2011, foi equivalente a remover 10,22 milhões de carros das estradas.”

Não sei se apanhou, mas volto a repetir. Os transgénicos tiraram da estrada o equivalente a 10 milhões de carros. Portanto, é simplesmente ridículo as supostas entidades ambientalistas serem contra os transgénicos. Estúpido, ridículo e paradoxal já que vai contra o seu propósito: salvar o ambiente. Já agora, este artigo foi atualizado em 2015. O valor de carros retirados da estrada subiu para 12 milhões e a redução de pesticidas já vai em 553 milhões de kg.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2014 que examinou 147 estudos que incluiu plantações de soja, milho e algodão resistentes a herbicidas e algodão e milho resistentes a insectos concluiu o seguinte:

“Em média, a adoção dos transgénicos reduziu o uso de pesticidas em 37%, aumentou os rendimentos das colheitas em 22% e aumentou os lucros dos agricultores em 68%. Ganhos de produção e reduções de pesticidas são maiores para culturas resistentes a insetos do que para culturas tolerantes a herbicidas. Ganhos de produção e lucro são maiores nos países em desenvolvimento do que nos países desenvolvidos.”

Um dos maiores estudos na área publicado em 2016, que incidiu sobre o milho e a soja transgénica e o nível de utilização de herbicidas e insecticidas, refere o seguinte:

“Em média, os agricultores que adotaram a soja transgénica tolerante ao glifosato usaram 28% mais herbicida do que os agricultores que não adotaram o trangénico. Os que adotaram o milho transgénico usaram 1,2% menos herbicida do que quem não adotou e os que adotaram o milho resistente a insetos usaram menos 11,2% inseticida do que quem não adotou.

Quando os pesticidas são ponderados pelo Quociente de Impacto Ambiental descobrimos que os agricultores que optaram pelos transgénicos utilizaram aproximadamente a mesma quantidade de herbicidas na soja, 9,8% menos de herbicidas e 10,4% menos inseticidas no milho.

Os resultados indicam que a diferença no uso de pesticidas entre os agricultores que usam e os que não usam transgénicos mudou significativamente ao longo do tempo. Tanto para a soja quanto para o milho, os utilizadores dos transgénicos usaram cada vez mais herbicidas em relação aos que não adotaram, enquanto os utilizadores do milho resistente a inseticidas usaram cada vez menos inseticidas. O padrão estimado de mudança no uso de herbicidas ao longo do tempo é consistente com o surgimento da resistência das ervas daninhas ao glifosato.

Este estudo veio, supostamente, a dar algumas munições ao discurso anti-transgénicos dizendo que as variantes transgénicas estão, ao longo do tempo, a levar a uma maior utilização de herbicidas devido ao surgimento de resistências. Apesar de acordo com este estudo os transgénicos ainda utilizarem menos pesticidas no global.

No entanto, em 2017 foi publicado outro estudo na Nature sobre a utilização de herbicidas a longo prazo. E trouxe novas informações relevantes sobre este tema. De facto, verifica-se um aumento da utilização de herbicidas, mas as razões não são tão simples como o aumento da resistência das ervas-daninhas ao glifosato. Este aumento pode estar dependente do aumento do no-till farming (agricultura em que não se lavra a terra). A utilização dessa técnica é  ambientalmente muito positiva, como iremos ver no próximo artigo sobre agricultura biológica. O problema é que os agricultores ficam mais dependentes de herbicidas para controlo das ervas-daninhas.

Além disso, este estudo também verificou que o aumento da utilização de herbicidas tem ocorrido sobretudo nas culturas não transgénicas (arroz e trigo). Refere que os resultados anteriores que atribuíam o aumento da utilização de herbicidas aos transgénicos derivaram de erros metodológicos nos estudos realizados. Pelo contrário, os transgénicos continuam a apresentar resultados positivos na diminuição do consumo de herbicidas. No máximo, os resultados serão neutros nesse aspeto. Mais importante, este estudo é muito mais robusto nas métricas utilizadas para avaliação da toxicidade aguda e crónica dos herbicidas utilizados. E as conclusões nesta área são relevantes, principalmente no que diz respeito ao glifosato:

  • O glifosato é menos tóxico do que 94% dos herbicidas utilizados no caso de intoxicação aguda:
  • É menos tóxico que 90% dos herbicidas utilizados no caso da exposição crónica;
  • Se o glifosato não fosse usado, o quociente de risco crónico (ou seja, o risco potencial a que estamos expostos) quase certamente seria maior, já que outros herbicidas com maior toxicidade crónica teriam sido usados. A utilização do glifosato reduziu esse risco consideravelmente

Agora tenha em conta esta informação quando ouvir alguma agência ambientalista pseudocientífica a promover a proibição do glifosato.

Mas não ficamos por aqui. Em 2018 foi publicada uma meta-análise na Nature sobre o milho transgénico. Para além dos resultados serem novamente favoráveis aos transgénicos, acrescentam mais um ponto importante:

“Os resultados forneceram fortes evidências de que o milho transgénico apresentou melhor desempenho que a linha não transgénica: o rendimento de grãos foi de 5,6 a 24,5% maior com baixas concentrações de Micotoxinas (-28,8%), Fumonisina (-30,6%) e Tricotecenos (-36,5%). (…) Os parâmetros do ciclo biogeoquímico, como o teor de lignina nos caules e folhas não variaram, enquanto a decomposição da biomassa foi maior no milho transgénico. Os resultados apoiam o cultivo do milho transgénico, principalmente devido à maior qualidade dos grãos e redução da exposição humana às micotoxinas.”

A parte das micotoxinas é relevante, dado que são substâncias poderão estar relacionadas com aumento do  risco de ter cancro na população. Portanto, podemos afirmar indiretamente que as culturas transgénicas (algumas), podem ajudar a reduzir o risco de cancro, apesar de isso não estar comprovado em termos clínicos.

E esta é simplesmente deliciosa…as culturas transgénicas podem ter um “efeito de halo” (artigo e artigo) que protege as culturas não transgénicas na sua vizinhança. Esse efeito teve um impacto económico interessante. Os maiores beneficiários foram os agricultores que não utilizaram as culturas transgénicas! Isto porque beneficiaram indiretamente pela diminuição das pestes nos seus campos (o efeito de halo) mas não tiveram que pagar pelas sementes transgénicas. A ironia!

Portanto, os transgénicos não só são seguros para comer como são ambientalmente melhores e podem mesmo ter vantagens em termos de saúde. Não há grandes dúvidas sobre isso. E as suas implicações não se ficam por aqui. Estão a ser desenvolvidas plantas que captam nitrogénio minimizando a necessidade de utilização de fertilizantes e plantas que captam ativamente dióxido de carbono ajudando a combater as alterações climáticas.

Papel da agricultura orgânica relativamente aos transgénicos

Como falamos anteriormente, a agricultura orgânica é contra a utilização de transgénicos. E dentro de todas as falhas da agricultura biológica, esta é fatal. É a demonstração inequívoca que a agricultura biológica não segue a ciência mas apenas a filosofia do apelo ao natural e a habitual narrativa ridícula dos “químicos são maus”. Algo que já abordamos aqui. Pior…a indústria da agricultura orgânica financia diretamente campanhas a difamar os transgénicos. Gasta cerca de 3 biliões de dólares todos os anos a apoiar organizações promotoras do medo relativamente a este tipo de produtos. Até a Rússia financia campanhas anti-transgénicos dado que são o resultado de inovações norte-americanas, sendo uma forma de evitar a sua propagação e competir com a agricultura norte-americana (eu sei…cheira um bocado a teoria da conspiração. A diferença é que existem provas sobre esse tipo de intervenção).

Mas se isto tudo já soa um bocadinho ridículo, mais ridículo é verificar que a agricultura orgânica é contra o algodão BT e o milho BT. Estes transgénicos contêm os genes da bactéria Bacillus thuringiensis, que promovem a expressão de proteínas com ação inseticida. No entanto, apesar de serem contra estes transgénicos, os agricultores orgânicos não se escusam de usar BT como inseticida nas suas plantações orgânicas, algo que o fazem há mais de 50 anos, promovendo o BT como uma substância “natural” e segura. Volto a repetir: são contra a inserção dos genes BT nos transgénicos mas usam BT nas suas plantações…faz sentido, não faz?

E também sobra espaço para voltarmos a referir o perigo das medicinas alternativas

Existem várias frentes na promoção de ideias erradas relativamente à agricultura em geral e aos transgénicos em particular. E dado que os promotores do medo não partem de uma base racional e objetiva mas de uma base ideológica/filosófica, não é difícil encontrar outros grupos que apesar de não terem nada a ver com agricultura, não saberem nada de agricultura, promovem o medo a irracionalidade anti-transgénicos. E esses grupos são os terapeutas de medicina alternativa, os hippies contemporâneos e a malta “New Age“. Isto porque, mais uma vez, todos estes grupos não querem saber de factos se eles forem contra o seu núcleo filosófico: natural é bom, artifical é mau; “químicos são maus”.

Portanto e mais uma vez, apoiar estes grupos ou mesmo tolerar estes grupos não os denunciando têm implicações que vão para lá da área onde atuam. Tem implicações transversais na sociedade, incluindo no que diz respeito a técnicas altamente benéficas para a humanidade como a engenharia genética e os transgénicos. Lembre-se disso. Esta gente não é inócua. Promovem ativamente desinformação.

Mas transgénicos não são só plantas

E aqui entramos numa outra observação irónica. Os vegans tendem a ser pró-agricultura biológica e anti-transgénicos. Não todos, mas um grande proporção. E isso é uma comédia do melhor que há, já que os transgénicos permitem não só minimizar o impacto humano no ambiente conforme referido acima, como minimizar o sofrimento animal. E deixo alguns exemplos disso mesmo.

Começamos com a produção de insulina. Antes do surgimento da engenharia genética, a produção de insulina para os diabéticos estava dependente da extração do pâncreas do porco. E eram precisos muitos pâncreas para produzir pouca insulina:

No entanto, em 1978, através da inserção de DNA recombinante humano com os genes da insulina na bactéria E. Coli, foi possível começar a produzir insulina mais pura e em maiores quantidades sem necessidade de recorrer a animais. Esta técnica permitiu não só salvar milhares de vidas de diabéticos e prolongar a sua longevidade, como evitar de forma importante o sofrimento de muitos animais.

E não são apenas os porcos. O límulo ou caranguejo-ferradura é sangrado às centenas de milhares por ano devido a uma proteína que permite detetar a contaminação bacteriana durante o fabrico de praticamente qualquer substância que possa entrar no corpo humano: cada injeção, cada colocação de soro intravenoso e cada dispositivo médico implantado. Portanto, qualquer pessoa que recebeu uma injeção já beneficiou desta proteína. Mas agora, graças à engenharia genética, isto vai deixar de acontecer. Essa proteína fundamental para a nossa saúde será produzida em laboratório, acabando com o sofrimento destes animais.

Portanto, ser vegan e ser contra os organismos geneticamente modificado é hipócrita. Nem precisam de ter consideração pelas vidas humanas salvas. Basta pensar na quantidade de animais que deixaram de sofrer graças a isso.

Mas há outras coisas giras a acontecer no mundo animal que podem ajudar o ambiente. Como exemplo, o Enviropig, um porco geneticamente modificado que produz menos 65% de fósforo. E porque é que isto é bom? Porque as fezes e urina ricas em fósforo são factores que promovem a eutrofização dos lagos, rios e deltas oceânicos. A eutrofização é o crescimento de plantas aquáticas que esgotam o oxigénio na água levando ao surgimento de vastas zonas mortas para peixes e outras formas de vida aquática. Mas não só. também se está a aplicar a engenharia genética aos bovinos no sentido de reduzir a produção de metano, uma das principais razões pela qual o gado bovino tem um impacto tão relevante no que diz respeito às alterações climáticas (mais aqui).

As potencialidades da engenharia genética e dos organismos geneticamente modificados é incalculável. Ser contra estas soluções é uma ode à ignorância.

E a cereja no topo do bolo: o arroz dourado

Tudo o que falamos anteriormente é sem dúvida importante. Mas é no arroz dourado que se separam os humanistas dos labregos (sim…é mesmo essa a palavra que pretendo utilizar). O arroz dourado não é mais do que arroz que produz beta-caroteno (um percursor da vitamina A) nas partes comestíveis no arroz. E porque é que esta simples alteração é tão importante? Porque nos países em desenvolvimento existe um grande défice de vitamina A, estimando-se que seja a causa de cegueira e morte de 250-600 mil crianças todos os anos (artigo e artigo). E o arroz é uma parte substancial da alimentação destas pessoas.

No entanto, instituições anti-transgénicos e mesmo organizações ambientalistas como a Greenpeace são contra o arroz dourado (artigo e artigo). E não é certamente devido a dados objetivos. Não falta evidência que o arroz dourado é uma fonte eficiente de vitamina A e como muito bem refere uma revisão de 2016, a oposição a este projeto é baseado em crenças e não na ciência existente sobre o mesmo.

Portanto, caro leitor, zero respeito por quem impede a introdução no mercado de um produto com potencial de salvar centenas de milhares de vidas todos os anos…ZERO.

Conclusão

Neste blog tenho falado acima de tudo sobre a falta de evidência científica sobre as medicinas alternativas. Mas isso são “peanuts” ao pé das implicações relacionadas com a oposição aos transgénicos.

Se é contra transgénicos ou organismos geneticamente modificados, só pode ser por uma única razão: não leu a ciência sobre o tema. E não leu porque não sabe ler, não quis ler ou tem crenças relacionadas com este assunto que levam a que seja contra apesar de não ter qualquer razão objetiva para isso. Se é contra os transgénicos, está ao nível dos grupos anti-vacinas.

E deixo um caso paradigmático relacionado com isto. Um dos fundadores do movimento anti-transgénicos nos anos 90, Mark Lynas, veio mais tarde a transformar-se em um defensor dos transgénicos. O que é que mudou? Simples…LEU A EVIDÊNCIA CIENTÍFICA SOBRE ISSO. Nas palavras do próprio Mark Lynas:

Peço desculpas por ter passado vários anos arrancando as plantações transgénicas. (…) Também lamento que tenha ajudado a iniciar o movimento anti-transgénicos em meados da década de 1990 e, assim, ter ajudado a demonizar uma importante opção tecnológica que pode ser usada para beneficiar o meio ambiente.

Ok? Leia a evidência sobre o tema em sites reputados. Não há nada de inteligente em ser contra os transgénicos. Não faz de si um iluminado. Faz de si um ignorante manipulado pelos promotores do medo.

E a Monsanto? A horrível Monsanto?

Sobre isso, deixo um vídeo fenomenal (à esquerda) de um céptico que abordou todas as acusações realizadas a esta empresa. E se quiser saber mais sobre transgénicos, não perder o vídeo da direita. Have fun…

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Dr. João Júlio Cerqueira

Médico Especialista em Medicina Geral e Familiar